    Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a
inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma
manifestao do pensamento humano..


#O TEMPO E O VENTO
O RETRATO II

RICO VERSSIMO

23f Edio
D
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Copyright (c) 1987 by Herdeiros de Erico Verissimo
Ilustrao de capa: Carretis (detalhe), de Iber Camargo

Foto de Fernando Seixas/Arq. Editora Globo

Direitos exclusivos de edio em lngua portuguesa,

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Brasil
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Impresso e acabamento:

Grafica Editoriale Bologna, Milo, Itlia
CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte - Cmara Brasileira do Livro, SP
Verissimo, Erico, 19O5-1975
O tempo e o vento - O retrato 2 / Erico Verissimo. - 23. ed. - So Paulo : Globo, 1997.

ISBN 85-25O-O27O-4 (obra completa) ISBN 85-25O-O273-9 (t. 1) ISBN 85-25O-O274-7 (t. 2)

1. Romance brasileiro L Titulo. 11. Srie.
87-1135
CM-869.935
ndices para catlogo sistemtico:

1. Romances : Sculo 2O : Literatura brasileira 869.935

2. Sculo 2O : Romances : Literatura brasileira 869.935
#CAPITULO XV
1
LICURGO E TOMBIO voltaram para o Angico, e Rodrigo ficou com a madrinha no Sobrado, o que lhe deu uma gostosa sensao de liberdade. Queria bem ao pai, respeitava-o, 
e era-lhe intimamente necessria a idia de que ele o estimava e admirava. No entanto, quando o velho estava perto, no podia deixar de sentir uma impresso de mal-estar, 
por ver um implacvel olho fiscalizador permanentemente focado em sua pessoa. No havia criatura mais crtica de seus atos que Maria Valria, mas Rodrigo tinha para 
com ela a liberdade de replicar. Alm do mais, as repreenses da tia geralmente faziam-no rir. Com Licurgo, porm, era diferente. Havia pouco, ao receber algumas 
caixas de vinhos franceses e italianos encomendadas a uma firma de Porto Alegre, Rodrigo transformara um dos compartimentos do poro numa adega. Levara o pai a v-la, 
mas o nico comentrio que arrancara dele fora uma serie de pigarros de contrariedade. Soube depois que o Velho dissera  cunhada : "Esse rapaz  um perdulrio. 
No sei por quem
puxou.-
Doutra feita, durante o almoo, Rodrigo abrira uma garrafa de Borgonha. Ao fazer meno de encher o clice do pai, este o detivera.
- Pra mim, no.
No dia seguinte, vendo o filho abrir uma garrafa de Chianti, franzira o cenho.
- O senhor pretende tomar vinho todos os dias?
Fora uma pergunta desconcertante. Num rompante, Rodrigo meteu a rolha no gargalho, saiu da sala a pisar duro, levando a garrafa de volta  adega. Passaram o resto 
do almoo num silncio que em vo Bio mais duma vez tentara romper.


A primeira coisa que Rodrigo fez quando o pai deixou o Sobrado foi mandar esconder todas as escarradeiras que se achavam
#298        O RETRATO
CHANTECLER        299
espalhadas pela casa. "Uma porcaria, Dinda, uma coisa dum mau gosto horrendo!"
Maria Valria encolheu os ombros. - Sua alma, sua palma.
- Se dependesse s de mim - murmurou Rodrigo - eu tirava tambm aquele retrato do Jlio de Castilhos da parede do escritrio. . .
- Se voc tirar, seu pai bota o mundo abaixo.
- No  que eu no admire o homem ... Mas acontece que esse retrato tem qualquer coisa de cemitrio, de mausolu. Temos de alegrar esta casa. Precisamos de cor!
Estava pensando em quadros com mulheres nuas - nus artsticos, naturalmente - reprodues de obras de pintores famosos como Rubens, Ticiano, Manet, Renoir... Ah! 
Como ele gostaria de ter no Sobrado as sugestivas pinturas de Toulouse-Lautrec, to tpicas da galante vida parisiense!
- Dinda - disse ele um dia, ao erguer-se da mesa do almoo - vou convidar uns amigos para virem aqui em casa no sbado de noite.
Ela olhou de vis para o afilhado. - Festa ?
- No, no se assuste. Uma pequena reunio. Que diabo! Gosto de gente, no quero viver como uma fera enjaulada. Vou convidar o Cel. Jairo, o Tte. Lucas, o Tte. Rubim 
... Pode vir tambm o Chiru, o Saturnino, o espanhol. .
- Isso est me cheirando a festa.
Tomou-lhe a cabea com ambas as mos e deu-lhe um sonoro beijo na face. Ela permaneceu sria e fria.
- No adianta me adular. Conheo bem as suas manhas.
- Venha me fazer um cafun.
- Pensa que no tenho mais o que fazer?
Rodrigo arrastou-a para o quarto, estendeu-se na cama, na beira da qual Maria Valria se sentou. Seus dedos longos e magros meteram-se pelos cabelos do sobrinho 
e comearam a friccionar-lhe o couro cabeludo, vagarosamente.
Ele cerrou os olhos, com um profundo suspiro de prazer. O relgio l embaixo bateu uma badalada.
- No h nada no mundo melhor que um cafun. Aaaai! Feliz de quem tem uma tia, quando essa tia  um anjo!
- Hum.. .
- Devagarinho... Assim...
- No suje a colcha, porcalho, tire essas botinas.
Rodrigo fez um p descalar o outro e jogou os sapatos para
fora do leito.
- Dinda, vou lhe contar meus planos. Daqui por diante pretendo cuidar da profisso, do consultrio, da farmcia. O resto que v pro diabo!
- Promessa de bbedo.
- Palavra de honra. Esse pas no tem jeito. S uma revoluo.
Soergueu-se na cama, e, como se a frase anterior tivesse sido dita por ela e no por ele, perguntou:
- Fazer uma revoluo com quem? Com o povo? Mas no  possvel ir contra as classes armadas! (Na verdade no se estava dirigindo  tia, mas aos leitores d"A Farpa.) 
Neste pobre pas parece que nada se pode fazer sem o concurso dos militares. Foram civis como Castilhos, Patrocnio, Bocaiuva e outros que fizeram a repblica com 
idias. Mas na hora de dar o golpe, desgraadamente recorreu-se ao Exrcito. O primeiro presidente foi um marechal. E que fez ele? Dissolveu o Congresso. Agora, 
pra mal dos pecados, parece que vamos ter outro soldado na presidncia. Outro Fonseca! Este pas est perdido. S uma revoluo!
Tornou a deitar-se. De novo os dedos de Maria Valria se afundaram em seus cabelos.
- Coce mais pra baixo, Dinda. No, mais pra baixo. A ...
- No sei por que essa gente s pensa em poltica.
- Eu sei.  porque a poltica lhes d as coisas que eles mais ambicionam: posies de mando, fora, prestgio. E no h quem no goste disso.
- Voc no  obrigado a se meter...
- Mas acontece que tambm gosto!
- Ests bem arranjado...
- Fez-se um longo silncio durante o qual Rodrigo pareceu adormecido. Maria Valria parou o cafun e fez meno de levantar-se.
Ele sorriu, segurando com um gesto vivo o pulso da tia.
- Ia fugindo, no, sua traidora? Fique a, que eu quero lhe contar outro segredo. Vou me casar ainda este ano.
- Pra que tanta pressa?
- Ora! Preciso ter minha mulher, meus filhos, meu lar...
- Mas tudo vem a seu tempo. No  bom a gente precipitar as coisas.
- No sou homem de meias medidas. No tenho pacincia pra esperar. Veja o que aconteceu pro Macedinho. Morreu com dezessete anos.
- O Fandango est com cem.
- Seja como for, j resolvi. Sabe quem  ela?
- A filha do Babalo.
3OO        O RETRATO

- Claro, quem mais podia ser? A moa mais bonita e prendada de Santa F. No  do seu gosto? - .
- Ento diga isso com mais entusiasmo. - L.
- Quando ela voltar de fora, vou falar com o pai. - Sabe que o Babalo anda mal de negcios? - Mais uma razo pra apressar o casamento. - J falou com a moa?
- No. Mas tenho a certeza de que ela vai me dar o sim. - Presunoso.
A voz de Rodrigo estava comeando a ficar arrastada, e ele sorria com a languidez da sonolncia.
- E bom viver, titia ... Mesmo que a gente viva cem anos como o Fandango, ainda  pouco. Quero viver cento e vinte.. - cento e oitenta ... cento e sessenta. .. - 
Mal movia os lbios. - Mil e quatrossss.. .
Adormeceu sorrindo. Maria Valria ergueu-se e saiu do quarto na ponta dos ps.
2
Laurinda olhava com uma expresso de perplexidade para Rodrigo, que, parado junto da mesa da cozinha, barrava de caviar pequenos quadrados de po que ele mesmo acabara 
de cortar com todo o cuidado.
- Parece mentira ! - exclamou a mulata, olhando para Maria Valria. - O Rodrigo virou mulher. - Prove, titia!
- No quero. Isso  capaz de me arruinar o estmago.
- Prova tu, ento, Laurinda.
- Credo! Essa porqueira at parece chumbo mido.
A negra Paula, que estava acocorada no canto da cozinha, sol
tou a sua risada cava e rouca.
Rodrigo meteu o pedao de po na boca e por um instante ficou a mastig-lo com delcia.
- Milagres dos milagres! - exclamou, metendo a ponta da faca dentro da lata de caviar. - A Argentina planta o trigo, pescadores escandinavos pescam esturjes no 
Mar do Norte e com suas ovas se fabrica o caviar. O Chco Po faz o po com farinha argentina e o Dr. Rodrigo Cambar passa nele o caviar nrdico pra oferecer aos 
seus convidados, um dos quais nasceu no Rio de Janeiro, os outros em Sergipe, em Alagoas, na Espanha e em Jaca
CHANTECLER        3O1

reznho, quarto distrito de Santa F. E assim  a vida, meus senhores!
Ali estava uma boa coisa para dizer aos convidados no momento em que lhes servisse a iguaria.
Voltou-se para a cozinheira e, mostrando-lhe uma lata de salsichas de Viena:
- Bom, Laurinda, l pelas nove horas tu me botas essas latas em banho-maria. No te esqueas, sim? Essa coisa tem que ser servida quente.
Saiu da cozinha assobiando uma valsa. Maria Valria seguia-o com um olhar em que havia um misto de censura e mal disfarada admirao.
Rodrigo abriu as janelas que davam para a rua, acendeu os bicos de acetileno, aproximou-se do consolo, ajeitou as rosas que mandara botar no vaso, e depois mirou-se 
por um instante no espelho. Que o Sobrado tomava outro jeito, no havia negar. Tinha mandado fazer uma estante especial para o gramofone, com gavetas destinadas 
aos discos. Comprara um tapete feito a mo para a sala de visitas e um plo de tigre para o cho do escritrio. Pensou no pai ... Como acontecia com quase todos 
os homens do campo, Licurgo Cambar desprezava o conforto. Gachos como ele em geral dormiam em camas duras, sentavam-se em cadeiras duras, lavavam-se com sabo 
de pedra e pareciam achar indigno de macho tudo quanto fosse expresso de arte, beleza e bom-gosto. Isso explicava a nudez e o desconforto de suas casas, a aspereza 
espartana de suas vidas.
Aproximou-se do gramofone, abriu uma das gavetas da estante, escolheu um disco - Lom du Bal - colocou-o no prato e estava a dar manivela ao aparelho quando Maria 
Valria entrou.
- Acho que voc no devia tocar msica.
- Por qu?
- Faz to pouco tempo que morreu o Macedinho...
Por um instante Rodrigo hesitou, no sabendo se devia ou no dar razo  tia. Bastou-lhe, porm, uma frao de segundo para perceber que ia cometer uma indelicadeza. 
Diabo, como  que eu no penso numa coisa dessas! Ficou a censurar-se a si prprio, mas nem por isso menos contrariado por no poder ouvir msica.
3
Eram oito e quarenta da noite quando o prprio Rodrigo foi  cozinha buscar a bandeja onde estava a travessa com po e caviar. Voltou para a sala de visitas, radiante.
#3O2        O RETRATO

- Vejam s quanta coisa aconteceu atravs do tempo e do espao para que este simples momento fosse possvel! - Parou no meio da pea e passeou o olhar pelas faces 
dos convivas. - Um lavrador na Argentina plantou o trigo. . .
-        desenvolveu a tese. Quando terminou, o Cel. Jairo avanou para ele, de braos abertos.
- Pois tudo isso  sociologia, meu caro doutor! Para Comte todos esses elementos contavam, no estudo da Histria!
Rodrigo fez a bandeja andar  roda.
- Tte. Lucas provou o caviar e em seguida representou a pantomima do homem envenenado: atirou-se ao cho e comeou a rolar no tapete, as mos crispadas sobre o ventre, 
o rosto convulsionado. Liroca, que aparecera sem ser convidado, estava quieto no seu canto, a olhar para o pndego, com uma expresso entre rabugenta e triste.
Chiru fumava, recostado ao peitoril duma das janelas, discutindo com Saturnino o resultado das eleies. Meteu um pedao de po na boca e engoliu-o sem mastigar.
- Vamos beber alguma coisa l - exclamou Rodrigo.
Foi at a cozinha e voltou com uma garrafa de champanha. Fez saltar a rolha, que bateu no espelho e caiu entre as rosas do vaso. O vinho jorrou sobre o tapete. Rodrigo 
encheu a primeira taa e entregou-a ao coronel. Serviu depois os outros. Liroca e Saturnino no quiseram beber. Lucas perguntou a Rodrigo se nunca havia bebido "champanha 
de cascata". De cascata? Sim - com a sua licena, coronel - despeja-se a garrafa na cabea duma mulher bonita, o champanha escorre pelo rosto, pelos peitos, a gente 
se agacha, mete a boca debaixo dos seios da criatura, e bebe...
- Devasso! - exclamou Rodrigo, lembrando-se de que, no fazia muito, ele prprio bebera champanha nos sapatos dourados duma atriz.
- coronel ficou muito vermelho e levou o copo de limonada aos lbios, depois de ergu-lo, num brinde silencioso. Liroca continuava a olhar, intrigado, para o tenente 
de obuseiros. Chiru achou a idia de Lucas interessante.
- Vou experimentar na primeira ocasio. S que  uma brincadeira meio cara ...
- O que  caro  bom - retrucou o tenente.
Chiru e Saturnino entraram a discutir animadamente as eleies. Nos primeiros dias de maro o Correio do Povo publicara alguns resultados parciais das cidades, que 
acusavam pequeno saldo de votos favorvel a Rui Barbosa. Agora, porm, vinham de todo o Pas telegramas desanimadores para os civilistas: o Marechal estava vitorioso 
na maioria das umas, e tudo indicava que o can
CHANTECLER        3O3

didato oposicionista se encontrava irremediavelmente derrotado. Rui Barbosa lanara um manifesto, afirmando que as eleies haviam sido feitas sob presso do governo, 
 sombra da fraude: os hermistas subtraam as atas ou as falsificavam. A propalada neutralidade de Nilo Peanha - clamava o candidato civilista - era como as saias 
postas em moda na Frana por Mme de Maintenon para esconder a barriga das mulheres grvidas.
- Esse manifesto do Rui - interpretou Saturnino -  uma confisso pblica de derrota.
- Cala a boca, animal!
Jairo ps afetuosamente a mo no ombro do ecnomo.
- Meu amigo, no vamos trazer  baila esse assunto ingrato. J basta o que aconteceu...
- Isso mesmo, Saturno - disse Chiru - mete a viola no saco.
Saturnino encolheu os ombros.
- Foste tu quem puxou o assunto.
4

Don Pepe chegou depois das nove. Como, Rodrigo lhe ofere
cesse caviar e champanha, recusou-se por considerar ambas essas
coisas smbolos dos prazeres da alta burguesia. Aceitou, porm,
po simples e vinho tinto, "expresiones de Ia tierra y del pueblo".
Sentou-se, um pouco taciturno, e ficou a comer e beber em si
lncio.
Rodrigo foi buscar as salsichas de Viena, trazendo com elas uma
garrafa de vinho branco e clices, que encheu generosamente. Liroca no pde deixar de murmurar: - Que desperdcio...
- Que ceia rgia! - exclamou Jairo.
-  para comemorar a minha retirada da vida poltica. .. -
disse Rodrigo, um pouco por brincadeira e um pouco a srio.
Don Pepe lanou-lhe um olhar que exigia explicaes.
- No me olhes assim, Pepito. Aqui onde me vs, sou um
homem mudado. - Sentia-se tonto, areo, irresponsvel. - Santa
F no merece o nosso sacrifcio. Os povos tm o governo que
merecem, no , Cel. Jairo? Sejamos egostas. Bebamos vinhos
estrangeiros e comamos caviar. A vida  curta. - Ergueu-a taa. A sade... de quem?
Pepe ergueu-se, teatral.
- A Ia salud de todos los que murieran en vano por sus
ideales!
#3O4
O RETRATO
CHANTECLER
3O5
- Vai mesmo desertar a arena? - perguntou Rubim. E acrescentou. - No acredito. Qual  a sua opinio, coronel?
O comandante do regimento de infantaria coou o queixo e olhou para Rodrigo.
- O homem se agita e a humanidade o conduz. Os vivos so sempre cada vez mais governados pelos mortos. O Dr. Rodrigo no poder fugir ao seu destino.
Com uma salsicha apertada entre o polegar e o "indicador, o Tte. Lucas dirigia-se a Liroca, que o escutava com o ar de quem est diante dum dbil mental.
- Pois  como lhe digo, Sr. Liroca. Estas lingnicinhas vm da cidade de Viena e so feitas de carne de criana. Mas tem que ser de criana com menos de dez anos. 
Quanto mais novo o beb, mais tenra a carne.
Trincou a salsicha e degustou-a.
- Por exemplo, esta  feita da cozinha de um recm-nascido. Jos Lrio mirava-o de soslaio, srio. - Moo, o senhor pensa que eu sou algum bobo? Rodrigo desenvolvia 
para Jairo e Rubim uma tese que se po
deria intitular "O Brasil, Pas Perdido". Perdido qual nada l
-
protestou o coronel. O Brasil rinha um futuro fabuloso.
Rubim sacudia a cabea. Achava que o progresso no pode ser nunca o resultado do esforo coletivo, mas sim a obra magnfica duma casta superior, a qual s poder 
existir  custa do trabalho escravo das massas, cuja misso  mourejar a fim de que os superhomens se possam entregar ao cultivo do esprito, -das artes e da ciencia.
- Mas que absurdo! - protestou Rodrigo. - Para principiar: como pr em prtica esse individualismo aristocrtico?
- Muito simples - replicou Rubim, com sua voz de flauta. Tomou um gole de champanha. - Nietzsche preconiza, e nisso estou plenamente de acordo com o Mestre, a formao 
do Estado militar.
- Tenente! - repreendeu-o Jairo, sorrindo.
- Estamos entre amigos, coronel. Mas, como dizia, s esse Estado militar  que poder consolidar o domnio da casta superior, usando da fora para organizar disciplinarmente 
todos os recursos sociais. . .
- Mas ser uma ditadura insuportvel) - atalhou-o Rodrigo. E tomou com fria um largo gole de champanha, enchendo logo em seguida a taa com vinho branco.
- Isso mesmo. Uma ditadura. E insuportvel, sim, para as classes inferiores. Porque ser preciso esmagar sempre todas as tentativas de insurreio das massas.
Don Pepe levantou-se, avanou para o tenente de artilharia e.
erguendo a mo que segurava o copo, como se fosse atirar vinho na cara do militar, bradou:
- Pero no hay fuerza humana que pueda detener Ias masas!
Rubim limitou-se a lanar para o espanhol um rpido olhar neutro.
- O Brasil - continuou -  um pas novo e informe, que s poder ser governado mediante uma ditadura de ferro.
Jairo estava escandalizado.
- Tenente, o senhor est se excedendo!
Rubim sorriu e encheu o clice de vinho.
- Coronel, estou apenas dizendo o que penso.
- Deus nos livre de ter o tenente um dia na presidncia da Repblica! - exclamou Rodrigo.
Olhou para Pepe, que comeava j a dar seus passinhos para diante e para trs, e viu nos olhos do anarquista duas bombas prestes a explodir.
- Essa casta superior - prosseguiu Rubim, cruzando as pernas - no dever de maneira nenhuma preocupar-se com a educao das classes populares. O cultivo das massas 
pode prejudicar os objetivos mais altos do Estado, isto , a formao da aristocracia...
Rodrigo j no sabia ao certo o que o embriagava mais, se o vinho ou as idias do tenente de artilharia.
- A cerrar todas Ias escuelas! - exclamou doa Pepe, abrindo os braos como um crucificado. - A quemar todos los libros! El seior tenente quiere para su classe el 
monopolio de Ia cultura!
Rodrigo, que estava curioso por ouvir toda a tese do oficial, fez um sinal para que o espanhol se calasse.
. - E qual  a finalidade dessa tua esplndida, mirabolante aristocracia? - perguntou.
- Produzir a raa superior, o super-homem, que est para o homem atual assim como este para os animais.
- Tenente! - advertiu Jairo. - No beba mais.
A dentua avanou, nua e cintilante.
- Nunca em toda a minha vida, coronel, estive mais lcido que agora.
Continuou
- No mundo primitivo o bom era o audaz, o forte; o mau era o dbil, o impotente. Depois veio o Cristianismo e subverteu tudo.
- Me cago en Ia leche del cristianismo!
Liroca arrancou do fundo do peito um longo suspiro, e seus
olhos se dirigiram para a sala contgua, por onde passara, havia
pouco, vago e areo como um espectro, o vulto de Maria Valria.
3O6        O RETRATO

- Ento no acreditas na concepo evolucionista da Hist
ria? - perguntou Rodrigo, que se sentia como suspenso no ar. Rubim sacudiu vigorosamente a cabea.
- Acho a concepo erradssima. E um otimismo tolo acre ditar no progresso ininterrupto da humanidade.
O Cel. Jairo, remexeu-se na cadeira e olhou o relgio.
- Dez e meia. Preciso retirar-me. A Carmem, coitadinha, ficou sozinha em casa.
Ps a mo no ombro de Rodrigo:
- O meu amigo precisa casar-se o quanto antes, para eu poder trazer a Carminha a estes esplndidos seres.
Despediu-se. Rodrigo levou-o at a porta, junto da qual militar ciciou:
- O Rubim s vezes me desconcerta quando expe essas idias extravagantes. Pode at parecer que esse  o ponto de vista
do Exrcito, mas asseguro-lhe que no . E, meu caro doutor, no confunda a ditadura cientfica; humanssima e nobre, preco
nizada pelo grande Augusto Comte, com essa brbara ditadura,que o tenente prega.
Apertaram-se as mos.
- Foi uma noitada agradabilssima. Boa noite!
5
Pouco depois das onze, Chiru e Saturnino retiraram-se. Era hbito de ambos caminhar todas as noites pela cidade, at alta madrugada. Lucas deixou tambm o Sobrado 
dez minutos mais tarde, confidenciando ao ouvido de Rodrigo que tinha combinado passar a noite com uma "morena cotuba", na Penso Veneza. Desceu de gatinhas a escada 
do vestbulo.
Como Rubim tambm fizesse meno de ir-se, Rodrigo deteve-o.
- Fica, homem.  muito cedo. Vamos tomar ainda um licorzinho especial. E tu, Pepito, no te muevas. Quero mostrar a vocs uma coisa ...
De repente, dando com os olhos em Liroca, que, de plpebras cadas, continuava sentado no seu canto, exclamou:
- Liroca velho de guerra!. Por que  que ests a to quieto? No comeste nada. No bebeste nada. Que  que tens? Ests triste?
- B a minha sina, Rodrigo,  a minha sina. Suspirou.
Rodrigo foi buscar no escritrio um exemplar do Correio do Povo que havia guardado com especial cuidado. - No sei se vocs leram esta notcia ... Edmond Rostand
acaba de levar  cena no teatro Porte Saint-Martin a sua nova pea. Chantecler, na qual trabalhou durante doze anos. Diz o jornal que no se fala noutra coisa em" 
Paris. As confeitarias fazem bolos, tortas e pasteles com efgie de Rostand, e a imagem de seu heri, o Chantecler, anda por todos os cantos, nas vitrinas, nas 
revistas, nos jornais, no corao do povo parisiense. O que j se escreveu sobre essa pea d para encher toda uma biblioteca!
Y que hay de tan extraordinario en esas cosas?
- Paris est em polvorosa! A revista L"lllustration comprou a Rostand os direitos de reproduzir na ntegra o Chantecler, e est agora processando em nome. do autor 
os jornais parisienses L"Bclair e o Paris Journal e ainda Il Secolo, de Milo, por terem eles publicado sem licena o compre rendu e algumas estrofes da pea. . 
.
- Escndalos de Ia podrida sociedad burguesa! - exclamou o espanhol. E apanhou distrado, com as pontas dos dedos, o ltimo quadrado de po com caviar.
Rodrigo bebeu sofregamente um largo gole de vinho.
- No dia 6 de fevereiro, por ocasido do ensaio geral de "Chantecler", o Boulevard Saint-1Martin estava agitadssimo. Uma enorme multido se apinhava d porta do 
teatro.
- Mas afinal de contas - interrompeu-o Rubim - em que consiste a pea?
- Originalssima! Imaginem vocs que as personagens so quase todas animais domsticos: galos, galinhas, ces, faises... E os atores aparecem realmente travestdos 
nesses animais!
- Ridculo! - bradou Pepe Garcia.
- No - protestou Rodrigo - quando temos no papel de Chantecler um Lucien Guitry, no de Co um Jean Coquelin e no de Faisoa uma Mme Simone.
- Assim mesmo  um pouco... esquisito.
- O primeiro ato passa-se num terreiro. O cenrio foi feito em tais dimenses que os espectadores tm a impresso de que os "animais" so realmente do tamanho de 
galos, galinhas, etc... E a histria, em suma,  esta: Chantecler  o rei desptico do terreiro. A Galinha est despeitada e cheia de cimes, porque o Galo prefere 
as outras a ela ...
- Ridculo! Infantil! - exclamou o pintor.
- Temos ento o eterno tringulo do romance francs. O Calo est apaixonado por uma bela faisoa... pela qual tambm se morre de amores um galo mais novo.
- Nesse caso - interrompeu-o Rubim, com seu amor  preciso - no se trata mais, dum tringulo.
Bom, seja o que for, a, situao  sa. No primeiro ato vemos a vida ntima do galinheiro, onde impera Sua Majestade Chantecler, "que est convencido de que, sem 
o seu cocoroc mati-
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nal, o sol jamais se ergueria. No segundo ato a cena mostra ramos superiores das rvores duma floresta, onde uns mochos acham empoleirados.  noite e a coisa toda 
tem um ar de sabbat. As aves noturnas conspiram, querem matar o Galo, pois esto tambm convencidas de que  Chantecler quem obriga o sol a erguer-se todas as manhs, 
trazendo para o mundo a luz, a maior inimiga dos mochos.
F. - Pero; hijo, eso es un-cuento de Nadas!
Espere, Pepito. No terceiro ato o Galo  informado da conspirao, mas no lhe d a menor importncia, pois est preocupado com o que o Co, seu amigo fiel, lhe 
veio contar: um galo novo acaba de fazer uma declarao de amor  Faisoa. Furioso, Chantecler provoca o rival para um duelo. Trava-se uma luta de vida
- de morte em que o galo jovem  vencido. A Faisoa toma o vencedor nos braos e embala-o com palavras de amor. Chantecler adormece no colo da amada e, ao despertar, 
verifica, estonteado, que o dia j vai alto. Ento o sol pode nascer sem que ele cante? No  ele, o Galo, quem regula o curso do rei do dia? Em vo a bem-amada 
lhe recita ao ouvido belas palavras de amor. Chantecler morre de vergonha e humilhao.
Rodrigo calou-se, levou o clice  boca, esvaziou-o, e olhou depois para os amigos. Rubim sorria, a cabea recostada no respaldo da cadeira. Pepe mirava o amigo 
com fisionomia inescrutvel.
- Que tal, Liroca? - perguntou Rodrigo, curioso por saber
-        que Jos Lrio, natural do quarto distrito de Santa F, pensava da pea de Edmond Rostand.
- Que bicho  essa tal de faisoa?
-  a fmea do faiso, um galinceo de carne muito gostosa, nma verdadeira iguaria.
Liroca ficou um momento calado, com ar reflexivo. Depois murmurou, srio
- Galo velho de bom-gosto. . . - Rubim, que tal?
Rodrigo deu uma palmada na perna do tenente.
- Parece-me uma grande borracheira - disse este.
- Borracheira? Ento escuta este Hino ao Sol e me diz se uma pea que tem uma jia potica deste quilate pode ser considerada uma borracheira.
Aproximou o jornal dos olhos:
C TECLER        3O9
sentiu que a voz lhe saa um unto arrastada, como se a lngua e os lbios estivessem inchados- Diabo! O vinho francs devia ajudar a gente a falar melhor a lngua 
de Rostand...

Je t"adore, Soleill b to" dons la lumire,
Pour bnir chague front et mrir chague ciei,
Entrant dans chague fleur et dana chague chaumire,
Se divise et demeure entire
Ainsi que l"amour maternel!

Vieram-lhe lgrimas aos olhos. como acoIItecia sempre que lia um trecho literrio com emoo. Rubim escutava, as mos tranadas diante do peito, como se estivesse 
orando. Pepe mastigava com dignidade uma salsicha. Liroca, o olhar embaciado de sono, mirava fixamente o tapete e de quando em quando cabeceava.
- Agora prestem bem ateno! - pediu Rodrigo. E recitou:

Je t"adore, Solene Tu mets dan l"air des roses,
Des flammes dans Ia source, un dieu dans le buissonl Tu prenda un arbre obstar et tu l"apotbosesl
-        Soleill toi sana qui ler chores
-        seraient que ce qu"elles sontl

Rodrigo atirou o jornal no cho.
- Se isto no  uma pea de antologia, ento no me chamo mais Rodrigo Tem Cambar! Bolas!
Rubim abriu os olhos.
-  bonito, no h dvida. Mas apenas bonito.
- O Chantecler  o teu super-homem, Rubim 1 No compreendes isso? O rei absoluto do terreiro! Os mochos ,e os melros so a massa que tanto detestas, a massa que 
conspira inutilmente.
Rubim sacudiu a cabea.
- No, Rodrigo. O meu super-homem venceria o galo mais novo no duelo, mas depois no dormiria o sono da vitria nos braos da bem-amada.
- Porqu? Acaso o teu super-homem ter de ser necessariamente um impotente sexual?
- Meu caro Rodrigo, para o super-homem a felicidade no consiste na posse dum objeto determinado, mas sim numa continuada superao de si mesmo. O que importa para 
ele  a vontade de poder, que consiste em desejar e escolher o sofrimento e a dor, se tanto for necessrio para essa superao. No exemplo de Chantecler vimos como 
a mulher pode desviar o super-homem de seus objetivos mais altos. E no esqueas que no meu mundo ideal,
Toi qui sches ler pleura des moindres gramines Qui faia d"une fleur morte un vivant papillon Lorsqu"on voit, s"effeuillant comme des destines,
Trembler au vent des Pyrnes,
Les amandiers du Roussillon.
#31O        O RETRATO
se queres usar os smbolos desse teu Rostand, o sol de fato n se erguer sem que Chantecler, o super-homem, cante!
- Isso sim  um conto de fadas!
- E o meu Chantecler no admitir no seu terreiro leis q glorifiquem a fraqueza como acontece nesta nossa sociedade regi pela moral crist, que  uma moral de escravos. 
Para principiar, super-homem ter de ser duro e cruel consigo mesmo e vive numa constante busca de novas aventuras. Ele sofrer e far outros sofrerem.
Rodrigo desatou a rir.
- De que ests rindo?
- Estou te vendo fantasiado de galo, recitando no meio du palco...
- Ests bbedo!
- Talvez. Mas vamos tomar ainda um licorzinho. Serviu-lhes Chartreuse. E, enquanto os outros bebiam, apanho o jornal do cho e leu mais um trecho da pea.
CHANTECLER
Je chante! Vainement
La nuit, pour transiges, m"offre le crpuscule, Je chante! Et tout  coup...
LA FAISANE
Chantecler)
CHANTECLER
Je recule,
bloui de me voir moi-mime tout vermeil, Et d"avoir, moi, le Coq, fali leves le solei!.

Don Pepe se ps de p
- Mierda para el galoo, mierda para Ia gallina, mierda par Ia humanidad! Buenas noches, cablleros!
Enfiou a boina e saiu. Rubim e Liroca tambm se foram pou co depois. Rodrigo ficou algum tempo  janela, olhando a pra deserta, as estrelas, e pensando em Paris. 
Fechou depois as janela apagou as luzes e dirigiu-se para a escada. Quando ia subir, vi surgir l no ltimo degrau Maria Valria.
- Isso so horas de deitar? - perguntou ela. - Os galos i esto cantando.
- bloui de me voir moi-mime tout vermeil - murmuro Rodrigo. E, alteando a voz, recitou como se estivesse num palco - Et d"avoir, moi, le Coq, fali leves le solei!!
CAPITULO XVI
1
NAQUELA TERCEIRA SEMANA de maro, abriu o consultrio. Os primeiros doentes que lhe apareceram foram pobres-diabos do Purgatrio, do Barro Preto e da Sibria. Entravam 
humildes e acanhados, contavam seus males, mostravam onde sentiam suas dores, iam como que amontoando todas as suas queixas sobre a mesa do mdico. Rodrigo examinava-os 
- bote a lngua. .. respire forte... diga trinta e trs - aplicava-lhes o estetoscpio no peito, nas costas, auscultava-lhes o corao, os pulmes, e, enquanto fazia 
essas coisas, procurava conter o mais possvel a respirao, pois o cheiro daqueles corpos encardidos e molambentos lhe era insuportvel. Por fim sentava-se e, aps 
um breve interrogatrio, fazia uma prescrio e entregava-a ao paciente.
- Mande preparar este remdio aqui na farmcia. Tome uma colher das de sopa de duas em duas horas.
Na maioria dos casos o doente quedava-se a olhar imbecilmente para o papelucho.
- Mas  que no tenho dinheiro, doutor.. .
- Isso no vai lhe custar nada. A consulta tambm  grtis.
Os clientes balbuciavam agradecimentos e se iam. Rodrigo ento abria as janelas para deixar entrar o ar fresco, lavava as mos demoradamente com sabonete de Houbigant, 
tirava do bolso Oleno perfumado de Royal Cylamen e agitava-o de leve junto do nariz. Conclua que o sacerdcio da medicina, visto atravs da arte e da literatura, 
era algo de belo, nobre e limpo. Na realidade, porm, impunha um tributo pesadssimo  sensibilidade do sacerdote, principalmente ao seu olfato. Rodrigo comovia-se 
at as lgrimas
diante da misria descrita em livros ou representada em quadros; Posto, porm, diante dum miservel de carne e osso - e em geral aquela pobre gente era mais osso 
que carne - ficava tomado dum misto de repugnoncia e impacincia. Achava impossvel amar a chamada "humanidade sofredora", pois ela era feia, triste e mal.
cheirante. No entanto - refletia, quando ficava a ss no consul
trio com seus melhores pensamentos e intenes - teoricamente
312
O RETRATO
CHANTECLER
313
amava os pobres e, fosse como fosse, estava fazendo alguma co para minorar-lhes os sofrimentos. No tens razo, meu caro R bim. Podemos e devemos elevar o nvel 
material e espiritual massas. Tenho uma grande admirao por Csar, Cromwell, poleo, Bolvar: foram homens de prol, dotados 3e energia, co gem e audcia, figuras 
admiradas, respeitadas e temidas. Mas pa mim, meu caro Cel. Jairo,  mais importante ser amado que r peitado e mesmo admirado. O tipo humano ideal, o supremo par 
digma, seria uma combinao de Napoleo Bonaparte e AbraLincoln. O ditador perfeito, amigos, ser o homem que tiver mais altas qualidades do soldado corso combinadas 
com as lenhador de Illinos. O diabo  que a bondade e a fora so at botos que raramente ou nunca se encontram reunidos numa nes e nica pessoa. A menos que essa 
pessoa seja eu - acrescento um pouco por brincadeira e um pouco a srio.
2
Certa madrugada, pouco depois das trs e meia, o telefo do Sobrado tilintou insistentemente. Maria Valria, que rinha sono leve, acordou, acendeu a vela, apanhou 
o castial e desceu atender o chamado. Quem falava, aflitssima, era a esposa do D Eurpedes Gonzaga, o juiz de comarca. Pedia por amor de Deu que o Dr. Rodrigo 
corresse a sua casa, pois o marido estava gra vemente enfermo.
Maria Valria tornou a subir, entrou no quarto do sobrinh ficou um instante parada a contempl-lo e depois, numa sbita r soluo, inclinou-se sobre ele e sacudiu-o. 
Rodrigo resmungo qualquer coisa, entreabriu os olhos e  luz da vela entreviu o rost da tia, confusamente, como num sonho. Tornou a cerrar os olh e voltou-se para 
o outro lado. Maria Valria sacudiu-o de nov e, quando lhe pareceu que o sobrinho estava mais desperto, trans mitiu-lhe o recado. Como ele permanecesse de olhos 
fechados, de um puxo nas cobertas e aproximou a chama da vela do rosto d rapaz. - Vamos, cumpra a sua obrigao. U, gente! No qu ser doutor? Agora agente. O 
homem est passando mal.
Sentado na cama, Rodrigo coava a cabeleira revolta, bocejam do. Ps-se de p em movimentos tardos. Maria Valria meteu mo dentro do jarro do lavatrio e respingou 
gua fria no rost do afilhado, o que o deixou mais desperto, mas nem por isso m nos irritado. Tirarem um homem da cama quela hora da m drogada. Enfiou as calas 
e as botinas, e por um momento fico desorientado, a dar voltas inteis pelo quarto. A tia tornou a s
cudi-lo e repetiu-lhe o recado, lentamente, com toda a clareza, para que ele compreendesse o que se estava passando. Desceram a escada juntos. Rodrigo resmungava... 
Que era que o juiz estava sentindo? Aposto como andou comendo alguma porcaria.  sempre assim. Tiram um cristo da cama por qualquer indigesto sem importncia. 
No tero sal amargo ou bicarbonato em casa? Por que no chamaram o Dr. Matias?
- Vou acordar o Bento pra ir com voc.
- No sou nenhuma criana. Vou sozinho.
- Est bem. Mas v.
Apanhou a maleta e saiu. Ficou por alguns segundos  esquina, como se tivesse perdido a memria ou cado de sbito numa fantstica cidade desconhecida. Voltou a 
cabea para o Sobrado, a cuja porta luzia a chama da vela de Maria Valria.
-  na casa do Dr. Eurpedes - dizia ela: - Pra aquele lado,
menino!
Rodrigo fez meia volta e seguiu pela, Rua do Comrcio, ouvindo o som e o eco dos prprios passos, e achando que isso tornava ainda mais profunda a solido da noite. 
As chamas dos lampies agonizavam. As estrelas estavam apagadas. Rodrigo sentia um peso nos olhos, uma lassido nos membros, uma vontade de atirar-se na calada 
e ali ficar estendido, dormindo... Havia j caminhado duas quadras quando lhe ocorreu que se esquecera de pr o revlver na cintura. Mas agora no volto. Quem  
que vai se lembrar de me atacar a estas horas da madrugada?
A esposa do juiz, que ele conhecia apenas de cumprimento, esperava-o  porta da casa, plida e escabelada. Rodrigo foi levado imediatamente ao quarto do casal, onde 
encontrou o Dr. Eurpedes Gonzaga sentado na cama, a tossir e debater-se numa falta de ar que lhe transtornava as feies. Pelas comissuras dos lbios escorria-lhe 
uma baba rosada.
- Ele est vomitando sangue, doutor! - choramingou a mulher.
O juiz de comarca olhou para Rodrigo e no primeiro momento pareceu no reconhec-lo. Depois balbuciou:
- Me acuda, doutor, eu morro...
O peito magro arfava. Da boca entreaberta saa um ronco de estertor e pelo rosto lvido escorria-lhe um suor lento e viscoso.
Rodrigo sentou-se na beira do leito.
- Calma, Dr. Eurpedes, eu estou aqui, o senhor no vai
morrer. Chegue um pouquinho pra c. Assim. . .
Encostou o ouvido nas costas do paciente e ps-se a escutar.
Que rudo era aquele? Uma chuva de estertores midos, de cima
para baixo... Hum! Auscultou o corao, que batia num ritmo
de galope. Tomou o pulso: acelerado e arrtmico.
#314        O RETRATO
CHANTECLER
315
Em sua memria desenhou-se a figura do Prof. Gracia Braga numa aula remota : " ... e nesse caso devemos ento p
sar logo num edema pulmonar agudo!"
Sim. Devia ser um edema agudo de pulmo: a respiraa curta e opressa, a dispnia, a expectorao rosada. .. Mas se fo uma crise de asma? O diabo era que no conhecia 
o passad mrbido do homem ... Tentar fazer perguntas quelas du criaturas alarmadas seria pura perda de tempo. Era necessrio agi com urgncia.
- Ai! - gemeu o magistrado. - Ai que eu morro.. Abram uma janela, quero ar...
Parada ao p da cama, a mulher chorava desatadamente, co brindo o rosto com as mos.
Rodrigo abriu a maleta para ver se tinha trazido os instru mentos e os remdios de que ia precisar. Felizmente no lhe fal tava__nada do essencial.
- Uma vela, depressa !
Ao som da palavra vela a Sra. Gonzaga teve um sobressalto deixou cair os braos e fitou no mdico os olhos cheios dum su bico pavor.
- p pra desinfetar a lanceta - esclareceu Rodrigo. - Vamos dona, traga uma vela, uns trs lenos limpos e um prato fundo.
Teve de repetir o pedido, antes que a mulher se dispusesse atend-lo. Depois que ela saiu do quarto, voltou-se para o pa ciente:
- Coragem, meu amigo. Vou lhe fazer uma pequena sangra e dar-lhe uma injeo de morfina para aliviar a dispnia. Vai s o mesmo que tirar com a mo essa falta de 
ar e essa angstia.
A esposa do juiz voltou com os objetos pedidos.
- Agora a senhora vai me fazer um favor de esperar n corredor. Quando voltar, ver como seu marido ressuscitou...
Tomou delicadamente o brao da dona da casa e conduziupara fora do quarto. Fechou a porta, tirou o casaco, arregaou a mangas da camisa e ps-se a trabalhar. Garroteou 
o brao direis do paciente com um dos laos, acendeu a vela e passou-lhe n chama a lmina do bisturi.
- Uma linda veia! No se mexa. Vai doer menos que pisadura duma agulha.
Aproximou a ponta da lanceta da veia da prega do cotovelo. - Pronto!
O sangue esguichou e comeou a escorrer para dentro do praz que Rodrigo colocara debaixo do brao do doente. Quando lh pareceu que j havia no recipiente uns 3OO 
centmetros cbicos, f com os lenos restantes um curativo compressivo na veia. Olho
para o ,juiz.
A cabea recostada no travesseiro, o Dr. Eurpedes sorria, a respirao normalizada, as feies tranqilas. O homem estava salvo.
Rodrigo ergueu-se, assobiando de mansinho. Se no chego a tempo, era uma vez um juiz de comarca!
Ps a seringa a ferver e, minutos depois, aplicou no msculo do paciente, uma injeo de morfina.
- Nunca vi veias melhores que as suas! - elogiou. - Agora no h mais perigo. O senhor vai dormir em paz...
- Parece at um milagre, doutor - murmurou o doente com voz dbil.
Rodrigo abriu a porta e a Sra. Gonzaga entrou.
- Veja como seu marido est outro! Agora o que ele precisa  ficar em repouso absoluto. D-lhe amanh de manh um purgativo. Pode ser de aguardente alem. Quanto 
 alimentao, s lquidos.
A Sra. Gonzaga olhou longamente para o marido e depois para o mdico. Seus lbios se moveram como para dizer alguma coisa, mas de sua boca no saiu o menor sonido. 
Estava duma palidez cadavrica e suas mos tremiam. Rodrigo observou que os olhos dela se vidravam e, prevendo o que ia acontecer, deu dois passos  frente e enlaou 
a cintura da mulher no momento exato em que ela perdia os sentidos.
- Era s o que me faltava!
Ergueu a magra senhora nos braos e deitou-a na-cama ao lado do marido, que dormia tranqilamente.
Uma hora depois estava na rua, a caminho do Sobrado. Havia reanimado e medicado a Sra. Gonzaga, deixando-a aos cuidados duma vizinha solcita.
Sentia-se feliz. Tinha salvo uma vida. Lembrava-se do clido olhar de gratido que lhe dirigira a esposa do juiz ao despedir-se dele. Aquilo fizera-o sentir-se maior 
e melhor. Digam o que disserem, a profisso mdica  dura e difcil, mas tem as suas compensaes.
Ps-se a cantarolar.  esquina da Rua do Poncho Verde encontrou o Chaco Po na sua carroa, a entregar po  freguesia. F-lo parar, contou-lhe de onde vinha e de 
como salvara a vida do Dr. Eurpedes. Pediu-lhe um po cabrito, que o padeiro lhe deu com um sorriso amoroso, e continuou a andar. Galos canta
vam nos quintais. Je chante! Vainement Ia nuas, pour transiges, Woffre le crpuscule. Mas o que eu quero mesmo  o sol, o sol.. . O Salvini nos Espectros de Ibsen, 
engatinhando como uma criana no palco, pedindo o sol, me, o sol... Moi, le Coq, je veux le soleil! Mas quem me v a esta hora da madrugada, na rua, comendo po, 
vai pensar que estou voltando de alguma farra, bbedo. Bela profisso escolhi! Mas que diabo! Um homem tem que
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sair de seu comodismo se quiser -fazer alguma coisa pela hurra dade. O Rubim  uma besta. O Nietzsche  outra.
Parou a uma esquina e olhou para o nascente, onde a barra d dia era dum ouro que se degradava em prpura. bloui de me vo tout vermeil. Havia um doce e leve mistrio 
nas ruas adormecida uma frescura transparente de vidro no ar. Acendeu um cigarr tragou a fumaa e depois expeliu-a com fora. Como sabe mal fumo quando a gente est 
em jejum! Moi le Coq, je veux u chimarro.
Ia passando pela frente da meia-gua onde morava Neco Ros Parou, bateu  janela, uma, duas, trs vezes, primeiro de leve. por fim aos murros. Fez o amigo sair da 
cama e esquentar a gu para um mate. Ficaram depois sentados em mochos, sob as laran jeiras do pomar, a saborear o amargo, a fumar e a conversar.
Quando Rodrigo chegou ao Sobrado, o sol j havia sado. Ma ria Valria, que esperava o sobrinho, debruada  janela, exclamou
- Pensei que tinha lhe acontecido alguma coisa. J ia man dar o Bento atrs de voc.
- A senhora sabe que meu anjo da guarda  muito forte. - lr. Mas tenho medo que um dia ele canse.
Uma tarde Rodrigo recebeu no consultrio a visita do Dr Matias, um homem baixo e franzino, de bigodes grisalhos de foca" e culos de grossas lentes.
- Vim fazer uma visita ao meu caro colega.
No havia o menor tom de sarcasmo na voz da criatura.
Rodrigo achou aquilo divertido. O Dr. Matias era o mdico d sua famlia, uma das mais vivas recordaes da infncia. Verificou divertido, que diante do homenzinho, 
ele quase chegava a sentir impresses do menino quando via o "dotor" entrar no Sobrado a medrosa expectativa do leo de rcino, da cataplasma de mostar e linhaa, 
do clister... Como era dramtico o instante em que Dr. Matias lhe metia na boca o cabo duma colher para examinar lhe a garganta! Ah! Os angustiosos segundos em que 
se debati numa nsia de vmito... Todas essas impresses estavam ligad  figura do velho mdico, ao seu cheiro de iodofrmio e sarro cigarro,  sua "voz de queijo 
bichado", aos seus dedos de pont amareladas de nicotina, e ao rudo que seus punhos engomad produziam quando ele sacudia o termmetro para fazer o mercu rio baixar. 
Ali estava agora o lendrio Dr. Matias com sua sou
CHANTECLER        317
surrada e a sua maleta negra. No tinha mudado muito. Estava apenas mais grisalho.
- Sente, doutor.
O Dr. Matias olhou em torno, deteve-se a examinar a lombada dos livros. Depois dirigiu o olhar para os instrumentos cirrgicos
- Vocs so mdicos modernos. Eu sou da velha estola. Menos livros, menos petrechos, porm mais prtica.
- O mdico  mais importante que a medicina, doutor. O que vale mesmo  a experincia pessoal.
O Dr. Matias tirou fumo duma bolsa de borracha e comeou a enrolar um cigarro em papel de alcatro. Depois de acend-lo e soltar uma baforada, olhou para Rodrigo 
com ar escrutados.
- Ento, como vai se dando na profisso?
- Bem. No tenho por que me queixar.
- J fez alguma burrada?
- Acho que sim.
- Isso  do programa. No se impressione. Acontece com todos. No final de contas os mdicos no sabem nada. Nem os grandes do Rio de Janeiro nem os figures da Europa. 
Todos vo mas  no palpite, na apalpao.
- Eu sei.
- E se a gente fosse pensar no que no sabe e nas doenas que no tm cura, acabava ficando louco. Tu pensas?
- Fao o possvel pra no pensar.
- Olha, vou te dar um conselho. No vs muito atrs de conversa de doentes. Eles falam demais. E quanto mais falam menos a gente entende o que  que esto sentindo.
- J descobri isso.
- E mesmo quando no for caso de dar remdio, d remdio, porque o paciente desconfia do doutor que no receita muita droga. E quando estiver diante dum caso complicado 
e ficarr no escuro, receite uma dose pequena de citrato de magnsia. No faz mal pra ningum.  s pra ganhar tempo e estudar melhor o caso. Mas no digas nunca 
que no sabes. O doente pode perder a f... e adeus, tia Chica!
Muito obrigado pelos conselhos, doutor.
O outro lanou-lhe um olhar enviesado.
Acho que tu ests rindo de mim por dentro e dizendo:
Se velho bobo e ignorante me vem aqui com um sermo que ningum lhe encomendou." p isso mesmo. Tens razo. Mas sabes duma coisa? Muita dor de barriga te curei, guri. 
Pra mim tu es sempre aquele pi que ia roubar doce da despensa de Maria Valria e depois quem pagava o pato era eu, que tinha de sair de cata em noite de minuano 
pra ir te apertar a barriga, sem-vergonha!
3
#318
Rodrigo soltou uma risada. O velhote entrara em seu co trio cerimonioso, chamando-lhe colega: agora tratava-o com ele ainda tivesse doze anos.
- Sente, doutor - insistiu.
- No. Isto  visita de mdico. Vou andando. Ah! coisa. No princpio a gente se atrapalha no receiturio, na d gem dos medicamentos. Quem nos salva de matar os doentzs 
os farmacuticos prticos, como esse menino, o Gabriel, que  jia, ou como o Zago, que  um falador sem-vergonha, mas p fissional muito competente. Pois no te 
afobes, Rodrigo, Roma no foi feita num dia. E depois, para um caso de ape o Chernoviz est a mesmo. No  nenhuma vergonha a ge consultar o Livro. E melhor que 
intoxicar ou matar o paciente.
Apanhou a bolsa. Sua calva sebosa reluzia, como a sua ro preta j rua. Junto da porta disse ainda:
- E no te iludas com a clientela. No fundo essa ge
credita mas  nessas negras velhas benzendeiras e nos curandei E quando a gente no acerta logo com o remdio proa achaq deles, procuram logo o ndio Taboca, que 
vem com as s aginhas milagrosas e suas benzeduras.
- Em caso de aperto - sorriu Rodrigo - o recurso en  pedir uma conferncia mdica com o Taboca.
O Dr. Matias piscou-lhe o olho.
- Pois tu sabes duma coisa? Uma vez at eu recorri ao boca.
- Como foi isso?
- No vale a pena falar nessa histria. At mais ver!
Enfiou na cabea o velho chapu de feltro negro e se foi.
Por uma curiosa coincidncia, no fim daquela semana Rod se viu frente a frente com o curandeiro ndio cuja legenda conhecia desde criana. Torbio mandara trazer 
do Angico par Sobrado o negro Antero, que havia sido picado por uma co venenosa.
O peo chegou j porejando sangue, a lngua paralisada, olhos amortecidos. Rodrigo no encontrou na cidade uma un ampola de soro antiofdico. Censurou Gabriel, aos 
berros, por deixado o estoque da farmcia desfalcada dum medicamento tamanha importncia. Foi rude para com o Zago e, como este t respondesse com outro desaforo, 
esteve a ponto de esbofeteno que foi impedido por Torbio, que o arrastou para fora Farmcia Humanidade. Ao chegarem ao Sobrado, Maria Val sugeriu que chamassem 
o Taboca. Rodrigo achou a idia absu e recusou-se a tomar parte "naquela palhaada". A verdade  q com ou sem seu beneplcito, Taboca apareceu: um ndio ret de tez 
acobreada, olhos enviesados e plo duro - homem t
CHANTECLER        319
turno e de poucas falas. Tirou do bolso das calas de riscado a garrafa que trazia a sua "milagrosa aginha" e deu-a de beber ao doente. Acocorou-se depois ao p 
do catre onde jazia Antero, fustigou-lhe o rosto com um galho de arruda, murmurou algumas palavras em guarani e por fim se ergueu
- T bom o homem.
Maria Valria acompanhou-o at a porta e meteu-lhe um pa- taco no bolso. No fim do dia Antero estava melhor: movia os lbios, balbuciava algumas palavras, cessara 
por completo de sangrar. Na manh seguinte deixou a cama, dizendo que se sentia perfeitamente bem.
Olhando para o peo, Rodrigo fez reflexes amargas. Taboca, um curandeiro ndio, acabara de salvar a vida do negro Antero, que no Angico partilhara com ele, Dr. 
Rodrigo, o amor da chinoca Ondina. Era o desprestgio da raa branca, da cultura e da cincia! - concluiu, sorrindo e achando tudo aquilo muito estranho. Chers Messieurs 
Richet et Charcot, estais convidados a explicar os mistrios das milagrosas aginhas do Taboca I Porque
moi, eu desisto.


4

Uma tarde, depois de atender a um velho polaco reumtico, uma china que dizia sofrer de "flautos", e um caboclo que sentia "uma pontada no peito que arresponde nos 
bofes" - Rodrigo foi procurado por um dos filhos de Spielvogel, o Arno, que se queixava de dores no estmago e tonturas. Examinou-o com todo o cuidada, interrogou-o 
minuciosamente, receitou-lhe uma poo e prescreveulhe uma dieta. No momento em que o cliente se preparava para sair, aconteceu algo que chocou Rodrigo dum modo 
que jamais ele poderia imaginar. No momento em que terminava de vestir o palet, Arno Spielvogel meteu a mo no bolso e perguntou:
- Quanto ihe devo?
Rodrigo teve a impresso de que o esbofeteavam e seu primeiro impulso foi o de agredir o outro fisicamente. Aquele "quanto lhe devo" dito de cima para baixo (o rapaz 
tinha quase deis metros de altura) como que colocava o teuto-brasileiro numa posio superior  sua, assim como a do patro perante o empregado.
Vermelho, o rosto a arder, Rodrigo teve uma rpida hesitao, mas depois, com a voz alterada pela indignao, vociferou:
-- No me deve coisssima nenhuma!
Mas como, doutor?
- J lhe disse que noo me deve nada.
O RETRATO
#32O        O RETRATO
O rapaz mantinha a mo no bolso e olhava espantado pa mdico.
- Desculpe, eu ... eu s queria lhe pagar. Pensei .. .
Caindo em si. Rodrigo tratou de remendar a situao.
- Depois falamos nisso. O tratamento noo est termin Voc ter que voltar aqui dentro duma semana.
- Bem. Ento... muito obrigado.
Depois que o cliente saiu, Rodrigo sentou-se, pegou o co papel e comeou a tamborilar nervosamente sobre a mesa.  lhor eu ir me acostumando com essas coisas. No 
fim de co um mdico tem de cobrar as consultas... O Dr. Miguel C cobra, no cobra? O Dr. Olinto de Oliveira no vive de ar
Mas, fosse como fosse, receber dinheiro diretamente das dos clientes era coisa que, na sua opinio, dava ao consultrio ar de banca de mercado pblico, de boliche 
de beira de estr Decidiu que dali por diante, em matria de dinheiro, os clie pagantes se entenderiam na farmcia com o Gabriel. Para que, di tinham ento aquela 
bela mquina registradora National?
5
Numa manh de sbado, quando- j se preparava para i casa almoar, recebeu no consultrio a visita do Ananias Silva. aguadeiro de Santa F queixava-se de dores nos 
rins e de cana - "uma lombeira danada, doutor, uma fraqueza ... " Rod examinou-o, lembrando-se das histrias que Torbio lhe conta respeito do "pipeiro".
- Ananias, no vou lhe receitar muitos remdios, mas q lhe dar um conselho.
- Qual , doutor? - perguntou o homenzinho, sungand
calas e metendo as fraldas da camisa para dentro. - Diminua a sua atividade. - Que atividade?
- Voc sabe. No estou me referindo  sua pipa, mas soas mulheres.
- Ora, doutor!
O aguadeiro parecia ofendido.
- Fale a verdade, Ananias. Pra mdico e padre a gente deve mentir. Voc tem ou no tem duas mulheres?
O "pipeiro" comeou a coar o queix, onde apontava barbicha rala e dura. Fitou no mdico seus olhinhos de esdero amarelada.
- Pois , dizem .. .
CHANTECLER        321
Com quantos anos est?
Cinqenta e quatro.
- Pois j  tempo de criar juzo. Uma mulher  o quanto lhe basta ... - Rodrigo fez uma pausa e depois acrescentou, sorrindo: - Z do Meo.
O aguadeiro tambm sorriu, descobrindo dois cacos de dentes e ss gengivas descoradas. E, entre gaiato e encabulado, informou:
- Uma delas at nem funciona mais, doutor.
Rodrigo soltou uma risada e mandou o Ananias embora com uma receita, novas recomendaes e uma cordial palmada nas costas.
Em princpios de abril, teve Rodrigo alguns casos felizes que de certo modo o ajudaram a firmar a reputao de mdico na cidade, onde j se comeava a falar - notava 
ele, envaidecido - no seu "olho clnico". Alegrava-o tambm saber que, era o dolo da pobreza e que em certos ranchos do Barro Preto, do Purgatono e da Sibria, 
seu nome era venerado como o de um santo.
O Chru - a quem naqueles dias Rodrigo dera os duzentos mil-ris que deviam custear sua encantada excurso em busca dos tesouros dos jesutas - contou um dia a Maria 
Valria, na presena de Rodrigo "as fricas do seu afilhado".
- O diabo nasceu mesmo pra mdico, dona. Tem um jeito com os doentes, que s vendo. O filhinho do Luiz Macedo que ele tratou, acordava de noite e choramingava que 
queria o doutor. O Teixeirinha me disse que quando estava de cama com febre, s de ver o Rodrigo entrar no quarto j melhorava .. .
Olhou para o amigo.
- No sei o que  que esse filho da me tem na cara que todo mundo fica logo gostando dele.
Rodrigo escutava em silncio, intimamente satisfeito com as palavras do Chiru, mas fazendo gestos que davam a entender que a coisa no era bem assim, que o outro 
exagerava .. .
- E o Dr. Eurpedes? Anda dizendo pra todo o mundo que estava j no fundo da cova quando apareceu o Rodrigo e puxou ele pra cima. A mulher do juiz, essa ento acha 
que  Deus no cu e o Dr. Rodrigo na terra. Bsse filho duma me!
Enfim, refletia Rodrigo, seus planos se realizaram. seu programa de vida se cumpria. Estava fazendo alguma coisa pelos pobres de sua cidade natal. S de sua cidade? 
No. J lhe chegavam clientes do interior, das colnias, de outros muncipios ... Comeava a ser respeitado - ele via, sentia - e noo havia a menor dvida que j 
era amado. Tudo isso lhe dava uma profunda satisfao ntima, uma reconfortante paz de esprito.
Claro, havia momentos em que simplesmente noo podia agen
tar o ambiente do consultrio, que cheirava a suor humano, pus.
#322        O RETRATO

sangue, ter, fenol, iodo... Era com ansiedade que esperava a h de voltar para casa. Havia tambm os dias de mau humor em lhe era difcil suportar com pacincia, 
e mantendo o ar pater as longas conversas dos clientes, que nunca iam direto ao assun que faziam interminveis rodeios, contando doenas passadas, n s prprias 
como tambm de pessoas da famlia, vizinhos e con tidos. Detestava os chamados  noite, principalmente quando levavam a algum rancho das zonas conhecidas pela denomna 
geral de "pra l dos trilhos", e nas quais se metia em bibocas, vezes com barro at meia canela, entrando em ranchos ftidos e serveis, iluminados a vela de sebo.
No raro, quando lhe caa nas mos um caso difcil, algo doena que no sabia diagnosticar ou curar, seu amor-prprio cebia golpes terrveis que o deixavam por algumas 
horas, s ve durante dias inteiros, mal-humorado e j .quase decidido a aband nar a profisso, "porque afinal de contas, Chiru, eu no prece dessa porcaria pra viver".
Esses momentos escuros, porm, eram passageiros. Diante du
 caso bonito sentia a confiana em si mesmo retornar e, com ela, alegria de ser mdico, a volpia de se saber necessrio na como dade, querido e admirado pelos 
amigos e pelos clientes.
Havia quase um ms que A Farpa no aparecia. Quando a gos pediam notcias do "grande hebdomadrio", Rodrigo r pondia : "No morreu. Est apenas hibernando. No momen 
crtico reaparecer." Com momento crtico, ele queria dizer a ho em que soasse de novo os clarins de guerra, em que fosse prect atacar o situacionismo, protestando 
contra alguma nova arbitran dade do Titi Trindade, ou respondendo a alguma verrina d"A Vo da Serra. O jornal republicano, entretanto, andava nas ltimas manas surpreendentemente 
benvolo para com a oposio. Ocupa va-se de modo quase exclusivo com o resultado das eleies, sego do os quais o candidato oficial estava vitorioso em todo o pas 
Os editoriais do Amintas tinham agora carter doutrinrio, fal vam em "verdadeira democracia" e faziam elogios ao Dr. Borg de Medeiros "nosso nclito chefe" e ao 
Senador Pinheiro Machad "o gigante do Palcio Monroe".
Rodrigo lia os resultados das eleies sem grande emoo. fava j certo de que o candidato civilista perdera a batalha. prpno Rui Barbosa, reconhecendo isso, publicara 
nos jornais d Rio de Janeiro e de So Paulo um artigo em que falava nos " tidos escravizados". Rodrigo atirava longe os jornais num gest teatral com o qual queria 
dar a entender que estava no s desi ludido da poltica como tambm indiferente arte os resultados dar goela farsa eleitoral. Meter-se em poltica seria noo s 
perder tem po como tambm fazer papel de tolo. De resto, no trocava se
CHANTECLER
323
prestgio de mdico peta posio do Trindade ou de qualquer deputado estadual ou federal. Sentia-se forte, feliz r de conscincia tranqila. Chegara a Santa F e-erguera 
a luva do desafio, dando i canalha governista e ao povo de sua terra uma prova de hombridade. Exercia agora um direito que ningum lhe poderia tirar: o de cultivar 
em paz seu jardim.
Flora voltara da estncia com os pais e Rodrigo, naquelas tardes de princpio de outono, costumava passar depois do banho pela frente da casa da namorada. Parava 
 esquina e olhava para as janelas agora abertas, onde as cortinas de renda branca esvoaavam. E por trs dessas cortinas entrevia o vulto de sua amada. Quedava-se 
longamente na esquina a fumar, meio encabulado por estar-se portando como um adolescente, num namorico. indigno. de sua idade e de sua posio social. Fazia, depois, 
uma volta completa  praa, onde os pltanos j comeavam a perder _as folhas. Andava no ar um escondido arrepio de inverno. Rodrigo recitava baixinho poemas de 
Verlaine e Samain. Tornava a passar pela casa de Aderbal Quadros, verificando com satisfao que l estava ainda Flora por trs das cortinas,  sua espera.. .
Pensava num pretexto para se aproximar da moa de maneira digna. As oportunidades, porm, noo eram muitas. Depois da morte do Macedinho, o clube no dera mais bailes. 
Flora pouco saa  rua. Todos os domingos pela manh Rodrigo ia esperar  porta da igreja o fim da missa e, quando a moa saa pelo brao da me, ele as seguia a 
uma distncia respeitosa. Flora jamais voltava a cabea para trs, e, embora desejasse ver essa prova de interesse da part da namorada, ele sabia antecipadamente 
que ficaria decepcionado se ela fizesse esse gesto. Havia coisas que podiam ficar bem para a Esmeralda e para as Fagundes, mas no para a Flora Quadros.
Num daqueles dias, Gabriel lhe contou que andavam murmurando com insistncia que o cometa de Halley a destruir o mundo. Rodrigo bateu-lhe afetuosamente no ombro 
e, pensando em Flora, respondeu
- O fim do mundo? Qual nada, Gabriel, o mundo agora  que vai principiar.
6
Certa manh Cuca Lopes entrou no consul[rio e, sem ao me
nos dizer bom dia, foi contando:
- Sabes duma? O Zago anda falando pra todo o mundo que
tu s o doutor das chinas.
Rodrigo, que amanhecera de bom humor, soltou uma risada.
324        O RETRATO

- Pois  a pura verdade, o Zago tem razo. E podes diz pr"aquele boticrio de meia-tigela que prefiro ser mdico do chi naredo do Barro Preto a ter de tratar das 
mazelas morais dele!
Mas as chinas que freqentavam o consultrio do Rodrigo na eram propriamente as maratonas descalas e molambentas do Barr Preto ou do Purgatrio, e sim as prostitutas 
mais categorizadas d Santa F, as que tinham casa prpria - em geral . montada e man tida por algum comerciante ou .fazendeiro do municpio - as qu usavam na intimidade 
quimono de seda e chinelos com pompom as que aos domingos iam, muito bem vestidas,  missa da Matriz Muitas dessas mulheres eram aceitas at pelas famlias mais 
humildes do lugar, principalmente pelas que viviam nas vizinhanas, com as quais Rodrigo freqentes vezes as vira conversando e tomando mate doce, sentadas  frente 
de suas casas.
Vestiam-se e portavam-se como damas e - diferentes das profissionais francesas, judias e polacas que Rodrigo conhecera em Porto Alegre- e que trabalhavam doze horas 
por dia como verdadeiras mquinas de fazer dinheiro - dificilmente recebiam mais dum homem por noite. Rodrigo observara tambm que, em ma fria de amor, aquelas 
prostitutas nacionais e provincianas observavam uma rigorosa ortodoxia, o que - conclua ele entre srio trocista - era um padro de honra para nossa raa. Tinham 
dignidade e recato, e sempre que no consultrio a natureza do exame a que se iam submeter exigia qne se despissem, elas o faziam com certa relutncia e com um pudor 
que no princpio deixara Rodrigo um tanto desconcertado. Raramente ou nunca se referiam ao ato sexual, e quando o faziam era por meio de eufemismos que seriam ridculos 
se no fossem antes de tudo comovedres.
Entre seus clientes Rodrigo contava agora a famosa Rosa Branco - Rocinha Peito-de-Pomba na intimidade - prostituta famos na histri galante da cidade, no s por 
ter dormido .om vrias geraes de santa-fezenses, como tambm e principalmente por ter a postura e muitas das" virtudes dama " rdtriana. Alta, farta de seios, 
com cabelos dum crespo duvidoso, a pele ,cor de marfim e grandes olhos escuros e-bondosos de me de famlia, agora no fim da casa dos quarenta era ainda uma mulher 
vistosa" que chamava a ateno quando passava na rua, fazendo os homens voltarem a cabea e arrancand deles comentrios cmo este: "Sim senhor, a Rosinha ainda 
est em forma!"
Cara na vida aos quinze .anos e desde essa idade at o presente exercera a profisso com competncia e honestidade. Afirmava-se que sempre recusara receber dinheiro 
dos moos pobres que a procuravam, e por mais duma vez tirava muitos deles de aperturas financeiras. Era uma mulher limpa, que adorava os perfumes ativos e as cores 
berrantes. Em sua casa, dum asseio impecvel, viam
se por todos os cantos vasos de flores artificiais; na sala de visitas. em que havia uma abundncia de almofades de cetim de tons vivos, estava entronizada uma 
imagem do mrtir So Sebastio.
Rosinha sabia receber os fregueses, obsequiando-os com um clice de licor de buti e com bolinhos de polvilho. Nunca os levava para o quarto sem antes entret-los 
na sala de visitas com uma conversao bem-educada, e jamais se deitava com eles sem primeiro apagar a luz. E quando algum rapazote de quatorze ou quinze anos vinha 
procur-la, ela o repelia, escandalizada, e mandava-o embora depois de pregar-lhe um sermo.
Jos Lrio era grande entusiasta da Rocinha Peito-de-Pomba e mais duma vez Rodrigo ouvira do amigo esta opinio: " uma verdadeira dama.
,.
Agora, na vizinhana da casa dos cinqenta, Rosa Branco vivia amasiada com o Marcelino Veiga e era-lhe - todos sabiam - duma fidelidade verdadeiramente conjugal.
Rodrigo gostava de conversar com essa espcie de clientela. As prostitutas lhe faziam confidncias e pediam-lhe conselhos. E como ele recusasse terminantemente cobrar-lhes 
as consultas e os tratamentos ("Havia de ter graa, madrinha, eu receber dinheiro dessas chinas!") elas lhe mandavam presentinhos, lenos de seda com as iniciais 
R. C. bordadas a um canto, gravatas, cestos com ovos, cocadas, pastis .. .
Um dia,  hora do almoo, Rodrigo reproduziu para a tia um dilogo interessante que mantivera aquela manh no consultrio com uma de suas "cortess". Maria Valria 
escutou-o em silncio e por fim disse: "Agora s falta voc trazer uma dessas piguanchas pra almoar aqui em casa." Para escandalizar a madrinha, kodrigo replicou: 
"Por que no? So mulheres muito limpas e direitas. E fique sabendo duma coisa, Dinda, nunca me faltaram com o respeito."
Mas naquela tarde a moreninha que vivia com um filho do Joca Prates tentou seduzi-lo  hora da consulta: Rodrigo repeliu-a com jeito, com um sorriso paternal e indulgente 
de quem quer dizer: "Ora vamos deixar dessas bobagens, menina." A rapariga retirou-se, mal podendo conter o despeito, e Rodrigo voltou para casa contente consigo 
mesmo, orgulhoso de seu autodomnio, que lhe permitira manter a tica profissional pois, que diabo! a rapariga era nova e bonita, uma morena bem-feita de corpo, 
com um sinal preto na face esquerda e uns olhos travessos. Quando, porm, voltou ao consultrio, dois dias depois, a morena repetiu o assdio, beijando-o na boca 
no momento em que ele baixava o rosto para auscultar-lhe o corao. (Mas no  que esta diabinha est me provocando mesmo?) Rodrigo achou que aquilo era um abuso 
e
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#326        O RETRATO

que, afinal de contas, ele no era de ferro. Agarrou a cliente com uma fria de canibal e atirou-a para cima do div.
Naquele dia voltou para casa numa confuso de sentimentos. Estava um pouco decepcionado consigo mesmo por ter fraquejado e ao mesmo tempo contente por no haver 
perdido a gostosa oportunidade. Por outro lado esforava-se para no dar ouvido a uma voz interior, que lhe sugeria num cochicho malicioso que a profisso mdica 
estava cheia de oportunidades erticas como aquela. Como para afugentar o demnio ntimo, ps-se a cantarolar um trecho de Von Supp. Entrou em casa, tomou um banho 
de chuveiro, vestiu-se, gritou sorrindo para o Bento que "atrelasse os corcis  carruagem" e poucos minutos depois estava passando de carro pela frente da casa 
de Aderbal Quadros. Flora achava-se a janela, toda vestida de branco, e como de costume ficou ruborizada ao cumpriment-lo.
Em casa, aquela noite, Rodrigo fez um silencioso mas solene voto de castidade. E, para se fortalecer em sua resoluo, pediu o auxlio de Caruso, Amato e Tamagno, 
que ficaram boa parte do
t        sero a cantar para ele suas rias mais hericas.
Desde que chegara a Santa F, de volta do Angico, Rodrigo raramente se erguia da cama antes das nove da manh. Esse hbito irritava Licurgo que, antes de partir 
para a estncia, advertira:
- Acho que o senhor anda levantando muito tarde. Isso noo est direito.
Rodrigo sabia que o levantar da cama cedo era parte importantssima do ritual daquela ferrenha religio do dever e do trabalho, professada por gente da tmpera de 
seu pai e de Aderbal Quadros. Achavam esses dois gachos ortodoxos que um homem deve trabalhar de sol a sol e que h algo de desonroso e indecente no dormir at 
tarde, pois isso sugere noite de orgia, vcios condenveis, vadiagem e falta de fora de vontade; , em suma, um pssimo hbito que atrasa a vida das pessoas ao 
mesmo tempo que lhes solapa o carter.
No entanto, agora que o pai se encontrava no Angico, Rodrigo, que nunca conseguia dormir antes da uma da madrugada, s deixava o quarto, na manh seguinte, depois 
das nove. Dessa hora em diante seguia uma norma para ele docemente agradvel e que. .muito nova, no tinha ainda o carter ranoso da rotina.
Descia para a cozinha e l tomava dois ou trs mates com a tia e Laurinda. Depois bebia uma pequena xcara de caf simples,
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sem o que noo podia fumar, e se dirigia para a farmcia, onde ficava a atender os clientes at as onze, hora da roda de chimarro,  qual compareciam invariavelmente 
o Chiru, o Neco e Don Pepe, e na qual se falava principalmente em mulheres e poltica. Nos momentos em que noo estava a dizer mal do clero e da burguesia ou a derrubar 
cabeas coroadas, Pepe Garcia era um conversador pitoresco .que sabia narrar com verve suas viagens pelo mundo e suas experincias com "esos animalitos singulares 
llamados mujeres". Chiru vendia seus campos imaginrios ou ento dissertava sobre os fabulosos tesouros dos jesutas que haviam de trazer-lhe a independncia financeira 
para o resto da vida. No raro aparecia para chupar apressadamente um chimarro o Dr. Matias, e ao se retirar enchia os bolsos de almanaques e figurinhas, que costumava 
distrb~uir com grande sucesso entre seus clientes. O prprio Tte. Rubm uma vez que outra entrava na roda das onze, embora" se recusasse a participar do chimarro, 
por achar aquilo uma coisa "anti-higienicamente promscua" - observao que deixava Chiru Mena profundamente ofendido.
Rodrigo detestava comer sozinho, e era raro o dia em que no tivesse um convidado ou dois  mesa. Chiru, no dizer de Maria Valria, estava ficando um verdadeiro 
"fregus de caderno". J pela manh, antes de sair, Rodrigo entrava na cozinha e comeava a abrir e cheirar as panelas, perguntando: "Que  que vamos ter pro almoo 
Laurinda?" Dava sugestes, pedia pratos especiais e quase sempre, insatisfeito com o que a mulata preparava, abria viros de azeitonas recheadas, latinhas de pt 
de fole gras, de sardinhas portuguesas ou anchovas e comia esses hors-d"aeuvres antes, durante e s vezes depois do almoo ou do jantar. E, aproveitando a ausncia 
do pai - que s voltaria ao Sobrado em princpios do inverno -tomava sempre s refeies uma garrafa de vinho francs ou italiano. Quando via Chiru beber Chianti 
ou Mdoc em longos sorvos, protestava:
- Isso noo  gua, animal! Vinho se bebe aos pouquinhos, degustando bem. Assim... Ests vendo, selvagem?
Chiru sorria, olhava para Maria Valria, sacudia a cabeorra leonina, dando a entender que perdoava tudo a Rodrigo porquc lhe quera muito bem.
-~ O Lucas era tambm um dos convivas habituais dos jantares do Sobrado. Fazia horrores  mesa, simulava comer o guardanapo, os talheres, contorcia o rosto nas caretas 
mais grotescas. Rodrigo ria-se no porque achasse muita graa nas momices do tenente de obuseiros, mas porque queria ser-lhe simptico. Maria Valra, essa ficava 
a cozinhar o convidado com seu olhar fixo e frio, o rosto absolutamente srio. As vezes o mais que dizia era: "Muito riso, pouco siso." Como ltimo ncnrso, Lucas 
escondia o rosto
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nas mos e desatava num simulacro de choro, soluando convul vamente
Um domingo Rodrigo teve  mesa do almoo o Cel. Jairo e esposa. O positivista apreciou os vinhos, saboreou o jantar, falo em Augusto Comte, nos grandes couraados 
que o governo havi adquirido - o lbfinas Gerais e o So Paulo, uma honra para nossa Marinha! - e,  sobremesa, ps-se a elogiar Rodrigo, a con lar-lhe o que ouvira 
na cidade a seu respeito. Era um grande me dito - dizia-se - um grande carter e um grande corao!
- O senhor, Dr. Rodrigo, professa, talvez sem o saber, a re ligio positivista. Vive para os outros, altruisticamente, cultvand a famlia, a ptria e a humanidade.
Fez um largo gesto com a mo que segurava o clice do Borgonha. Enquanto o marido falava, prosseguindo em seus ditiramtos, Carmem Bittencourt ali continuava calada 
e tristonha, tod vestida de escuro, com um solitrio a faiscar-lhe num dos magro dedos. Rodrigo lanava-lhe de vez em quando olhares furtivos No queria demorar 
nela os olhos, temendo que o coronel gudes ach-lo impertinente. Era-lhe, porm, agradvel mirar aquele rost duma beleza meio apagada, a qual lhe lembrava estranhament 
certas nsperas que, de to maduras, esto a pique de se tornarem murchas mas que apesar disso ou, melhor, por isso mesmo perdem a acidez, e so duma doura e maciez 
deliciosas.
Seria tsica, como se murmurava? Rodrigo imaginou-se a encostar o ouvido naquele descarnado peito. Diga trinta e trs, minha senhora. Trinta e trs. Trinta e trs. 
No diga mais nada. Diga s se  feliz. Fale a verdade. Um mdico  como um sacerdote. Abra a sua alma. Abra o seu corpinho. Que seios, que mos, que lbios gelados! 
O senhor me perdoe, Dr. Pasteur, mas h ocasies em que no acredito em bacilos.. .
Quando deu acordo de si estava a olhar fixamente para a mulher de Jairo Bittencourt, o qual naquele momento lhe perguntava
- Ento, j leu o Systme de Politique Positive que lhe emprestei ?
- Ah! No, coronel. Ainda no tive tempo. O senhor noo imagina como tenho trabalhado naquele consultrio!
Uma vez por semana Laurinda fazia sua famosa feijoada completa. Nessas ocasies Rodrigo convidava Chiru, Neco e Don Pepe. A presena desses amigos como que lhe fazia 
o apetite redobrar. Tinha-se a impresso de que para aquele quarteto comer no era apenas uma coisa necessria e gostosa, mas de certo modo tambm humorstica.
A feijoada como que possua a virtude de despertar-lhes uma espcie de erotismo verbal. Enquanto a comiam com gulosa pressa,
pepe recordava anedotas fesceninas de frades em torno de estmago e sexo, comidas e mulheres. Contava-as, lambendo os bigodes, nos momentos em que Maria Valria 
se retirava da sala de jantar para ir buscar alguma coisa ou dar alguma ordem  cozinha. E quanto mais comiam. mais fome pareciam ter e mais disposio para contar 
histrias escatolgicas. Rodrigo nunca provocava esses torneios frascrios e quando Neco ou Chiru se lanavam a ele, queria convencer-se a si mesmo de que aquelas 
porcarias lhe feriam a sensibilidade refinada de civilizao. Soltava, porm. gargalhadas gostosas s piadas dos outros, e por fim ele prprio comeava a contar 
suas anedotas, usando de circunlquios e eufemismos quando a madrinha se encontrava  mesa.
Rematavam a feijoada com caninha, "pra consertar o estmago", e depois ficavam jiboiando, numa sonolncia feliz e meio estpida. Neto Chiru e o espanhol retiravam-se 
do Sobrado e, com os olhos j pesados de sono, Rodrigo subia para o quarto. Como de costume, atirava-se na cama e dormia sem tardar.
Acordava por volta das trs, com a lngua pastosa, a cabea pesada e uma vontade rabugenta de brigar com todo o mundo. Tomava um cafezinho, acendia um cigarro e 
voltava para o consultrio, onde ficava at s cinco e meia ou seis.
8
A parte mais amorvel de sua rotina incipiente era a descid da Rua do Comrcio, s seis e meia da tarde, rumo da casa da namorada. Parava sempre que encontrava 
amigos no caminho. Tinha o cuidado de deter-se junto da janela  qual Emerenciana Amaral estava debruada e ali ficava, por cinco slidos minutos, a conversar com 
a matrona, a dizer que ela estava de muito boa aparncia, e a recusar sempre os convites que ela lhe fazia para entrar, "pois eu j disse ao Alvarino .que vocs 
tm que acabar com essas bobagens de poltica e fazer as pazes".
Dona Emerenciana queixava-se invariavelmente de pontadas, palpitaes e dizia mal do Dr. Matias, que nunca acertava com um remdio para seus achaques.
No mnimo trs vezes por semana Rodrigo entrava na Funilaria Vesvio, do italiano Camerino, um homem relato, de nariz vermelho de palhao, espessos bigodes castanhos 
- a nica pessoa em Santa F que era vista a comer tomates maduros s dentadas, como quem come uma pra ou uma ma. Dante, o filho do funileiro, havia instalado 
na pequena sala da funilaria sua cadeira de engraxate. O italiano noo cansava de contar a Rodrigo que
#33O
seu bamino estava juntando dinheiro para custear futuramente estudos.
Rodrigo um dia perguntara ao menino.
- Que  que vais ser quando fores grande?
- Doutor - respondera Dante lustrando as botinas do "mo o do Sobrado".
- Advogado?
- No. Doutor de curar gente.
Tinha dez anos, um par de olhos vivos e uma cara redonda de feies agradveis, em que o vermelho das bochechas carnuda era realado pelas manchas escuras de pomada 
e tinta de sapato qu 1}.e riscavam as faces.
Rodrigo dava-lhe sempre gorjetas generosas e tinha um praze especial em passar a mo pela cabeleira hspida do guri, dizendo:
- Dante Camecino, bello bambino, bravo piccolino, futura dottorino!
Dia sim, dia noo, Rodrigo entrava na barbearia do Neco, sentava-se na cadeira, fechava os olhos e entregava o rosto ao seresteiro, que ele continuava a considerar 
o pior barbeiro do planeta. E, enquanto a navalha lhe cantava nas faces, ouvia o Neco contar as "ltifias", narrar alguma farra da noite anterior, noticiar . a chegada 
de alguma rapariga nova ou ento cantarolar modinhas em voga, Conheces esta, Rodrigo? "Quisera amar-te, mas no posso, Elvira, porque gelado tenho o peito meu." 
 um schottish supimpa! E esta? "A Europa curvou=se ante o Brasil e clamou parabns e1n meigo tom." E a respeito do Santos Dumont, o inventor do aeroplano. A modinha 
 do Eduardo das Neves .. .
J estava comeando afazer parte tambm da rotina de Rodrigo debruar-se a uma das janelas do Sobrado no momento em que o velho Srgio, o acendedor de lampies, 
vinha chegando com a escadnha s costas. Era um negro alto e descarnado, de pele bronzeada, com um bigode, uma barbicha e uma certa finura de traos que lhe davam 
ares dum nobre etope. Desde menino Rodrigo ouvia a Laurinda afirmar que nas noites de sexta-feira o Srgio virava lobisomem e saa pelas ruas a uivar, entrando 
nos quintais para devorar galinhas. E ai de quem se atravessasse no seu caminho !
Quando Srgio encostava a escada no poste,  .esquina do Sobrado, Rodrigo de ordinrio mantinha com ele demorados dilogos, e nunca deixava de atirar-lhe um nquel 
de quatrocentos ris, que o preto aparava com o seboso chapu de feltro, ficando l embaixo a fazer mesuras e a resmungar, de olhos postos no cho, como se estivesse 
falando com uma terceira pessoa. "r como eu digo. O Dr. Rodrigo no  soberbo. Conversa com os pobres. E como eu digo. Um moo de senhoria e distinta conside*ao."
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Rodrigo sempre tivera curiosidade de conhecer a vida ntima daquele vulto espigado que ao anoitecer andava pela cidade de poste et~,i poste a prender fogo nas mechas 
dos lampies. Que ser do Srgio quando vier a luz eltrica? - pensava, s vezes.
E uma noitinha, estando em vea romntica, ao ver o negro no alto da escada, perguntou-lhe:
- Srgio, ser que existe no cu algum encarregado de acender as estrelas todas as noites?
O lobisomem ficou por um instante em grave silncio e depois, voltando a cabea, respondeu:
- H sim, senhor. So os anjos de Deus, Pai de ns todos.

Durante algumas semanas, Rodrigo freqentou quase todas as noites o clube, onde passava as horas a jogar pquer com amigos. Era mau jogador, no tinha sorte e invanavelmente 
perdia. Voltava para casa vagamente inquieto, pois percebia que, se continuasse a encher as noites daquela forma, acabaria irremediavelmente dominado pela paixo 
do jogo. Conhecia-se bem e sabia que esse era um de seus fracos. Se se entregasse de novo  fascinao do pano verde (em Porto Alegre durante todo um ano fora escravo 
da roleta, na qual perdera um dinheiro) sua vida estaria arruinada e seus mais belos planos iriam guas abaixo. Era por isso que agora, ao anoitecer, fazia o possvel 
para resistir  tentao de ir ao clube. Convidava amigos para virem ao Sobrado, abria latas de conserva e garrafas de vinho, punha o gramofone a funcionar e tratava 
de interessar-se pela palestra dos visitantes.
Quando no aparecia ningum - o que era raro - fechava-se no escritrio para ler. Tinha a ateno vaga. e dificilmente conseguia vencer mais de cinco pginas duma 
sentada. Lia muitos livros ao mesmo tempo. Alternava os romances de boulevard com obras mais srias. Moitas vezes largava La Chemise de Mme Ccapouillot para pegar 
La Vie de Jsus. s vezes tomava-se de brios profissionais e abria um tratado de Medicina, principalmente quando tinha em mos algum caso difcil que lhe exigia 
conhecimentos especializados. Mas acabava bocejando e fechando o livro. Aquilo era supinamente cacete. A Medicina que fosse para o diabo!
9
Em meados de abril recebeu de Paris os primeiros nmeros de L"lllustration. Folheou-os avidamente, com um prazer no s visual mas tambm ttil e olfativo, pois 
era com volpia que passava a mo espalmada sobre o papel gessado da revista e aspi-
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rava-lhe o cheiro de tinta. No fim de contas, aquilo era um pc dao de sua querida Paris que lhe chegava pelo correio!
Um daqueles nmeros trazia no frontispcio um desenho q representava Chantecler (M. Guitry) apoiando com a asa La Fai sane (Mme Simon) a qual, perseguida pelo Co 
Briffaut, refu giara-se num canto no terreiro e agora estava desfalecida nos "bra os" do Galo.
Rodrigo leu com avidez o artigo em que se descrevia as perr p~cias que precederam a mise-en-scne de Chantecler, os poliu sociais e literrios de Paris a propsito 
da pea, as discusses d Coquelin com Edel, o desenhista de figurinos, em torno das difi culdades surgidas com relao aos costumes. Que fazer da cabea" dos artistas? 
Conservar-lhes os rostos? E os braos... deix-los livres ou dissimul-los sob as asas? Mas seria possvel para um co mediante recitar seu papel sem gesticular? 
Coquelin afirmava que no. Um dia estava ele a tomar seu banho quando Edel chegou. Comearam a falar no Chantecler e o ator, tomado de entusiasmo, ps-se a recitar 
o Hino ao Sol. Ao terminar, perguntou: "Hein? No  bonito? Que dizes. Edel?" O desenhista respondeu: "Digo que acabas de me fornecer a prova que eu procurava h 
tanto tempo. Recitaste magnificamente o Hino ao Sol sem tirar os braos de dentro dgua! Est provado que se pode declamar sem gestos!"
Rodrigo estava encantado com a oportunidade de participar das: conversas de bastidores, penetrar na caixa do teatro Porte SaintMartin, espiar para dentro dos camarins 
e ver atores e atrizes a se meterem naqueles grotescos costumes que os transformavam em enormes galos, galinhas, faises, melros, ces e mochos - que ali estavam 
maravilhosamente reproduzidos em cores nas pginas d h"tllustration.
Mergulhou fundo na leitura do primeiro ato da pea, que vinha transcrito integralmente no nmero 12 de fevereiro. Leu das sete e meia da noite at s onze. Ao fechar 
a revista, sentiu de sbito, pesada e angustiante como nunca, a solido do Sobrado. Caminhou at a janela, como que sufocado, numa busca de ar. Era uma noite de 
lua nova, pobre de estrelas, e s a luz tbia - dos lampies alumiava as ruas. Um ventinho em que j se sentia um precoce calafrio de inverno, remexia as folhas 
secas no cho da praa. No se via vivalma naquelas redondezas.
Rodrigo comeou a andar pelo escritrio, dum lado para outro, mascando um cigarro apagado. Dinda estava fechada no quarto. A criadagem, dormindo. Por onde andariam 
quela hora os pates do Chirn, do Neco e do espanhol ? ~ Teve mpetos de gritar. A vida que levava era a mais estpida que se podia imaginar. Para onde quer que 
se voltasse, s via homens: na farmcia, no Sobrado, no clube. S machos, machos, machos! Precisava casar, ter mu
lher em casa. carinho, filhos, calor humano, aconchego ... Detestava aquela solido. L"lllustration lhe havia trazido imagens de paris, ecos da vida da Cidade Lnz: 
Damas em vestidos de noite, envoltas em peles, faiscantes de jias, perfumadas e belas, dentro de automveis  sada de teatros: homens de casaca, chapu alto, sobretudos 
de astrac... Cancs no 11~Ioulin Rouge. Museus, livrarias. cafs. A boemia intelectual da Rive Gauche. Canes alegres, ditos espirituosos, gente civilizada e interessante. 
Vida, enfim! Que tinha ele ali em Santa F? A civilizao da vaca, do sebo, do charque. A boalidade, a banalidade, a rotina, a pobreza de esprito, o atraso dum 
sculo! Ou vou para Paris o ano que ~-em ou me caso. Ou fao as duas coisas. Ou meto uma bala nos miolos.
Apanhou o chapu e saiu. Desceu a Rua do Comrcio, monologando sobre suas tristezas. Parou  frente do clube, pensou num joguinho de pquer, mas reagiu contra a 
idia e continuou a andar. Entrou na Confeitaria Schnitzler e sentou-se a uma mesa, na sala deserta. Quando Marta se aproximou, pediu-lhe algo de comer. A moa trouxe 
um sanduche, especialidade da casa: rodelas de presunto e mortadela entre duas grossas e largas fatias de po de centeio barradas de manteiga. Rodrigo gritou:
- Uma cerveja preta!
Deu uma dentada no sanduche e comeou a mastig-lo com uma pressa gulosa. Encheu o copo de cerveja e bebeu. Podia estar bebendo vin blanc e comendo iguarias esquisitas 
num caf-concerto de Paris. Imaginou Marta vestida como as bailarinas de canc: as pernas modeladas por meias de seda preta, um bom palmo de coxa branca  mostra, 
juntamente com as ligas, as calas de renda ... Rodrigo olhava cupidamente para a filha do confeiteiro, que estava recostada ao caixilho da porta do corredor. Num 
dado momento teve a impresso de que Marta lhe sorria de modo significativo. E como ela em seguida fizesse meia-volta e se encaminhasse para o fundo do corredor 
sombrio, ele noo hesitou sequer por nm segundo. Ergueu-se, apressado, e seguiu-a. L estava o vulto claro da alemzinha ... Rodrigo avanou, enlaoulhe a cintura, 
apertou-a contra a parede e bcjou-lhc avidamente a boca. Marta entregou-se sem a menor resistncia. Rodrigo sentiu nas suas o calor das faces dela. E j sua mo 
comeava a explorar o corpo da rapariga, quando algum riscou um fsforo. Voltando-se num sobressalto, Rodrigo viu,  luz da minscula chama, a cara de Jlio Schnitzler.
- Ah, doutor! Isso no se faz!
Soltou Marta, que se precipitou para o salo da confeitaria. Na penumbra mal se distinguia o vulto do confeiteiro.
#334        O RETRATO

Rodrigo encaminhou-se em passos firmes e dignos para o salo. Ao passar por perto do outro, pensou: Agora ele vai me agarrar ... Schnitzler, porm, no se moveu. 
Sem olhar para trs, Rodrigo aproximou-se de Marta.
- Quanto ?
- Quatro mil-ris.
Meteu nas mos da moa uma cdula de dez, voltou-lhe as costas e saiu da confeitaria sem dizer palavra. O vento fresco da noite bateu-lhe em cheio no rosto. Foi 
bom o alemo ter aparecido - refletiu - seno, podia ter acontecido o diabo .. .
Levava, porm, um sentimento de derrota e estava furioso consigo mesmo, principalmente por ter tratado to mal a alemzinha  sada.
Ao chegar  casa subiu logo para o quarto e meteu-se na cama. Custou-lhe um pouco dormir. Teve um sonho confuso: andava de gndola pelas ruas inundadas de Paris 
... Na proa ia um vulto que lhe parecia ora Flora Quadros ora Marta Schnitzler. A Torre Eiffel erguia-se acima do casario, imensa e ereta. O velho Srgio, vestido 
de galo, andava acendendo as luzes de Paris. E Rodrigo achava estranho que o Sobrado estivesse na Place de 1"toile, o que afinal de contas tornava Paris conveniente 
mas prosaica. O gondoleiro (seria o Schnitzler?) cantava uma cano que ele se esforava por identificar mas noo conseguia .. .
Abriu os olhos e continuou a ouvir a voz do gondoleiro. Aos poucos identificou, na penumbra, a silhueta familiar dos mveis do quarto.
A voz vinha da rua. Uma serenata! Desperto, Rodrigo sentou-se na cama. Reconheceu o vozeiro do Neco. Ps-se de p, caminhou at a janela e ergueu a glhotina.. 
L estava o barbeiro, a dedilhar o violo e a cantar

Quisera amar-te mas noo posso, Elvira Porque gelado tenho o peito meu.

Saturnino acompanhava-o com trmolos de flauta. No vulto ao lado do ecnomo, Rodrigo reconheceu Chru. Inclinou-se sobre o peitoril e gritou:
- Que bobagem  essa serenata em noite sem lua?
Neco Rosa calou-se. Por alguns instantes s se ouviram os trinados da flauta do Saturnino. Por fim este tambm cessou de tocar.
- Ns noo cantamos pra lua, homem! - replicou Chiru. - Cantamos pras moas. Desce e vem com a gente! - Que horas so?
- Uma e pouco. r cedo.
- Esperem que j deso.
Vestiu-se s pressas e foi reunir-se aos amigos. - Aonde  que vamos? - perguntou.
- Vamos primeiro fazer uma serenata pra Esmeralda... Rodrigo encolheu os ombros. O itinerrio pouco lhe impor
tava. O essencial era fazer alguma coisa aquela noite, fosse o que
fosse.
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CAPITULO XVII
1
EM FINS DE ABRIL Rodrigo recebeu nm chamado que o deixou em alvoro. Aderbal Quadros telefonou uma tarde, pedindo-lhe fosse ver sua mulher, que estava de cama, 
com uma pontada noa rins.
Babalo recebeu-o  porta com uma cordialidade que muito ~ desvaneceu, e levou-o imediatamente ao quarto do casal. D. Laurentina achava-se recostada em travesseiros, 
em cima da cama, mas completamente vestida, com um xale de l sobre os ombros. Era uma senhora de meia-idade, e seus cabelos negros e lisos, entre os quais se viam 
raros fios brancos, estavam puxados para trs, num coque. Seu rosto, de expresso severa mas serena, lembrava o duma esttua que tivesse sido talhada naquela pedra 
morena das caladas de Santa F.
Au entrar, Aderbal gracejou:
- Preciso le avisar, doutor, que a Titna no acredita no senhor como mdico .. .
.Laurentina apertou a mo do recm-chegado:
- Como  que vou acreditar, se j peguei ele no colo? Rodrigo tratou com carinho a me de Flora: sentou-se na beira
da cama, enquanto lhe tomava o pulso, fez-lhe perguntas nesse
tom que os mais velhos usam para com as crianas quando que
rem convenc-las de que esto sendo tratadas como gente grande. - Aposto como est doente porque fez alguma travessura! -
sorru, ao pr-lhe o termmetro debaixo do brao. - Conte aqui
em segredo pro seu amigo de infncia...
Laurentina permanecia sria e calada, fitando no doutor seus
olhos descrentes e dando a entender que se prestava a todas aque
las coisas apenas para contentar o marido.
- Eu disse pro Aderbal que no era preciso chamar mdico.
J estou melhor. Acho que  dos rins.
- Agora vamos ver, D. Laurentina. Fique bem quietinha. Tirou- o termmetro e ergueu-o contra a luz. - timo! No tem febre.
- Ests vendo, Aderbal?
Rodrigo comeou a apalpar a cintura da paciente.
- Agora me conte um segredo. Que foi que a senhora andou fazendo de ontem pra c? Fale a verdade.
Ela hesitou por um instante.
- No andei fazendo nada, ora essa!
Rodrigo ergueu os olhos para Aderbal, que picava fumo tranqilamente ao p da cama.
- Ontem essa mulher lavou o soalho e andou descala na umidade.
Rodrigo deu uma palmada na prpria coxa:
- A est! Logo vi. Por castigo agora tem de ficar uns dias de resguardo na cama, debaixo das cobertas.
- No posso! Tenho muito que fazer.
- No tem fun-fun nem fole de ferreiro! So ordens que estou lhe dando. Tem tomado algum remdio caseiro?
- Ch de pata-de-vaca.
- Pois continue com o seu chazinho e tome mais as cpsulas que vou lhe receitar.
Fez uma prescrio, recomendou uma dieta e, dando como encerrada a consulta, puxou outros assuntos, noo s porque lhe era agradvel conversar com os pais da Flora, 
como tambm porque desejava prolongar a visita, na esperana de ver a moa. Babalo falou nas suas estncias, no seu gado, nas suas roas. Saltou de= pois para a 
poltica e contou os atos de violncia e arbitrariedade que presenciara na mesa eleitoral em que votara. Era, como Licnrgo, um velho castilhista desiludido com o 
partido.
- r a sina deste pobre pas! - exclamou. - Os homens de honra e saber nunca vo pro governo. A morte do Dr. Jlio de Castilhos foi um desastre pra toda a nao.
Tinha uma voz lenta e por assim dizer quadrada. Falava dum jeito seco: noo pronunciava ris, mais e pois e sim rs, ms e ps. Pitoresco contador de causos, sua 
pachorra era famosa na cidade. Enfrentava as situaes mais difceis e embaraosas com uma calma imperturbvel. Jamais perdia as estribeiras e tinha sempre nas conjunturas 
mais dramticas um dito chistoso, e nas maiores desgraas uma serena atitude filosfica. Havia pouco, Cuca Lopes encon-" Irara-o na rua e gritara: "Seu Babalo, a 
coisa est preta. O cometa vem a e diz que o mundo vai acabar!" Aderbal Quadros
- Di aqui?
- Um pouco.
- E aqui ?
- Tambm.
-  a primeira vez que sente essas pontadas 7
- No.
#3 3 8        O RETRATO
CHANTECLER        339
parou, tirou uma palha de trs da orelha e respondeu : "Ser q ainda d tempo pra eu pitar um crioulo?"
Homem de estatura me e constituio slida, tinha uma faa mscula e um tanto angulosa, duma tonalidade de marfim antigo. O nariz era fino e nobre e seus:: olhos 
escuros e meio amendoados.. estavam quase sempre tocados dum brilho risonho e malicioso, mesmo quando a boca carnuda, dum vermelho enxuto e pardacento, permanecia 
sria. Recm-entrado na casa dos cinqenta, o cabelos j se lhe faziam ralos, e nos bigodes e na pra comeavam a apontar fios prateados.
Rodrigo olhava com simpatia para aquele homem que ali estava em mangas de camisa, bombachas de riscado, chinelos sem meias e que, mesmo dentro de casa, conservava 
ordinariamente o chapu na cabea.
Ouviu-se um rumor de passos no corredor. Rodrigo ficou alerta, em alegre antecipao, esperando que Flora entrasse a qualquer minuto. Os passos, entretanto, apagaram-se 
e a porta do quarto permaneceu fechada.
Malditas convenes sociais! Por que noo posso dizer claramente a estas duas simpticas criaturas que estou apaixonado pela Flora e que desejo casar-me com ela? 
Pro diabo as convenes! Levantou-se e disse:
- Talvez este noo seja o momento oportuno, mas h muito desejo dizer uma coisa ao senhor, seu Aderbal, e  senhora, D. Laurentina .. .
Fez uma pausa, um tanto embaraado, porque no silncio do quarto teve a impresso de que suas palavras continuavam soando no ar, como se houvessem sido pronunciadas 
por uma quarta pessoa e ele ainda as escutasse, achando-as tolas e improvveis.
- No farei rodeios, irei direito ao assunto. Gosto muito de Flora e mnhas intenes para com ela so as mais srias... e nem poderia ser de outro modo.
Laurentina mirava-o com uma expresso ptrea. Babalo amaciava vagarosamente as partculas de fumo depositadas no cncavo da mo, como se, indiferente s palavras 
do visitante, tivesse toda a ateno concentrada no crioulo que fazia.
- Estou com vinte e quatro anos, tenho uma profisso certa e noo  nenhum segredo que perteno a uma famlia de posses. Sei que isso no  tudo. Para um homem como 
o senhor, seu Aderbal, isso talvez at no seja nada. No me compete falar de mnhas qualidades pessoais, do meu carter. Cometi muitos erros e sei que nem sempre 
tive um comportamento exemplar. Mas asseguro-lhes, sob palavra de honra, que hoje sou um homem diferente, que estou encarando a vida com a maior seriedade. Preciso 
e desejo casar, ter uma esposa e um lar. No apenas porque minha
profisso exija que eu seja casado, mas porque meu corao se inciina para o casamento, e principalmente porque tenho uma afeio muito grande pela Flora...
Calou-se. Estava comeando aficar comovido com suas prprias palavras. Sentiu a testa mida de suor e ficou meio decepcionado por no notar no casal Quadros nenhuma 
reao particular ao seu discurso. Esperava. que Babalo o abraasse, num mpeto de cordialidade, exclamando: "No pode haver partido melhor pra minha filha!"
Naquele instante, Aderbal colocava o fumo picado sobre a palha. Enrolou o cigarro, levou-o  boca, bateu nos bolsos  procura do isqueiro e, como no o encontrasse, 
olhou para Rodrigo:
- Me d o fogo.
Acendeu o cigarro e soltou algumas baforadas, como se nada de extraordinrio estivesse acontecendo. Rodrig(r) esperava, com uma incmoda sensao de frio interior. 
Era como se houvesse acabado de defender uma tese e agora esperasse o veredicto duma banca examinadora inescrutvel.
Por fim a voz grave e descansada de Babalo encheu o quarto:
- Ps me alegro, Rodrigo. Sou amigo do Licurgo ds do tempo que eu era pi de estncia e passava com meu pai l pela Angico, levando tropas pra Passo Fundo e Soledade. 
Le conheo desde criana. E isso de ter feito farras  coisa que acontece pra qualquer um. Eu no fiz porque no tive tempo, trabalhava de sol a sol, meu pai me 
trazia num cortado lco. - Sorriu, seus olhos travessos se apertaram e luziram. - Agora estou velho dems pra comear.
Voltou-se para a mulher.
- Ps ns fazemos muito gosto, noo , Titina?
No se moveu um nico msculo na face da mulher. Por um segundo, Rodrigo se sentiu perdido,como um ator que no meio da pea tivesse esquecido o papel.
- Pois bem - disse por fim - eu lhe peo, seu Aderbah que, depois que eu sair, fale com a sua filha. Se ela corresponde  minha afeio, quero que o senhor me d 
licena pra freqentar a casa .. .
- J? - deixou escapar Laurentina.
- E por que no? Creio que conheo Flora o suficiente... No h razo pra termos de passar por todas essas fases tolas: o namorico de longe, a conversa ao p de 
janela, etc .. .
- O Dr. Rodrigo tem razo, Titina. No estamos ms em mil oitocentos e oitenta e ds.
Ps a mo no ombro do rapaz.
- O meu noivado com a Titina foi combinado entre o pai dela e o meu. Quando eu ia visitar a noiva, quem me recebia era
#34O        O RETRATO

o futuro sogro. A Titina ficava me espiando por uma fresta porta.
- Ficava coisa nenhuma! No seja gavola.
- S vi a noiva bem de perto no dia do casamento. - Apontou para a mulher. - Foi por isso que cometi esse erro!
Soltou uma risada, que tambm era lenta, clara e quadrada como a voz.
- Estamos em 191O - continuou - e no no tempo do
ariri. O Dr. Rodrigo no anda de carreta. Anda mas  de trem. Fez uma pausa e depois, num tom mais srio, prometeu: - Vou conversar com a Flora.
2
Rodrigo saiu feliz da casa dos Quadros. Atravessou a rua e teve a intuio de que Flora estava a espi-lo por trs da cortina duma das janelas. Voltou a cabea e 
verificou que no se enganava. Achou, entretanto, que seria mais delicado fingir que no a vira. Por isso noo a cumprimentou. Continuou a andar, trauteando o Loin 
du bal. Estava ganho o dia. Apressara de muitos mess o noivado. Flora evidentemente daria o sim, e dentro de breve ele estaria a fregi:entar-lhe a casa. Duas ou 
trs por semana? 7-rs. Teras, quintas e sbados. Um que outro domingo, tambm. Dali ao noivado seria um pulo; do noivado ao casamento, outro Fulo. Quando ele completasse 
vinte e cinco anos, em dezembro, poderia comemorar o acontecimento em companhia da esposa. Flora Quadros Cambar.
Ia to satisfeito da vida, que ao encontrar no meio da quadra u padre marista com quem viajara de Santa Maria a Santa F, abraou-o com uma cordialidade ruidosa, 
uma efuso que suas relaes com o homem noo justificavam.
- Mas onde  que se tem metido, Irmo Jacques?
- Oh, muito ocupado no colgio.
- Aparea l pelo Sobrado uma noite destas. V jantar com a gente. Quero lhe mostrar uns livros franceses e umas revistas que recebi de Paris. - Piscou-lhe o olho. 
- Tenho uns Borgonhas e uns Mdocs de .primeira ordem. Est-ce que vous n"aimez pas un bon verre de vin, hein?
- lblais oui! - exclamou o marisca. - Cectainement, mon cher docteur!
E ficou vermelhssimo, como se j houvesse bebido os vinhos do outro. Contou-lhe que o Colgio Champagnat progredia e seus lves j cantavam canes francesas. 
Connaissez-vous 1"histoire
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du petiz navire? Cantarolou os dois primeiros versos. Rodrigo noo conhecia. E Jacques Meunier, os olhos muito azuis a refletirem a claridade daquela tarde de abril, 
contou tambm que estava tratando de fundar um clube de futebol. Vous savez, Cruz Alta j tem um team, por que Santa F no pode ter tambm o seu, e muito melhor, 
hein?
- O senhor tambm vai jogar? - troou Rodrigo.
- Claro. Eu era o melhor center-forward da minha cidade natal.
- Conto com o senhor para ajudar o nosso sport club, sim?
Rodrigo prometeu-lhe tudo: prestigiar o novo grmio, ajudlo com dinheiro ... E se o Irmo Jacques quisesse, ele poderia at vestir uma camiseta colorida, uns cales 
certos e sair a dar pontaps numa bola!
Despediram-se rindo, com um forte e demorado abrao.
Pouco depois Rodrigo avistou Marco Lunardi, no momento em que o gringo saa da Casa Sehnltz, com um saco de farinha de trigo s costas.
- Atlas carregando o mundo sobre os ombros! - exclamou.
Ao ver o amigo, Marco largou o saco no cho e parou no melo da calada. Tinha os cabelos, o rosto e a roupa manchados de farinha. As calas de riscado estavam arregaadas 
at meia canela. Seus grandes ps rosados e encardidos achavam-se bem plantados no cho, dando uma impresso de equilbrio e solidez. Mais uma vez a beleza fsica 
daquele colono produziu em Rodrigo um cordial sentimento de inveja. Chegava a achar quase ofensivo que um diabo daqueles, nascido em Garibaldina, duma famlia de 
imigrantes, pudesse ser um to belo espcime humano. Parecia mais um ator caracterizado para representar o papel de colono do que um colono autntico.
- Como vai Garibaldina?
- Regular pra campanha.
- E quando  que vens pra cidade, homem?
- Quando puder comprar as mquinas pra fbrica.
- Quanto te falta ainda?
- Ah, muito dinheiro.
- Diga quanto.
- Uns dois contos e pico.. .
- Bagatela, Marco, bagatela.
Rodrigo estava exaltado, via tudo cor-de-rosa, bom, fcil.
- Bagatela pro senhor .. .
- Pelo amor de Deus no me chame de senhor.
Mirou o amigo, de alto a baixo:
- Pois manda buscar essas mquinas o quanto antes, homem! Te dou o dinheiro que falta.
342        O RETRATO
Marco sorriu. Parecia no saber se Rodrigo estava brincand falando srio.
r- Palavra de honra. Te dou o dinheiro. - Mas como?
~- Te empresto. Quando puderes, me pagas. Se no puderes,
no Aagas. Pronto. r- Mas doutor .. .
-- Doutor coisa nenhuma! Manda buscar essas engenhocas comea a fazer as tuas massas.
D colono sorria pelos olhos azuis, pela cara rosada; suas grau
des mos calosas pareciam sorrir tambm. No entanto continuav
mudo-
~- Aparece no Sobrado quando quiseres, que eu te dou
ararY1e-
- Eu assino uma letra.
~- No assinas coisssima nenhuma. No sou agiota. )estendeu a mo.
~- At logo, Marco Lunardi.
~- Estou com as mos sujas, doutor.
~- Deixa de bobagens. As mos dum homem honrado semesto limpas-
i`leste ponto quem se comoveu foi o prprio Rodrigo, pois os
olho$ do colono se embaciaram, e o seu pomo-de-ado ps-se subt e descer no slido pescoo vermelho.
Aertaram-se as mos demoradamente. Depois abraaram-se. Comosua cabea mal chegasse  altura do ombro do outro, Rodrigo noo pde deixar de aspirar o cheiro acre 
daquele corpo suado o que lhe deitou a perder a emoo do movimento.
3
Continuou a andar. A vida  boa. Flora me ama. Vou ajudar esse capaz a realizar um sonho.
$ntrou na Funilaria Vesvio. Deitado de bruos, os cotovelos fincados no cho, as mos a apoiar a cabea, Dante Came tino lia uma brochura. Rodrigo acocorou-se junto 
do pequenrt" engraxate e leu o ttulo do livro: Cinco Semanas em Balo.
~- Vou te dar todas as obras de Jlio Verne que tenho ent casa. Aparece por l no sbado e leva um cesto grande, ouvistel
Dante sorriu, pondo  mostra os dentes midos e limosos. Rodrigo passou-lhe a mo pela cabea. Dante Camerino, bello bambino, bravo piccolino, futuro dottorino.
CHANTECLER        343

- Engraxa o sapato, doutor? - gritou o funileiro, do fundo oficina.
_ Fica pra outro dia! De novo ganhou a rua.
Encontrou o Cuca  porta da Farmcia Popular. - Que  que h de novo? - Est feia essa histria do cometa. - Que histria, homem?
- Ento noo leste o Correio do Povo de hoje? Falta pouco tempo pro bicho aparecer. Esto dizendo que ou a Terra se espatifa ou ns morremos envenenados pelo rabo 
do bruto.
Rodrigo entrou no laboratrio, onde Gabriel tambm quis saber se o doutor achava possvel que o fim do mundo estivesse marcado para meados de maio. Vico o aprendiz, 
aproximou-se do patro e focou nele os olhinhos vivos de roedor.
Rodrigo tirou o chapu, sentou-se e ps-se a falar sobre o cometa de Halley, baseado num artigo de Camille Flammarion que lera em L"lllustration.
- Tudo quando se tem publicado at agora  considerado prematuro pelos cientistas, principalmente essas histrias que lam do envenenamento da humanidade e do fim 
do mundo. Em maio que vem haver um encontro do cometa de Halley com a Terra. Vico, v esquentar a gua pro mate! Nesse dia a cauda do cometa estar dirigida pra 
c. Se ela nos atingir, ficaremos submersos nesse apndice gasoso, compreendem?
- De que  feito o rabo do cometa? - indagou o Cuca, que de certo modo parecia encarar aqueles acontecimentos siderais como uma espcie de mexerico social do cosmos.
- ~ duma matria radiante muito rarefeita - explicou Rodrigo, felicitando-se intimamente por ter boa memria. - E o nosso planeta atravessar a cauda do cometa como 
uma bala de canho atravessaria uma cerrao de inverno, com uma velocidade de 1O6 OOO quilmetros por hora.
- Pomba!
- Mas esse encontro - esclareceu Rodrigo - s se ,dar se a cauda do cometa tiver uma extenso de mais de 23 milhes de quilmetros .. .


Ao chegar  casa contou  tia com mincias sua conversa com
os Quadros. Maria Valria escutou, imperturbvel.
- Para que tanta pressa em freqentar a .casa da ma? - Ora,  o meu jeito. No tenho pacincia pra esperar.
- Voc puxou foi pelo seu bisav. Tia Bibiana me contava
ou
da
pre
ap. Rodrigo era homem que fazia tudo fora de h a sempre com pressa, como se o mundo fosse acabar. Pois pra ele o mundo no acabou cedo mesmo? O
ao morreu antes dos quarenta. Decerto tinha algum pressen mento e queria aproveitar.
- Boa desculpa .. .
Naquelas primeiras semanas de maio Rodrigo notou em San F um absoluto desacordo entre o tempo e as pessoas. Os di eram tranqilos, duma beleza doce e madura, os 
cus distantes, crepsculos vespertinos longos. Pairava no ar uma paz lngui tocada de brumas douradas e sombras lilases. As pessoas, por andavam inquietas, moviam-se 
e falavam com nervosismo, nu expectativa de catstrofe. Claro, havia os descrentes que se ria daquelas tolas histrias de fim do mundo. Lembravam-se de o tras eras, 
outros cometas e vos temores. Esses continuavam a ver em paz. A maioria, porm, se fazia perguntas e no era poucos os que tratavam de reunir seus familiares, a 
fim de que hecatombe no os apanhasse separados. Os Teixeiras reuniramtodos na fazenda na esperana, talvez, de que o cataclisma pudes ser menos violentamente sentido 
no campo que na cidade. Homen que estavam projetando viagens por aqueles dias, adiavam-nas. Os, que se achavam fora de Santa F, apressavam-se a voltar parte. casa. 
Nas lojas, escritrios e reparties pblicas j no se traba lhava direito, e o cometa de Halley (a que Liroca insistia m chamar "cometa do Alves") era o assunto 
permanente de todas as rodas. Algum bravateou: "Que venha esse cometa. Mas  preciso que ele tenha muito caracu pra acabar com o Rio Grande!" O Padre Kolb nos seus 
sermes dizia no acreditar que Deus estivesse mesmo com tenes de "lquitar sua opta maknifka", mas. aconselhava os crentes a que, pelas- dvidas, se fossem preparnd 
para o pior. Assim, naqueles dias teve um nmero desusad d fiis no confessionrio. Mulheres piedosas acendiam velas para oa santos de sua devoo, fazendo as mais 
extravagantes promssas. Outras comeavam as visitas de despedida, corriam s casas d amigos e parentes. Nem todas - notava Rodrigo - se entregavam a isso com sinceridade, 
na crena absoluta de que o mundo fosse mesmo acabar. Em sua maioria diziam esses adeuses por ,precauo, porque sabiam por experincia prpria que as piores coisas 
podem aconteer. Muitas, entretanto, pareciam aproveitar a ocasio apenas para acelerar o passo da vida, de ordinrio. to" lento"t igual, pois o fim do mundo noo 
deixava de ser um assur}to fora do comum.
Alguns homens procuravam`-se para liquidar dvidas ou desfazer negcios; houve at mesmo uns dois ou trs casos de inim
CHANTECLER        345

gos que se reconciliaram. E Don Pepe, que paiecia querer arrogar - para o anarquismo o direito de destruir pessoas e coisas, comentou: "Quin sabe Dis aderi al 
anarquismo y quiete destruir el mundo con una bombita?"
4

D. Evangelina Mena, a tia de Chiru, veio um dia procurar Rodrigo ao Sobrado. Era uma velhinha muito asseada, com cara de querubim, cabelos completamente brancos, 
pele rosada e olhos claros. Tinha qualquer coisa de esquilo no jeito gil e vivo de andar, mexer a cabea e gesticular.
Viva sem filhos, vivia com aquele sobrinho, que levara para sua casa no dia em que o rapaz, aos dez anos, ficara rfo de pai e me. Chamava-lhe men "velocino de 
ouro" por causa de sua cabeleira cresp e loura, e tivera sempre para com ele mimos de av.
Ao completar vinte e um anos, Chiru entrara na posse da herana dos pais, mas antes de chegar aos vinte e cinco havia j perdido tudo em maus negcios e prodigalidades.
Desde o dia. em que seu "velocino de ouro" ficara sem vintm, tia Vanja passara a sustent-lo. Proprietria duma casinha  rua Voluntrios da Ptria, era tida como 
a mais hbil doceira e bordadeira de Santa F. Fazia bolos, doces, tortas e pastis pata casamentos, batizados e banquetes. Bordava colchas, toalhas, guardanapos 
e roupa branca para enxovais. Era assim que sustentava a casa e as vadiagens do sobrinho.
Desde criana Rodrigo sentia um enternecido fascnio por aquela criaturinha recendente a patchuli que costumava passar-lhe a mo pelos cabelos, murmurando: "De quem 
 esta bolinha de bano?" bano, ento, passou a ser para o menino Rodrigo uma palavra miste"~sa, inseparvel dos cheiros de tia Vanja, e do contato macio de suas 
mos. No havia em Santa F casa que Rodrigo gostasse mais de visitar que a meia-gua da tia de Chiru. " um verdadeiro brinco" diziam dela as comadres. Evangelina 
Mena muitas vezes  noite recitava para o "velocino de ourd" e para a "bolinha de bano" O Noivado do Sepulcro. Apagava a luz e, depois que via os dois meninos sentados 
direitnhos a seu lado_, como pintos sob as asas duma galinha, comecava:

Vai alta alua! na manso da morte J meia-noite com vagar soou;
Que paz tranqila! dos vaivns da sorte S tem descanso quem ali baixou.
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Tinha uma voz fina e melodiosa, que lembrava o som duma: caixinha-de-msica. Rodrigo sentia um calafrio na espinha quando o poema chegava a trgico final:

Quando cisonho despontava o dia, J desse drama nada havia ento, Mais que uma tumba funeral vazia, Quebrada a lousa por ignota mo.

Porm mais tarde, quando foi volvido Das sepulturas o gelado p, Dois esqueletos, um ao outro unido, Foram achados num sepulcro s.

Findo o recitativo, tia Vanja erguia-se, acendia o lampio e, ainda com lgrimas nos olhos, dava sorrindo aos dois meninos suas deliciosas balas de ovos.
Rodrigo sempre achara que tia Vanja era diferente de todas" as outras pessoas que ele conhecia. S mais tarde, ao voltar numas frias para casa, com o curso de preparatrios 
terminado,  que percebera, encantado, que a velhota falava como as personagens dos folhetins que lia cm tanta paixo. Tia Vanja era uma literatal
Rodrigo nunca esquecera o dilogo que, j moo, entreouvira no Sobrado entre Evangelina Mena e Maria Valria Terra.
- A senhora j viu o despautrio? - disse a primeira. - Uma matilha de ces andarengos anda infestando as ruas de nossa urbs. Urge aos poderes competentes tomar 
uma providncia enrgca, a fim de coibir o abuso.
A outra fez uma observao seca:
- ~ uma cachorrada braba, mesmo.
- Dar-lhes veneno seria crueldade, pois, como diz o anexim popular, maltratar os animais  indcio de mau carter. Alis os pobres irracionais no tm culpa de serem 
como so. Se o TodoPoderoso assim os fez, decerto  porque assim os quer, a senhora no acha?
- ~.
- Mas tambm temos que levar em conta a convenincia dos transeuntes, pois esses animais no tm o menor senso de decncia, de decoro e de higiene.
- Muito homem tambm noo tem.
Rodrigo ficou numa agradvel expectativa quando a madrinha lhe veio dizer aquele dia:
- A D. Vanja est a e quer falar com voc.
Precipitou-se para a sala de visitas e beijou a mo da velha amiga.
- Ento, que milagre  este?
- Ora, Rodriguinho, quando Maom noo vai  montanha, a montanha vai a Maom.
Soltou a minscula risada melodiosa. Sentou-se, comps o vestido com um gesto faceiro e fitou no rapaz os olhos de boneca.
- Pois estou muito apreensiva, meu filho. O Chiru meteu-selhe na cabea de ir fazer escavaes nas runas jesuticas de So Miguel.
- E que tem isso, tia Vanja? Deixe aquele marmanjo ir pra se desiludir duma vez por todas e noo incomodar mais a gente com essas bobagens de tesouros enterrados.
- .Mas  que agora vai surgir esse cometa de Halley, e afirmam os cientistas que teremos. um cataclisma universal. Talvez tudo isso noo passe de grosseiro erro 
de 
clculo astronmico mas como diz o rifo popular, mais vale prevenir que remediar, e como o fato tem visos de verdade ... Bem, eu no sei. Mas suponhamos que a cauda 
do dito seja slida e colida com o nosso planeta ... Imaginemos essa hiptese horrenda, meu anjo, onde iremos ns todos parar? Que acontecer para esta humanidade 
sofredora que Deus fez  sua santa imagem?
- Sim, mas que  que o cometa de Halley tem a ver com a viagem do Chiru s Misses?
- Rodriguinho, ser que rio compreendes o que a tua tia est insinuando? O Chrn quer embarcar a semana que vem, e eu acho arriscado esse menino viajar agora. Vamos 
que o cometa .. .
- Ora, tia Vanja!
- No sei, podes apodar-me de alarmista, mas apesar de eu ser um pouco como So Tom, que queria ver para crer, como rezam as Escrituras, estou mui apreensiva. E 
meus pressentimentos, meu anjo, sempre se confirmam. Ns vamos ainda nos incomodar com esse cometa. Toma nota do que eu digo. Imagina tu se esse atro errante e indesejvel 
surpreende o menino em pleno descampado .. .
~~alou-se, suspirou,. brincou com a bolsa de croch pousada no regao e por fim tornou a falar.
- Eu queria que tu convencesses o Chiru a transferir essa viagem. O rapaz noo me ouve. r um obstinado. puxou ao pai, que Deus o tenha em sua santa glria? E, tu 
sabes, quem herda uo furta.
- Est bem. Posso lhe garantir que o Chiru noo sair de Santa F antes do cometa passar. Se for preciso, sou capaz at de prender aquele safado no poro.
- Coitado!
Pouco antes de sair, tia Vanja tirou da bolsa umas balas de ovos e meteu-as nas mos de Rodrigo.
#348        O RETRATO

- Toma. Sei que so balinhas da tua preferncia.
A porta da rua ergueu o brao e passou a mo pela cabea de Rodrigo.
- Quem  a minha bolinha de bano? - Fez nm muxoxo, - Antigamente eu baixava a mo pra te acariciar a cabea. Agora tenh de erguer. Mas isso  lei da vida. Uns 
crescem, outros minguam. Deus te abenoe, meu anjo.
Ps-se na ponta dos ps, beijou a testa do rapaz e se foi, muito tesa, caminhando miudinho e depressa, a voltar a cabea dum lado para outro.
Naquele mesmo dia Rodrigo conversou com o Chiru e foi-lhe faclimo convenc-lo a transferir a excurso s Misses para qualquer data depois da passagem do cometa.
- J que o tesouro esperou tantos anos - filosofou o velocino de ouro - acho que noo vai se perder por esperar mais um ms.
CAPfTULO XVIII
1
QUnNOO, naquela noite de tera-feira, Rodrigo saiu para visitar Flora - depois de haver passado longos minutos diante do espelho a pentear-se e a aperfeioar o n 
da gravata - Maria Valria despediu-se dele com estas palavras:
- Pobre da Titina! Est de cacete em casa.
- Qual! Ela vai pegar pra genro o melhor partido d Santa F!
Rodrigo ia quase sempre de carro  casa da futura noiva, aspirando o ar daquelas noites outonais, recendentes a falhas secas ueimadas, o que o levava a pensar - 
ele noo sabia bem por qu - em cidades orientais que nunca vira, como Cairo, Istambul, $agdad ... Recomendava sempre ao Bento que noo apressasse o andar dos animais. 
Fazia j parte daquela suave rotina ficar ali no carro antegozando o sero que ia passar junto da namorada. Levava-lhe todas as noites um presentinho, por mais insignificante 
que fosse: barras de chocolate, bombons, nmeros de O Malho e da Kosmos, ou ento livros. Descobrira com alegria que Flora gostava de ler e tinha at sua instruozinha. 
Claro, estava ainda na Case dos romances de .gua com acar de Macedo e Alencar, mas, que diabo! era j nm princpio. Com o tempo, pouco. a pouco, havia de traz-la 
para um tipo mais srio de leitura. No raro levava-lhe tambm os almanaques e as figurinhas em tricromia que certas fbricas de produtos farmacuticos costumavam 
mandar como brinde s farmcias - efgies de santos ou heris, reprodues de quadros clebres, historietas cmicas. Flora recebia essas coisas com uma to simples 
alegria menineira, que ele, Rodrigo Cambar. v civilizado, achava uma graa e um encanto indescritveis naquela inocncia. A coisa toda chegava a ter um sabor entre 
doce e picante, que o deixava ao mesmo tempo enternecido e excitado, fazendo-o sentir pela namorada, ora ternuras de irmo mais velho ora ardores de amante.
Nas primeiras visitas, Flora revelara um acanhamento que seria constrangedor para outro que noo fosse Rodrigo. Falava pouco.
#35O        O RETRATO
corava com freqncia, chegava a no ter coragem de encarar futuro noivo,: limitando-se a lanar-lhe olhares furtivos. Ele, tretanto, no cessava de contar histrias 
dos tempos de "estuda e anedotas de consultrio. E assim, na sala de visitas da residn dos Quadros, iluminada pela luz dum antigo lampo de queb luz esfrico, 
aqueles seres passavam depressa. D. Laurentina n se afastava da sala. Ficava sentada na sua cadeira de balano, p da mesinha do lampio, e Rodrigo tinha a impresso 
de q com um olho fazia croch e com outro fiscalizava os namorad cujas cadeiras estavam afastadas uma da outra quase um metr Aderbal aparecia s vezes no princpio 
do sero, conversava u pouco com o futuro genro, e depois se recolhia, pois era hbil seu ir para a cama antes das nove.
s oito invariavelmente entrava na sala uma criada preta, servia caf com roscas de polvilho ou bolinhos de coalhada.
Uma noite em que se fizera um silncio mais prolongado e Laurentina, com os culos na ponta do nariz, parecia absorta seu croch. Rodrigo contemplou Flora longamente, 
com olho c tico, procurando descobrir que trao ou combinao de traos n quele rosto tinha sobre ele um fascnio to poderoso. Pensou n mulheres que lhe haviam 
feito "bater a passarinha", segundo urru~ expresso muito d agrado de Maria Valria. Claro, no negav que gostasse de todas as mulheres e que dificilmente voltaria 
costas a qualquer portadora de saia razoavelmente bonita que 1 fizesse um aceno. Sabia que, em matria de amor, era ecltic Tivera, porm, na vida umas trs mulheres 
que lhe haviam tran tornado a cabea. A primeira que lhe veio  mente foi a equih brista do Circo Sabbatini, Kazuko Tasaki, a japonesinha que fizera fugir de casa 
aos dezessete anos e seguir os burlantins at Passo Fundo, de onde o pai o arrastara  fora, de volta pa Santa F. Lembrou-se depois duma paraense que o deliciara 
e a rnesmo tempo atormentara, no primeiro ano. de estudante . . Houvera tambm a mulher de um professor em cuja casa costumava almoar aos domingos - criatura estranha, 
dez anos mais velha que ele, e pela qual tivera uma paixo que lhe parecera de vastadora, a maior de todas, a ltima ... Numa sucesso de imagens rpidas, teve no 
campo da memria a japonesinha a equilibrar-se no arame, com um pra-sol na mo, as curtas coxas t pernas apertadas numa roupa de malha branca, um saiote vaporoso 
de bailarina, a cabeleira preta e lustrosa, de franja, a emoldurar-lhe a cara de boneca ... A seguir viu os lbios de Jussara, que dizia ter sangue ndio nas veias, 
Jussara de pele cor de canela c: olhos enviesados... Mas a imagem da paraense fundiu-se com a de outra mulher. D. Lcia passava-lhe o prato de peixe e sorria: seus 
olhos verdes e oblquos tinham algo que lembrava um aqurio
CHANTECLER        3 51

ou o fundo do mar; o rosto era ovalado e dum moreno de terra de Sena. Descobri! - concluiu Rodrigo a olhar para a namorada. Flora tinha olhos de musm e tez trigueira 
- dois traos presentes no rosto das trs mulheres do passado. Era como se a acrobata. a bugra e a mulher do professor se houvessem encontrado milagrosamente numa 
nica e maravilhosa mulher que estava agora  sua frente, ao alcance de suas mos e que dentro em breve seria sua esposa, senhora do Sobrado, me de seus filhos. 
Teve ento mpetos de erguer-se, tom-la nos braos, beijar-lhe a boca - coisa que no fizera a Kazuko, de quem noo conseguira aproximar-se, nem a Lcia. que jamais 
suspeitara de sua paixo.
Na noite da quinta-feira seguinte, Rodrigo levou a Flora uns nmeros de L"lllustration, o que lhe pareceu excelente pretexto para se aproximar um pouco mais da namorada. 
no momento em que fossem folhear juntos as revistas. D. Laurentina, entretanto, noo cessava de vigi-los. E ele, contrariado, teve de manter uma distncia respeitvel 
de Flora, e nem uma vez as pontas de seus dedos tocaram as mos dela, e noo houve sequer o mais leve roar casual de cotovelos. Folheou as revistas, leu as legendas 
das gra~~uras, dissertou sobre as belezas das cidades europias, como se as tivesse realmente visitado, e deteve-se nas pginas que mostravam Paris durante a grande 
inundao do ltimo janeiro.
- Olhe, esta  a Rua Saint-Dominique. No parece um canal de Veneza, com esses barcos navegando por entre as casas?
Flora sacudia a cabea, sorrindo, o rosto afogueado.
- Sabe o que  aquilo l no fundo? A famosa Torre Eiffel, um arcabouo de ao de 3OO metros de altura. Agora aqui-temos
um efeito noturno na Praa do Palcio Bourbon. Ali est a ponte
da Praa de 1"Alma, a Avenida Montaigne e o cais da Confrence.
Falava naqueles lugares com uma intimidade de velho conhecido. O mais que Flora arriscava fazer eram perguntas tmidas:
- E aquilo ali?
-  uma cena de l"Opra-Comique. A inundao interrom
peu o servio de luz eltrica e a pera teve de dar funo  luz de lmpadas de acetilene... Est vendo? Ali est o maestro, parte
da orquestra e a primeira fila de espectadores .. .
No resistiu ao desejo de dar  namorada uma demonstrao
de sua pronncia francesa. Leu:
- ... ce qui n"empcha pas l"pera-Comique de prsenter un
soir un pittoresque spectacle de son orchestre, clair par des lanter
nes du modle le plus primitif.
Traduziu. Depois voltou a cabea para Flora e os olhos de
ambos se encontraram por alguns instantes que para Rodrigo fo
ram ae deliciosa, esquisita vertigem.
#352        O RETRATO

- Ahl Paris! - suspirou ele. - Um dia ns dois ha de ir l .
A me de Flora ergueu vivamente os olhos do croch os em Rodrigo. que se apressou a explicar:
- Quando nos casarmos, D. Lanrentina, nm de meus pla  fazer com a Flora uma viagem  Europa. Talvez seja a n viagem de npcias. Quem sabe?
O rosto duro da futura sogra permanecer impassvel e in frvel. D. Laurentina tornou a baixar os olhos para o croch. Brigo continuou a folhear a revista. Apontoa 
para ama gra que mostrava o recinto dum salo de Berlim, onde se reali uma exposio de arte francesa do sculo XVIII: quatrocentas o de pintores e escultores como 
Watteau. Fragonard. Pajon, P Boucher... Rodrigo percebeu logo que Flora estava int principalmente nos vestidos das personalidades femininas que viam comparecido 
 exposio, com seus monumentais cha emplumados, de abas largas, as cintaras finas e as saas rodadas" compridas. Traduziu
- "Entre as personalidades presentes achavam-se S. M. G lherme II, da Alemanha, a imperatriz, a Kronprizessin, o Sr. E baixador da Frana e o Baro Henri de Rothschild." 
Veja gnaa gente importante! Se isso fosse em 1911 eles talvez tivessem acrescentar: "Entre os convidados viam-se o Dr. Rodrigo Camba e erma. esposa... "
Fechou as revistas e falou nos seus planos de vida. Flora cutava-o com ateno. Ao cabo de cinco minutos D. Laurenti comeou a pigarrear com tanta insistncia, que 
Rodrigo comp enden o que ela queria dizer. Afastou sua cadeira (Agora - fletiu, meio ressentido - s comunicaes semafricas on tel ficas... ) e o sero continuou. 
Como sempre, ao ouvir o rel bater as primeiras badaladas das dez, Rodrigo despedia-se de FI ali na sala, na presena da me, num rpido aperto de mo q ele tentou, 
mas em vo, tornar mais prolongado. D. Lanren acompanhou-o at a porta e a despedida seguia a frmula costume.
- Boa noite. Lembranas pra Maria Valria. - Sero dadas. Boa noite.
2
No dia 1 Z de maio o Cel. Jairo telefonou a Rodrigo: - Ento, j soube da infausta nova? - No, coronel. Que foi?
CHANTECLER        353

- Morreu Eduardo VII. - Quem?
- Orei da Inglaterra.

- Uma grande perda para o Reino Unido e para a humanidade. Eduardo VII era nm monarca popular, um verdadeiro liberal. um grande diplomata e um genrleman na mais 
ldima acepo do termo. No sei o que vai ser dos ingleses agora, porque o filho dele, o Jorge, parece no ter a fibra do pai. Enfim, a Histria tem de seguir seu 
curso e os vivos sero sempre cada vez mais governados pelos mortos.
- Amanh talvez estejamos todos mortos, coronel.
- Ol! Ol! Como disse?
- Disse que amanh talvez estejamos todos mortos. O cometa de Halley anda por a .. .
- Havemos de sobreviver, Dr. Rodrigo, no tenha dvida .. . Sabia que h uns dois meses esse mesmo cometa atravessou a rbita da Terra ? Pois " como lhe digo. No 
creio que possa haver qualquer coliso. Segundo os clculos astronmicos, a primeiro de abril o cometa atravessar a rbita de Vnus e no prximo dia 3O cortar 
a da Terra pela segunda vez .. .
Rodrigo sorriu:
- E o senhor no acha que isso  uma provocao?
A risada do coronel chegou-lhe ao ouvido como o zumbido duma abelha encerrada numa caixa de fsforos.

Naquele mesmo dia Don Pepe irrompeu no Sobrado trazendo
debaixo do brao um quadro enrolado em jornais. Dep-lo sobre
uma cadeira, tirou a boina, jogou-a longe e sentou-se. Rodrigo
provocou-o:
- Sabes quem morreu? Eduardo VII da Inglaterra.
O artista, porm, pareceu no ouvir o que ele dizia. Apontou
para o quadro.
- Todo lo que yo esperaba ocurrib. Burgueses tramposos! - Conta logo, Pepito. Que foi que houve? - No aceptaron mi cuadro. - O retrato do Cel. Teixeira? - Si.
- Mas por qu?
- Porque est demasiado bin hecho, demasiado artstico, de
masiado parecido.
Ergueu-se, comeou a caminhar miudinho: trs passos  frente,
trs  retaguarda.
- Pero no se trata de una semblanza . fotogrfica, no seor,
pero psicolgica.
#354        O RETRATO
CHANTECLER        3 5 5
Olhou srio e firme para o amigo.
- Rodrigo, quiero tu opinin sincera sobre mi obra. N hables en seguida, si no tienes opinin. Mira, analiza, compa y despus juzga.
Avanou para o quadro, rasgou os jornais e deixou a tela mostra. A primeira vista, o retrato chocou Rodrigo. Hava nele; algo de brutal, de disforme, de caricatural, 
e um empastamento de cores que cansava certa confuso no esprito do observador. A poucos, porm, foi comeando a descobrir a inteno do artista. que ali estava 
na tela era uma estranha figura, metade homem" metade animal. Rodrigo punha a mo em pala sobre os olhos, recuava, avanava, procurando olhar a pintura de diferentes 
ngulos.
- Y que tal ?
- Pepito, te juro como, dum certo modo no fotogrfico. est parecido. H qualquer coisa nesse quadro.. .
- Que hay, eso yo lo s, madre de mi vida! - Tomou o brao do amigo e explicou: - Mira, hijito, no te parece natural que un hombre que vive del buey, con el buey 
y para el buey acabe adquiriendo el aspecto de un buey?
- Levaste a coisa longe demais. Chegaste a botar chifres na testa do homem. Olha que isso pode ser mal interpretado .. .
- Pues, hombre, no sou apenas cuernos de buey, no seior. La simbologia es ms sutil. Son los cuernos de satans!
- Por qu? No vejo nada. de satnico no Cel. Pedro Teixeira.
- Es un burgus y la burguesia ha vendido su _ alma al diablo. Mira, por que cres que el fondo del cuadro tiene el caolor de la sangre? No es solamente la sangre 
de las vacas y carneros sacrificados en los mataderos, pero tambin la sangre de todos los hombres que mureran en todas las revoluciones hechas en el inters de 
la clase de Tejera. Ven, acrcate del cuadro. Que hay en lugar de la pupila en el ojo izquierdo?
- Uma libra esterlina?
- Claro! Es la unica cosa que los burgueses sabem ver. Oro, dinero, libras! Y esos labios gruesos denotam animalidad, ausencia de preocupaciones espirituales.
- Mas o homem tem algumas qualidades positivas e at nobres, Pepe. iE: um cidado honesto e um bom chefe de famlia.
- Me cago en la leche de la famlia Tejera y de todas las famlias.
Rodrigo contemplava_ o quadro. Apesar de todas as extravagncias do pintor, podia-se reconhecer naquele misto- de homemfauno-boi-satans, o pachorrento Pedro Teixeira, 
estancieiro e argentrio.
- No admira que noo tivessem aceito o quadro, Pepe. Esse
retrato  um insulto.
- El unico insultado soy yo, el artista. - O Cel. Teixeira viu isso?
- No. Pero el Cel. Prates, que me lo encomend, lo ha
visto.
- E que foi que disse?
- Se qued indignado, me dijo que no me pagaria un tostn.
- Pois eu te pago. Pepe, te compro o quadro, gosto dele.
Quanto queres?
Pepe refletiu por um instante.
- Nada. Te lo regalo. S quieres pagarme con algo, dame
um copetn de cognac.
Quando Rodrigo saiu da sala para ir buscar a bebida, o es
panhol ficou a resmungar:
- No se por qu me quedo en esta ciudad podrda.
3
Naquele anoitecer, ao subir a escada para acender o lampio da esquina do Sobrado, o velho Srgio saudou Rodrigo:
- Salve o Dr. Rodrigo neste dia glorioso para ns, os morenos. Salve a Rainha D. Isabel, moa de muito saber e condies. Salve D. Pedro II, nosso Imperador festeiro, 
e Deus Nosso Senhor, pai dos brancos e dos pretos.
Sua voz, cava e spera, parecia sair duma gruta escura cheia de morcegos.
De sua janela, Rodrigo atirou um pataco, que o negro apanhou com o chapu, ficando a examinar a moeda e a resmonear
- Moo de muita senhoria e da mais distinta considerao. Fala com os pobres, no  soberbo. Deus lhe d muita vida e uma
boa morte.
Acendeu a mecha, reps a manga no lugar, desceu a escada, p-la ao ombro e continuou seu caminho.
Rodrigo achava- se tornado dum inexplicvel mal-estar, duma espcie de premonio de desastre cuja origem no podia precisarEra a noite em que se esperava o aparecimento 
do cometa. Estava claro que ele no acreditava na possibilidade dum choque com a Terra. Que tinha, ento? Devia estar feliz, pois s oito horas ia fazer o pedido 
de casamento. Escrevera, havia dias, para o Angico, pedindo licena ao pai para dar um carter oficial ao noivado. Viera-lhe uma resposta seca mas positiva: Acho 
pressipitado O
#3 5 6        O RETRATO

pedido, pois faz to pouco tempo que, o senhor frequenta a casa da moa, mas em todo o caso o senhor  um homem feito e sabe o que quer e eu fao gosto, pois a Flora 
 uma moa prendada, filha dum amigo meu. O senhor tem meu consentimento
Aderbal Quadros esperava-o aquela noite, e Rodrigo pensava agora nas palavras com que ia fazer o pedido. Como tudo aquilo era complicado e at certo ponto, ridculol
Jantou sem muito apetite. Durante a refeio a tia mirava-o de quando em quando com seu olhar frio mas interessado.
- No fique to nervoso. Essa histria  mais fcil do que parece.
No estou nervoso.
Eu ento  que estou .. .
A senhora est mas  com ciume. Voc noo se enxerga 1
Se dependesse da senhora eu passava o resto da vida solteiro.
- No seja bobo.
- Est se vendo que a Dinda noo est contente.
- Eu s disse que voc est indo com muita sede ao pote.
Podia esperar um pouco mais pra fazer o pedido. - Ora, titia 1
Fez um gesto brusco, derrubou o clice, e uma mancha de vinho alastrou-se na toalha branca.
- Sinal de sorte... - murmurou Maria Valria. - Supersties I
Houve um silncio em que Rodrigo se imaginou na sala de visitas dos Quadros,  frente de Aderbal. "Tenho a honra de pedir..." "A voz da tia cortou-lhe o pensamento.
- Ficava mais bonito que o senhor esperasse seu pai pra ele mesmo fazer o pedido.
- Que absurdol Isso se usava antigamente, no tempo do ona. Hoje as coisas esto mudadas.
- Mas era uma considerao pro seu pai.
Rodrigo ficou irritado porque, no fundo, achava que a madrinha tinha razo. Precipitara-se. No lhe teria feito nenhum mal esperar mais um ms... Por outro lado, 
j que freqentava a casa de Flora, achara melhor oficializar logo o noivado para evitar os falatrios. Mas desde quando estou dando importncia  lngua do povo? 
Vo todos pro inferno! Fao o que entendo. Sou dono do meu nariz.
Levantou-se, subiu ao quarto, escovou os dentes, e postou-se diante do espelho, numa toilette demorada. Meteu-se numa fatiota de casimira cor de chumbo, de palet 
trespassado. Pela pri
CHANTECLER        3 5 7

meira vez ia usar o chapu-coco - a que o Chiru e outros idiotas insistiam em chamar de cartola. Sabia que podiam rir de sua elegncia cosmopolita naquela terra 
de botocudos. Quebraria a cara de quem se atrevesse a tanto.
Ficou por alguns minutos ao p do lavatrio, indeciso diante dos frascos de perfume que se alinhavam na prateleira, sob o espelho. Por fim decidiu-se pelo de Quelques 
Fleurs, destampou-o, encostou a boca do vidro contra a lapela e emborcou-o. Fez o mes= mo no leno.
Antes de sair apresentou-se  tia.
- Estou direito?
Ela o examinou com ar crtico.
- Enfeitado que nem o mastro da festa do Divino e fedendo como nm zorrilho.
Rodrigo no gostou da brincadeira.
- At logo. Dinda.
- V e faa papel bonito.
Quando ele j estava na calada, Maria- Valra debruou-se  janela.
- Mas no marque o casamento pra amanh, j"ouviu? Tem tempo.
Rodrigo entrou no carro.
- Vamos, Bento.
Os cavalos puseram-se em movimento. Rodrigo notou uma animao desusada na Rua do Comrcio: muitas pessoas debruadas s janelas, vultos a andar dum lado para outro 
nas caladas. O cometa - concluiu. E lamentou a prpria imprevidncia. Ao marcar aquela noite para o pedido de casamento, no se lembrara do aparecimento do cometa. 
Sempre imaginara que o noivado do "moo do Sobrado" pudesse ser um acontecimento social capaz de fazer Santa F vibrar, de levar dezenas de curiosos at a frente 
do palacete dos Quadros, onde ficariam a olhar para as janelas festivamente iluminadas, a esperar com ansiedade a chegada do noivo e dos convidados. Nada disso, 
porm, ia acontecer. Toda a gente estava preocupada com o cometa de Halley. As janelas da casa da noiva estariam fechadas. Babalo comunicara-lhe que noo ia fazer 
festa, que a cerimnia teria carter simples, pois noo convidara para ela nem os parentes mais chegados.
No que eu seja vaidoso - refletia Rodrigo, como a querer convencer-se a si mesmo - no que, eu goste. de me mostrar, mas que diabo! esta  uma noite importante 
da minha vida. S ae contrata casamento uma vez. , natural que eu queira deixar a data assinalada para sempre. No entanto aqui vou para o pedido de casamento sozinho, 
sem meu pai (e a voz da tia em sua mente: "por culpa sua!") sem meu irmo, sem um nico amigo. Na casa
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da minha noiva no haver ningum alm dela, da me e do pai. Pra nunciarei a frase convencional, porei a aliana no dedo da moa, e voil, estaremos noivos. Vir 
licor, doces, um caf... D. Lanrentina nem sequer sorrir para ns, Babalo talvez fique na sala a prosear sobre a safra, o carrapato do gado ou a vitria do Marechal... 
Depois ir para a cama,  hora do costume; D. Titina ficar a fazer aquele seu eterno croch, e eu me quedarei como um dois de paus na frente da noiva, sem poder 
ao menos tocar-lhe a fmbria do vestido com a ponta dos dedos.
Suspirou, sentindo-se vtima duma colossal conspirao. Ficou a escutar melanclico o castanholas das patas dos cavalos nas pedras da rua. Um vulto se destacou dum 
grupo  frente do clube, fez-lhe um aceno e gritou-lhe um boa noite efusivo. Rodrigo ergueu com indiferena o brao, como um prncipe blas que responde  saudao 
dum sdito.
Santo Deus, estarei doente? Decerto  febre. Levou a mo  cesta. No. Fresca .. .
Era ento a languidez do outono - refletiu - aqueles cheiros de ramos e folhas secas queimados. ( Istambul!  Badgad!  Scheerazade! Era a mgoa de verificar qu 
nem todos os seus belos sonhos se faziam realidade.
O carro parou  frente da casa de Aderbal Quadros. Rodrigo olhou em torno e no viu vivalma. Um grande acontecimento, o meu noivado! - refletiu com amargura. - Um 
formidvel sucesso !
- Venha me buscar s dez em ponto - disse ao boleeiro.
Apeou, apalpou o bolso e apertou o estojo de veludo onde estava a aliana. Bateu  porta e depois ficou ajeitando o n da gravata.
4
Naquela noite muita gente noo dormiu em Santa F. As janelas de suas casas, nos quintais, nas caladas, no meio das ruas e praas, os santa-fezenses esquadrinhavam 
o cu com o olhar. O Padre Kolb, que passara boa parte da noite numa das salas privadas da Confeitaria Schnitzler a beber cerveja em caneces bvaros de barro, saiu 
por volta das onze e, ao cruzar pela frente do Comercial. vendo um grupo de homens com os rostos voltados para o cu, parou e ergueu o dedo proftico.
- Deviam estar procurando noo o cometa, mas Deus!
Ficou debaixo do lampio, imponente na sua batina negra, o rosto imerso na sombra que sobre ele projetava a larga aba do chapu. Um gracioso respondeu
CHANTECLER        359

- No enxergamos ainda nem o cometa nem Deus, padre.
O vigrio de Santa F empertigou o busto, inflou o peito, pareceu que ia dizer uma coisa tremenda, uma formidvel verdade apocalptica, mas permaneceu em silncio, 
deixando escapar o ar pelo nariz, num sopro sibilante. Continuou depois seu caminho, o tranco firme, numa milagrosa linha reta.
s duas da madrugada ainda no se via no cu o menor sinal do cometa. "Que fracasso! - exclamavam alguns, decepcionados. "Ch mico!" era uma exclamao que se ouvia 
em diversos lugares. "V a gente acreditar nesses astrnomos. Pra mim o homem do campo entende mais de tempo e ,de estrelas que todos esses sabiches que manejam 
o telescpio."
Muitos foram deitar-se, desiludidos. Um escriturrio da Intendncia disse  mulher: "6 Domiciana, se o fim do mundo comear, tu me acorda, j"ouviu?". E meteu-se 
na cama. Neco, Chiru e Saturnino, que haviam preparado uma serenata especial para o cometa, resolveram faz-la para Rodrigo. Plantaram-se  frente do Sobrado e atacaram 
uma valsa. Rodrigo assomou  janela
- Entrem. Vamos comer e beber alguma coisa. Estou sem sono.
O trio aceitou o convite e ele se dirigiu para a cozinha a preparar os hors-d"ceuures.
- No faam muito barulho - recomendou ao voltar. - A madrinha est dormindo.
Pelas janelas entrava nm cheiro de po quente. Neco dedilhava o violo, cantando em surdina um fado que aprendera com certo caixeiro-viajante portugus, numa memorvel 
noite de farra.
Puseram-se a comer, a beber e a conversar. O relgio do refeitrio bateu trs badaladas.

Poucos minutos depois das trs da madrugada, a cauda do cometa apontou no cu, nas bandas de leste, por trs das coxilhas da Sibria. Comeou, ento, o alvoroo 
na cidade. "Olha o bruto!" - exclamavam. Homens e mulheres, alguns em camisolas de dormir, apareciam s janelas. Houve correrias nas ruas, exclamaes de triunfo 
e de pavor. Alguns fiis bateram  porta da igreja e o Padre Kolb, que ainda no pregara olho, mandou o sacristo abrir o templo, que dentro em pouco ficou cheio 
de mulheres ajoelhadas, a rezar.
Lucas e Rubim entraram no Sobrado, encontrando Rodrigo e os amigos completamente alheios ao grande acontecimento.
Dirigiram-se todos para a cozinha, de cuja janela ficaram a contemplar a cauda do cometa, que subia no cu como o feixe luminoso dum gigantesco holofote.
- Mas onde est o ncleo?
#36O        O RETRATO

Ningum responder.
- Vnus ainda no aparecem... - estranhou Rubim.
- Parece at que se a gente subir a coxilha da Sibria pode agarrar o rabo do broto.
- Olhem l! - exclamou Saturnino. - Estrelas cadentes.
- Blides - corrigiu o tenente de artilharia. Eram riscos luminosos que cortavam o cu por baixo da cauda do cometa.
Rodrigo apreciava a cena, deslumbrado. O ar frio da madrugada bafejava-lhe o rosto. Seus olhos estavam fitos no vu luminoso que se estendia no horizonte, mas dentro 
em breve sena pensamentos nada tinham a ver com o cometa. Recordava-se do momento em que fizera o pedido de casamento. J noo lamentava mais que a cerimnia houvesse 
sido to simples e sossegada, posa tivera uma longa e amistosa conversa com Babalo, que lhe contar de seus negcios, dos grandes prejuzos que vinha tendo nagnelee 
cinco ltimos anos com a plantao de trigo em grande escala. "Mas por que  que o senhor insiste?" E o futuro sogro lhe respondera: ""No h nada ms lindo que 
nm trigal maduro. E deps, amigo.  com trigo que se faz po, e no h nada melhor que a gente comer po do trigo que plantou ... " Babalo plantava trigo por uma 
razo potica! Tinham ficado os quatro na doce paz da sala.  luz do lampio, como se aquela casa estivesse fora do tempo e do espao.
A voz de Rubim despertou Rodrigo do devaneio. O temera de artilharia afirmava que a cauda do cometa tinha mais de trinta milhes de quilmetros de comprimento. Saturnino 
sacudir a cabea, numa aquiescncia respeitosa. Chiru, porm, ps em dvida a exatido daquela fantstica cifra. Neco dedilhava o violo, cantarolando uma toada 
campeira.
Os blides continuavam a riscar o cu.
5
Rodrigo voltou com os amigos para a sala de jantar, onde Rubim e Lucas participaram dos restos daquela ceia improvisada. e os outros continuaram as libaes. Ao 
emborcar o quinto copo de vinho, Lucas, com a voz arrastada, confessou que estava loucamente apaixonado.
- Quem  a felizarda? - indagou Rodrigo. Rubim informou:
- A filha do Cel. Prates.
- A Ritinha? Magnfico. Uma bela moa.
CHANTECLER        361

O alagoano, porm estava infeliz. O pai da jovem no aprovava o namoro. A famlia fazia-lhe desfeitas.
- Por que, Rodriguinho? - perguntou ele, de olhos amortecidos. - Por qu? Sou um sujeito direito, no fao mal a ningum. Sou um pndego, sim senhor, sou o Andr 
Deed, o Max Linder, o Bigodinho, mas isso no  crime, no  mesmo? No  mesmo?
Puxava com insistncia a manga do casaco de Rodrigo, repetindo a pergunta.
- Claro que noo, Lucas. Mas tudo isso se arranja com o tempo.
O tenente de obuseiros sacudia a cabea, desesperanado.
- No se arranja, no, o remdio  eu tomar uma bebedeira e sair comandando a bateria pela rua, nu em plo, sabes, Rodrigo? Nu em plo, em cima dum cavalo, de espada 
em punho, ests me ouvindo? De espada na mo e nuzinho da silva, a cavalo, sabes? E passar pela frente da casa da Rtinha, de espada na mo, a cavalo, e nu, pra 
desacatar a famlia, sabes?
Rodrigo sorria, olhando para Rubim, que folheava distraidamente um nmero de L"lllustration. Neco e Saturnino tocavam uma valsa lenta e sentimental, em doce surdina. 
Os trmols da flauta pareciam soluos, e os bordes do violo sugeriam graves, profundas paixes humanas. Lucas escutava, repoltreado na cadeira, a tnica completamente 
desabotoada, o copo vazi na mo que pendia abandonada ao longo da cadeia. Junto da mesa, Chiru raspava com a faca o fundo da lata de pt de fole gras.
Rodrigo olhou em torno.
- Daqui a vinte anos, amigos, estarei falando a meus filhos a respeito desta noite. Direi: "Quando o cometa de Halley apareceu, em 191O, vocs noo eram nascidos 
e o papai tinha apenas vinte e quatro anos. Todos pensavam que o mundo ia acabar, no entanto nada de maior aconteceu. Reuni no Sobrado os mes melhores amigos e 
ficamos comndo, bebendo e cofiversando at o raiar do dia."
- Tu s feliz - lamuriou o Lucas - ters, um dia, mulher e filhos. Eu vou ficar um velho slteiro, reumtico, linftico, sorumbtico, caqutico. Vou pedir minha 
transferaria pro Amzonas. Quero morrer comido por uma ona. Ou de febre balastre.
- Palustre - corrigiu Rubim, sorrindo.
- Balastre - repetiu o outro. - No , Rodrigo? Tu que mdico ... Febre balastre. Me bota mais vinho. Balastre 1 Falava de boca mole, babando-se. A msica, chorosa 
e lnguida, parecia narrar a histria dum
amor infeliz. Era uma valsinha brasileira de serenata, doce como
es
362        O RETRATO

uma noite de luar, sentimental como as raparigas que morrem de amor. Lucas escutava-a, enquanto grossas lgrimas lhe escorriam pelas faces e pingavam na tnica. 
Chiru encheu o copo e ergueu-o num brinde:
- Ao nosso Rodrigo, que hoje contratou casamento)
Rodrigo e Rubim ergueram os copos e fizeram as bordas tocarem-se de leve. Saturnino, que tinha o bocal da flauta colado ao ibio, saudou o amigo com um alar de 
sobrancelhas. Neto sacudiu a cabea melenuda.
A valsa terminou. Houve aplausos discretos. Rubim aproximou mais dos olhos a revista em que estivera a ler um artigo ilustrado sobre a construo do Canal do Panam.
Deu uma palmada na coxa.
- Aqui est uma admirvel ilustrao para a minha tese sobre as relaes entre as elites e as massas. Quem idealizou o Canal do Panam? Um super-homem: de Lesseps. 
Outros homens de prol compreenderam o alcance dessa gigantesca obra e a puseram em execuo. Uma equipe de engenheiros e empreiteiros competentes, isto , uma aristocracia 
da inteligncia e da cultura, encarregou-se da direo dos trabalhos. E a mass, .uma multido de ndios, mestios e negros, trabalha. como os- escravos trabalharam 
para construir as pirmides do Egito.,,_Mntos deles esto morrendo e ho de morrer como moscas. Mas que importa? Esse  o destino da ral.
Chiru escutava-o com ar intligente. N cansava de dizer que admirava o saber e que, apesar de ignorante, podia apreciar os homens preparados. Aproximou-se do tenente 
de artilharia, por cima de cujo ombro ficou a olhar as fotografias da obra do canal estampadas nas pginas de L"Illustration.
- Mas sem essa ral - replicou Rodrigo - sem essa escria que tanto desprezas, noo ser possvel a construo do canal.
- Claro! Que seria dos teus gachos se no fossem os cavalos que montam e os bois que puxam as carretas? No ser isso que me levar a colocar o cavalo ou o boi 
no mesmo nvel do cavaleiro e do carreteiro.
Neto tirou um acorde do violo e comeou a cantarolar a
Casinha Pequenina.

Tu no te lembras da casinha pequenina,

Onde nosso amor nasceu?

Tinha um coqueiro do lado, que coitado,

De saudade j morreu .. .

Puxou um sentido ai, que lhe veio do fundo do peito de seresteiro.
CHANTECLER        363

- Eu quero mame l - soluou Lucas.
Saturnino deps a flauta sobre o consolo, aproximou-se do tenente com ares de enfermeiro, tirou-lhe o copo da mo, limpou com um leno a baba que lhe escorria pelo 
queixo e tratou de faz-lo sentar-se direito.
Rubim, ainda com L"lllustration sob os olhos, traduziu:
- A Frana noo poderia esquecer que foi ela a iniciadora dessa grande empresa, que foi ela que comeou os trabalhos com mais sucesso do que se quer reconhecer. 
No 
foi sem um profundo desapontamento que viu escapar-lhe a glria de levar a cabo uma tarefa to memorvel, e, desde ento, sempre seguiu com uma ateno benevolente 
os esforos dos americanos aplicados na continuao dessa obra.
Atirou a revista em cima da mesa e ajustou o pinte-nez no nariz.
- Os franceses noo podem esconder o seu despeito diante do fato de serem os americanos e noo eles quem est construindo OCanal do Panam.
- E  pena - observou Rodrigo - porque tenho mais confiana na engenharia francesa do que na norte-americana.
Intimamente noo ignorava que isso era mero "palpite", nascido de sua simpatia pela Frana, pois para falar a verdade, noo sabia quase nada da engenharia francesa 
e muito menos da norteamericana.
- Esse canal interessa principalmente a Amrica do Norte - disse Rubim. - l uma obra de alcance noo s comercial como tambm estratgico.
Rodrigo deu, ento, voz  sua m vontade para com os Estados Unidos. Era um pas grosseiramente materialista, uma nao de novos ricos e comerciantes empedernidos. 
Que grande poeta, yue grande romancista, que grande filsofo, que grande pintor, que grande compositor haviam dado ao mundo? A nica figura de estatura universal 
que tinham produzido - por uma inexplicvel aberrao - fora a de Abrao Lincoln. Confundiam tamanho com qualidade, preocupavam-se demais com cifras e estatsticas. 
Tudo quanto possuam ou faziam era "o maior do mundo". E, apesar de serem senhores dum territrio quase to grande como o do Brasil, estavam estendendo seus tentculos 
de polvo pelos pazes vizinhos, tinham j abocanhado Puerto Rico, e viviam a meter-se na vida de Cuba e do Mxico, do qual j haviam arrebatado o Texas e a Califrnia.
- E como detesto Theodore Rooseveltl - exclamou. - Esse sargento caador de onas!
- Pois eu o admiro - retrucou Rubim. - Pode noo ter a
#364        O RETRATO
inteligncia dum super-homem, mas tem os nervos, a vontade e a coragem dum lder.
- Dem-me a Frana! Toujours la France, I"esprit, la. finesse, la juste mesure!
No estava bem certo de amar a justa medida, mas - que diabo! - quando se est um pouco tonto, ama-se tudo, tudo menos Teddy Roosevelt!
- A Frana morreu em 7O - replicou o tenente de rtilharia. - De l pra c tem procurado no amor, na depravao, noa bizantinismos literrios, no refinamento do 
gosto, uma compensao para seu fracasso como nao guerreira. Os descendentes de Napoleo Bonaparte hoje em dia bebem champanha nos sapatinhos das vedettes, danam 
canc nos cafs-concertos e lem novelas pornogrficas. Uma nao em pleno processo de decadncia!
- Tu noo te lembras das tuas juras,  perjura? - perguntava o Neco com voz dolente. Saturnino lidava ainda com Lucas, que agora ressonava, o queixo cado sobre 
o 
peito.
- Toujours la France! - gritou Rodrigo. E em seguida, levando o indicador aos lbios, murmurou: - Silncio, a Dinda est dormindo.
- Pois me dem a Alemanha - retrucou Rubim - aterra dos grandes filsofos, dos grandes msicos, dos grandes poetas e dos grandes guerreiros.
- Vive la France!
Rodrigo lanou um olhar amoroso para a aliana de ouro que lhe luzia no anular da m;~o direita.
- Viva o Brasil, bolas! - vociferou Chiru, vermelho de patriotismo.
Saturnino aproximou-se de Rodrigo.
- O Lucas est bbedo como um gamb.
Todas as atenes se voltaram para o tenente de obuseiros. Rubim tentou acord-lo mas no conseguiu.
- E agora, como  que vou levar esse cavalheiro para o hotel T
- Deixe o tenente aqui - sugeriu Rodrigo. - Tenho camas de sobra l em cima. Neto! Pra com essa cantoria e vem nos dar uma demo. , Chiru, tu que s um Hrcules 
.. .
Chiru passou os braos por baixo das axilas de Lucas e tranou as mo contra ~o peito dele; Neco segurou o tenente pelas pernas e assim o levaram para cima, estendendo-o 
na cama de Torbio. Saturnino tirou-lhe as botinas e a tnica, afrouxou-lhe a cinta e cobriu-o com uma colcha.
Eram mais de quatro horas da madrugada quando os amigos deixaram o Sobrado. Drama das janelas do escritrio, Rodrigo
CHANTECLER        365

acompanhou-os com o olhar. Chiru ia de brao dado com Rubm, provavelmente a falar-lhe em tesouros enterrados e salamantas. Atrs deles, Neco e Saturnino tocavam 
uma polca, e por muito tempo ainda, mesmo depois que o grupo desapareceu por entre as rvores da praa, Rodrigo ficou a ouvir os trinados da flauta.
Fechou as janelas, voltou para a covinha e ali se quedou a olhar para o cometa. Seu ncleo finalmente se fazia visvel - nm ponto luminoso e ntido na extremidade 
superior da cauda, que tomava um quarto do cu. Vnus agora brilhava intensamente.
#CAPITULO XIX
1
JUNHO ENTROU com fortes geadas. Um velho morador de Santa F garantiu: "Vamos ter um inverno brabo." Rodrigo tirara do guarda-roupa, numa aura de naftalina muito 
agradvel a seu olfato, pelo que evocava de coisas limpas e civilizadas - o sobretudo de casimira preta com gola de astrac. E era com prazer que o usava  noite, 
quando saa a visitar a noiva. Enfiava .tambm a~ luvas de pele de co e as polainas de camura cinzenta. No podia deixar de sorrir ao pensar no berrante contraste 
entre seus trajes citadinos e os dos homens que encontrava nas ruas, encolhidos dentro de ponchos, os ps metidos em botas embarradas, as caras assombreadas sob 
as largas abas dos chapus campeiros.
Numa fria manh daquela primeira semana de inverno, chegou am prprio do Angico, trazendo-lhe um bilhete de Licurgo:

141eu filho. O velho Fandango morreu hoje ao clarear do dia e ns vamos cetardar o enterro para o senhor poder assistir.
Rodrigo leu e releu o lacnico bilhete com o esprito em branco, sem sentir a emoo que a notcia devia despertar-lhe. Sua primeira impresso foi ~de contrariedade: 
sair de jardineira num dia gelado como aquele e rodar durante quatro horas a fio pelas estradas que levavam  estncia, era positivamente a ltima coisa que ele 
desejava. O bilhete, porm, podia ser resumido numa palavra: Venha. Mostrou-o  tia.
- Pobre do velho. Eu tambm vou.
Embarcaram logo aps o almoo e chegaram  estncia por volta das quatro e meia. Rodrigo abraou o pai - que lhe pareceu desfigurado e abatido - e o irmo, que lhe 
contou como Fandango. morrera. O velho estava debruado sbre uma cerca, bombeando o nascer do sol, quando de repente caiu para a frente, sem um ai, e ali ficou, 
dobrado sobre a tbua, com os braos pendentes.
CHANTECLER        367

- No morreu - concluiu Torbio. - Foi uma vela que o vento apagou.
O vento soprava ainda sobre as coxilhas do Angico, entrava assobiando pelas frestas da casa e fazia farfalhar os bambuais no fundo do quintal. Os campos eram dum 
triste tom de mate, sob o cu de cinza.
Fandango estava estendido dentro dum caixo rstico que os pees haviam feito com madeira dos matos do Angico. Parecia apenas adormecido e Rodrigo teve a impresso 
de que ele sorria. Era um sorriso matreiro, como se o velho estivesse empulhando a morte ou zombando daquela gente que ali estava ao redor do seu corpo, calada e 
sria, enquanto as chamas das velas de sebo lutavam com o vento, num aflitivo apaga-noo-apaga.
Pees, agregados e posteiros do Angico encontravam-se no velrio com suas mulheres, chinas e filhos. Rodrigo reconheceu, em muitas daquelas fisionomias, traos que 
lhe eram familiares. Na pequena pea achavam-se congregados quase todos os Cars moradores dos campos de seu pai. Muitas das mulheres estavam grvidas, as barrigas 
intumescidas sob os molambos sem cor. Viu Ondina a um canto e achou-a mais corpulenta, mais adulta. Olhou com certa apreenso para o ventre da chinoca, mas ficou 
tranqilo ao verificar que ela no apresentava nenhum sinal externo de gravidez.
Licurgo acercou-se do filho e murmurou
- O velho vivia dizendo que queria ser enterrado no topo da coxilha do Coqueiro Torto. Vamos fazer a vontade dele.
Rodrigo sacudiu a cabea lentamente. Sentia muito frio e o quadro que tinha diante dos olhos deixava-o confrangido. No lamentava o velho Fandango, que afinal de 
contas, vivera vida longa e rica. Tinha pena, isso sim, dos outros, dos que o estavam velando. Era, porm, uma pena temperada de impacincia, uma piedade sem calor 
humano, em suma, um sentimento gelado e gris como aquela tarde de junho. Por mais que se esforasse, no podia amar aquela gente e era-lhe difcil e constrangedor 
ficar com aqueles miserveis por muito tempo na mesma sala, a sentirlhes o cheiro, a ver-lhes as caras terrosas, algumas das quais duma fealdade simiesca.
Maria Valria aproximou-se do caixo, olhou l~namvntr para o velho amigo e depois fez algo que Rodrigo jamais poderia esperar dela. Inclinou-se e deps um beijo 
na testa do morto. E de olhos secos, fisionomia impassvel, fez meia-volta e se foi.
s cinco horas da tarde, o cortejo fnebre deixou a casa da estncia. Como o caixo no tivesse alas, foi levado numa carroa. Licurgo, ladeado pelos filhos, seguiu 
a p atrs do veculo, encabeando o cortejo.
#38        O RETRATO

Das estncias das redondezas viera gente a cavalo, de carreta, de carroa ou a p para assistir ao funeral: fazendeiros, agregados, capatazes, pees, posteros. 
.Vieram tambm ndios vags, esmoleiros e at alguns gringos das colnias. Todos conheciam e ama-, vam Fandango. Cavalarianos postaram-se em duas longas alas na 
encosta da coxilha e, quando a carroa passou com o corpo, tiraram os chapus. L no alto, ao p do coqueiro torto, em torno da cova aberta pelo Negro Antero, via-se 
uma aglomerao de homens, mulheres e crianas.
Contemplando o quadro do sop da coxilha, Rodrigo sentiu um calafrio, e a custo conteve as lgrimas. Aquilo .lhe parecia o funeral dum guerreiro antigo. O vento 
gemia. O cenrio em derredor tinha uma beleza severa e spera. No entarl~o, refletia ele, Fandango costumava dizer: "Quero que meu enterro seja abaixa de gaita e 
que seis morochas bem guapas carreguem cantando este corpo velho, coxilha acima."
Antes de descerem o caixo ao fundo da cova, abriram-no mais uma vez. Fandango ainda sorria. Num mpeto que noo procurou conter, Rodrigo saltou para cima da carroa 
e falou:
- Fandango, amigo velho, quero te dizer alguma coisa em meu nome e no de todos os teus amigos, antes que te vs embora pra sempre. Um homem como tu no pode se acabar. 
Algo de ti tem de continuar com a gente, e  por isso que ns vamos te plantar no cho, nesta terra boa do Angico, na esperana de que te transformes amanh numa 
rvore de sombra, bela, forte e generosa como tu. Viveste uma vida comprida e cheia. Morreste como querias: de p e de repente. No eras apenas um homem, mas tambm 
um smbolo - um smbolo diste velho Rio Grande indomvel, meio rude mas cavalheiresco e bravo, eras o representante duma estirpe antiga e nobre, que hoje est correndo 
o risco de se acabar .. .
Fez uma pausa. Olhou para o pai. Licurgo estava de cabea baixa, apertando com fora o chapu nas mos crispadas. Ao seu lado, Torbo, de cara erguida, no fazia 
nenhum gesto para esconder as lgrimas que lhe Pscorriam pelas faces.
Rodrigo, ento, no pude mais conter o pranto. Tentou continuar o discurso, mas um soluo lhe afogou a voz. Por alguns segundos ficou a chorar de mansinho, com as 
mos espalmadas sobre o rosto, mais comovido com suas prprias palavras e com a beleza do momento do que com a morte do amigo. Por fim, mais calmo, enxugando os 
olhos com o lena, prosseguiu:
- Tinhas o mapa do Rio Grande na cabea e no corao. Por onde quer que andasses, at os passarinhos te conheciam e estimavam. Foste um sbio e um santo  tua maneira, 
um rapsodo desta terra e desta gente, o melhor contador de causos que conhe
CHANTECLER        369

ci. E neste momento, no outro lado da vida, montado num dos teus muitos pingos de estimao que morreram antes de ti, imagino-te cruzando num trote faceiro as invernadas 
da eternidade. Vejo-te chegar  porteira do cu, gritando: " de casa!" E vejo So Pedro olhar para fora e dizer aos seus anjos: "Abram a porta, meninos,  o Fandango. 
Entre, compadre, sente e tome um mate, faz de conta que a casa  sua." Fandango, amigo velho, at por l!
O caixo foi descido  cova. Licurgo agachou-se, apanhou um punhado de terra e atirou-o sobre ele. Outros o imitaram. O ne~ro Antero tomou da p e comeou a entupir 
a cova. Aos poucos o grupo se foi dispersando.
Ao descerem para a casa, Licurgo resmungou, taciturno
- No carecia o senhor fazer discurso. O Fandango no era homem dessas coisas .. .
Rdrigo, que imaginava o pai orgulhoso de sua orao, ficou desapontado. Sentiu-se, porm, um pouco consolado quando Bio, tomando-lhe afetuosamente o brao, cochichou:
- Me fizeste chorar, filho da me.
- Eu tambm chorei .. .
- Somos duas vacas.
2
Em fins de julho, a caminho de So Luis, o Senador Pinheiro Machado fez uma breve visita a Santa F. Hospedou-se na casa de Joca Prates, confabulou com os correligionrios, 
foi homenageado no Centro Republicano e, durante vrias horas, fez a cidade vibrar com sua presena.
Quando saiu  rua, de botas, bombachas, casaco de casimira escura, chapu de feltro negro, e um pala de seda enrolado no pescoo e atirado por cima do ombro - mulheres 
corriam s janelas para v-lo passar, homens detinham-se nas caladas, cumprimentavam-no respeitosamente, tirando os chapus, e depois ficavam a segui-lo com o olhar. 
E assim, ladeado por Joca Prates e Titi Trindade, o Senador subiu a p a Rua do Comrcio, encabeando um grupo que foi aos poucos engrossando e que, ao chegar  
Praa da Matriz, parecia quase uma procisso. Pinheiro Machado entrou com a comitiva na Intendncia, onde foi homenageado pela cmara municipal, cujo presidente 
o saudou num breve discurso. Menos de meia hora mais tarde, saiu sozinho do pao municipal, atravessou a rua, entrou na praa e parou um instante junto ao busto 
do fundador de Santa F. E os curiosos que o observavam, viram
37O        O RETRATO

depois o poltico mais poderoso do Brasil cruzar a praa a bater na porta do Sobrado. O Senador ia visitar os Cambars! A notcia espalhou-se, rpida, pela cidade, 
despertando os comentrios mais desencontrados. "Vai puxar as orelhas do Licurgo e do filho" - diziam uns: "Qual!" - retrucavam outros - "Vai s vsitat nm velho 
correligionrio e amigo." "Pois eu acho - insinuavase ainda ~- que o Senador quer trazer a ovelha negra de volta ao aprisco republicano ... "
Rodrigo estava no consultrio quando lhe vieram contar a grande novidade. Seu primeiro impulso foi o de voltar correndo para casa. O amor-prprio, porm, ditou-lhe 
outra conduta. Qut diabo! A visita noo  pra mim... Afinal de contas, estamos em campos opostos nesta campanha poltica. Se o homem quiser conversar comigo, que 
venha ao meu consultrio. Se noo quiser, que v pro diabo!
Sabia, porm, que essa atitude de superioridade estava longe de ser sincera. Na realidade, a notcia da visita do Senador ao Sobrado deixara-o alvoroado. Mandou 
embora os clientes que se encontravam na sala de espera, lavou as mos, vestiu o casaco, sentou-se  mesa e comeou a rabiscar nervosamente nos papis de receita. 
No podia esconder sua admirao por aquela figura de caudilho urbano. Sempre achara prodigioso que um homem nascido numa csinhola da Rua do Comrcio, em Cruz Alta, 
pudesse ter atingido tamanhas altitudes na geografia poltica do Brasil. Seus ditos e a crnica de seus feitos corriam o pas de norte a sul, constituindo j elemento 
de folclore. Mutas vezes em discusses no Senado fizera frente a Rui Barbosa e, embora no pudesse ombrear com a "guia de Haia" em matria de erudio e eloqncia, 
sua presena de esprito, sua solrcia e seu bom-senso de tropeiro lhe haviam feito levar a melhor em mais duma polmica com o senador baiano.
Rodrigo sentia-se no s fascinado como tambm intrigado por aquela personalidade complexa, que s vezes lhe parecia um singular ponto de encontro do campo com a 
cidade. Pinheiro Machado trajava com o esmero dum Brummel, mas as bombachas e as botas com esporas lhe sentavam to bem quanto o fraque e aa botinas de verniz. O 
fato de ser visto na Rua do Ouvidor de colarinho engomado e plastro no o impedia de levar nm punhal na cava do colete a fantasia. Embora noo fosse homem habituado 
a recorrer  violncia, poder-se-ia dizer que psicologicamente trazia sempre nas mos um rebenque com o qual no hesitava em fustigar a cara dos insolentes. Sedutor 
consumado, sabia fascinar tanto as mulheres como os homens, e para aliciar adeptos entre estes ltimos, contava-se que costumava alternar o tratamento paternal com 
o sobranceiro, chegando, noo raro, a usar artifcios
CHANTECLER        3 ~ 1 quase femininos de conquista. Era fora de dvida que nascera
para mandar. Tinha como poucos o senso de autoridade combinado com o da oportunidade, e mesmo os que no o amavam
e estes eram legio) no deixavam de respeit-lo ou adurir-lo. E esse homem excepcional entrara, havia pouco, no Sobrado! Rodrigo ps-se de p e caminhou at a 
janela, no instante em
que Pepe Garcia chegava  farmcia.
- Mira, hijito! - gritou o pintor, excitado, irrompendo no
consultrio. - El Senador est en tu casa.
- Eu sabia - respondeu Rodrigo, com buscada indiferena. - Tu pap te llama. EI Senador quiere hablar contigo. Rodrigo ps o chapu e saiu. No caminho perguntou:
- Falaste com o homem?
- Pues claro. Don Licurgo me lo present.
- Que achaste dele?
- Es muy hombre. Me gustaria pintar su retrato. Parece
um jefe gitano. Que querer el de ti? Rodrigo sorriu
- Decerto vem me oferecer a pasta da Justia .. .
- Quin sabe, hijo? Chiru dite que nasciste empelicado...
- Anda. Depus me lo contars todo.
3
Achavam-se os trs na sala de visitas, e Licurgo, no breve silnio que se fzera aps as apresentaes, puxara j trs pigarros. Sentado numa poltrona, com as pernas 
cruzadas, Pinheiro Machado olhou firme para Rodrigo, com ar avaliador.
- Estive conversando com seu pai - disse, com sua voz pausada e grave. - Um homem como ele, um castilhista dos bons tempos, noo pode ficar  margem do partido. 
Essas 
brigas de famlia so como chuvas de vero: caem com muito barulho mas logo passam.
Rodrigo olhava intensamente para o Senador, cuja presena parecia aquecer a atmosfera da sala. Don Pepe tinha razo. AqueIr homem de negra cabeleira crespa e olhos 
magnticos lembrava mesmo um chefe cigano. Em seu rosto, dum moreno queimado, havia uma expresso que tanto sugeria crueldade como ascetismo: podia ser tanto a face 
dum bandoleiro como a dum profeta. Era, sem a menor dvida, a mscara dum condutor de homens. O visitante puxou do bolso a cigarreira de ouro, tirou dela um crioulo 
caprichosamente feito, prendeu-o entre os lbios e ps-se a bater
372        O RETRATO

distrado nos bolsos. Rodrigo ergueu-se, rpido, riscou um fsforo e aproximou-o da ponta do cigarro do Senador.
(Um dia - contava-se - estando a jogar bilhar com amigos no Rio de Janeiro, Pinheiro Machado fez uma pausa para acender o crioulo. Como o vissem apalpar os bolsos 
 procura de fogo, dois dos companheiros riscaram fsforos ao mesmo tempo, com uma presteza servil. Mas o Senador entrementes encontrara o isqueiro, com o qual acendeu 
o cigarro, murmurando com toda a pachorra: "Quem pita carrega fogo").
Rodrigo corou, soprou a chama do fsforo e volveu para sua cadeira, furioso consigo mesmo por se ter mostrado to solcito.
O Senador entrecerrou os olhos e lanou para o mais jovem dos Cambars um olhar cativante.
- O senhor, Dr. Rodrigo, um moo inteligente e de futuro, que  que est fazendo fora do partido?
- Senador, devo dizer-lhe com toda a sinceridade que nas ltimas eleies no s permaneci fora do partido como tambm .. .
Pinheiro Machado cortou-lhe a frase com um gesto.
- Eu sei, eu sei ... Estou a par de todas as suas atividades. Vi o seu jornal, li os seus artigos.
Rodrigo sentiu-se diante. de Malvina Travassos, professora pblica, na hora negra da palmatria.
- O senhor pertence a uma antiga famlia republicana. Nesta hora, qualquer diviso do partido s poder ajudar nossos inimigos. Alis, todo o seu esforo ficou perdido 
... O candidato cvilista foi derrotado, o Marechal Hermes est eleito, ser empossado por bem ou por mal, e h de governar at o fim de seu quatrinio com a maioria 
ou sem ela!
Rodrigo olhava fixamente para as botas lustrosas do Senador, que tinha os ps pequenos (coisa - dizia-se - de que ele prprio se envaidecia) .
Em vo Rodrigo se esforava por combater o sentimento de culpa que o desconcertava e inibia. Tomara as palavras do visitante como uma repreenso paternal. De resto, 
Pinheiro Machado parecia-se um pouco com seu pai, no s no fsico como tambm no timbre de voz e no jeito pausado e grave de pronunciar as palavras.
- Afinal de contas - animou-se Rodrigo a perguntar - que  que o Senador prope?
- Que cessem duma vez por todas esses ataques mtuos, que
mo dispersem foras, que no percam tempo com essas tricas mu
nicipais. J bastam os inimigos que o Rio Grande tem fora daqui! - Mas voltar atrs agora seria uma desmoralizao .. . - Quanto tempo faz que seu jornal no aparece? 
- Uns meses .. .
CHANTECLER        373

- Pois ento? Ningum obriga o senhor a continuar. Fique quieto por uns tempos. O Trindade me garantiu que A Voz j cessou por completo os ataques. ~ on noo  verdade?
Rodrigo sacudia a cabea lentamente, numa afirmativa relutante. Por alguns segundos Pinheiro Machado ficou a pitar em silncio, mas com o olhar sempre focado no 
rosto do interlocutor.
- Ainda que mal pergunte, doutor, que foi que o senhor pretendeu mesmo com a sua campanha contra o intendente?
- Fazer justia, Senador.
Pinheiro Machado soma o seu famoso sorriso s de olhos, em que os .lbios permaneciam imveis e apertados.
Olhou para Licurgo e, fazendo com a cabea nm sinal na direo de Rodrigo, perguntou:
- Com quantos anos est essa figas?
- Vinte e quatro - respondeu o rapaz, com uma aspereza agressiva.
- Tem ainda muito que aprender .. .
O visitante passou pelos cabelos a mo pequena e bem modelada.
- No, Senador, ou a gente nasce decente ou nunca mais aprende.
Esperou que o outro explodisse num protesto. Pinheiro Machado, porm, olhou reflexivamente para a ponta do cigarro.
- Todas as coisas dependem del cristal com que se las mira, como dizem os castelhanos. ~ muito difcil fazer sempre o bem ao povo sem nunca causar-lhe algum mal. 
O senhor, que  mdico, sabe disso melhor que eu ... Um tamor s vezes pode vir a furo com emplastro de basilico. Mas h tumores que pedem bisturi. Talho de bisturi 
di, mas  para o bem do paciente.
Rodrigo sorriu. O Senador sofismava.
- Eu s lamento que nm moo como o senhor - continuou este ltimo - gaste a sua energia e o seu talento nestas questinculas inglrias.
Licurgo olhava tambm fixamente para o filho. Parece que sou um ru - pensava Rodrigo.
- Calculo que o senhor noo queira passar toda a vida a escrever catilinrias contra o Titi Trindade. Tem que se projetar no cenrio estadual e mais tarde no federal. 
No acha, coronel T
Rodrigo percebem um tremor na plpebra do olho esquerdo do pai.
- ~, meu filho, o Senador tem toda razo.
- Mas uma reconciliao agora seria vergonhosa e en prefiro Oanonimato, o ostracismo poltico, todo, a ter que me retratar.
- No estou pedindo que o senhor se retrate. Seria -uma
3 74        O RETRATO
indignidade. Fique quieto no seu canto e vamos deixar que o tempo se encarregue do resto.
Quando o visitante se retirava, Rodrigo percebeu que Maria Valria ficava a espi-lo pela fresta duma porta. Licurgo levou o Senador at a porta, onde se apertaram 
as mos.
- Sua visita foi uma honra para esta casa.
Rodrigo sentiu um contentamento de namorado quando Pinheiro Machado ps-lhe a mo no ombro, j com uma intimidade de velho amigo.
- Vamos, Rodrigo quero que me acompanhes at a casa do Joca Prates. No tenhas receio, o Trindade noo estar l e, se estiver, dou-te a minha palavra como noo 
te 
forarei a uma reconciliao com ele.
Foi com uma exaltada sensao de orgulho, que Rodrigo saiu a caminhar pela Rua do Comrcio ao lado de Pinheiro Machado.
- Vou conversar com o Dr. Borges de Medeiros a teu respeito - prometeu o Senador. - Vejo em ti um bom corte de deputado. p s questo de tempo. Ests ainda muito 
moo. Mas... digamos, daqui a uns quatro ou cinco anos, quem sabe? Deixa que esses petios de flego curto fiquem correndo carreira nestas canchas municipais. Tu 
s parelheiro que merece tomar parte em preos mais importantes.
Est tentando me subornar - refletiu Rodrigo - est me acenando com uma deputao .. .
No sabia se devia indignar-se ou envaidecer-se ante aquelas palavras. Amanh poderia fazer o que bem lhe aprouvesse: ressuscitar A Farpa, romper fogo de novo_ contra 
a situao, atacar o prprio Pinheiro Machado ... (esta idia lhe dava uma reconfortante sensao de fora, por mais improvvel que parecesse) . Agora, porm; ele, 
Rodrigo Cambar, simplesmente se entregava ao esquisito prazer de ser cortejado por uma figura do porte do "Condestvel da Repblica".
Entraram a conversar sobre as ltimas eleies, e, ao passarem pela frente do Centro Republicano, de cujas janelas muitos dos apaniguados de Titi Trindade viram 
com indisfarvel espanto Pinheiro Machado de brao dado com o diretor d"A Farpa, Rodrigo perguntou:
- O senhor no acha uma pena que um homem da inteligncia, da cultura e do carter de Rui Barbosa no tenha ainda conseguido chegar  Presidncia da Repblica?
O outro, que naquele momento tirava o chapu para responder o cumprimento dum homem que passava a cavalo pelo meio da rua, pareceu noo ter ouvido toda a pergunta. 
Deu alguns passos mais em silncio e, depois, sem fugir completamente ao assunto. desconversou
CHANTECLER        ~ ~ 5

_ Quando meus amigos vieram me dizer que o Rodrigues Alves tinha recusado sua candidatura pela oposio, estavam todos contentes, pois achavam que no Senador Rui 
Barbosa teramos um adversrio fraco, sem dinheiro nem partido. Discordei deles e disse: "Esto enganados! No podamos ter pior adversrio. Se o candidato fosse 
o Conselheiro Rodrigues Alves, ele ficaria em casa, depois de fazer dois ou trs discursos, e seus correligionrios  que teriam de levar adiante a campanha, e, 
fechadas as Cmaras, a comdia estaria acabada. Mas com Rui a coisa muda de figura. Esse homenzinho vai agitar o pas inteiro, na imprensa e na praa pblica. No 
se iludam. o Rui noo teme coisa alguma. Ouam o que lhes digo, rapazes, esse baiano s tem uma qualidade maior que seu talento:  a sua coragem."
Pouco depois, quando j se aproximavam da Praa Ipiranga, Pinheiro Machado baixou a voz:
- Sabes que a si~tuao financeira do Rui e ca amttosa? No tem dinheiro e est cheio de dvidas. Foi o que ganhou com a campanha civilista.
Rodrigo sorria.
- Ento essa histria de "mrtir da conveno"  mais que uma frase? .. .
O Senador sacudiu lentamente a cabea. E minutos depois,.  frente da casa de Joca Prates, disse ao apertar a mo de Rodrigo:
- H homens que nasceram talhados para o sacrifcio. Mas uma coisa te posso garantir: eu noo tenho vocao para mrtir.
CAPITULO XX
1
Foi "UM INVERNO rude e crael, aquele. A gua da lagoa do temi. trio amanheceu nm dia coberta com nma camada de gelo da espessura dum vidro de vidraa. As geadas 
eram freqentes e, pau cmulo dos males, junho fora nm ms chuvoso. Agosto entroa com um rijo minuano, que soprou durante dois on trs dias sem parar, sob nm cu 
to lmpido e rtilo, que parecia - no dizer dE Maria Valria - ter sido esfregado a coco com sabo. O Zago declarou que, desde que se estabelecera com farmcia, 
jamais vendera tantos xaropes e pastilhas contra tosse, tantos sinapismos, cataplasmas e linimentos. Os bolicheiros aumentaram sensivelmente a venda de cachaa. 
A Casa Sol esgotou seu estoque de ponchos, capas e artigos de l.
Sempre que fazia sol, depois do meio-dia viam-se nos quintais, nas praas ou nas caladas, homens a lagartear, metidos em ponchos, capas on sobretudos, pitando, 
conversando, tossindo, expectorando ruidosamente, falando do tempo on da poltica, recordando outros invernos e comparando-os com o presente. Quando anoitecia, as 
ruas ficavam completamente desertas e s vezes as nicas vozes que se ouviam nelas era o uivo do vento ou o ladrar de algum cachorro vagabundo. Em compensao, aquele 
inverno trouxe uma abnadncia de laranjas e bergamotas duma doura. de mel.
Os seres na casa dos Quadros recendiam confortavelmente a acar queimado. D. Lanrentina esperava Rodrigo com nma panela cheia de pinhes quentes. Aderbal zombava 
do futuro genro que, muitas vezes, para ser agradvel  noiva, ficava a tomar mate doce em companhia das mulheres. E agora, passado o perodo de cerimnia, o noivo 
era recebido na cozinha, onde durante os seres, conversavam ao p do fogo.
No princpio daquele inverno, o Cel Maneco Macedo cara de cama com pneumonia, ficando  morte. Chamado a atend-lo, Rodrigo passou vrias noites em claro  Cabeceira 
do doente, conseguindo p-lo completamente fora de perigo antes de agosto. E
CHANTECLER        3 77

quando, ainda na cama, emagrecido, plido, barbudo, numa trmula alegria de convalescente o estancieiro lhe pediu a conta, Rodrigo perguntou: "Por que tanta pressa?" 
Como o paciente insistisse, resolveu: "Bom. Fica a seu critrio. O que o senhor decidir est bem." Achava ainda desagradvel fazer preos, cobrar contas, principalmente 
quando o cliente era pessoa de suas relaes. No dia seguinte Maneco Macedo mandou-lhe  casa dois contos de ris dentro dum envelope, o que pareceu a Rodrigo um 
pagamento mais que generoso. E estava ele a pensar na melhor maneira de gastar aquele dinheiro - mais conservas, discos novos? perfumes? roupas? um presente para 
Flora? - quando lhe apareceu Marco Lunardi, dizendo que a maquinaria encomendada para a fbrica estava a caminho, e, se o doutor inda se lembrava - no  ? - do 
que haviam conversado Ooutro dia, pois  ... b ficou com um ar acanhado, as mos na cintura, sem muita coragem de olhar o amigo bem nos olhos. Claro! - exclamou 
Rodrigo. E passou-lhe sem pestanejar o dinheiro que recebera do Cel. Macedo. E quando o colono falou em assinar uma letra, repeliu a sugesto. Haveria melhor documento 
que a palavra dum homem honesto?
- Mas os honestos tambm morrem, doutor .. .
- Pois se morreres perdecei apenas dois contos de ris, ao passo que tu ters- perdido a vida. (_omo vs, teu risco  maior que o meu. Portanto, no se fala mais 
no assunto. Vamos comemorar o acontecimento.
Beberam um copo de Chianti  prosperidade da fbrica de massas alimentcias de Marco Lunardi.
2
D. Emerenciana tambm cara de cama em meados de julho. No quis saber do Dr. Matias nem do Dr. Pndaro, o mdico militar: queria era o Rodriguinho. "Chamem esse 
menino, seno eu morro!"
Rodrigo sentiu uma curiosa sensao ao entrar pela primeira vez em sua vida no casaro dos Amarais. No Sobrado sempre ouvira referncias  velha rivalidade entre 
Cambars e Amarais. Sabia que fora naquele severo casaro de pedra que seu bisav morrera em 1836 varado por uma bala disparada possivelmente por um Amaral. Em 95 
os federalistas, comandados por Alvarino, haviam sitiado o Sobrado, atirando contra a casa e seus moradores. As relaes de Rodrigo com o marido de D. Emerenciana 
eram as mais equvocas. Pouco se viam, e quando se avistavam na rua mudavam de calada, dobravam esquinas, fziam o possvel para
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no se defrontarem. Rodrigo, porm, no tinha nenhum rancor por aquele homem, e - sabia que Alvarino mais duma vez se referira a ele em termos elogiosos e cheios 
de simpatia.
Agora c estou eu entrando no casaro dos Amarais .... Uma cena que bem podia estar nos folhetins de D. Emerenciana. Que dir o papai quando souber disto? Bolas, 
no fim de contas sou mdico e no posso faltar ao meu juramento. Recebi um chamado e vim .. .
Alvarino, que o esperava no vestbulo, estendeu-lhe a mo. Rodrigo, apertou-a em silncio. D. Emerenciana recebeu-o efusivamente, com beijos na face e protestos 
de amizade. Rodrigo examinou-a e interrogou-a com todo o cuidado. Saiu do quarto e chamou o marido  parte.
- O corao de sua senhora no est nada bem ... O que ela precisa  dum mximo de repouso e, dum mnimo de emoes. Ah! r imprescindvel tambm que emagrea uns 
dez quilos.
O dono da casa fez um gesto de impacincia.
- A Emerenciana  uma mulher das custosas! Gosta de doce que nem formiga. Passa o dia comendo essas porcarias.
- Vou receitar um remdio e dar instrues para uma dieta.
Durante os vrios dias seguintes, Rodrigo visitou sua amiga a -horas certas. Uma noite encontrou no quarto da doente tia Vanja, que, sentada ao p do leito, com 
os culos na ponta do nariz, lia  luz dum lampio o folhetim do Correio do Povo, enquanto D. Emerenciana, sentada na cama, especada entre travesseiros, a escutava 
de olhos semicerrados e uma expresso de felicidade no rosto. Rodrigo ficou entre as duas mulheres por alguns minutos, estonteado no meio de tantas expresses carinhosas 
que partiam ora duma ora doutra, numa espcie de torneio em que cada qual se empenhava em descobrir a frase mais tenra, o adjetivo mais elogioso para atirar sobre 
o "Rodriguinho". Despediuse delas, deixando-as a discutir as personagens do folhetim como se se tratasse de criaturas vivas que conhecessem na intimidade. Ser que 
o conde vai casar com a Marie? E por que  que aquele sem~ergonha do Dr. Monet no volta para o lar? Anda bebendo pelas tavernas, enquanto a pobre da esposa fica 
em casa se esfalfando a costurar, a costurar, a costurar.. .
3
Certa manh de espessa geada, espalhou-se a notcia de que na Sibria uma criana havia morrido enregelada. Rodrigo tomou o carro e foi v-la. Dava-se o nome de 
Sibria a nm agrupamento
CHANTECLER        3 79

de ranchos mserveis situado no alto duma coxilha, a leste da cidade. A denominao vinha do fato de ser aquela a zona mais fria de Santa F.
A criana morta estava atirada no cho ao ar livre, hirta e roxa, com o rosto mido de geada, os olhos abertos e vidrados. Os parentes achavam-se reunidos em torno 
do pequeno cadver, com uma expresso de estupidez nas caras macilentas.
Rodrigo providenciou para que se fizesse o enterro  sua custa, deu dinheiro aos pais da criana e voltou para casa profundamente abalado. Era incrvel que coisas 
como aquela pudessem acontecer. Sentia-se um pouco culpado dquilo, pois no havia levado avante seus projetos de assistncia aos pobres. Andava demasiadamente absorto 
na fruio feliz de sua prpria vida, de seus prazeres e de seus xitos.
Naquela semana levou ao Barro Preto, ao Purgtrio e  Sitria carroas cheias de sacos de feijo, milho, arroz, batatas - gneros que distribuiu entre os necessitados 
com entusiasmo e generosidade, mas sem o menor mtodo. Comprou cobertores e andou pelas casas dos amigos a pedir roupas e cobertas velhas, sapatos usados, ponchos, 
palas, chapus, meias... Encheu algumas carroas com todas essas coisas e tornou aos subrbios da misria. Convidou Chru Neco e Don Pepe para ajud-lo. O espanhol 
trabalhou com os amigos sob protesto, murmurando a cada passo: "Esta no es la manera de resolver los problemas sociales. Eso es" humilhante. La ftida cardad cristiana! 
La ptrida generosidad burguesa !"
- Cala a boca, Pepito - ralhava Rodrigo, alegremente. - "T"rabalha, vamos!
Ele prprio andava dum lado para outro, a distribuir roupas, entrando e saindo dos ranchos e fazendo perguntas: - Quantos filhos tem? Onde  que trabalha? Quem  
que est doente qui? - Enfurecia-se suando no conseguia respostas claras ou quando, no temor de serem esquecidos, aqueles miserveis se acotovelavam num atropelo, 
procurando cada qual ser o primeiro a receber os~ presentes.
- Ou vocs se acalmam ou eu paro com a distribuio e vou me embora!
Erguiam-se para ele mos ossudas e encardidas, caras terrosas e descarnadas, como de cadveres recm-desenterrados. Santo Deus! Al estavam mulheres feias e entanguidas, 
mutas"delas aleijadas e quase todas com grandes olhos de tsicas; e homens guedelhudos, cujas barbas escuras e intonsas faziam ressaltar a palidez doentia dos rostos. 
Havia ali, numa promiscuidade repugnante, criaturas anquilosadas, rodas de tuberculose ou sfilis, escalavradas pela sarna, debilitadas pela disenteria. Crianas 
sem infncia, algumas
#38O        O RETRATO
com caras de fetos ou de bugios, outras de ventre intumescido pela " opilao. Aquela gente tresandava a suor mil vezes dormido, a picum e a urina seca. Rodrigo 
chegava a ver em alguns deles oa
pulmes carcomidos: quando falavam, parecia que iam vomitar
pedaos dos bofes. Surgiam tambm homens e mulheres com feri
das purulentas  mostra. Aonde vai parar a nossa raa ? - perguntava Rodrigo a si mesmo. Se no tomarmos uma providncia sria, dentro de cinqenta anos seremos 
um povo liquidado!
Tornou  casa deprimido e fatigado, com um peso na conscincia. O que ele fizera naqueles dias noo resolveria o problema. A misria e a doena continuariam entre 
aquela populao desgraada. A chaga seguiria aberta, a verter sangue e pus. Poderia set remediada e at mesmo curada se todos os ricaos de Santa F decidissem 
entrar com uma quantia mensal com o fim de dar assistncia queles indigentes. Mas qual! Viviam insensveis s desgraas alheias, passavam sempre de largo por aquela 
misria.
Exaltado, Rodrigo planejava fazer mais, e mais. E ainda naquele inverno, mandou trazer a seu consultrio muitos dos habitantes dos subrbios. _Examinou-os, Seu-lhes 
remdios e dinheiro para comprar leite.
"p o pai da pobreza" - dizia tia Vanja para Maria Valria. - "Cabecinha de bano, corao de ouro."
E Cuca Lopes, adulo, uma tarde na farmcia, puxando insistentemente no guarda-p branco de Gabriel, que mirava Rodrigo com uma expresso quase exttica, exclamou: 
"Que "seria de ns sem o Rodrigo, hein, que seria de ns?" O Pitombo da casa funerria fez um poema de p quebrado a que deu o ttulo de "Pai dos Desgraados" e 
no qual narrava os feitos caridosos.
Do mancebo que habita Aquela casa bonita...
4

A visita do Pinheiro Machado ao Sobrado e o fato de ter sido o grande homem visto na rua de brao dado com Rodrigo Cambar tiveram um efeito mgico sobre muitos 
santa-fezenses a quem a campanha d"A Farpa contra a situao -afastara dos Cambars. Rodrigo notava isso na maneira amvel e cordial com que certos republicanos 
agora o cumprimentavam.
Em meados de agosto, A Voz da Serra apareceu com um editorial cheio de subentendidos, em torno dessas rusgas de famlias gue ocorrem periodicamente dentro dos partidos, 
mas que nada significam, por serem meras tempestades dentro dum copo dgua.
CHANTECLER        381

Nesse mesmo nmero, publicava-se uma notcia discreta sobre a distribuio de gneros alimentcios, roupas e cobertores  pobreza,. por iniciativa dum jovem e prestigioso 
conterrneo, cujo nome deixamos de mencionar para no lhe ferir a reconhecida modstia.
Rodrigo leu o editorial e a notcia a sorrir e a murmurar pot entre dentes "Cachorros", mas na realidade j sem muito rancor. esquecido das ofensas passadas, compenetrado 
de seu papel de pai dos pobres, que o predispunha  tolerncia e ao perdo. Mostrou o jornal a Licurgo:
- Esto procurando uma brecha pra reconciliao. Influncia do Senador .. .
- E qual vai ser a sua atitude?
- A de sempre. Inflexvel. Tenho mais que fazer do que andar me preocupando com essa corja.
Com efeito, tinha muito que fazer. Durante aquele agusto, sua atividade profissional chegou ao auge. S numa semana atendeu quase duzentos indigentes no consultrio 
e uns vinte a domiclio.
Um dia vieram-lhe contar que o Zago dissera : "O Rodrigo est fazendo tuda essa caridade por pura exibio."
Ficou possesso, botou o chapu na cabea, deixou no consultrio um cliente semidespido ( "Fique a que eu j volto" ! ) , entrou na Farmcia Humanidade, segurou 
o Zago pela gola do guarda-p, sacudiu-o, empurrou-o violentamente contra a parede e berrou-lhe na cara
- Se continuares a falar mal de mim, cafajeste, eu te quebro essa cara, ests ouvindo? Fica sabendo que comigo ningum brinca.
O Zago empalideceu. No reagiu, ficou mudo, a boca aberta de espanto, os olhos esbugalhados, os braos cados. Rodrigo largou-o com uma careta de nojo, fez meia-volta 
e ganhou a rua, j irritado consigo mesmo por ter feito aquilo. Que lhe importava o que pudesse andar dizendo dele um boticrio ignorante e despeitado?
5
Ao consultrio j agora no lhe vinham apenas doentes: comeavam a aparecer pessoas que pediam conselhos, solues para problemas de natureza ntima, em geral questes 
de famlia, dificuldades financeiras ou desavenas entre marido e mulher. "O senhor, que  um moo instrudo e viajado, me diga o que  que devo fazer."
Em casa,  hora das refeies, Rodrigo falava  madrinha nos casos que surgiam. Maria Valria achava uma pouca vergonha ter
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uma pessoa a coragem de contar a estranhos intimidades de alcova; mazelas morais prprias ou de membros da famlia.
- Imagine, titia, eu agora feito juiz de paz. Era s o q me faltava!
Dava a entender que aquilo o desgostava, mas a verdade e que se sentia lisonjeado. Homens que teriam a idade de seu pat vinham pedir-lhe o apoio moral, uma orientao 
na vida. Naque ltima semana havia reconciliado um casal e impedido que u filho de Pedro Teixeira tirasse uma moa de casa.
Um sapateiro remendo que tinha a banca na Rua do Faxina e a quem Rodrigo lancetara um tumor no pescoo, apareceu-1 um dia no consultrio, contando-lhe, choroso, 
que um empregad da Auxiliaire lhe havia desonrado a filha de dezessete anos e re casava casar-se com ela.
Rodrigo foi procurar o sedutor, que era foguista, e encontrou-o nas oficinas da estao, junto da locomotiva, vestido de zuarte, com a cara riscada de carvo. Disse 
quem era e a que vinha. O rapaz quedou-se num silncio constrangido. O mdico comeou o sermo.
- O senhor procedeu muito mal e agora a nica soluo decente  o casamento.
- Mas foi ela que se ofereceu, doutor.
- No importa. Repare. o mal que causou e evite que essa pobre menina caia na vida.
- Mas  que ganho muito pouco.
Rodrigo continuou a arengar o foguista. Usou a princpio dt meios suasrios. Por fim, perdeu a pacincia e ameaou: ou casa ou vai pra cadeia! Com quem  que voc 
pensa que est tratando? Tenho prestgio suficiente junto da Auxiliaire pra botar voc pra rna imediatamente!
O foguista ficou lvido. Seus lbios tremeram e por seus olhos midos e escuros passou a sombra do medo. Rodrigo noo tardou em compadecer-se do pobre diabo. Tomou-lhe 
o brao. No se preocupe. Eu ajudo vocs. Meu pai tem um chalezinho perto dos trilhos. Casem e vo morar l de graa. Eu pago tambm as despesas do casamento. Vai 
ser no dia primeiro de setembro. Esta bem? Vamos ento providenciar pros papis...
Assistiu ao casamento religioso como padrinho da noiva. Seu primeiro pensamento ao v-la foi: "No teve mau gosto, o salafrrio." A menina tinha uma languidez morna 
e quase mrbida nos olhos castanhos, de longos clios, e era duma sensualidade que por assim dizer estava visvel  flor dos lbios carnudos.
Levou os noivos de carro para o chal, e ao voltar para casa soltou um fundo suspiro, dizendo para Bento:
- Uf! Desta estou livre.
Acendeu um cigarro, contente por ter feito uma boa ao. Mais um crdito na minha conta-corrente no Cu - pensou, sorrindo.
Duas semanas mais tarde, ,a noiva entrou-lhe no consultrio choramingando que o marido estava embriagado em casa, ameaando espanc-la.
Rodrigo ficou agastado. Que diabo! Que  que pensam que eu sou? Delegado de polcia? Vigrio? Fiz vocs casarem, arranjei-lhes onde morar, paguei as despesas, que 
mais querem?
A rapariga no dizia nada, limitava-se a chorar de mansinho, mordendo os lbios, apertando os olhos e deixando que as lgrimas lhe escorressem livres pelo rosto 
cor de oliva.
- Est bem. Vamos embora.
Mandou o boleeiro trazer o carro, entrou nele com a moa e cinco minutos depois chegavam ao chal.
- M"espere aqui, que j volto, Bento. Se precisar de auxlio,. eu grito.
Entraram. O chal era pequeno, mas asseado e alegre. Rodrigo encontrou o ferrovirio estirado na cama, de borco; a ressonar, com uma garrafa de cachaa ao lado: 
Olhou para a rapariga, como a pedir-lhe uma explicao. Ela balbuciou:
- Ind"agorinha ele estava acordado, querendo surrar em, mim`.
Saram do quarto e fechram a porta. Rodrigo voltou-se para a menina e ps-se a dar-lhe conselhos. Tenha juzo, procure conversar direitinho com seu marido, seja 
boa para ele, no perca a esperana, vocs so muito novos.. .
Continuou a falar, sem prestar muita ateno ao que dizia, os olhos sempre fitos na interlocutora, que o mirava dum jeito que comeava a deix-lo perturbado. Calou-se, 
e o silncio que se fel naquela sala sombria, de janelas fechadas, foi to sugestivo, que ele de sbito teve uma conscincia agudssima da presena daquele corpo 
clido e jovem ali junto do seu.
Continuou a falar... Pois . Tenha pacincia, com  tempo isso se arranja. Os seios dela arfavam e em pensamento Rodrigo tomou-os nas mos como se fossem limes 
verdes e rijos, e acariciou-os. Por que no? Por que noo? Ess bruaquinha talvez nem saiba direito o que est fazendo. Mas acontece que eu sei. O melhor  ir embora 
antes que me metam noutra enrascada .. . Aquele idiota, bbedo l no quarto, sem saber direito o que tem em casa. Deus d nozes... Sim, mas eu tenho dentes, e rijos. 
Morder esses limes.
A morena sorria. Rodrigo estendeu os braos, enlaou-a e puxou-a para si.
Pensou nos chapus de cobra qne o corpo de Ondina tinha esmagado no cho do mato. No havia cogumelos nas Tbuas do
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chal e a mulher do foguista, ao contrrio da caboclinha do gico, revelou uma experincia amorosa que o deixou surpreendi Onde, diabo, essas rapariguinhas aprendem 
tanta coisa em pouco tempo?
Instint - refletiu ele ao sair do chal, um quarto hora mais tarde. Onde  que os animais aprendem? Em algu escola? Em algum compndio? No. Puro instin~o. Sexo 
 t tinto.
No gostou do olhar oblquo e malicioso que Bento lhe rigiu, quando ele subiu para o carro. Ser que o patife susper de alguma coisa. Ser que andou me espiando?
- Me metem em cada embrulho! - exclamou.
Bento fez estalar o chicote. Os cavalos arrancaram.
No caminho, Rodrigo arrependeu-se do que havia feito. Ser que nunca vou criar juzo? Trao uma linha de conduta, sigo-: durante algum tempo e de repente, sem saber 
como, caio no primeiro alapo que me armam. Minha afilhada de casamento! Bo Que seja a ltima vez. Mas o que eu preciso mesmo  casar quanto antes!
Naquela noite teve uma conversa particular com o futuro sogro e sugeriu que o casamento fosse marcado para outubro prximo. Babalo chamou a mulher e consultou-a. 
Impossvel! - declarou,. U. Titina. O enxoval da Flora ainda estava atrasado. Ent novembro! - contemporizou Rodrigo. A futura sogra sacudi negativamente a cabea. 
Tambm no d,  muito em cima d lao... Pra que tanta pressa? At nem fica direito. Por no deixam a coisa pro ano que vem?
Rodrigo saltou da cadeira:
- Isso no!
Babalo picava fumo, fleumtico, olhando para o futuro genro. como que a divertir-se com seu aodamento.
- No se afobe. V comendo os bolinhos da Titina. Tem tempo! Deps conversaremos.
Deps! Deps! Sempre deps! As eternas convenincias sociais, os eternos "noo se pode", o medo dos filhos da Candinha, da boca do povo! Soltou um suspiro de impacincia, 
mas no teve outro remdio seno conformar-se com a situao.
6
Um dia foi procurado pelo Irmo Jacques e mais dois maristas, que lhe vieram comunicar ter sido ele eleito presidente honorrio
do Sport Club Charrua.
- Mas eu no entendo nada de futebol! - escusou-se, noo de todo contrariado pela notcia.
- No  mesmo para entender, doutor - disse um dos religiosos. - S queremos o seu nome para prestigiar o nosso clube. J temos o nosso team o nosso ground, e domingo 
que vem jogaremos uma partida contra o Sport Club Cruz Alta.
Rodrigo mandou buscar  adega uma garrafa de vinho branco e bebeu com os trs maristas  sade da nova sociedade esportiv.
No domingo seguinte, por volta das duas e meia da tarde, a banda de msica militar rompeu a tocar inesperadamente diante do Sobrado. Maria Valria e Licurgo correram 
 janela, intrigados. Rodrigo apressou-se a tranqiliz-los.
- No se assustem! Devem ser os jogadores.
De fato, no meio da rua,  frente da banda do regimento de infantaria, achava-se um dos filhos do Pedro Teixeira, empunhando uma grande bandeira tricolor. A seu 
lado, formados em fila singela, viam-se onze rapazes metidos em camisetas de listas coloridas, cales brancos curtos, e grossas meias de l de cano comprido.
Quando Rodrigo apareceu  janela, um dos maristas ergueu o chapu no ar e bradou
- Vva o nosso presidente honorrio!
Os jogadores romperam a gritar em unssono: Hip-hip-hurrah!
Hip-hip-hurrah!
Rodrigo sorria, respondendo  saudao com acenos. A seu lado, muito sria. Maria Valria murmurou:
- Que pouca vergonha! Uns homens grandes e peludos de cala curta!
Rodrigo teve a surpresa de ver, quase irreconhecvel entre os jogadores, o Irmo Jacques, tambm uniformizado, com um barrete vermelho na cabea. Pendia-lhe do pescoo, 
amarrado a um barbante, um apito de metal.
O team de Cruz Alta, chegado aquela manh em trem especial, estava hospedado no Hotel dos Viajantes, onde agora esperava os rapazes do Charrua para com eles desfilar 
pelas ruas, ao som de dobrados, rumo da cancha, que ficava para as bandas do cemitrio.
Rodrigo no teve outro remdio seno assistir  partida. Pediram-lhe que desse o kick-off. Antes, porm, teve de fazer um breve discurso de saudao aos visitantes. 
Depois deu um pontap na bla, sob aplausos, e voltou para as bancadas, onde ficou sentado em companhia de dois maristas.
Havia pouca gente assistindo ao jogo. Um dos relgiosoa disse:
#386        O RETRATO
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- O doutor compreende,  um esporte novo e o povo ainda, no est familiarizado com ele. Mas dentro de alguns anos o fntebol ter muitos aficionados.
Entrou a explicar as regras do jogo a Rodrigo, que no conseguiu interessar-se por elas e muito menos compreend-las. O que ele achava interessante e pictrico era 
ver aqueles rapazes de uniformes coloridos (os cruzaltenses traziam camisetas azuis) a, correr dum lado para outro, sob um cu luminoso sem nuvens, enquanto um nordeste 
picante fazia tremular as bandeiras de ambos os clubes. Quanto ao mais, parecia-lhe grotesco, absurdo que andassem aqueles vinte homens a correr desesperadamente 
atrs duma bola, a darem-lhe valentes pontaps, a se empurrarem e trocarem caneladas. Ao cabo de vinte minutos de jogo os cruzaltenses conseguiram fazer a bola passar 
por entre as traves do goal dos santafezenses, o que ps toda a equipe visitante num delrio de pulos, abraos e aclamaes. Os maristas estavam arrasados. "Foi 
culpa do goal-keeper!" - bradou um deles, gesticulando. - "Deixou a bola passar pelo meio das pernas."
A esfera de couro foi posta no centro do campo e Rodrigo viu Irmo Jacques pass-la para o companheiro da direita, ,que tornou a devolv-la ao marista, o qual se 
precipitou a correr com ela na direo do goal crnzaltense, esquivando-se dos adversrios que o atacavam e conseguindo, por fim, com um violento pontap, faz-la 
passar por entre as mos do goal-keeper de Cruz Alta. Estava empatada a partida. Os dois maristas, de p, os chapus no ar, gritavam: "L~patant! Formidable! Colossal!" 
E faziam sinais frenticos para o Irmo Jacques, que acenava para eles, sorridente, e quase to vermelho quanto o barrete que lhe cobria a cabea.
Na segunda metade do jogo houve, em dado momento, um tremendo choque, peito contra peito, entre dois adversrios, e ambos tombaram ao cho, aparentemente sem sentidos. 
Rodrigo foi chamado para atend-los. Empregou .num deles a respirao artificial, mandou dar um gole dgua a ambos, e dentro de dez minutos declarou-os aptos para 
continuarem a jogar.
Pouco antes das cinco horas, voltou para o Sobrado, extenuado. o corpo modo, como se ele tivesse andado a correr durante oitenta minutos atrs daquela pelota de 
couro.
- Presidente honorrio do Charrua! - exclamou ao estenderse na cama com um gemido. - Me acontece cada uma!
Na primeira semana de setembro uma troupe espanhola, "Los Farsantes. de Sevilla", veio dar quatro espetculos no teatro Santa Ceclia. Era um grupo pequeno, composto 
de Don Porfrio Palacos, bartono, de sua esposa, soprano ligeiro, duma canonetista e danarina ainda jovem, "La Granadina", e dum catalo atarracado
- de ar aborrecido, e que batia os acompanhamentos no piano com uma m vontade que se evidenciou ao pblico desde o primeiro espetculo. Don Porfrio e a esposa 
cantavam rias e duetos de zarzuelas como Los Gavilanes, La Gran Via, La Verbena de la Paloma e Dona Francisquita. Na primeira noite, ao interpretar
- Caballero de Gracia, metido numa casaca bem cortada, Don Porfrio conquistou desde logo a platia. Era um homem bem conservado para os seus cinqenta e cinco anos 
de idade: estatura me, rosto comprido e escanhoado, mas sempre sombreado de azul pela barba cerrada, a cabeleira rala com fundas entradas, o nariz longo e afilado. 
A esposa, - alta, cheia de corpo, loura e imponente como uma Valquria - no estava artisticamente  altura do marido. Tinha uma voz estrdula e meio gasta, desafinava 
com freqncia e noo conseguia atingir as notas agudas das rias e canonetas que interpretava. O verdadeiro elemento de atrao dos espetculos, entretanto, era 
"La Granadina", que desde o primeiro nmero como que prendera fogo no elemento masculino da platia. Era uma madrilena que beirava a casa dos trinta, mida mas bem-feita 
de corpo, de olhos negros e vivos, uma voz meio rouca
- um jeito canalha de menear os quadris. Danava jotas, seguidlhas e paso-dobles e cantava canonetas cuja letra picante sabia enfatizar com olhares safados e oportunas 
piscadelas. As mulheres de Santa F acharam-na indecente, mas no puderam ficar indiferentes ante seu rico guarda-roupa, seus mantons de manila, seus leques, berloques, 
e peinetas. Quando ela entrava em cena, Ro
drigo, que noo perdeu espetculo, tinha a impresso de que o teatro de repente ficava mais quente, como se houvessem aberto a boca duma fornalha.
Don Pepe, que desde a chegada dos "Farsantes de Sevilla"" travara relaes com os compatriotas, disse a Rodrigo:
- Hay que conocerlos, hombre. Don Porfrio es un tipo muy culto. Hijo de una famlia ilustrssima de Madrid, sabes? Me cont toda su vida, una verdadera novela. 
Es abogado pero abandon la profesin porque su pasin es el teatro. Muy interesante. Y mira, hijo, "La Granadina", coo, que mujercita!
#3 8 8        O RETRATO

No estava Rodrigo interessado em conhecer pessoalmente "Los Farsantes"? - indagou o pintor. Claro, homem, claro.
Combinaram que se encontrariam naquela noite na Confeitaria Schnitzler, depois do espetculo com que a rroupe se despedia "del distinguido pblico de esta hermosa 
ciudad".
Don Porfrio fez um breve discurso em cena aberta. Um admirador desconhecido mandou ao palco um ramilhete de flores para "La Granadina". A Sra. Palacios cantou uma 
ria da Traviata, e Rodrigo fechava os olhos e retorcia-se na cadeira, agoniado, sempre que a cansada soprano se avizinhava dos agudos.
Terminado o espetculo, deixou Flora em casa e, como havia combinado. dirigiu-se para a confeitaria. Don Pepe l estava, sentado a uma mesa com "Los Farsantes de 
Sevilla". Fizeram-se as apresentaes. Don Porfrio com suas mesuras d~ fidalgo, parecia ainda estar no palco, no papel dum Caballero de Gracia. "Encantado, seior, 
encantado, es un grau honor." A soprano, vista de curta distncia,  luz de acetilene, com sua pele muito branca e gretada, tinha algo de boneco de maapo. O aperto 
de mo de "La Granadina" foi quente e demorado e Rodrigo sentiu no olhar dela um mundo de promessas titilantes. Que pena essa diabinha ir embora amanh .. .
Don Pepe traou para os compatriotas uma breve biografia de Rodrigo: quem era, o que fazia, o que representava para Santa F. Os outros olhavam para o biografado 
- Don Porfrio com um ar respeitoso e admirativo; a esposa, apenas com um vago interesse; "La Granadina", com uma espcie de ateno gulosa.
- Que vamos a beber? - perguntou a Sra. Palacios.
Rodrigo teve uma idia.
- Esperem. Por que no vamos l para casa? Temos melhores cadeiras, timos vinhos, umas guloseimas e um bom gramofone ... Que tal ?
A sugesto foi aceita com entusiasmo. Mas o bando no havia ainda chegado  calada e j Rodrigo se arrependia do convite. Era-lhe agradvel a .idia daquela tertlia 
bomia, mas ocorria-lhe agora que a visita dos espanhis podia_ dar motivo a maliciosos comentrios na cidade. Levar atores e atrizes a uma casa de famlia? Era 
uma coisa inaudita. Para aquela .cidade provinciana, atriz era sinnimo de prostituta. Vou pagar caro por esta extravagncia - refletia, caminhando ao lado de Porfrio, 
Rua do, Comrcio em fora. Pensou na noiva e no que ela podia imaginar quando viesse a saber daquilo. E que diria seu pai? E sua madrinha? Felizmente eram onze horas 
da noite, a rua estava deserta, as casas fechadas. Ao mesmo tempo- que fazia essas reflexes, Rodrigo revoltava-se no s contra os preconceitos sociais como tam
CHANTECLER        389

bm contra si mesmo por lhes estar pagando aquele tributo. Bolas! ... Sei o que fao. Fao o que entendo.
Ao entrarem no Sobrado, Don Pepe pediu que falassem baixo, pos a madrinha de "mi amigo, una ~ preciosa seora, ya est acostada".
Rodrigo teve o cuidado de fechar a porta da sala de visitas que dava para o vestbulo. E quando, depois duma excurso  cozinha. voltou com uma bandeja na qual se 
via uma garrafa de champanha, cinco taas e um prato com pequenas fatias de po barradas de caviar., Don Pepe olhou para os compatriotas como a dizerlhes "miren 
el amgo que tengo".
Ficaram a conversar sobre cidades, viagens, vinhos e pessoas.
Rodrigo ps o gramofone a funcionar. O Caruso, o Amato, a Tetrazzini, e a Patti cantaram rias, mas Don Pepe e Don Porfrio estavam de tal modo empenhados numa discusso 
sobre poltica espanhola, que pareciam indiferentes s vozes que saam da campnula do aparelho. E para se fazerem ouvidos um do outro, em melo do furor opertico 
dos cantores, tinham quase que berrar. A Sra. Palacios, que j bebera duas taas de champanha, dava risadinhas juvenis, com uma das mos espalmadas sobre os seios. 
Rodrigo divertia-se vendo o entusiasmo miudinho de roedor com que ela mordiscava o po com caviar, exclamando de quando em quando: "Precioso, pre-ci-o-so."
Rodrigo sussurrava perguntas ao ouvido de "La Granadina." Gosta de ler? No? E de msica? Tambm no? De que  que gosta ento? "Yo? Me gustan los mu~hachos guapos." 
E lanou-lhe um olhar que foi um convite.
Esta j tenho no papo - pensou Rodrigo. - E tem de ser agora. Nem que o mundo venha abaixo.
Correu, azafamado,  cozinha e trouxe outra garrafa de champanha. Quando a rinha saltou com um estampido e a espuma transbordou "La Granadina" gritou "Ol!" e estendeu 
a taa. A soprano apanhou mais uma fatia de po com caviar.
Don Porfrio fazia a defesa do Rei Afonso XIII. Era um caballero perfecto, um homem de esprito e um democrata. No tinha culpa "de las tonterias de su ministro, 
ese imbcil de Canalejas". Don Pepe confessou que em 19O5 tomara parte no atentado da Rua Rohan, em Paris, contra a vida do soberano espanhol. "No!" - exclamou Don 
Porfrio. E quedou-se, de olhos muito arregalados, a contemplar o anarquista.
 meia-noite os dois espanhis, a quem o champanha emprestava nm ardor novo, entraram numa discusso de carter topogrfico- uma divergncia sobre a localizao 
dum determinado caf de Barcelona. "Se queda en la Rambla de las Flores" - dizia um. "No. - retrucava o outro. - Se queda en la calle Aribau"
#39O        O RETRATO

- "Ests equivocado" - "Pero, hombre, he passado quince anos en Barcelona." - "Pues yo he passado veinte, tono!"
A soprano mal podia manter os olhos abertos. "La Granadina" e Rodrigo escolhiam discos, de p ao lado do gramofone, muito prximos um do outro, as cabeas a se encostarem, 
as moa a se tocarem. Ele cochichou uma pergunta:
- Os Palacios so seus parentes?
- Oh! No, no. Simplesmente amigos.
"La Granadina" cheirava a claueles e tinha mos de criana. Rodrigo no gostava da maneira como ela se vestia: os brincos dourados de cigana, o vestido cor de morango, 
a peinera com uma imitao de brilhante... Mas, que diabo! roupa  o que menos interessa neste caso.. .
- Quer ver a minha biblioteca?
- Donde?
- Na outra sala.
- Bueno .. .
Rodrigo ps a girar no gramofone um disco de Caruso - a grande ria da Aida - para atordoar os outros e em seguida meteu-se com a espanhola no escritrio. Sei que 
 loucura, mas agora ningum me ataca, nem eu mesmo. Nestes assuntos, a surpresa  tudo. )r at mais gostoso.
Fechou a porta a chave.
- Senor! - exclamou ela.
Rodrigo no perdeu tempo. Atirou-se sobre a "La Granadina", enlaou-lhe a cintura e beijou-lhe a boca com to prolongada fria, que a espanhola chegou a perder o 
flego. Quando teve oportunidade para respirar, balbuciou:
- Pero los otros .. .
- Que vo pro inferno!
- Mira, por que no vienes a mi hotel, despus? -  agora ou nunca.
No havia acendido o gs. A luz do luar entrava pelas bandeirolas. Na outra sala, Radams proclamava seu amor pela celeste Aida.
Diabo! Quando o disco acabar, o idiota do Pepe  capaz de vir bater  porta. No h tempo a perder.
"La Granadina" relutou por alguns segundos, esquivou-se em passos de dana, fez um pouco de teatro e acabou por se refugiar no espao que havia entre o bureau e 
a parede, sob o retrato do Patriarca.
r a mesmo que eu te quero, castelhana - pensou Rodrigo. E avanou.

Nunca ficou sabendo se os outros "se habian dado cnenta" do
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que acontecera. Voltaram  sala de visitas pouco depois para encontrar a soprano com a cabea atirada sobre o respaldo da cadeira, cochilando, e Don Pepe e Don Porfrio 
ainda a discutir acaloradamente, enquanto a agulha do gramofone estava a rascar, a rascar, a rascar no rtulo do disco.
"Los Farsantes de Sevilla" retiraram-se do Sobrado  uma da madrugada em companhia de Pepe. Rodrigo ficou a ss no escritrio, a fumar e a pensar em que a melhor 
coisa que tinha a fazer para seu bem, para o bem de Flora e do futuro de ambos era casar o quanto antes.
No dia seguinte,  noite, teve uma nova conversa como o futuro sogro e acabou por convenc-lo de que o casamento devia ser aprazado para dezembro. Dona Titina foi 
.chamada, quis espichar o prazo ("Por que no em princpios do ano que vem?") mas Rodrigo dessa vez se mostrou inflexvel. Ficou ento ombinado que casariam no 
prximo Natal.
#CAPfTULO XXI
1
E1~I 1bIEADOS de setembro, Rodrigo embarcou para Porto Alegre, onde permaneceu durante quatro dias. Escolheu na melhor casa de mveis da capital uma moblia de quarto 
de dormir: mandou fazer vrias fatiotas na alfaiataria de Germano Petersen; tirou retratos no atelier Calegari: andou pelas lojas a comprar roupas brancas. gravatas, 
meias, lenos, perfumes; procurou alguns companheiros dos tempos de estudante; fez uma visita sentimental a Mlanie, com quem passou uma noite; comprou uma jia 
para Flora, am pala de seda para o pai, um revlver para Torbio e uma srie de outros presentes para distribuir entre os amigos e a negrada da cozinha... Feito 
isso tudo, preparou-se para voltar.
Na vspera da partida, meteu-se no Cinema Ideal. Vin uma comdia de Max Linder e um filme natural em que, entre outras coisas, aparecia, de chapu alto e crois, 
Mr. Fallires, presidente da Repblica Francesa, a caminhar ligeirinho, com movimentos de boneco de mola, a cortar fitas inaugurais e a passar tropas em revista. 
Seguiu-se um filme dramtico da Vitagraph, uma fbrica norteamericana. Rodrigo achou-o divertido mas ingnuo. As fitas que vinham dos Estados Unidos - refletia ele 
- noo se podiam comparar com os capolavori italianos da Cines nem com as artsticas produes francesas da Gaumont, da Path Frres ou da Edair. Saiu do Ideal a 
pensar em que seria magnfico se ele pudesse dotar sua terra dum cinematgrafo.
Chegou a Santa F com uma euforia de turista, decidido a pr
em prtica muitos de seus velhos projetos.
- Precisamos de luz eltrica urgentemente! - disse ao pai. Licurgo, porm, sacudiu a cabea, discordando. - Acho que  muito cedo.
- Por qe, papai? Podemos organizar uma companhia e vender aes a esses estancieros. O dinheiro deles est criando bolor nos bancos e nas burras. A firma Bromberg 
~ Cia. de Porto Alegre compromete-se a ficar com a metade das aes e a mandar as mquinas, engenheiros e mecnicos competentes para fazer a instalao da usina.
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Naquela semana mesmo reuniu no Sobrado as pessoas mais importantes de Santa F e exps-lhes o plano da organizao duma sociedade annima para explorar o fornecimento 
de luz eltrica  cdade. Os pr-homens o escutaram com uma ateno cptica. Quando Rodrigo lhes perguntou quantas aes iam subscrever, os zstancieiros deram a 
entender que fora da pecuria nada os interessava. ("So mais fiis s vacas do que s prprias esposas" - queixou-se mais tarde Rodrigo a Chiru.) Joca Prates prometeu 
pensar no assunto. Pedro Teixeira respondeu que no momento no dispunha de numerrio. Cacique Fagundes disse um noo redondo. Maneco Macedo declarou que poderia 
ficar 
com umas cinco aes, em ateno a Licurgo. E a reunio terminou nisso.
Rodrigo ficou desapontado. Cruz Alta estava tratando de construir uma usina e em breve teria suas casas e ruas iluminadas a eletricidade, ao _passo que Santa F 
parecia condenada a passar o resto da vida a depender dos tristes lampies do lobisomem .. .
Os positivistas tinham razo. Cada povo tem o governo que merece. Para uma cidade de mentalidade pecuria como aquela, s um intendente bovino como o Titi Trindade.
2
Em princpios de outubro Rodrigo recebeu pelo correio as cpias das fotografias que tirara em Porto Alegre: doze de corpo inteiro, de frente, e doze de busto, de 
trs quartos. Ao mostr-las aos amigos, dizia:
- No foi por faceirice, vocs sabem que noo sou vaidoso. Mas quis ter uma lembrana deste momento feliz da minha vida .. .
Pepe Garcia examinou as fotografias demoradamente, de cenho franzido e, como Rodrigo lhe pedisse a opinio, cuspia:
- Ptridas!
- No digas isso, homem! Esto esplndidas, todo o mundo acha.
- Todo el mundo menos yo. Y me gusta muchsimo estar contra el mundo.
- Mas que  que achas de mau nestes retratos? No esto parecidos? A qualidade da fotografia noo  boa? Ou  a posei Vamos explica-te!
- No tienen alma. Estn muertos.
- Que quer dizer com "no tienen alma"?
- Mira, angelito, que vemos en estas fotografias? La imagen miniatural, en spia, de un hombre. Pero quen puede devir,
#394        O RETRATO

al ver esas figuritas, como es ese hombre, lo que piensa, lo qne siente?
~        - Mas como  possvel uma fotografia exprimir tudo isso? - Ah ! Dices bien, como es posible que una fotografia .. .
Bueno! Eso es lo que est mal. Una Gamara fotogrfica es una
mquina e una mquina no tisne alma .. .
O pintor olhou fixamente para o amigo e recuou dois passos. - No te muevas. Un instante ... Bueno. Soltou um suspiro.
- Rodrigo, me gostaria pintar tu retrato de cuerpo entero .. . No! De alma entera!
Rodrigo ,lanou-lhe um olhar enviesado.
- Como pintaste o do Cel. Teixeira?
- Oh, hombre, no, tu eres diferente. Ah, hijo, se consigo hacer lo que me imagino, esa ser la gran abra de mi vida. Despus de eso eaterrar mis pinceles e mi paleta.
Rodrigo sorria, j seduzido pela idia. Ver-se retratado em cores, de corpo inteira, no seria nada mau... O diabo do espanhol era habilidoso e, quando queria, era 
capaz de apanhar o parecido de seus modelos.
Quem sabe?
- Ya estoy a ver la obra acabada... Los hombres la miran e descubren tu alma, como si fueras transparente. Porque en el retrato estar no solamente tu cuerpo, gero 
tambin tos pensamientos, tos deseos, tos pasiones, tu pasado, tu presente y tu futuro.. .
- Basta, Pepito. Eu me contento com o presente. Se me pintares bem como sou hoje, ficarei satisfeito.
- Pero yo no me contentar con menos que la perfeccin. Todo o nada. Las cosas hay que hacerlas con pasin e no hacerlas. Qudate inmovil. Ya veo todo. Tamaio natural, 
una ropa , negra. La postura? Bueno, nada de convencionalismos burgueses; el modelo sentado en una silla, con la faz apoyada en la mano derecha, la izquierda apretando 
un libro. Nada de eso? Te veo en la cima de una colina a mirar el horizonte, el porvenir, la gloria ... El viento te agita los cabellos, tu hermoso rostro .. .
- Pepe! - sorriu Rodrigo. - Isso at parece uma declarao de amor .. .
- Y por que no, cofio, en el momento en que estar pintando yo te amar como. solo un artista sabe amar ... Pero no me interrompas... El fondo del cuadro ser formado 
por las coxilhas y por el Grelo de tu terra, pero el observador tendr la impresin de que en el fondo est el infinito.
- Qual  a cor do infinito?
- Te burlas de mi, no? Crees que estoy borracho, ao? Pero
CHANTECLER        395

ya tengo titulo para el cuadro. Puede llamarse EI Favorito de los proses .. .
Rodrigo sorria, imvel, como se fosse j a sua prpria imagem pintada na tela. De sbito, como numa revelao, o pintor exclamou:
- Chantecler! Si, tu eres el Gallo. Tu canto ha hecho el sol alzarse en el horizonte, y ahora el sol te acaricia el rastro. Es la maiana de tu vida .. .
- Ests borracho, Pepito.
- Si, borracho, gero no de alcohol. Borracho de belleza como solo un artista verdadero puede estar.
Sentado agora, o pintor contemplava o amigo com olhos parados e mortios. Foi numa voz diferente, cansada e lsa, que tornou afalar.
- Necessito preparar un lienzo ... un metro de largo por ds de alto. Hay que comprar tintas, pinceles. sa es la parte material de la cosa, hijo.
Estendeu para Rodrigo a mo magra e alongada, como a dos fidalgos e santos de El Greco.
- Dme dinero, vamos!
Sorrindo e sem saber bem at onde Pepe ia levar aquela farsa, Rodrigo meteu a mo no bolso - gesto que sempre fazia com espontaneidade - tirou um mao de notas e 
deu-as ao amigo sem
contar.
3
Depois desse colquio, Pepe Garcia desapareceu por completo da casa dos Cambars durante uma semana inteira. Decerto botou fora o dinheiro que lhe dei para comprar 
a tela e as tintas - concluiu Rodrigo, achando isso muito natural e at divertido. E esqueceu o assunto.
Uma tarde, porm, o pintor irrompeu no Sobrado, trazendo a grande tela e um cavalete.
- Donde vamos a trabajar?
Rodrigo ficou um tanto apreensivo. No lhe era agradvel a perspectiva de ficar paradA por largas horas, a posar.
- Essa histria noo vai levar muito tempo?
- Pero qne es el tiempo? Los hombres verdaderamente superiores ho piensan en el tiempo. Yo nunca he usado reloj en toda mi perra vida. Mi medida de tiempo es la 
eterndad. Nosotros los espaoles somos as. Pero la eternidad quizs no pase de una ilusin de los msticos. Y los msticos no pasarn de enfermos mentales. Ser 
yo un mstico? O un enfermo mental? Bueno, los
#396        O RETRATO

artistas verdaderos nunca sou normales. Pero quin es normal? Cllate, Pepe, cllate. A trabajar y a trabajar.
Ficou combinado que Rodrigo posaria duas ou trs horas por semana, preferivelmente pela manh, num dos quartos do andar superior, cujas janelas se abriam para o 
nascente. Teriam assim luz natural e direta.
No dia seguinte o espanhol trouxe os pincis, as bisnagas de tintas e a palheta. Maria Valria acompanhou-o at o atelier improvisado, a fazer-lhe recomendaes. 
No borre as paredes de tinta, no cuspa nem atire cigarros acesos no cho.
A primeira pose comeou s dez horas duma clara mas ventosa manh de outubro. De p junto  janela, com a luz do sol a baterlhe em cheio no rosto, Rodrigo estava 
imvel. Com o rabo dos olhos via no quintal os pessegueiros floridos que o sueste sacudia com seu fresco e ~ perfumado mpeto.
- No te muevas... - murmurou Pepe, que, de fusain em punho, riscava a tela em largos traos. Recuou, olhou para o modelo e depois para o desenho, fico indeciso 
por um instante, ao cabo do qual bateu com um pano na tela, apagando os traos de carvo. Ps-se a caminhar miudinho na frente do quadro, num vaivem nervoso, trauteando 
coplas e imprecando. Tornou a riscar, a recuar, a avanar, olhando alternadamente do modelo para a tela.
Rodrigo estava j impaciente. O vento tinha a capacidade de deix-lo inquieto e um pouco irritado. No Rio Grande - achava ele - a decantada beleza da primavera noo 
passava duma lenda europia trazida por livros, poemas, revistas, quadros e cartespostais, e aqui mantida artificialmente por poetas e pintores, pois na realidade 
a estao que ia de 21 de setembro a Z 1 de dezembro, era no extremo sul do Brasil uma poca de vento e chuva, cu enfarruscado e temperatura instvel.
Depois duma hora, o artista deu cmo terminada a primeira pose. Rodrigo ficou decepcionado quando, ao olhar para a tela, viu nela apenas os contornos de sua figura 
e uma face completamente vazia de feies.
- S isso?
- Y que ms querias? Cuanto tiempo es necesario a la naturaleza para hacer un diamante? Milenrios, chiquto, milenrios!
Dois dias mais tarde, Rodrigo tornou a posar. Pepe iniciou o trabalho de bm humor, cantarolando jotas aragonesas e acompanhando a cantiga com movimentos rtmicos 
de cabea.
Rodrigo falou durante todo o tempo da pose. Estava excitado com as notcias que o jornal do dia anterior trouxera. Cara a Monarquia em Portugal. Dom Manuel II e 
a famlia real haviam sido mandados para o exlio. O Palcio das Necessidades fora
CHANTECLER        397

bombardeado. E pelas ruas de Lisboa, onde se erguiam barricadas, as multides tinham passeado em triunfo os cabeas da revoluo.
- Que tal, dou Pepe? Ests contente?
...- Y por qu? Fu un movimiento burgus. Es una etapa en la direccin del anarquismo. Pero no estoy interesado en la poltica internacional. No te muevas, hijito. 
Ha llegado el momento crtico. Tus ojos. Quin sabe si el secreto de tu encanto, paloma, est em tus ojos de gata y miei? Pero como sou tus ojos? Negros castaios? 
Negros. Dominadores? A vetes. Tiernos? A vetes. Humanos? Siempre.
Olhava do quadro para o modelo, do modelo para o quadra De repente, num gesto brusco, cancelou o desenho do rosto com um xis de carvo.
- Coio, estoy infeliz, hoy!
Atirou longe o fusain, deu por terminada a pose e deixou o Sobrado sem dizer palavra. Passou uma semana ausente, sem dar o menor sinal de vida. Quando voltou. Rodrigo 
quase noo o reconheceu. Don Pepe tinha raspado o cavanhaque.
- Que foi isso, homem? - perguntou, desatando a rir.
O pintor acariciou com a ponta dos dedos o queixo escanhoado e esclareceu:
- Una vez en Triana yo pintava un cuadro y no conseguia acertar con un matiz. Un viejecto me dijo: "Por que no te quitas la para?" Respondi: "Buena idea." Me qut 
la para y en seguida encontr el color deseado.
- Ests ficando completamente doido, Pepe.
- La normalidad es hermana gamela de la mediocridad. Pero vamos a trabajar, a trabajar.
Subiram para o que Pepe j chamava "mi taller". Aps mais algumas tentativas frustradas, o pintor achou que tinha conseguido levar para a tela, de maneira satisfatria, 
os traos de Rodrigo."
- La marcacin est hecha. Ahora, a pintar!
Rodrigo ficou meio confuso diante do que via na tela. No conseguia reconhecer a prpria fisionomia naquela confuso de riscos negros. O outro explicou:
- Un pintor verdadero hace casi todo con el pincel, con los colores.
No dia seguinte, Pepe comeou a misturar as cores e Rodrigo, ao entrar na sala, achou agradvel aquele cheiro de tinta a leo e aguarrs. Imaginou que dali por diante 
tudo seria mais fcil e mais rpido. Enganava-se. A cada passo surgiam dificuldades e interrupes. Havia momentos em que Pepe estava de mau humor, nada o satisfazia, 
e ele acabava por fechar-se em silncios casmurros. Duma feita, desesperado por no poder reproduzir o tom
#3 9 8        O RETRATO

exato da tez do modelo, atirou longe a palheta, lambuzando Osoalho de tinta.
Noutros dias, era Rodrigo quem - no dizer de Maria Valria - "amanhecia com o Bento Manuel atravessado". Vendo o modelo assim de aspecto azedo e sombrio, Pepe cruzava 
os bras e cecusava pintar.
- No eres Rodrigo Cambar. Eres una otra persona, un impostor. Vamos, la sonrisa, la faz despejada, la mirada viva e lmpia, la alegria de vivir, la confianza en 
el porvenir!
Nas manhs em que ambos estavam de mau humor, surgiam atritos e discusses, e mais duma vez Rodrigo abandonou a sala, intempestivo, batendo com a porta. Esses arrufos, 
noo raro, duravam dias.
- No sou nenhuma criana pra estar aqui fazendo papel de bobo! - exclamou ele no dia em que Pepe, de sbito, num capricho de prima-dona, largou a palheta e os pincis 
e declarou que ia suspender o trabalho porque: "la luz hoy tiene algo de desfavorable, un cierto tono gris." Rodrigo, a quem a luz parecia to clara e dourada como 
nas melhores manhs, vociferou:
- Ou tu aprontas essa droga duma vez ou eu noo piso mais nesta sala!
- Ingrato!
Muitas vezes, porm, Rodrigo acabava rindo das excentricidades do espanhol. Por mais que se esforasse, noo podia levar muito a srio aquele tipo, e j agora comeava 
a duvidar de que o retrato pudesse ser terminado de maneira satisfatria.
Pepe contava que andava passando as noites em claro, a pensar naquela obra, e confessava que, se no conseguisse fazer o que queria, essa seria a mais amarga derrota 
de toda a sua vida.
- Me mato, chiquito, palabra de honor que me mato.
- Deixe de besteira, homem !
E assim se passou todo aquele resto de outubro e a primeira semana de novembro, que entrou com aguaceiros bruscos. Rodrigo j agora encontrava freqentes desculpas 
para faltar s poses: noites mal dormidas, chamados urgentes alta madrugada, excesso de trabalho no consultrio .. .
Certa manh apareceu radiante no atelier cantarolando o La donna  mobile, e contou a Pepe que na noite anterior uma comisso encabeada pelo Cel. Maneco Macedo 
viera ao Sobrado pedir-lhe licena para lanar sua candidatura  presidncia do Clube Comercial.
- Ya aceptaste? - indagou Pepe, indiferente, sem tirar os olhos da tela.
- Por que noo? lr preciso noo deixar cair a diretoria nas mos da cambada do Trindade.
CHANTECLER        399
- Glorias burguesas .. .
- Ah! Deixa-te de bobagem. H muito que fazer naquele clube. Vou aumentar o salo de baile, reformar o bufete, botar uns quadros nas paredes .. .
- Hablas como si ya estuvieras elegido .. .
- Se h coisa que no me passa pela cabea  a idia duma derrota. O Cel. Macedo me garantiu que muitos republicanos vo votar em mim. Disse mais: que a situao 
at nem vai apresentar candidato!
- Bueno, bueno, me alegro que aso te haga feliz. Es exactamente esa expresin que deseo en tu rostro. La expresin de un triunfador.
Continuaram a conversar animadamente. Don Pepe, de quando em quando rompia a cantar trechos de Dona Franscisquita. Rodrigo contou-lhe seus projetos. Estava tratando 
de convencer o pai de que ele e Flora deviam passar a lua-de-mel na Europa. Disse isso e calou-se, a imaginar suas andanas por Paris em companhia de sua querida 
mulherzinha. Iriam ao Louvre. s Tulherias,  Praa de 1"Etoile, ao Quartier Latin... Cus, quanta coisa! Imaginou, sorrindo, a expresso do rosto de Flora quando 
ele lhe mostrasse o pequeno pot de chambre de Maria Antonieta .. .
4

Maria Valria vinha s vezes olhar o progresso da bra. Pa
rava diante do quadro, de braos cruzados, ficava ali por algum
tempo em silncio, e, depois de dirigir um olhar enviesado para o
pintor, retirava-se.
Rodrigo observara que nos dias de ventania Pepe ficava mais
agitado que de ordinrio, dava voltas inteis e incompreensveis
pelo quarto, exclamando:
- Maldita primavera! No hace ms que ventar, ventar y
ventar .. .
No dia 15 de novembro Rodrigo apareceu com ar taciturno. - Hoje toma posse o Marechal Hermes. Pobre pas!
Dias depois, porm, abriu impetuosamente a porta do atelier
e, de cabea erguida e ventas dilatadas como um potro, avanou
para o pintor e despejou a notcia que o Cel. Jairo acabara de
lhe transmitir pelo telefone:
- A esquadra revoltou-se, t~epito! - Que escuadra, hombre?
- Ora, que esquadra! A nossa, a brasileira!
Contou, exaltado, que os marinheiros dos couraados l~linas
#4OO        O RETRATO

Gerais e So Paulo e a do scout Bahia, de canhes assestados para o Rio, haviam passado um radiograma ao governo da Repblica, exigindo a extino do castigo da 
chibata a bordo, sob pena de bombardearem a Capital Federal.
-  o fim do governo do Marechal! Imagina tu as bocas de fogo daqueles dois colossos da nossa armada assestadas vara o Rio! O Hermes no tem outro remdio seno 
renunciar.
Pepe umedecia com a ponta da lngua as bordas do cigarro que acabara de enrolar.
- Bueno, bueno, gero vamos a trabajar.
- Nunca! Hoje no vou posar. Tenho que sar pra desabafar.
Naquele mesmo dia, aps o almoo, encontrou no clube, como de costume, o Cel. Jairo Bittencourt; que lhe narrou detalhes da revolta.
O capito-de-mar-e-guerra Joo Batista das Neves comandante do Minas Gerais, fora trucidado pelos seus subordinados. Os oficiais que no tinham conseguido escapar 
em tempo, haviam sido assassinados ou gravemente feridos pela marinhagem amotinada.
- Mas quem  o chefe da revolta, coronel?
- Um marinheiro preto, um tal de Joo Cndido, que h uns trs anos comandou um motim a bordo do Tamandar.
Sacudindo a cabeleira fulva, Jairo suspirou.
-  uma calamidade, meu amigo, uma verdadeira calamidade.
- Mas e o governo? Que faz o governo? Jaro encolheu os ombros.
- Parece que se recusa a negociar com os rebeldes.
- Mas  uma loucura. Mais tarde ou mais cedo ter que ceder para evitar que o Rio seja destrudo!
Rodrigo passou os dois dias que se seguiram em estado de exaltao, desinquieto, ansioso ante a falta de notcias. As edies do Correio do Povo de 23 e 24 de novembro 
nada traziam sobre os acontecimentos da Capital Federal. As comunicaes telegrficas com o centro do pas pareciam interrompidas.
No dia 26 Rodrigo foi pessoalmente  estao comprar o Corceio do Povo que vinha no trem de Santa Maria. Abriu o jornal. L estava uma pgina inteira de telegramas 
sobre a revolta da armada. Ps-se a ler as notcias com a sofreguido de quem devora uma novela de aventuras. Mas j dois dos subttulos o deixaram gelado: A Anistia 
- TerminaGo da Revolta. Sim, vinham ao p da pgina notcias decepcionantes. O Senado apressara-se a conceder a anistia aos revoltosos, e o Presidente da Repblica 
no se opusera  vontade dos senadores. Os rebeldes se haviam rendido.
CHANTECLER        4O1

"Neste momento os navios "Minas Gerais", So Paulo", "Bahia" e "Deodoro" acabam de arriar o sinal de guerra, hasteando bandeira branca e salvando a terra com
21 tiros."
- Palhaos! - exclamou Rodrigo, amassando o jornal e atirando-o no cho.
Naquela mesma tarde entrou no atelier, calado e de cabea baixa.
- p uma misria, Pepe. A revolta fracassou. O Senado concedeu anistia e o governo continua de p. Isso significa que temos de agentar o Marechal quatro anos!
O artista, porm, estava mais interessado no seu trabalho que na revolta de Joo Cndido ou nas possibilidades de queda do governo.        _
Naquele dia deu os ltimos retoques no rosto do retrato e quando, terminada a pose, o outro quis ver o quadro, ele no permitiu.
- No. Prefiero que los veas despus, Guando yo haya terminado el fondo.
Levou a tela para casa e passou sumido uma semana inteira. Novembro estava a findar quando o castelhano telefonou a Rodrigo, comunicando-lhe dramaticamente que "la 
obra estava consumada" e que ele a levaria ao Sobrado dentro de poucos minutos.
Ao chegar, encarapitado na bolia da carroa que trazia a tela toda envolta em panos, encontrou o amigo a esper-lo  porta. Levaram o retrato. para a sala de visitas, 
onde o colocaram no ca
valete.
- Preprate, Rodrigo.
O pintor comeou a desenrolar com mos nervosas os panos que envolviam o quadro. Ao ver a prpria imagem na tela, Rodrigo sentiu como que um soco no plexo solar. 
Por um momento a comoo dominou-o, embaciou-lhe os olhos, comprimiu-lhe a garganta, alterou-lhe o ritmo do corao. Quedou-se por um longo instante a namorar o 
prprio retrato. Ali estava, nas cores mesmas da vida, o Dr. Rodrigo Cambar, todo vestido de preto,
l Pepe explicava que o plastro vermelho era uma licena potica) a mo esquerda metida no bolso dianteiro das calas, a direita a segurar o chapu-coco e a bengala. 
O sol tocava-lhe o rosto. O vento revolvia-lhe os cabelos. E havia no semblante do moo do Sobrado um certo ar de altivez, de sereno desafio. Era como se - dono 
do mundo - do alto da coxilha ele estivesse a contemplar o futuro com olhos cheios duma apaixonada confiana em si mesmo e na vida.
O xtase de Rodrigo durou alguns segundos.
#~ ~ 2        O RETRATO

- Y que tal, hombre?
Foi ento que ele se lembrou de que o retrato tinha um autor.
- Magnfico, Pepito, formidvel! Uma obra de arte. A parecena est surpreendente ... Eu ... queres saber duma coisa Z Pois olha ... At .. .
No encontrava palavras para exprimir seu contentamento, sua admirao.
Precipitou-se para o pintor e estreitou-o contra o peito.
- Caramba! Pepe, palavra que nunca pensei...
Tornou a contemplar o quadro. Havia naquela figura uma poderosa expresso de vitalidade. Era o retrato de algum que amava intensamente a vida, que tinha nsias 
de abra-la, de goz-la totalmente e com pressa. Sim, ele se reconhecia naquela imagem: a tela mostrava no apenas sua aparncia fsica, as suas roupas, o seu "ar", 
mas tambm seus pensamentos, seus desejos, sua alma. Como era que o diabo do espanhol tinha conseguido tamanho milagre?
- Quizs sea mi canto de cisne .. .
- Mas por que, homem de Deus?
- Milagros como ese no ocurren dos vetes en la vida de un
artista.
Os olhos do pintor estavm agora inundados de lgrimas. Ro
drigo esforava-se por dominar a prpria comoo.
Maria Valria foi chamada para ver a maravilha. Parou diante
do quadro, olhou-o demoradamente em silncio, e por fim disse: - S falta falar.
- Pero, seiora, ese retrato habla, dite todo!
Chiru e Neco tambm apareceram. O barbeiro achou que estava "supimpa". Chiru mirou o artista com admirao e afeto:
- Esse castelhano duma figa at que tem jeito pra coisa!
O Tte. Lucas ps-se de ponta-cabea para olhar .o qadro e deu a sua impresso mimicamente, como uma personagem de cinematgrafo.        .
-  uma tela digna de qualquer museu! - opinou or Cel. Jairo. - Vou trazer a Carminha para v-la.
Carmem Bittencourt veio ao Sobrado naquela mesma noite, olhou longamente para a pintura e depois para Rodrigo, dum jeito que o deixou desconcertado.
O marido perguntou:
- Ent, meu amor, que achas.
Sem altear a voz, respondeu:
-  um retrato to revelador que chega a ser indiscreto. Jairo desatou a rir. Rodrigo ficou perturbado, sem saber como interpretar as palavras da esposa do coronel.
5
Durante os dias subseqentes, grande foi a romaria ao Sobrado. Todos queriam ver "o portent ".
Tia Vanja traou as mos diante do quadro, como se fosse rezar.
- A minha bolinha de bano!
D. Emerenciana queixou-se de que, como no freqentava o Sobrado. por causa "dessas bobagens de brigas polticas", ia ficar privada de ver a obra-prima. Rodrigo 
generosamente mandou levar-lhe  casa o retrato, em cuja contemplao a esposa de Alvarino Amaral ficou por longo tempo. O quadro veio de volta com um recado:
- Diga pro Rodrigo que  a coisa mais formosa que j vi em toda a minha vida.
Flora apareceu uma noite com a me e o pai, especialmente para ver a tela.
- Nunca pensei que fosse ficar to bem assim - disse. E mirou a figura por tanto tempo e com tamanha expresso de ternura, que Rodrigo chegou a ter cime da prpria 
imagem.
Babalo plantou-se por alguns segundos a pitar na frente do quadro, enchendo o ambiente com a fumaa e o cheiro acre de seu cigarro de palha. Por fim, olhando para 
Maria Valria, murmurou
- Est ms parecido com o Rodrigo do que ele mesmo. Que csa brbara!
Gabriel ficou de boca entreaberta diante da pintura, num silncio meio amedrontado. O Cuca aproximou-se da tela, cheiroua e noo resistiu  tentao de encostar 
o 
dedo nela.
- Que beleza, Rodrigo, que chique! Vai fazer inveja a muita gente. J andam at dizendo pela cidade que noo est parecido. Que mentira, hein? Que injustia!
Mariquinhas Matos, que havia muito noo entrava no Sobrado, achou um pretexto qualquer para vir, em companhia da me, visitar Maria Valria. Depois de contemplar 
por algum tempo Oretrato, disse uma frase que escandalizou ambas as senhoras:
- Um rapaz bonito como o Dr. Rodrigo no devia se casar nunca.  muito homem para uma mulher s.
Sua me empertigou-se na cadeira, alarmada.
- Mariquinhas! Isso  coisa que uma moa direita diga?
- Ora, mame, no estamos mais no sculo XIX, e sim em 191O!
Com uma loquacidade nervosa, comeGou a falar no movimento
CHANTECLER        4O3
#4O4        O RETRATO

das sufragistas na Inglaterra. Quando ela terminou, a me procurou desculp-la:
- S os malditos livros que essa menina l, D. Maria Valria. Eu vivo dizendo pro Terzio que no deixe ela ler essas coisas modernas.
Rodrigo #ficou encantado quando a tia, ao lhe reproduzir a ousada frase , da Gioconda, acrescentou
- Aquela, se pudesse, te agarrava com as duas mos.
Ele sorriu dum jeito que queria dar a entender que "a coisa noo era bem assim como a Dinda dizia". Mas no fundo concordava com ela e sentia-se lisonjeado.
Quando Licurgo e Torbio vieram do Angico para uma curta estada na cidade, Rodrigo ficou curioso por ouvir a opinio do pai e do irmo sobre o retrato.
- No tinhas mais nada que fazer? - perguntou Bio.
O -pai teve uma reao que Rodrigo noo esperava. Olhou para
o quadro, num silncio enigmtico, amaciando uma palha de milho
com a lmina da faca, depois sorriu, dizendo:
- Est muito bom. Quanto vai pagar pro castelhano? - No sei ainda, papai. Qual  a sua opinio?
- Pague bem. O quadro vale. D quinhentos mil-ris. - Que despropsito! - exclamou Maria Valria.
`f
Pepe Garcia passou muitos dias ausente do Sobrado. Uma tarde um dos moleques da mulata Celanira apareceu no consultrio com este recado: "A mame mandou pedir pro 
senhor ir l em casa, que o seu Don Pepe est doente." Rodrigo foi, imediatamente. O chal de Celanira ficava no meio dum banhado, mas era confortvel, limpo, e 
tinha cortinas e vasos de flores nas janelas. A mulata - gorda, grisalha e ativa, recebeu o doutor  porta com uma cordialidade de velha tia.
- Pois o Pepe caiu de cama faz dias e no quis que eu incomodasse o senhor.
- Devia ter me chamado em seguida, D. Celanira.
Muito plido, a pra j a crescer-lhe de novo, o pintor achava-se estendido numa cama de casal, sobre lenis imaculados que cheiravam a alfazema, e coberto por 
uma colcha de retalhos.
- Ento que  isso, Pepito? - perguntou Rodrigo jovialmente.
- Ay que me muero, hijo, ay que me voy. Esto es el final. - Qual nada !
Rodrigo sentou-se na beira da cama, ps a mo na testa do amigo e achou-a escaldante. Tirou-lhe a temperatura: 39 graus.
- Tem uma febrinha ... - mentiu para Celanira, que se encontrava ao p do leito.
Auscultou o pulmo e o coao do paciente. Tomou-llx o
pulso. Examinou-lhe a garganta e a lngua.
-.Tudo em ordem.
Apalpou-lhe os intestinos, a vescala, os rins. Fez-lhe per
guntas. Comeu alguma coisa indigesta? No. Sente algema dor?
No sentia nada, s aquela impresso de febre, uma ezcitao e
ao mesmo tempo um abatimento, uma cansem .. .
- Passou a noite variando, doutor - contou a mulata.
- Ay, vida mia, que noche! Si yo pudim describir mi de
lrio, Rodriguito, creo que escribra una pgina inmortal. Soergueu-se de repente e ezclamon:
- No. Se yo pudiera pintar lo que he visto era mi delrio.
hara cara cuadro nmortal, ms temble que e1 Apocalipse, ms dra
mtico que el Toledo de El Greco.
Rodrigo f-lo deitar-se de novo.
- Calma, Pepito, calma. No te ezaltes. O que ta tens 
puramente de fundo nervoso. A cansa de todo  o retrato. Tirou do bolso o bloco de papel de receitas e prescreveu um
calmante para os nervos e uns papis de pinmido. Depois. mu
dando de tom e de assunto:
- Sabes, Pepe? O retrato tem feito nm snccsso danado. ~
o assunto da cidade.
- Filisteus!
- Oh ! No digas isso. H em Santa F moita gente ins
truda, capaz de apreciar o belo.
Falo-lhe agora em pagamento? - perguntou-se a si mesmo.
- Ou deixo tudo pra depois?
Aproveitou o momento em que Celanira saa do quarto com
a receita na mo:
- Pepito, agora precisamos acertar contas. - No te entiendo.
- Preciso te pagar. - Por qu?
- Pelo retrato, homem!
Pepe sentou-se na cama com uma ezpresso de dignidade fe
rida no rosto macilento.
- No hables ms.
- Mas Pepe! Levaste nm tempo fazendo aquele trabalho.
a tua obra-prima. Von te pagar nm conto de ris. ,Vale at
mais .. .
- Rodrigo, si eres mi amigo, no me hables era dinero! - Que bobagem!
- Tu me insultas.
Rodrigo ps-se de p fazendo nm gesto de desnimo. Estava
intrigado ante a reao db pintor. Um homem que praticamente
CHANTECLER        4O5
#"1O6        O RETRATO

noo ganhava um vintm, recusava receber um conto de risl P sitivamente o castelhano era um poo de surpresas e mistrios
- Est bom. Ento quero que prometas tomar todos os remdios que te receitei e que s te levantars quando eu te der licena. Prometes ?
- Se lo prometo, Chantecler.
Rodrigo apertou a mo do amigo. Estava j  porta do quarto, quando Ooutro gritou:
- Mirai Prstame cincuenta mil-ris.
- Homem de Deus, acabei de te oferecer um contol
- No. Eso es diferente. Quiero cincuenta, pero prestados,
comprendes ?
- Est bem. Eu entrego o dinheiro a Celanira.
- Se tienes ms confianza en ella que en mi .. .
Rodrigo sorriu. Ao sair do chal, entregou um conto de ris
 mulata, recomendando:
- No conte a ele que lhe dei todo esse dinheiro. Diga que foi s cinqenta mil-ris. O Pepe  uma mula de teimoso.
- Est dizendo pra mim? - sorriu a mulata, mostrando os caninos de ouro.
CAPITULO XXII
1
NA NOITE de onze de dezembro, Rodrigo convidou os amigos a sua casa para uma ceia e uma tertlia. "A minha despedida da vida de solteiro" - explicava ao fazer os 
convites. Mandou Laurinda preparar uma mayonnaise de maquereau, ps rinco garrafas de champanha num balde, dentro do poo, e ao entardecer comeou a abrir as "suas 
latinhas", sob o olhar irnico de Maria Valria. Debruou-se a uma das janelas laterais e gritou para o ptio da Estrela-d"Alva " Chicol" E quando o padeiro trepou 
na cerca com a cara e a cabea manchadas de farinha, pediu: "Hoje ali pelas dez me manda uns vinte pes quentinhos, ouviste?"
Ainda bem que o papai voltou pro Angico - refletia enquanto andava pela casa a fazer os ltimos preparativos. Assim noo tenho de ver nenhuma cara feia.
Ps-se a arranjar na sala de visitas e no escritrio as rosas e
os junquilhos que tia Vanja lhe mandara ao entardecer. Estava a contemplar, com a cabea inclinada para um lado, o vaso que se        S.~ achava sobre o consolo, 
quando Laurinda entrou e, lanando-lhe um olhar truculento, murmurou: "Maricol" Rodrigo, que a enxergava pelo espelho, respondeu-lhe com um gesto obsceno, que pretendia 
ser uma afirmao de sua masculinidade. "Bandalho 1" - exclamou a mulata, com fingida clera.
Ao anoitecer Rodrigo acendeu os bicos de gs da sala de visitas e do escritrio, escancarou as janelas e ps a rodar no gramofone um disco de Amato. Sentou-se e 
ficou a pensar em Flora. Dentro de duas semanas poderia traz-la para o Sobrado, como sua esposa legtima. Imaginou a cena... A casa silenciosa. Dinda discretamente 
recolhida ao quarto, Laurinda, a indecente, decerto a espi-los por alguma fresta de porta... Flora e ele trocariam ali na sala o primeiro beijo, e beberiam ambos 
uma taa de champanha, num brinde ao futuro. Depois, abraados, subiriam vagarosamente a velha escada, cujos degraus, naqueles quase sessenta anos de existncia 
do Sobrado, tinham sido pisados por incontveis ps: as botas dos homens que haviam defendido a casa con
ele,
#4O8        O RETRATO
CHANTECLER        4O9
tn os mangatos, no cerco de 95: os chinelos de ourelo de asa bisav Bibiana: os coturnos do Dr. Winter, mdico e filsofo, de corja figura ele. Rodrigo, tinha uma 
lembrana to viva; os sapatinhas de sua me e, mais remotamente, os de sua av paterna, criatura nebulosa e meio lendria de quem no ficara nenhum retrato, e cuja 
memria andava envolta numa atmosfera egnvoca ... E daqui a algaras anos - refletia, sorrindo - os meus filhos estaro descendo essa velha escada, montados no corrimo, 
bem como Bio e era fazamos quando meninos.
De sbito despertou de seu devaneio para ouvir o chiado da agulha do gramofone, a qual, depois de ter percomdo a ltima ranhura do disco, estava a arranhar-lhe o 
rtulo. Acercou-se do aparelho, fez parar o prato e levantou o diafragma.
Torbio entrou. Estava de bombachas, botas e esporas e de chapu na cabea. Sentou-se pesadamente, olhou para os jornais empilhados sobre o bureau e perguntou
- Algema novidade no Rio?
Interessava-se mornamente pela poltica, mas tinha preguia de ler os jornais. Rodrigo contou-lhe que a situao de insegurana e inquietude, agravada pela revolta 
da esquadra, continuava. Circulavam pelo Pas os boatos mais alarmantes.
- E o pior - acrescentos -  que o Marechal mandou  Cmara ama mensagem pedindo o estado de stio!
- Se essa coisa vem, que  que vai ser da gente?
- : o fim de fado, a debade moral e material do Pas, o descalabro completo. O que as pessoas decentes tm a fazer  emigrar, homem. O remdio  fazer uma revoluo 
e derrubar esse sargento.
- Qual nada! Emigrar  a ltima coisa em que se deve pensar. Inda quero ver o Senador Pinheiro passar pra So Lus, de crista cada... isso se escapar com vida e 
no for parar na cadeia.
Rodrigo soma. Aquilo era muito bonito de dizer, mas tudo indicava que o governo estava forte e que a Cmara e o Senado iam votar a favor do estado de stio.
2
Rodrigo estava debruado  janela quando viu trs vultos aprozimarem-se do Sobrado. Reconheceu neles Neco. Chiru e Saturnino. Os menestris! - pensou com alegria, 
vendo que o barbeiro e o ecnomo haviam trazido os instrumentos. Quando os amigos entraram, ele os conduziu imediatamente no andar superior rara mostrar-lhes "noras 
coisas que recebi de Porto Alegre". F-los
entrar no quarto nupcial, cuja moblia de jacarand lavrado tinha nm aspecto de pesada e digna solidez. Sobre o mrmore rosado do lavatrio de espelho oval, via-se 
uma bacia com um jarro, ambos de loua branca estampada de ramilhetes de flores multicoloridas. E ao p da cama, duma larga imponncia de leito imperial, estendia-se 
um vasto tapete "legtimo da Prsia", assegurou Rodrigo. Escancarou as portas do guarda-roupa para exibir aos amigos as fatiotas que mandara fazer em Porto Alegre: 
o novo smoking, uma fatiota de vicunha, duas de casimira e dois ternos de linho branco. Abriu as gavetas e mostrou a roupa branca e umas duas dzias de gravatas 
de cores e padres variados.
- ~s um nababo! - exclamou Chiru, apalpando com visvel prazer as gravatas de seda, l, gorgoro e malha.
Neto tomou-se logo de amores por uma gravata verde com losangos negros e brancos.
- Quando essa bichinha ficar velha, no botes fora. Me d pra mim.
Rodrigo puxou a gravata num gesto brusco e meteu-a no bolso do seresleiro.
- Toma. ~ tua.
- No sejas bobo, nem usaste ainda...
- Cala a boca.
- Mas .. .
- Est encerrada a questo. Vamos descer.
Foi empurrando os amigos na direo da porta. Diabo! - pensou - no dei nada pros outros. Voltou ao guarda-roupa, apanhou s cegas duas gravatas e entregou uma a 
Chiru e outra a Saturnino. O primeiro tentou um protesto grandiloqente. O ltimo aceitou o presente num silncio cheio de gratido.
- No se fala mais nisso - decidiu Rodrigo. - Quem v pensa que eu dei um palacete a cada um de vocs !
O Cel. Jairo e o Tte. Rubim no tardaram a chegar. Liroca tambm apareceu, poucos minutos aps os militares. Como sempre, entrou com o ar reverente de quem penetra 
numa catedral. Silencioso, de chapu na mo, caminhando na ponta dos ps, procurou uma cadeira, sentou-se, sem rudo, e ficou quietinho, como que a orar. Rodrigo 
divertia-se com aquela comdia de que eram protagonistas sua madrinha e Jos Lrio. Desde o dia em que Lroca voltara ao Sobrado, depois de quinze anos de ausncia, 
o pobre homem ainda no conseguira fazer com que Maria Valria lhe apertasse a mo ou mesmo lhe dirigisse um olhar frontal. Quando a cumprimentava - "Boa noite, 
dona, como tem passado?" - ela se limitava a fazer uma relutante inclinao de cabea e a murmurar algo que tanto podia ser "Boa Noite" como "V pro diabo!"
#41O        O RETRATO

Quando Lucas, o ltimo conviva a chegar, entrou na sala, Torbio correu a abra-lo. Naquele instante diante do Retrato, Rubim, comentava os mritos da obra.
- Nunca imaginei que esse espanhol fosse capaz de fazer uma coisa sria assim ... Sempre o considerei um farsante, nma personagem de opereta.
- O que prova - observou Rodrigo - que a gente nunca chega a conhecer direito as pessoas, por mais que conviva com elas.
Rubim examinava a tela com ar professoral.
- Como ser - perguntou - que um homem dotado desse talento e dessa habilidade no tira melhor proveito dele? No posso compreender como  que um artista como Don 
Pepe anda perdido neste fim de mundo.. .
Ao ouvir estas ltimas palavras, Liroca quebrou seu silncio: - H gentes que pensam que s a Capital Federal  que presta .. .
Rubim prosseguiu:
- No sou nenhum conhecedor de pintura, "mas tenho visto bons quadros e posso afirmar que estou diante duma obra nada vulgar. Todo o artista, seja ele poeta, compositor, 
pintor ou escultor, tem o seu momento milagroso em que o acaso colabora com ele -  o minuto do mistrio: uma pincelada feliz, um conjunto de circunstncias que 
se combinam, e, zsI, l est a obra de arte!
A voz do tenente de artilharia lembrava a Rodrigo as notas mais graves da flauta de Saturnino: Rubim envergava um uniforme cqui, e naquela noite sua fealdade se 
fazia notada dum mod todo especial. Por qu? Talvez fosse a desordem em que estavam seus cabelos ressequidos. Ou ento era porque naquele dia noo havia escanhoado 
o rosto. Quando no se achava em cima do cavalo, num desfile militar, seu busto raramente se mantinha em postura rgida : em geral suas costas se encurvavam acentuadamente, 
o que lhe dava um ar de cansao, de envelhecimento precoce e ao mesmo tempo um certo qu erudito de professor.
Jairo contou a Rodrigo como ficara sensibilizado ao ler recentemente nos jornais a notcia da morte do Conde de Tolstoi.
- No foi s a morte, coronel - disse Rodrigo - mas tambm as circunstncias dramticas que a precederam.
A tragdia do grande romancista causara-lhe profunda mpresso. Desgostos com o artificialismo e o materialismo da civiliza~o ocidental, Lon Tolstoi, o apstolo 
da vida simples e do amor ao prximo, pregara nos ltimos anos de sua vida o retorno ao Cristianismo primitivo. Um dia, ao voltar dum passeio pelo campo, com o corao 
partido pelo espetculo da srdida misria em que viviam os camponeses, encontrou  frente de sua casa uma
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esplndida carruagem, smbolo do fausto e do conforto de Yasnaya Polana. Ficou to abalado pelo contraste, que decidiu abandonar a famlia para levar a vida dum 
simples campons. Deixou  esposa uma carta em que lhe dizia no poder mais continuar naouela vida de gro-senhor, to contrria a suas crenas. Pedia que lhe perdoasse 
o desgosto que ele ia causar e suplicava-lhe no tentasse faz-lo voltar atrs, pois sua deciso era irrevogvel. Numa madrugada de novembro meteu numa maleta roupa 
branca, livros e outros obietos de uso pessoal e, ajudado por um amigo, deixou a manso de Yasnaya Poliana. Quatro dias depois era encontrado na estao de Astapovo 
em estado febril, conseqncia duma inflama~o pulmonar. Os mdicos chamados para socorr-lo nada puderam fazer. Uma semana mais tarde, Leon Tolstoi expirava, e 
sua morte comovia o mundo inteiro.
- Que grande homem e que grande vida! - .exclamou Rodrigo.
- Que era um gnio, no resta a menor dvida - disse Rubim. - Mas que tinha um crebro doentio, tambm  coisa que ningum em boa razo poder negar. Um homem sadio 
de esprito no procede como Tolstoi procedeu. Essa obsesso com os humildes no passa duma fraqueza, o desejo, talvez, de ganhar o Cu.
- No faa tamanha injustia a um dos maiores escritores que a humanidade produziu! - protestou Rodrigo.
Rubim armou o seu melhor sorriso cnico:
- A explicao mais simples que encontro para o caso do Conde Tolstoi : cristianismo complicado com sfilis!
O Cel. Jairo soltou um oh! escandalizado. Rodrigo teve vontade de esbofetear o tenente. Voltou bruscamente as costas ao irreverente artilheiro e, aproximando-se 
do gramofone, p-lo a tocar a Serenata de Schubert, num solo de flauta.
3
As conversas estavam animadas. Lucas e Bio confabulavam a um canto da sala, soltando risadinhas e trocando-se palmadas nas costas. Estava claro que falavam em mulheres 
- concluiu Rodrigo. E Chiru, que suava em bicas, e que j havia pedido licena "aos patrcios e circunstantes" para tirar o casaco, dirigiu-se ao Ce1. Jairo:
- Pois  como lhe digo, comandante. Este vero vou buscar o tesouro dos jesutas. O Rodrig  meu scio na empresa. Vamos achar uma verdadeira salamanta.
Laurinda entrou, trazendo uma bandeja cheia de clices com
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vermute, que comeou a distribuir entre os convivas. Rubim discutia com Jairo as possibilidades da decretao do estado de stio.
- No tenho a menor dvida - dizia. - A Cmara votar o stio por uma maioria esmagadora e o Senado confirmar.
- Teremos ento a ditadura! - exclamou Rodrigo. - E s pessoas decentes deste pas no restar mais nada a fazer seno emigrar para o Paraguai.
Rubim sorriu.
- No seja to dramtico - disse, depois de bebericar o vermute. - Acredite que a ditadura  o nico meio eficiente de governar um pas como o nosso.
- No diga tamanha asneira!
Jairo, que aquela noite estava um tanto taciturno, interveio na discusso, mas sem muito calor:
- Eis um assunto delicado e cheio de perigos - murmuroa com sua voz paternalmente grave. - Eu preferia que vocs, rapazes, no o levassem muito longe .. .
- Ora, coronel - tranqilizou-o Rodrigo - estamos em famlia, aqui somos todos amigos. E no vejo no momento assunto mais importante, mais vital que esse. E ouam 
o que eu digo: o Marechal talvez no chegue ao fim do quatrinio.. .
Rubim sacudiu a cabea numa vigorosa negativa.
-- Vou fazer outra profecia. O estado de stio ser decretado e o Marechal ir at o fim do perodo!
- Mas por que razo afirmas que a ditadura  a nica forma de governo para o Brasil? - perguntou Rodrigo.
- Porque este  um pas de mestios e analfabetos. Os eleitores em sua maioria mal sabem desenhar o nome e no tm idoneidade intelectual para escolher seus administradores 
e legisladores. Cabe, portanto, s elites cultas dirigir o povo e organizar os governos.
Chiru saltou de seu canto.
- E onde fica a democracia? - gritou.
- A democracia - replicou o tenente de artilharia -  uma fico baseada na romntica iluso de que o homem  essencialmente bom e que portanto a vontade da maioria 
ser sempre uma expresso da verdade.
Jairo, muito vermelho, sacudia a cabea, discordando, mas sem dizer o que pensava do assunto.
- E depois - prosseguiu Rubim - se por um lado a democracia tem como objetivo o bem-estar do povo em geral, por outro a Histria tem provado sobejamente que essa 
felicidade s poder ser atingida por meio dum governo aristocrtico. Continuo a afirmar que noo tem nenhum sentido lgico ou prtico essa busca da felicidade geral. 
 uma absoluta perda de tempo que atrasa a
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produo de super-homens. Neste ponto Plato e Aristteles esto de acordo com Nietzsche ou, melhor. Nietzsche est de acordo com esses dois filsofos clssicos.
Jairo continuava a menear a cabea, o cenho franzido.
- Pois en - declarou Rodrigo - sou liberal, isto , um partidrio da tolerncia religiosa, da livre iniciativa, do livre pensamento, do respeito ao indivduo. Acho 
que todos os homens nasceram iguais e o que os torna desiguais so as circunstncias em meio das quais crescem.
Rubim soltou uma risada e a dentua projetou-se para a frente. agressiva. Depois de tomar o ltimo gole de vermute, replicou:
- O liberalismo, meu caro Rodrigo, no passa dum disfarce muito transparente do medo. O liberal  um cidado que se recusa a admitir em voz alta que o homem  um 
an}mal de rapina e que o verdadeiro, o nico direito que existe na natureza  o direito da fora. Por ser liberal ele se considera muito nobre, uma espcie de farol 
a iluminar o mundo. No entanto, o liberalismo, como o decantado amor cristo, tem origem apenas num sentimento inferior: o medo de que o prximo nos possa fazer 
mal. Isso nos leva a "am-lo" (como s tal coisa fosse possvel!) a fim de que ele tambm nos a~e ou, pelo menos, noo nos queira muito mal nem nos agrida. No entanto, 
se o liberal se sentisse invulnervel na sua tone de marfim, o que ele faria era seguir a sua tendncia natural, ficar indiferente ao prximo ou transform-lo em 
seu escravo.
- Absurdo! - aparteon Jairo. - Sem a menor base cientfica!
Rodrigo aproximou-se do tenente de artilharia e fez-lhe uma pergunta incisiva, marcando bem as slabas:
- E esse desejo de fora, essa necessidade de afirmao que vocs os nietzschianos sentem, no ser tambm um produto do medo ?
- No. ~ antes um desafio aos deuses!
Ao pronunciar estas palavras Rubim soltou com elas sua gargalhada convulsiva. Rodrigo teve a impresso que estava na frente dum grande boneco mecnico a que tivessem 
dado toda a corda para que ele se pusesse a imitar uma dana de So Vito.
- Mas que mrito podemos ter, tenente, nesse desafio a entidades em cuja existncia noo acreditamos?
- Muito bem dito - aprovou Jairo - muito bem respondido!
Rodrigo avistou a tia que,  porta da sala de jantar, lhe comunicava mimicamente que a ceia estava servida.
Liroca soltou um profundo, sentido suspiro que lhe sacudiu o Peito.
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- Vamos cear, minha gente! - exclamou Rodrigo. afetuosamente o brao de Jairo. - Venha, coronel.
Fez um sinal para os outros. Entraram todos na sala de ja tar e sentaram-se  mesa.
Lucas e Torbio continuavam em seus segredinhos, e o tensa
de obuseiros de quando em quando soltava risadas secas e cur - A mayonnaise est divina - avisou Rodrigo.
Serviu primeiro o coronel, depois passou a travessa a Chir - Agora, que cada um faa pela vida. Sirvam-se  vonta Houve uma alegre troca de pratos, no meio das conversas
dos tinidos dos talheres. Rodrigo trouxe duas garrafas de cham
ganha, abriu-as e andou com elas ao redor da mesa a encher
taas.
Em dado momento ouviu-se, alta e clara no meio das outras. a voz de Torbio:
-        uma morena macanuda, com uns peitorais de respeito, recm-cada na vida .. .
Fez-se um sbito silncio. Chiru e Neco romperam a rir quiseram saber de quem se tratava.
- Respeita os mais velhos, Bio - troou Rodrigo, fazendo com a cabea um sinal na direo do coronel. E enchendo pela segunda vez a taa de Rubim, perguntou-lhe, 
provocante: - Ser que participas tambm do desprezo do teu mestre pelas mulheres?
O artilheiro inclinou o busto para trs.
- Modus in rebus. Nietzsche noo levava as mulheres muito a srio. O que ele pensa do sexo oposto parece estar consubstanciado naquela frase de Zaratustra: "O homem 
deve ser exercitada para a guerra e a mulher para a recreao do homem."
Torbio ergueu o garfo:
- Esse  dos meus!
Rodrigo comia com gosto e ao fim da terceira taa comeou a sentir os efeitos do champanha.
4
Deixaram a mesa pouco depois das dez horas. Rubim tomara e mantivera a palavra durante os ltimos quinze minutos, grota rando mostrar que a histria da jovem Repblica 
brasileira noo passava duma ~ucesso de golpes de fora em que havia prevalecido sempre a vontade duma elite ou dum super-homem. mas nunca a do povo. A propaganda 
fora feita por nm grupo de tribunos e jornalistas em meio da indiferena popular, pois o povo ou noo sabia do que se tratava ou estava ainda fascinado por aquele 
i.rnperador lendrio, paternal e fracalho.
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Apenas uma minoria esclarecida desejava o novo regime. que fora proclamado por Deodoro. um militar, num golpe de fora. E esse militar, a quem se entregara depois 
a Presidncia da Republica, irritado ante a oposio do Congresso, dissolvera-o. tentando Ogolpe de Estado. E quando, pouco depois. impotente diante da onda insurrecional 
que sacudia o Pas, Deodoro renuncia, Floriano. o vice-presidente, assume o governo e, com mo de ferro, sufoca a revoluo, salvando a Repblica. Seu sucessor, 
entretanto. pese a falar a linguagem crist e feminina da concrdia, quando Oque devia fazer era seguir a poltica enrgica e masculina do antecessor. Como resultado 
da indeciso e da cordura de Prudente de Morais, faz-se sentir de novo em todo o Pas o fermento revolucionrio. O drama de Canudos - afirmara Rubim - ilustrava 
de maneira viva a sua tese de que o Brasil era um .pas de mestios analfabetos capazes de todos os fanatismos.
- No, senhores! Nos momentos de crise em nossa Histria sempre surgiu um Homem cuja vontade mudou o rumo dos acontecimentos. A figura que vejo hoje no cenrio nacional, 
capaz de influir nos destinos da nao,  a de Pinheiro Machado. Digam dele o que quiserem. mas a verdade  que o Senador  uma fora contra a anarquia, um dique 
oposto  enxurrada popular, um mantenedor inflexvel do prestgio da autoridade.
Voltara-se para o anfitrio:
- No entanto, um homem culto e inteligente como o Rodrigo chegou a desejar que o negro Joo Cndido depusesse o Marechal Hermes e institusse no Brasil o governo 
da patulia!


Sentaram-se nas cadeiras da sala de visitas.
- O que eu temo - disse Rodrigo -  que o Senador Pinheiro acabe chamando sobre o Rio Grande a antipatia do resto do Brasil.
- Um homem verdadeiramente forte no necessita da simpatia de ningum. Ele se basta a si mesmo. Talvez nunca venha a ser amado, mas  fora de dvida que ser sempre 
respeitado e temido.
Torbio e Lucas chamaram Rodrigo  parte.
- Olha - dissse o primeiro - ns vamos embora. Tem muito homem aqui, no , Lucas? Vamos correr as casas das chinas.
- Bom proveito - murmurou Rodrigo, dando palmadinhas protetoras nas costas do irmo e do amigo.
Pouco depois Chiru e Saturnino tambm se retiraram. Iam fazer uma serenata para a filha do coletor estadual, que Chiru estava
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tentando conquistar. Havia j escolhido o repertrio: Elvira;
do, Emlia; Ai lblaria e O Talento e a Formosura.
~,~"__ Chiru puxou Rodrigo para o vestbulo.
- Escuta, me empresta a uns dez pilas. Estamos despilcha - E aqueles duzentos que te dei o outro dia? Chiru fez uma cara grave.
- No. Aquele dinheiro  sagrado.  pra expedio. Rodrigo sorria, metem a mo no bolso e tirou uma cdula. - No tenho nenhuma de vinte. Leva cinqenta. - Depois 
te trago o troco.
- No sejas cnico.
Os menestris ganharam a rua e, ao voltar  sala de visi Rodrigo ouviu, vindos de fora, os trinados da flauta do Saturo nino.
Jairo folheava um nmero de L"lllustration e estava particalat mente interessado nas reportagens ilustrads sobre as famosas manas de aviao da Frana. Numa das 
pginas da revista esta pava-se o retrato da aviadora Mme Laroche que, na festa aviat de Champagne, fora ferida num acidente.
- Imaginem! - comentou o coronel. - At as mulheres ,l andam de aeroplano. Estamos sem dvida no limiar dama nova. era de prodgios.
- Que diria teu Nietzsche - perguntou Rodrigo - se fosse vivo e presenciasse essas maravilhas?
Rubim encolheu os ombros.
- Diria talvez que o avio no  produto do povo mas siar do crebro privilegiado dum homem superior.
- E parece - prosseguiu Jairo, sem tirar os olhos das pginas da revista - que no futuro o avio ser usado tambm com arma de guerra, no s para reconhecimentos 
como tambm para lanar bombas explosivas sobre tropas e cidades inimigas.
Rodrigo sorriu:
- De acordo com o nunca desmentido amor cristo .. .
- Ah! - fez o coronel. - Aqui est um clich interessante. Um automvel equipado com ama metralhadora: pour lo
poursuite des aroplanes.  fantstico!
Rodrigo repoltreou-se na cadeira, com uma taa de champanha na mo.
- Estamos vivendo uma grande hora!
Jairo apanhou nm outro exemplar de L"lllustration e ps-se a folhe-lo com grande interesse.
- Ouam esta! - exclamou, ao cabo de alguns minutos. -
O ttulo : A 16lais Gloriosa Faanha da Aviao em 191O.
Traduziu em voz alta:
- Essa coisa inaudita que, mesmo depois das mltiplas tra
vessias da l6inarhn, depois das performances dos representantes do Circuito de Leste, depois das proezas quase cotidianas e cada vez mais audaciosas dos aviadores, 
h j algum tempo, essa coisa que, apenas trs meses atrs, parecia o mais insensato dos sonhos do ,vais louco dos campees do ar, a travessia dos Alpes em aeroplano, 
 um fato consumado. Hlas! Tal como o marinheiro que depois de ter percorrido todos os mares e afrontado todas as tempestades vem morrer em terra firme, num acidente 
banal, o infortunado Chavez, cuja coragem tocou verdadeiramente as raias do herosmo sucumbiu em conseqncia duma queda terrvel comeFada a alguns metros do solo, 
no momento de aterrar... de aterrar ( se  que se pode usar este neologismo) na plancie de Domodossola.

Calou-se. Ergueu depois os olhos para os amigas.
- Pobre rapaz! Quebrou ambas as pernas, mas veio a morrer mais tarde em conseqncia do deslocamento do corao.
- Uma bela morte - disse Rubim. - Morte de heri .. . A est, a aviao  um esporte para super-homens.
- E super-mulheres ... - sorriu o coronel.
- ; a Frana, meu caro tenente - exclamou Rodrigo - a eterna Frana, que est  frente de todas as outras naes do mundo como pioneira da aviao!
- Mas foi um brasileiro - interveio Jairo - quem inventou "o aeroplano.
- Ponto a discutir - replicou o tenente. - Os americanos afirmam que foram os irmos Wright.
- Absurdo! - protestou Rodrigo. - Est provado que Santos Dumont voou muito antes desses yankees.. .
Naquele instante a campainha do telefone tilintou e Rodrigo precipitou-se para o vestbulo, voltando pouco depois:
- Um chamado para o senhor, coronel.
- Santo Deus! Ser que aconteceu alguma coisa a Carminha?
Correu para o telefone. Rodrigo ouviu-lhe a voz ansiosa. Sim ... Quem ? Ah ! Pode dizer ... Sim ... Quando ? Sim .. . Quantos 7 ... Ah ... muito obrigado. Boa noite.
O comandante do regimento de infantaria tornou  sala.
- Senhores. - disse, quase com solenidade - acaba de chegar ao quartel um telegrama do Ro, comunicando que a Cmara votou o estado de stio. Do total de 15 8 votos 
apenas 13 foram contrrios. O Senado confirmou por 36 a 1.
- Ento - perguntou, Rubim, olhando para Rodrigo - quando  que vai embarcar para o Paraguai?
#418        O RETRATO
- No, tenente, vou esperar um pouco mais. Porque esto com o pressentimento de que quem vai para o Paraguai no son eu, mas o Presidente Hermes da Fonseca .. .
5

Jairo deixou o Sobrado s onze. Rubim ficou a beber e a conversar com Rodrigo at s doze, hora em que tambm se retirou.. Don Pepe apareceu inesperadamente depois 
da meia-noite, com os olhos brilhantes, a voz arrastada, o hlito alcolico.
- Pepe, no devias andar na roa a estas horas! Com licena de quem saste da cama?
-        espanhol segurou-lhe ambos os braos com fora.
- No he podido resistir, hijito. Tengo que ver el Retrato esta noche. No te enojes. Estoy bin.
Sentou-se na frente da tela e ficou a mir-la com apaixonada fixidez. Rodrigo deu-lhe uma taa de champanha, que o pintor apanhou distraidamente e bebeu com ar de 
quem no sabe o que est faaendo.
- Coo, hay que respectar el castellano. Puede ser un borracho, un miserable, puede no tener dinero ni carater. Vive con una mulata e no tiene valor como para seguir 
su destino. Pero, mierda, Don Pepe Garcia es un artista, un verdadero artista!
Voltou-se para o amigo.
- Que dites, prncipe?
Rodrigo ergueu a taa:
-  sade do artista e de sua obra-prima!
-        pintor atirou com fora a taa no cho, partindo-a. Ergueuse, aproximou-se de Rodrigo e segurou-o pela gola do casaco.
- Todo pasar, hijo. Tu padre, tu hermano, tu tia, tus hijos. tu. Pero el Retrato quedar. Tu envejecers, Pero el Retrato conservar su juventud. Vamos, Rodrigo, 
despdete del otro. - "Fez um sinal na direo da tela. - Hoy ya ests ms viejo que en el dia en que termin el cuadro. Porque, hijito, el tiempo es como un verme 
que nos est a roer despacito y es del lado de ac de la sepultura que nosotros empezamos a podrir.
- No sejas fnebre Pepe. Hoje estou feliz. Caso-me dentro de duas semanas. Vamos beber e esquecer a velhice e a morte.
-        artista sacudia a cabea com uma obstinao de bbedo.
- Hay hombres que estn ya completamente podridos.
- Eu sei, eu sei .. .
Pepe bateu no peito com fora.
- Yo estoy mitad podrido, sabes? - Ora, Pepe, muda de assunto.
- Se nosostros tuvieramos el olfato ms desenvolvido como
CHANTECLER        419

los perros, sabes? podramos sentir el hedor de los cadveres al
rededor nuestro ... Y auestro prprio hedor aos seria insopor
table, sabes?
Rodrigo sorria amarelo. Para manter o amigo
dizia
- Est bem, Pepito, estamos todos mortos. Mas senta, des
cansa.
- Ya s, crees que estoy borracho, no ? Pues ... tienes razn.
Que ora cosa puede hacer un hombre lcido, sn emborra
charse
- Que tal uma xcara de caf bem forte, hein? - Caf? Ridculo!
Empertigou-se. tomando um ar digno. Rodrigo ps-lhe a mo
no ombro e, com voz persuasiva, disse:
- Pepito, ests doente. Tens de ir pra casa imediatamente.
Vou chamar o Bento pra te levar de carro. Quem est te falando
no  o amigo, mas o doutor. E isso  uma ordem.
Don Pepe fez meia volta e apontou para a tela.
- Aquel, si es mi amigo. Mi nico amigo. Pero tu, tu eres
un impostor!
Precipitou-se para o Retrato de braos abertos e com tanta f
ria que perdeu o equilbrio e tombou ruidosamente, abraado com
o quadro.

Passava j de uma hora da madrugada, quando Rodrigo conseguiu que Bento levasse o pintor do Sobrado para os braos de Celanira.
Ps-se ento a fechar as janelas. Sentia-se num estado muito agradvel de pr-embriaguez: o suficiente para deix-lo areo, eufrico e satisfeito com o mundo. Era 
delicioso estar tonto e ao mesmo tempo conservar a lucidez.
Maria Valria atravessou a sala de jantar com uma vela acesa na mo: como de costume examinava as portas e janelas, antes de recolher-se ao quarto de dormir. Parecia 
um espectro. Parou  porta e perguntou:
- No vai dormir?
- J vou, Dinda.
A tia entrou no vestbulo e subiu a escada. Rodrigo seguiu-a com o olhar, sorrindo. O meu fantasma de estimao .. .
Despejou na taa o resto de champanha que havia na garrafa, tomou um largo trago, olhou para o Retrato e recitou baixinho:

Je recule,
~bloui de me voir moi-mme tout vermeil Et d"avoir, moi, Le Coq, fait lever le soleil.
 distncia.
#A S O M B R A D O A N J O
CAl?fTULO I
assava das quatro da manh quando Rodrigo e a esposa dei
zanm o salo do Clube Comercial.
- O melhor ~veillon da minha vida! - exclamou Flora. com nm suspiro de canseira feliz. apoiando-se no brao do marido.
Rodrigo indinon-se sobre ela e tocou-lhe os cabelos com os lbios. Estava tonto: misturara durante a festa muitas bebidas - bowle, champanha, cerveja. conhaque..." 
Que bail! Que noite! Pouco antes das trs da madrugada, Saturnino lhe viera segredar que em toda a existncia do clube jamais se consumira tanta bebida como naquele 
31 de dezembro. Dois ou trs rapazes das melhores famlias de Santa F haviam cado no meio do salo em estado de coma. Senhores respeitveis e damas de ordinrio 
quietas e tmidas estavam num alegrete cmico, a rir, a dizer asneiras e - francamente, Rodrigo - a danar dum jeito que s em cabar.. .
- Qual. Saturno! No sejas puritano. Santa F civiliza-se!
Pandos na rea lateral do clube, Rodrigo e Flora olhavam sorrindo pau o Bento, qae dormia ao guidom do automvel, l embaixo janto da calada, a bisca entreaberta, 
a cabea cada sobre o respaldo do banco dianteiro, a aba do chapelo puxada sobre os olhos. Rodrigo sorria. Achava uma graa irresistvel naquele hibridismo. O 
Bento, peo analfabeto natural de Trs Forquilhas, feito chofer dum automvel de fabricao alem ... Como lhe Eora custoso convencer o boleeiro de que ele podia 
aprender a dirigir aquele urro sem cavalos! Mandara buscar um mecnico de Porco Alegre, especialmente para ensinar-lhe o manejo do Ader. $ que sacesso fizera o 
caboclo no primeiro dia em que descera a Rua do Comrcio sozinho na direo do automvel, a fonfonar faceiro e a receber das caladas e das janelas os acenos de 
parabns e os gracejos dos amigos e conhecidosl Havia, porm, um ponto em que Bento se mantinha irredutvel. Negava-se a substituir o chapu de campeiro pelo bon 
de chofer. recusava obstinadamente trocar as bombachas e as botas pelo uniforme azul e pelas perneiras de couro que o patro mandam vir da capital.
Os Gmbars desceram lentamente a escada, num equilbrio breio instvel, e entranm no cano.
422        O RETRATO

Rodrigo sacudiu o caboclo.
- Vamos. Bento, acorda!
Bento endireitou bruscamente o busto, atirou para cima com
um tapa a aba do chapu e voltou a cabeGa.
- Ah! - fez, com os olhos piscos, pondo  mostra a forte
dentadura amarelada. - Feliz Ano Novo!
- O mesmo para ti - respondeu Flora.
- E que o novecentos e quinze seja melhor que o novecentos
e quatorze - desejou-lhes o caboclo.
Saiu do carro em movimentos lerdos, agachou-se diante do
radiador e, resmungando e gemendo, ficou a dar manivela.
- Ooooi, bicho bem custoso, seu! Puxa-lo alazo caborteirol Por mais voltas que desse  manivela, o motor no pegava.
- Filho duma grandessssima ... - Engoliu o palavro. -
Comoduma figa! - continuou a resmonear. - Tu pega ou conta
por que no pega!
Deu com toda a fora um novo giro  manivela. A hlice do motor ps-se a rodar e o carro foi sacudido por uma tremedeira.
- Est corcoveando, o bicho! - exclamou Bento, alegremente, precipitando-se para o assento dianteiro, onde ficou a regular, azafamado. a fasca.
Destravou o automvel e f-lo arrancar dum modo to abrupto, que Rodrigo e Flora, que estavam sentados na beira do banco, foram atirados para trs.
- Barbeiro! Quando  que vais aprender a sair sem solavancoT
Estou vendo que tenho de mandar vir um chofer de Porto Alegre. - Pois mande. Eu quero voltar pra bolia...
s vezes Rodrigo tambm tinha saudade do carro, que lhe pa
recia um veculo mais romanesco que o automvel. Numa chuvosa
tarde de dezembro do ano de 183O, uma carruagem puxada por dois fogosos alazes e conduzida por um cocheiro de libr estacou diante do n. I8 da Rua T ... Era assim 
que comeava um dos
remances que lhe haviam deliciado a adolescncia. Seria ridculo, prosaico, inconcebvel, escrever: Naquela madrugada do vero de
1914 um automvel da afamada masca "Ader" parou  frente do n. 15 da Rua do Comrcio.
Pensou no primeiro automvel que aparecera em Santa F, l por fins de 1911.. Era um estranho veculo eltrico de trs rodas e dois lugares, mandado vir da Alemanha 
pelo Spielvogel. Causara pnico a pnmeira vez que percorrera as ruas da cidade. f1o ver a engenhoca passar, um gacho que se achava  frente da Casa Schultz, levara 
a mo ao revlver e s noo alvejara o "bicho" porque Marco Lunardi, que aparecera na ocasio, impedira-o disso, imobilizando-o com seus braos possantes.
Com o tempo, entretanto, Santa F habituara-se  "aranha"
A SOMBRA DO ANJO        423

do Spielvogel. Mas fora ele. Rodrigo, quem adquirira o primeiro automvel de quatro rodas e cinco lugares, movido a gasolina. O Ader fizera tambm os seus "estrupcios" 
no dizer do Liroca, assustando pessoas e animais com as exploses de seu motor e os roncos de sua buzina. Muitas vezes, por impercia do Bento, o auto subira nas 
caladas, indo de encontro a muros ou a paredes. Incontveis tambm foram as ocasies em que por causa de desarranjos no motor ou da falta de alguma pea, o Ader 
tivera dQ ficar imobilizado na garagem. (Esta ltima palavra e outras
como fasca, radiador, marcha  r, guidom, pneumtico, fonfom
e chofer comeavam a ser incorporadas ao vocabulrio corrente.) Fosse como fosse - conclua Rodrigo - valia a pena ter automvel.
Joca Prates animara-se a comprar no ano passado um l~lercedes igual ao que Spielvogel trouxera da Alemanha em 1913. Dizia-se que o Maneco Macedo encomendara. havia 
pouco, um Fiat. Era uma espcie de competio entre um pequeno grupo de estancieiros e comerciantes locais: cada qual procurava exibir nas ruas, em passeios dominicais, 
o automvel maior e mais caro. Rodrigo esperava agora um Ford de quatro cilindros, noo porque quisesse entrar no torneio - coisa que achava supinamente tola - mas 
sim porque lhe haviam assegurado ser esse o carro indicado para vencer com sucesso aquelas estradas deplorveis que levavam ao Angico.
2
- Guarda o auto e vai dormir, Bento! - disse ele ao apear  frente do Sobrado. Tirou a chave do bolso, abriu a porta e empurrou Flora para dentro, docemente. Procurou 
s apalpadelas o comutador e torceu-o: o vestbulo iluminou-se de sbito. Tinham energia eltrica em Santa F desde fins de 1912, mas era sempre com a sensao de 
fazer um milagre que Rodrigo dava volta  chave da lnz. Como aquilo era infinitamente mais prtico, mais fcil e mais limpo que o acetilene! No entanto, ele jamais 
poderia imaginar Mme Bovary ou Ana Karenina a outra luz que noo fosse a de gs .. .
Como que sem foras para subir, Flora estava parada ao p da pequena escada. de braos cados e olhos quase fechados.
- Quem  que tens, meu amor?
- Ai! Estou com uma moleza... Acho que foi o bowle.
Rodrigo ergueu-a nos braos e subiu a escada. Flora enlaou o pescoo do marido e como que se lhe aninhou de encontro ao peito.
- E a vantagem de ter uma esposa porttil - murmurou ele ao p-la de" p no cho do vestbulo.
#424        o RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        425
Encaminharam-se abraados para a escada grande, acendendo s luzes das peas por onde passavam.
- Se eu fosse casado com uma grandalhona como a Esmeralda .. .
Calou-se, arrependido de haver mencionado este nome. De olhos entrecerrados, a voz sonolenta. Flora balbuciou: - Pensas que noo vi o jeito dela olhar pra ti no 
baile? 
- Hein?
- Eu bem que vi. Sempre que podia, vinha falar contigo. Uma vez chegou. at a encostar a mo no teu brao. E que olhos ela te botava, Nossa Senhora!
- Ora que bobagem, Flora!
Ela sorria, com ar de sonombula.
Que intuo diablica tinham as mulheres! - refletia Rodrigo.
Naquela noite tivera realmente um flerte com Esmeralda Pinto. Haviam danado uma valsa e por mais dama vez ela projetam com forca os seios contra seu peito, ao mesmo 
tempo que a presso de seus dedos se fazia mais forte. V a gente entender as mnlheresl H quatro anos quando ns dois ramos solteira, s por cansa duma brincadeira 
inocente a criatura fez um baralho dos demnio. Agora, que estamos ambos casados, sem a menor provocao da minha parte, ela me vem com esses olhares e esfregaes.
Tornou a erguer a mulher nos braos.
- No quero que digas mais essas bobagens, ests ouvindo? - repreendeu ele carinhosamente.
- Que bobagens?
- Essa histria da Esmeralda Pinto. Tn sabes qae no soa homem dessas coisas.
Flora noo respondeu. Com a cabea pousada no ombro do marido, parecia adormecida.
- E tu sabes muito bem - continaon ele, enquanto sabia lentamente os degraus - que pra mim s existe ama mulher no mundo inteiro. Tu!
Como nica resposta, Flora espichou os lbias e beijou-lhe o pescoo.
- Se eu noo tivesse a certeza de qae te amava, raso me peava contigo. Se h coisa que no me passa pela pbea  namorar as mulheres dos outros.
Flora beijou-lhe chochamente a ponta do gaeizo.
- Est espinhando - queixou-se, lambendo as lbios.
- )r que a esta hora da madrugada a barba j est meio
crescida.
- Que horas so?
- Mais de quatro, meu bem.
Entraram no quarto, Rodrigo acendeu a luz e deps a mulher sobre a cama.
- Estou com preguia at de tirar a roupa ... - murmurou ela.
Pela cabea de Rodrigo passou uma idia pitante.
- Queres que eu te dispa?
Como se lhe tivessem atirado um jorro dgua fra, Flora abriu os olhos num sobressalto.
- Rodrigo!
- Estou brincando, meu bem.
Mas na realidade falava srio. Estava excitado e sem sono. Por um instante ficou a despir a mulher em pensamento, a tirarlhe as roupas, uma por uma, com propositada 
lentido, a antegozar o sensacional momento da nudez completa. No precisava fazer aquilo com a luz acesa ... Ficaria at mais interessante se deixassem o quarto 
numa penumbra azulada de luar... Diabo! Por que noo podiam entregar-se de quando em quando a extravagncias como aquela? No seriam por acaso marido e mulher? Ou 
estarei bbedo?
De p, no meio do quarto, contemplava a companheira. Estavam casados havia quatro anos e Flora jamais se despira em sua presena. Esse pudor geralmente o encantava: 
em certas ocasies, porm, deixava-o irritado. Muitas vezes chegava  concluso de que, em matria de sexo, preferia que o casal fugisse  consabida burocracia conjugal, 
que acabaria por transformar-se com o passar do tempo numa rotina inspida: amor em dias e horas certos, com a luz apagada e sob as cobertas, dentro da mais rigorosa 
ortodoxia - tudo muito digno, muito srio, muito "famlia". Flora entregava-se com o ar de quem cumpre um dever grave. Jamais dera a entender por gestos ou palavras 
que aquilo lhe dava prazer. Rodrigo, s vezes, desejava que na alcova ela fosse mais amante que esposa. Tinha, porm, a antecipada certeza de que, se tal acontecesse, 
ele prprio ficaria escandalizado e tomado duma ciumenta e meio alarmada apreenso.
Flora ressonava, e seus seios midos (nem parece que j amamentou os dois filhos!) subiam e desciam num ritmo lento e regular. Rodrigo. despiu o casaco do smoking 
e jogou-o sobre uma cadeira. Arrancou o colarinho e a gravata; atirando-os em cima da cama. Descalou os sapatos e deixou-os virados no meio do quarto. Sorriu ao 
lembrar-se do que a mulher costumava dizer: "rs um desorganizado! Quando tiras a roupa, deixas tudo espalhado pelo cho. Pareces uma criana." Mas como era possvel 
ter mtodo e ordem, fazer todas as coisas da vida com um cuidado meticuloso? Havia observado que os chamados metdicos eram ge-
#426        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        427
ralmente homens incapazes de paixo, tipos frios, eficientes e insuportavelmente cacetes.
Sentou-se na beira da cama, acendeu um cigarro e ps-se a fumar, com os olhos postos na mulher. O casamento fizera bem a Flora. Deixara-a mais fornida de carnes, 
sem entretanto deformar-lhe o corpo. Notava-se nela um certo amadurecimento que no se revelava apenas nas feies, nos gestos, na maneira de andar
- olhar, mas tambm e principalmente nas palavras, nos juzos, na atitude diante das pessoas e da vida. Tinha um bom-senso desconcertante. Era agora, por assim dizer, 
o poder moderador de sua vida. Ele notara o ressentimento, a ciumeira de sua madrinha quando vira entrar no Sobrado, como senhora, aquela menina inexperiente. Flora, 
entretanto, desde o primeiro dia suportara as impertinncias de Maria Valria com um sorriso tolerante e compreensivo, evitando qualquer atrito. E, com uma sabedoria 
digna dum poltico consumado, sempre que a outra com visvel m vontade vinha consult-la sobre assuntos. domsticos, respondia: "Ora, titia, a senhora  quem manda. 
E, depois, eu no entendo nada desses negcios de casa ... "
E Maria Valria, aparentemente satisfeita, continuara a governar discricionariamente o Sobrado.
3
Galos amiudavam, longe. Dentro duma hora estaria a nascer
- novo dia - pensou Rodrigo - mas o sono no lhe vinha. Estendeu-se na cama, com os ps para a cabeceira, e ali ficou com
- cigarro preso entre os lbios, os braos cruzados, os olhos postos no teto. Sempre imaginara que o casamento lhe pudesse trazer um certo apaziguamento sexual. 
Talvez no fundo no chegasse a esperar nem isso: estava mas era procurando um pretexto para trazer Flora legalmente para aquela cama. Cnico! Ora, seria tolice tentar 
tapar o sol com uma peneira. Sabia que no era homem que se contentasse com uma nica mulher. Apesar disso, fora absolutamente fiel  esposa durante... quantos anos 
mesmo? Sortiu. No. No haviam sido anos, mas meses. Uns seis ou bete.. . Quando Flora chegara s ltimas semanas. de sua primeira gravidez, ele se vira de tal maneira 
acicatado por uma to grande insatisfao sexual que, sem saber como resolver seu problema discretamente ali em Santa F, inventou um pretexto para ir a Porto Alegre, 
onde grassara dez dias inesquecveis: noitadas no Clube dos Caadores, cestas com amigos e mulheres, muitas mulheres. Durante uma semana inteira "chafurdara", sem 
a menor inibio ou antecipado
remorso. Como mdico, encontrava uma explicao natural para aquilo: era uma purga. Que o organismo humano necessita periodicamente duma purga, isso era coisa que 
nem o Dr. Matias ignorava. Pois aquela prolongada farra em Porto Alegre, em setembro de 1911, tinha sido a purga de que ele tanto precisava. Voltara para casa, aliviado, 
com um leve sentimento culposo que fizera redobrar seu amor, sua ternura pela mulher, a quem cumulara de atenes e presentes. Chegara, satisfeito.  concluso de 
que Flora no havia sido prejudicada em coisa alguma por aquela escapada, ao passo que ele, tendo salvo as aparncias, se sentia renovado, pronto para enfrentar 
um longo perodo de respeitabilidade monogmica. E assim depois do nascimento de Floriana, o casal tivera sua segunda lua-de-mel...
De olhos cerrados, a fumar e a ouvir os borborigmos do estmago, Rodrigo lembrava-se, divertido, das juras que ento fizera a si mesmo, a olhar para o filho adormecido 
no bero : "Prometo nunca mais andar atrs das outras mulheres. Para mim a Flora  e continuar sendo a nica at a morte." Curiosol Apesar de tudo quanto aconteceu 
nos anos seguintes, aquela promessa havia sido formulada com a mais absoluta sinceridade.
Tivera a princpio a impresso de que a paternidade o tornara um homem novo. No pudera nem tentara reprimir as lgrimas no dia em que pela primeira vez vira a mulher 
amamentando Ofilho. E que sensao agradvel e ao mesmo tempo embaraosa a de ter na cama  noite uma Flora maternal, de seios tmidos de leite, uma Flora alvoroadamente 
feliz e apesar disso agoniadamente inquieta, a acordar a cada passo para olhar o filho no bero ao lado da cama. ("Ser que essa criana est respirando direito? 
E se ela pega crupe? Meu Deus 1 O Florano est ficando roxo ... ") Rodrigo observara, perturbado, que a mulher e o filho tinham o mesmo cheiro: recendiam ambos 
leite, cueiros de flanela midos e talco. Com freqncia Flora trazia Floriano para a cama e dormia com a criana nos braos. Todas essas coisas concorriam para 
deix-lo inibido, com a impresso de que possuir fisicamente a mulher naquela conjuntura seria cometer incesto.
Abriu os olhos e ficou olhando para a espiral da fumaa do cigarro. Os chineses (que grande povo, que sbia gente!) tinham razo em reconhecer que todo o varo necessita, 
alm da esposa legtima, de uma ou mais concubinas. Porque o homem , sem a menor dvida, um animal polgamo. No existe nenhuma lei natural que justifique a monogamia. 
Mas que  que a gente vai fazer, com dois mil anos de cristianismo na conscincia?
Voltou a cabea e ps-se a contemplar com certa fascinao os tornozelos de Flora, que estavam a poucos centmetros de seus olmos. Sentiu um desejo travesso de erguer 
o vestido da esposa
#428        O RETRATO

para ver-lhe as pernas, mas conteve-se no temor de que, despertando, ela o pilhasse a fazer aquele gesto juvenil.
Cerrou os olhos. Os borborigmos continuavam. Estou precisando duma dose de bicarbonato. Amanh a ressaca vai ser colossal.        "
Retomou o fio dos pensamentos de alcova. Que  que vai fazer um homem moo, sadio e sensual quando v que a esposa, grvida, perde as formas, deixa de despertar-lhe 
desejo? Ficar na abstinncia como um eremita? Ora, isso no  para qualquer temperamento. A soluo mesmo  a concubina, queiram ou no queiram, doa a quem doer 
.. .
Atirou o cigarro no cho, revolveu-se na cama  procura duma posio e acabou deitado de bruos.
A segunda gravidez de Flora no lhe trouxera menos problemas. Lembrava-se duma certa noite em que, j tarde, chegara  casa de volta do teatro, aonde fora sozinho. 
Despira-se de luz apagada, no maior silncio, para no despertar a mulher, e depois deitara-se ao lado dela, mas bem na beira da cama, pois vivia obcecado pelo temor 
de, durante a noite bater inadvertidamente no ventre dela, apertar-lhe os seios ou mago-la fisicamente de qualquer outra forma. Era uma noite quente de fevereiro 
de 1913 e por muito tempo ele permanecera de olhos abertos, a recordar cenas da opereta a que assistira no Santa Ceclia. Tinha a mente cheia de msica, vozes e 
imagens. Ficara impressionado com Gina Carelli, a melhor Viva Alegre que jamais vira em toda a sua vida. Era uma jovem italiana, muito bem-feita de corpo, de cabelos 
oxigenados e olhos escuros, dona duma voz quente, duma doura pegajosa. A soprano da companhia era uma ragazza de feies clssicas: sua beleza, tranqila e pura 
convidava  contemplao esttica. Mas La Carelli, a soubrette, essa tinha uma boniteza jovial e meio canalha, que provocava a ao ertica. No era, entretanto, 
uma fmea que fizesse pensar em srias, vagarosas, profundas paixes de alcova, mas sim em escapadas ocasionais, amores roubados e urgentes, tanto mais excitantes 
quanto mais furtivos e temperados de acidentes e incidentes grotscos.
Como lhe custara trazer aquela companhia de operetas a Santa F! U empresrio exigia-ihe como garantia um mnimo de cento e vinte assinaturas. para cinco espetculos, 
de sorte que ele, Rodrigo - que s conseguira passar noventa e cinco entre os amigos - tivera de pagar do prprio bolso as vinte e cinco restantes. Mas valera a 
pena gastar todo esse dinheiro para ter o privilgio de ver La Carelli a danar um canc no palco do Santa Ceclia, mostrando quase meio palmo de coxa.
Estava ainda a pensar na soubrette quando ouviu o choro mal
A SOMBRA DO ANJO        429

abafado de Flora. Voltando a cabea, vira na penumbra os ombros dela sacadidos por soluos.
- Qne  isso, minha filha?
Nenhuma resposta. Tomara-a nos braos, com todo o cuidado. e, fazendo-a voltar-se para ele, estreitando-a suavemente contra o peito. sentindo contra a boca do estmago 
aquele ventre bojudo e quente.
- Qne  isso, meu bem? Conte pro seu maridinho o que  gne tem. Est sentindo alguma dor? No? Ento o que ? Teve algum sonho mau?
Depois de muita relutncia Flora contara por que chorava. E que estava feia, disforme, velha, medonha .. .
- Tn nem me olhas mais. Tens tanto horror de mim que chegas a dormir na beira da cama, bem longe .. .
- Mas, meu bem,  que eu tenho medo de te magoar, noo compreendes?
Com a cabea da esposa aninhada no peito, ficara como que a nin-la, sussurrando-lhe ao ouvido ternas palavras de amor. O choro fora cessando aos poucos mas, mesmo 
depois de verificar que Flora dormia, ele no tivera coragem de retirar o brao sobre o qual a cabea dela repousava. Por muito tempo permanecera naquela posio. 
a sentir no peito o bafo mido e morno da mulher, e a pensar no encontro que marcara para o dia seguinte com Gina Carelli. O plano era simples. Convidara-a para 
um passeio de automvel, que diabo!. a coisa mais natural do mundo, pois a soubrette noo era nenhuma provinciana ... Iriam os dois contemplar o pr do sol ao p 
dos muros do cemitrio. Voltariam para a cidade ao anoitecer e o Bento j estava instrudo para,  altera da Sibria, desviar o Ader da estrada real, lev-lo at 
a orla do Capo das Almas e l, sob qualquer pretexto, desaparecer...
O resto fica por minha conta. Mas preciso no esquecer que La Carelli no pode chegar tarde para o espetculo da noite. ~ Para Ooutro espetculo.
Estava sorrindo a pensar nessas coisas quando sentira contra o prprio ventre a palpitao do ventre da esposa. Era seu filho que egperneaxa... Santo Deusl A criaturinha 
estava a toc-lo, como que a fazer-lhe um sinal. Essa idia deixara-o de tal modo sensibilizado, que ele rompera a chorar e a beijar, arrependido, os ca
belos de Flora.
4

Despcrtou no dia seguinte quase s duas da tarde, com a cabea pesada, a boca amarga, o corpo lasso e lavado em suor. Soer-
#43O        O RETRATO

gueu-se na cama, ficou por um instante a piscar e a olhar atarantado em torno do quarto. Flora dormia a su lado completamente vestida, tal como estava ao chegar 
do baile. Ele tambm noo havia tirado a camisa de peito engomado nem as calas do smoking.
Ergueu-se, zonzo, aproximou-se duma das janelas e abriu-a. A claridade da tarde feriu-lhe os olhos. Um bafo de fornalha subiu da rua. Que calor, me de Deus! Sentia 
a camisa colada ao peito e s costas, o suor a escorrer-lhe pelo rosto, pelo corpo todo. O remdio er um chuveiro frio ... Dirigiu-se para o quarto de banho. Pelo 
caminho foi tirando a roupa: jogou o colete no cho do corredor, deixou a camisa sobre o corrimo da escada, baixou os suspensrios e livrou-se das calas na sala 
de jantar... Ao chegar ao quarto de banho estava j completamente despido. Soltou um suspiro. de profundo gozo quando o fresco jorro dgua lhe envolveu o corpo. 
Sentou-se debaixo do chuveiro e ali ficou longo tempo, de olhos cerrados, os braos a enlaar os joelhos. E quando, pouco antes das trs, tornou a descer para o 
andar inferior, Maria Valria lanou-lhe um olhar crtico:
- Grossa farra, hein?
- Bom dia - disse ele com voz amarga. - Boa tarde!
A mania de horrio que tinha aquela gente antiga! Eram os supersticiosos da ordem da disciplina, da regularidade. Don Pepe  quem tinha razo. Que es el tiempo? 
Nosotros los espan"oles somos asi. (Onde estaria o diabo do castelhano quelas horas? No Par? No Amazonas?)
Flora apareceu pouco depois do marido. Desceu as escadas devagarinho, segurando o corrimo, como uma convalescente que arrisca os primeiros passos depois de longa 
enfermidade.
- Est na mesa! - anunciou Laurinda com a jovialidade de quem havia dormido suas sete horas tranqilas e deixado a cama s seis da manh.
Flora franziu o nariz.
- No me falem em comida. Eu quero  uma boa dose de bicarbonato.
Com todo o cuidado, os olhos semicerrados, a cabea ereta, inclinou-se para beijar os filhos que brincavam na sala de visitas.
- Ano novo, vida nova - sentenciou Maria Valria.
Flora declarou que ia apenas fazer ato de presena  mesa. Estava plida e com olheiras., Rodrigo achou que noo lhe ficava nada mal aquela mscara de ressaca.
Feijo com foicinho: carne frita com batatas assadas; talharim coberto de queijo parmeso ralado; galinha ensopada; arroz luzidio .. .
A SOMBRA DO ANJO        431

Rodrigo atirou-se  comida com um apetite que no s surpreendeu a mulher e a tia como tambm a ele prprio. Ao despertar jurara que no teria coragem de botar o 
que quer que fosse na boca, a noo ser talvez caf preto sem acar.
- Invejo o teu estmago - disse a mulher.
Naquele instante Alicinha desatou o choro: Floriano lhe havia arrebatado das mos o cavalinho de pau.
- Faa essa criana calar a boca. Dinda! - suplicou Rodrigo. Os gritos da menina pareciam atravessar-lhe o crebro como pontaos de fogo.
- Quem pariu Mateus que o embale! - retrucou a tia. Disse isso apenas no automatismo do hbito, pois levantou-se imediatamente e dirigiu-se para a sala, onde arbitrou 
 sua maneira decidida a pendncia dos irmos.
- D o cavalo pra sua maninha. U, gentel Onde se viu?
Floriano obedeceu, a cabea baixa, o beicinho trmulo. Era uma criana quieta, duma docilidade que preocupava um pouco Rodrigo, que preferia v-lo - homem que era 
- mais reblde e turbulento.
Alicinha parou de chorar. Maria Valria tornou a sentar-se.
- Como se foi de discurso no clube?
- Uma beleza, titia! - exclamou Flora. - Um dos melhores que Rodrigo tem feito.
- Tapei a boca de muita gente - disse ele. - Na minha primeira gesto, em novecentos e onze, me, acusaram de ser um presidente perdulrio, de ter ficado com as glrias 
de reformador do clube e deixado as druidas pras outras diretorias pagarem. Pois bem. Minha gesto de 1914 foi um modelo de equilbrib e eco=" nomia. Entreguei ontem 
o clube  nova diretoria sem uma nica conta a pagar e com quase um conto de ris em, paixa?"
- Sim - observu Maria Valria -- mas quanto ,gastou do seu bolso ?
- Sei lI Perdi a cont, Dinda, perdi a conta. Reformei a sala de jogo carteado .com o meu dinheiro. A moblia da "toilette das senhoras tambm foi eu quem pagou. 
 as cortinas do salo
4
de baile ... e o novo coreto ...        "
- E que -foi . que ganhou com iss? Vo continuar a falar " mal de voc do mesmo jeito. ~ E" esse dinheiro no volta mais pro seu bolso.        "
Rodrigo encolheu os ombros.        ,
- Por qu  que as moedas so redondas? Pra rolar! Dinheiro noo nos falta, Dinda. Estamos na poca das vacas gordas.
Sim, sua farmcia atravessava um perodo de grande prosperidade. As vendas aumentavam dia a dia. O movimento agora era to grande, que tivera de admitir mais dois 
empregados. Esse pro-
#432        O RETRATO

gresso se devia em grande parte s operaes do Dr. Carlo Carbone. Felicitava-se por ter tido a idia de trazer aquele italiano para Santa F. O diabo do gringo 
tinha mos de mago: era indubitavelmente o maior operador que jamais aparecera no Rio Grande do Sul.Outn grande idia fora a de construir no quintal da farmcia 
aqueles pavilhes de madeira com os quartos onde ficavam os doentes aps as operaes. Era uma espcie de pardia de sua sonhada casa de sade... E esse hospital 
improvisado vivia sempre cheio e no raro tinham de acomodar precariamente os ,operados nos corredores em cima de colches estendidos no soalho. De todos os pontos 
de Santa F e dos municpios vizinhos afluam doentes. O Dr. Carbone trabalhava desde o raiar do dia e s vezes tinha de continuar operando noite a dentro. Cada 
operao deixava para a farmcia um aprecivel lucro, isso sem contar a renda do aluguel dos quartos.        ,
Era realmente uma poca de vacas gordas. Tolice preocupar-se a gente com dinheiro!
5
No dia seguinte pela manh, em companhia da mulher e dos filhos, Rodrigo foi visitar os sogros, que viviam agora numa pequena chcara situada a um par de quilmetros 
a noroeste do cemitrio municipal. Como as estradas para aquelas bandas fossem sofrveis, arriscou-se a fazer o percurso de automvel.. E enquanto Flora ia calada 
no seu canto. os olhos cerrados. a cabea pendida (o balano do Ader e o cheiro de gasolina queimada causavam-lhe tonturas e nuseas) , Rodrigo pensava na singular 
histria do sogro, que continuava a ser para ele uma fonte inesgotvel de surpresas.
Numa tarde de fevereiro de 1911, exatamente no dia em que havia chegado com Flora a Santa F, de volta da viagem de npcias a Buenos Aires, espalhara-se pela cidade 
a notcia de que Aderbal Quadros estava falido. Flora desatara logo o choro, pois em seu esprito a palavra falncia estava associada a outras igualmente dramticas 
como cadeia, fuga, vergonha, suicdio...
Rodrigo ficara chocado pela subitaneidade do golpe e ao mesmo tempo magoado com o sogro por no t-lo avisado com antecedncia do que estava por acontecer. Claro, 
havia muito, murmurava-se que Babalo andava mal de negcios, mas sempre que amigos ntimos tratavam de esclarecer o caso, o velho desconversava. Escondera tudo at 
a ltima hora. Por que, Santo Deus? Por qu?
O acontecimento produzira em Santa F uma espcie de pnico, pois vrias dezenas de pessoas de condio humilde - que
A SOMBRA DO ANJO        433

confiavam mais em Aderbal Quadros que nos estabelecimentos bancrios - tinham pequenas quantias nas mos dele. a render juros.
Rodrigo correra  casa do sogro, esperando encontr-lo arrasado. O velho, entretanto, viera sorrindo a seu encontro.
- Ento, j soube do estouro da boiada? - perguntara ao abra-lo.
- E agora, que  que o senhor vai fazer?
- Agora? Liquidar a massa falida e comear de novo. O principal  noo prejudicar ningum. Pagarei tudo e todos at o ltimo tosto. - E em seguida, mudando de tom 
e evidentemente buscando um pretexto para fugir do assunto:
- Ento? Como se foram de viagem? Se divertiram muito?
Naquele mesmo dia Rodrigo procurara o Dr. Ruas, o advogado de Aderbal, para saber ao certo da situao do sogro. Estava pasmado. Um cidado que noo bebia, noo 
jogav 
nem se metia com mulheres; um homem que levava a mais espartana das vidas. trabalhando de sol a sol - como podia ter chegado a uma situao como aquela?
Muito simples - explicara o advogado. Aderbal Quadros recebia dinheiro a juro alto - mais alto que o de qualquer banco do pas - e emprestava-o a juro baixssimo, 
sem garantia de espcie alguma. E o pior de tudo - esclarecera ainda o Dr. Ruas. alteando a voz indignada - o pior de tudo era que o simplrio chegava ao cmulo 
de noo exigir nenhum documento das pessoas a quem fazia emprstimos, pois achava - o inocente! o anjinho! o idiota! - que a palavra de um homem de bem valia tanto 
quanto qualquer letra selada, com assinatura reconhecida em cartrio. Ah! Mas as "loucuras" do Babalo noo pararam a. Descobrira tambm que o homem no trazia nada 
anotado, suas transaes eram feits sob a palavra e registradas.manas na memria. Livro? Inveno .estrangeira para complicar as coisas.        f
E o produto da venda das terras que o velho possua - indagava Rodrigo - no daria para cobrir core folga as dvidas? Nas estncias de Santa Rita e Santa Clar estavam 
os melhores campos da regio serrana... `Seriam no mnimo umas boas quitJze lguas bem povoadas. E o gado?" E os prdios que  velho possua na cidade?
O Dr. Ruas sorria sardonicamente. Babalo no era apenas seu constituinte, era tambm seu amigo de muitos anos: Po! essa razo a coisa toda o deixava furiso. Nunca 
me consultava! Nunca me ouvia! Decerto acha que advogado  sinnimo de vigarista.
- Pos saiba duma coisa, Dr. Rodrigo, depois de vendidas essas duas estncias com todo o gado, aos melhores preos do momento; depois de vendidas todas as casas, 
pagos os impostos, etc-
#434        O RETRATO

tesa, etctera ... o total apurado mal dar pra pagar o que esse cretino deve!
- B assombroso!
- As pessoas a quem ele emprestou dinheiro esto insolventes, j morreram ou se mudaram de Santa F sem deixar nem rastro. - Espantoso!
- S no ano passado seu sogro perdeu uns cento e tantos contos numa chasqueada de Rosrio. Imagine, scio duma chasqueada que nunca viu! E pior que isso: faz uns 
cinco ou seis anos que vem perdendo dinheiro com a tal. lavoura de trigo. Essa  que foi a grande sangria. Ora, se os nossos avs deixaram de plantar trigo no Rio 
Grande deve ter sido por alguma razo muito boa 1
Ao saber da falncia do amigo, Licurgo precipitara-se do Angico para a cidade, fechara-se com Babalo numa sala durante mais duma hora, tentando convenc-lo da necessidade 
de salvar as estncias a qualquer preo. Ele, Licurgo, e mais um grupo de amigos estavam dispostos a levantar o dinheiro para atender aos principais credores. O 
resto se arranjaria com o tempo...
Babalo passara quase todo o colquio a sacudir negativamente a cabea. No queria sacrificar os amigos. Mas no  sacrifcio, vivente de Deus! Se eu estivesse nessa 
situao, sei que vassunc faria o mesmo por mim.
No conseguiu, porm, convencer o outro. Aderbal Quadros queria vender tudo o que possua, pagar as dvidas at o ltimo vintm, e comear de novo, com o cofre e 
a conscincia igualmente limpos. Parecia at que, naquela histria toda, a nica coisa que realmente o interessava era recomear a vida na estaca zero, como se fosse 
ainda um pi e no um homem de mais de cinqenta anos.
Agastado, Licurgo encerrara a entrevista com uma frase muito de seu agrado: "Amarra-se o burro  vontade do dono." E Babalo chupando o cigarro, glosara: "O burro 
nesse negcio fui eu. Portanto eu  que devo agentar as conseqncias."
Pensando nessas coisas Rodrigo olhava para as coxilhas, sob a soalheira daquela manh de vero. Numa das invernadas que, margeavam a estrada, queimava-se campo, 
e o vento trazia at o automvel uma fumaa azulada e espessa, cujo cheiro lhe evocava longnquos veres da infncia, no Angico.
6
Aproximavam-se da chcara a que Babalo dera - ningum sabia ao certo por que - o nome de Sutil. Bento ps-se a fonfonar. Llns cinco on seis guapecas, dos mais variados 
plos e tamanhos,
A SOMBRA DO ANJO        435

surgiram na estrada e entraram a perseguir o automvel, ladrando furiosamente.
Rodrigo avistou a casa dos Quadros, uma meia-gua de porta e duas janelas, de paredes que haviam sido brancas num passado remoto, e coberta de telhas vs esverdinhadas 
de limo. Parecia uma velha triste e encolhida, com um xale sobre os ombros, sentada yuetinha atrs daquele renque de coqueiros.
- Quem diria? - murmurou Rodrigo. - O dono das estncias de Santa Rita e Santa Clara reduzido  condio de rendeiro duma chacrinha!
Flora entreabriu os lbios num desbotado sorriso:
- Deixa o coitado. Ele gosta dessa vida ... -
- Pois  exatamente isso que me intriga. O vlho gosta!
- Quando morvamos na casa da Rua do Comrcio, s vezes o papa: ia sestear no fundo do quintal, debaixo das rvores e m cima dos arreios. Dizia que era pra se lembrar 
dos tempos de tropeiro .. .
O Ader parou  frente da casinhola. Babalo e a mulher, que os sons da buzina haviam atrado para fora, aproximaram-se do automvel.
As duas crianas apearam e precipitaram-se, de braos erguidos e aos gritos na direo dos avs. Babalo acocorou-se, enlaou os netos, um em cada brao, puxou-os 
contra o peito e beijou-lhes as faces. D. Titina, secarrona, limitou-se a dar-lhes a mo:
- Tomem a bno da vov.
Levou-os depois para dentro e, sob os protestos de Flora. encheu-lhes as mos de roscas de polvilho e rapadurinhas de leite.
Aderbal quis saber como ia a guerra.
- Um pouco parada - informou Rodrigo. - Na Europa agora  inverno. Cai muita neve, os caminhos esto impraticveis, o frio  brabo. O remdio  fazer guerra de trincheira 
enquanto a primavera no vem.
Babalo sorriu.
- s vezes at chego a pensar que toda essa histria de guerra no passa duma inveno do Correio do Povo e dos outros jornais, s pra terem assunto.
- Antes fosse...
Entraram. A "varanda", de cho de terra batida, teria quando muitos trs metros de frente por dois e meio de fundo. Viam-se grandes falhas no reboco das paredes 
rhanchadas de umidade e onduladas de calombos. A moblia era a mais rstica e resumida possvel: uma mesa de pinho sem lustro, quatro cadeiras de assento de pau 
e um velho guarda-comida meio desmantelado. Moscas zumbiam no ar recendente a queijo fresco, charque e cinza fria.
#436        O RETRATO

Flora e a me conversavam animadamente sobre assuntos domsticos. Aderbal puxou o genro para fora.
- Venha olhar a minha estncia - convidou com mansa ironia. - No  to grande como a de Santa Clara ou a de Santa Rita, mas sempre  melhor que nada.. .
Ficaram parados a conversar por um instante  sombra das rvores do pomar. Babalo tirou do bolso um pedao de fumo em rama e comeou a pic-lo com a faca de cabo 
de prata. O Sutil - refletia Rodrigo - era mesmo uma estncia em miniatura. Tinha um pomar com laranjeiras, bergamoteiras e pessegueiros; uma coxilha em cuja encosta 
Babalo fizera sua roa de milho e feijo: um caponete por dentro do qual corria um riacho ; um potreiro, uma horta, uma mangueira, um galpo...
- Est vendo o galinheiro novo? A Titina est criando umas legornes. Diz que vai vender ovos pra fora. Quero s ver. Se ela for to boa negociante como o marido, 
vai acabar quebrando .. .
Soltou sua risada clara.
- Tenho tambm trs vacas leiteiras. Estamos bebendo um leite mui especial. A semana passada a velha fez uma batelada de queijos. Levem uns pra vocs.
Rodrigo avistou o rosilho de Babalo amarrado a um tronco de cinamomo e completamente aparado. Sabia que todas as manhs o sogro montava a cavalo e saa a percorrer 
"suas terras." Seis pobres hectares... Um homem que j tivera de seu tanto campo que a vista nem alcanava!
Ali estava um caso que lembrava o duma personagem d"O Pato Selvagem. Ekdal, o velho caador, ao fim duma vida, de frustraes e derrotas, para aplacar a saudade 
dos tempos hericos da mocidade, em que caava ursos nas montanhas, metia-se no viveiro da casa do filho e l ficava a dar tiros em pobres coelhinhos assustados. 
Babalo procurava matar no Sutil a saudade de suas grandes estncias ... Ah! Mas havia uma diferena : a personagem de Ibsen era uma alma submersa, um vencido, ao 
passo que Aderbal Quadros lutava com o aprumo dum triunfador. E com que alegria, com que entusiasmo, com que gosto!
- Vou te mostrar uma coisa - murmurou ele, tomando Obrao do genro. - Botei nomes de polticos importantes em algumas dessas rvores mais bonitas.
Aproximaram-se do sop da colina. Aderbal apontou para a rvore alta que se erguia ao lado do galpo:
- Aquele cedro  o Dr. Jlio de Castilhos. Est vendo aquela cabriva no topo da coxilha? ) o Conselheiro Gaspar Martins. L na beira do riacho tem uma corticeira 
que d uma flor mui linda  o Dr. Assis Brasil. Ando meio brigado com o Dr. Borges de Medeiros, mas botei o nome dele num desses cinamomos.. .
A SOMBRA DO ANJO        437

Enrolou o cigarro, acendeu-o e soltou um par de baforadas. Um sorriso de malcia apertou-lhe os olhos e fez saltar os zigomas, acentuando a angulosidade do rosto.
- Aquela arvorezinha enfezada ali perto da horta (est vendo?)  o Marechal Hermes. Sabe por que  que no cresce? Por causa da grande, do jacarand que, a bem dizer, 
est por cima dela. O jacarand se chama Senador Pinheiro Machado.
Rodrigo sorriu, olhando para o sogro com uma admirao tocada de inveja. Gostava do velho, mas a presena dele deixava-o levemente perturbado. Sempre que via aquele 
homem bom, simples e slido a lidar com a terra, descalo e em mangas de camisa. era tomado dum estranho sentimento de remorso e culpa, da vaga sensao de haver 
trado todo um passado, rompido uma tradio de famlia, renegado o pai, a me, os avs - as origens, enfim. Sentia-se (mas todo esse mal-estar desaparecia logo 
que ele se afastava do sogro) frgil e vulnervel no seu extremado apego  vida urbana, com suas mquinas, seu conforto amolecedor e todas a"s superficialidades 
que Babalo tanto desprezava: roupas, perfumes, festas, vinhos, guloseimas, honrarias .. .
Aquele homem telrico parecia contentar-se com as coisas essenciais da vida: o ar, o fogo, a gua, o po, o sol, a terra. Vivia numa tal comunho com a natureza 
que, com sua pele dum tom terroso, parecia algo que houvesse brotado do cho e que longe dele no pudesse vicejar. Em toda a sua vida nunca tinha lido um livro ou 
entrado num teatr. Desprezava o dinheiro e jamais procurava o prestgio ou o poder poltico. Mesmo quando morava no casaro da cidade, nunca deixara de falar com 
saudade dos tempos em que carreteava ou fazia tropas. Talvez - refletia Rodrigo, olhando para o sogro - talvez os maus negcios que haviam ,levado aquele homem  
falncia noo tivessem sido pura obra d"o acaso. No era impossvel que o "prprio Aderbal Quadros houvesse colaborado com o destino. procurando inconscientemente 
a prpria runa, a fim de poder voltar  vida simples, rstica e dura que tanto amava. Porque aquele campeiro parecia ter a volpia de vencer dificuldades.
- Qualquer dia .- disse o velho quando subiam a encosta, margeando a roa - vou fazer uma tropa. J ando cansado desta vadiao.
Vadiao? Rodrigo sabia que o sogro trabalhava d so a sol todos os dias, inclusive os domingos.
Os guapecas lanaram-se a correr coxilha acima e, latindo e sacudindo os rabos, cercaram o amo, a fazer-lhe fests. Amigo dos animais, Babalo recolhia , por assim 
dizer, perfilhava todos os cachorros e gatos extraviados que apareciam no Sutil.
#438        O RETRATO
- Veja que freguesia, Rodrigo! - murmurou ele, acocoran do-se para brincar com os guaipecas. Ficou por alguns segundos ~ resmungar frases carinhosas e alisar o plo 
dos cachorros, que, ganindo, lhe lambiam as mos e as faces. Depois ergueu-se e continuou a subir com o genro fazendo alto no cimo da coxilha, dei onde se avistava 
o casario de Santa F.
- Vamos al pra sombra do Conselheiro.
Aproximaram-se da cabriva. Babalo espraiou o olhar pels 1aisagem.
- Campos lindos. Parecem um veludo.
As coxilhas desdobravam-se a perder de vista, rumo daquele; luminosos horizontes de janeiro.
Aderbal apontou para a encosta da colina a cujo sop ficava o capo do riacho.
- Sabe o que  que vou fazer aqui? Uma lavourinha de trigo.. O ano que vem, se Deus quiser, vou comer po feito com trigo do Sutil.
Todos os dias, aps o almoo, Rodrigo .subia para o quarto com um exemplar do Correio do Povo debaixo do brao, deitavase Q ficava a ler, com lenta e preguiosa 
volpia, at adormecer. Invariavelmente caa no sono com o jornal aberto sobre o peito.
Naquele trs de janeiro, mal Bento lhe entregou o jornal que fora comprar  estao, subiu para o quarto, j a bocejar. Fazia um calor abafado e as pedras das ruas 
e caladas escaldavam como chapa de fogo. ("D pra fritar ovo" - garantiu o caboclo.) Rodrigo foi tirando a roupa aos poucos e, sem encontrar alvio para o calor, 
acabou por ficar completamente nu. Estendeu-se na cama e abriu o jornal. , As duas primeiras pginas estavam cheias de telegramas da guerra, que continuava na sua 
estagnao de inverno. Passou ao editorial, cujo ttulo era - "1914-1915."

Ano Novo! Ano bom!

A alma popular teima, a cada novo ano que surge, em querer ver no seu despontar os raios duma nova aurora, o incio dum novo perodo de ventura e de bondade. O Ano 
Novo  sempre o Ano Bom. Assim nos iludamos todos a 1. de janeiro desse malsinado 19 / 4. Todos espervamos que ele nos viesse compensar dos desgostos de 1913, 
que nos viesse ressarcir dos males que este nos causara. E, no entanto, nunca houve ano de to dolo
A SOMBRA DO ANJO        439

rosas provaes para todo o mundo, de tantas misrias, de tantas dores, de tantos honores.
Aqui no Brasil tivemos, logo aos primeiros meses desse ano terrvel, a tragdia do Cear e o seu longo cortejo de desgraas; vieram depois o estado de stio, a perseguio 
 imprensa, os crimes do Contestado; a debacle financeira, o abalo do nosso crdito no estrangeiro, arrastando-nos ao beco sem sada do "funding loan".
No foram mais felizes os outros pases do continente.

O editorialista passava a enumerar as desgraas continentais: revolues no Mxico e o conflito desse pas com os Estados-Unidos; o assassnio do Presidente da Repblica 
da Colmbia: crimes no Prata e luto na Argentina pela morte de Saenz Peia. A Europa no fora mais feliz: a "semana vermelha" na Itla, com os desatinos revolucionrios 
de Ancona; agitao poltica na Frana, onde a tragdia do "Figaro" - o escandaloso "affaire Calmette" - agitara a nao e o mundo; greves na Rssia; novos rumores 
de guerra entre a Turquia e a Grcia; a farsa das sufragistas na Inglaterra e boatos de guerra civil na Irlanda. Por fim - continuava o editorial - a maior catstrofe 
de todas: o assassnio do arquiduque herdeiro do trono dos Habsburgos, que desencadeara na Europa a mais terrvel guerra da histria da raa humana. E era  sombra 
dessa pavorosa hecatombe que surgia o ano de 1915.

Que das duras provaes de hoje surja uma humanidade melhor, mais tolerante, menos egosta, mais inclinada a perdoar as culpas do prximo e desculpar-lhe os erros.

Rodrigo deixou o jornal cair sobre o peito, tranou as mos por cima dele e ficou a pensar naquela fria noite de julho de 1914, em que o Cuca Lopes entrara esbaforido 
no Sobrado, trazendo a dramtica notcia.
g
- Rebentou a guerra na Europa!
Havia semanas que os jornais andavam cheios de negros pressgios em torno da possibilidade dum conflito armado no continente europeu. Depois da tragdia de Serajevo, 
esperava-se para y salquer momento a deflagrao da guerra.. Entretanto, no seu
#44O        O RETRATO
incurvel otimismo Rodrigo achava que as dificuldades seriam co tornadas e a crise vencida graas aos esforos conjugados da df plomacia francesa e inglesa.
- Quem foi que te contou, homem de Deus?
- Chegou um telegrama ind"agorinha. Por acaso eu estav no Telgrafo .. .
- Adeus, viagem a Paris! - exclamou Rodrigo, sentando-se, prostrado, numa cadeira.
No dia seguinte o Cel. Jairo confirmou a notcia. A ust "
declarara guerra  Srvia,  qual se unira o Montenegro. A es quadra alem concentrava-se em pontos estratgicos. A austra bloqueava o porto de Antivari. A Rssia 
j declarara que ordenari a mobilizao geral, caso os austracos ocupassem Belgrado. A Alemanha ameaava mobilizar todas as suas foras de terra e mar se a Rssia 
fizesse qualquer movimento de tropas, ainda que parcial.
- No vejo a menor esperana duma soluo pacfica do problema - declarou o comandante do regimento de infantaria, sacudindo penalizado a cabeleira ruiva. - A entrada 
da Alemanha, Rssia, Inglaterra e Frana no conflito  questo apenas de dias, talvez de horas. A conflagrao vai ser geral. As bestas apoca!pticas andam de novo 
s soltas. Pobre humanidade!
Generalizando o conflito, Rodrigo ficou a segui-lo avidamente atravs dos jornais. Desde logo ficara evidente que a maioria da populao santa-fezense era simptica 
 causa aliada. Quanto a Rodrigo, noo tivera a menor hesitao. Onde estivesse a Frana, l estaria tambm seu esprito e seu corao. Em meados de agosto organizou 
uma marcha aux flambeaux em que os partidrios dos aliados, puxados pela banda de msica militar, desfilaram pelas ruas de Santa F com bandeiras da Frana, da Inglaterra 
e do Brasil, a soltar vivas a hoincar, ao. Czar da Rssia, ao Rei Jorge da Inglaterra e ao Rei Alberto da Blgica.
A Farmcia Popular ficou sendo conhecida como o mais importante centro de concentrao aliadfila da cidade, ao passo que a Confeitaria Schnitzler era o ponto de 
reunio dos membros da colnia alem e dos teuto-brasileiros, cujas simpatias naturalmente estavam voltados para o Vaterland.
Os jornais noticiavam que nas sociedades germnicas de Porto Alegre. So Leopoldo e Santa Cruz faziam-se subscries e festas em benefcio dos soldados alemes e 
austracos. Rodrigo enfureciase com isso, pois o Brasil em peso - afirmava - achava-se coeso ao lado da causa aliada, que era a causa mesma da democracia e da civilizao! 
Aqueles alemes e seus descendentes deviam meter a viola no saco e ficar quietinhos no seu canto, pois se continuassem
A SOMBRA DO ANJO        441

naquelas manifestaes insolentes acabariam mas era levando bordoadas!
Tomou assinaturas de revistas e jornais espanhis e platinos que comeavam a trazer reportagens e comentrios ilustrados sobre a Guerra Europia. No podia ver retratos 
do Kaiser sem sentir o sangue ferver-lhe nas veias. Compare-se a fisionomia de Raymond Poincar com a de Guilherme II. Dum lado temos esse homem culto e civilizado, 
com ar de professor universitrio, uma expresso de bondade paternal no rosto. Do outro, todo enfarpelado no seu vistoso uniforme, o maldito Hohenzollern, de bigodes 
de guias torcidas para cima, o olhar duro e cruel como o ao de seu antiptico capacete. Senhores, entre um e outro noo podemos ter a menor hesitao.
A batalha do Marne trouxera Rodrigo angustiado durante mais duma semana. Dela dependia a sorte de sua amada Paris e talvez o desfecho da Guerra. Quando chegou a 
Santa F a notcia de que a grande ofensiva alem havia sido repelida, chamou o negro Srgio e mandou-o soltar duas dzias de foguetes  frente da Farmcia Popular. 
E quando, atrados pelos estrondos, curiosos se aproximaram, formando pequena multido sugestiva dum comcio, Rodrigo transmitiu-lhes a notcia em altos brados e 
acabou fazendo um veemente discurso em que exaltou a coragem e o gnio dos gauleses e atacou "os hunos que com o taco de suas botas de brbaros esto ameaando 
a civilizao, a cultura e a democracia!"
 medida que ia lendo as notcias das atrocidades cometidas pelas tropas alems na Blgica, onde - informavam os jornais - aldeias inteiras eram destrudas, velhos, 
mulheres, invlidos e crianas fuzilados juntamente com homens vlidos - sua ndignao crescia de tal forma, que ele, j nem podia discutir com o Cap. Rubim, germanfilo 
empedernido, sem que acabassem ambos vermelhos e aos berros, como se estivessem prestes a engalfinhar-se em luta fsica.
- No acredite nessas notcias - dizia Rubim. - Isso  pura propaganda aliada. E, depois, guerra  guerra e no podemos esperar que os soldados se portem como anjos. 
Os alemes no so melhores nem piores que os ingleses e os franceses. Mas uma coisa lhe digo, meu caro. So mil vezes mais humanos que os russos. Esses eslavos, 
sim,  que so brbaros.
O que mais deixava Rodrigo agastado era saber que em Nova Pomernia se faziam comcios e festas pr-Alemanha. Kerbs em que se cantavam hinos alemes e em que o Deutschland 
ber alies era repetido entusiasticamente como um refro de vitria. Contava-se que muitos colonos tittham mandado seus filhos alistaremse nas foras do Kaiser. 
Desaforo! - vociferava Rodrigo. - O governo deve proibir isso. Afinal de contas esses lambotes vivem
#442        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        443
na nossa terra, comem o nosso po, bebem a nossa gua, respiram o nosso ar, dependem, enfim, da nossa generosidade e da nossa ta lerncia.
Rubim sorria ante essas exploses. "S lhe falta - ironizou ele um dia - organizar e comandar uma expedio punitiva contra Nova Pomernia." Rodrigo no achou nenhuma 
graa na observao. "E por que no? - replicou. - H de chegar esse dia!"
Cortou o cumprimento a Jlio Schnitzler e comeou a boicotar-lhe a confeitaria. Olhava com rancor e m vontade para w Spielvogel, os Kunz, os Schultz, enfim, para 
todos os que ali em Santa F tinham nomes germnicos. "Se algum desses boches me olhar atravessado, parto-lhe a cara!"
Continuava a acompanhar a Guerra atravs das revistas e jornais que lhe chegavam do Prata. Aqueles primeiros dias do conflito tinham abalado o Brasil. O governo 
decretara moratria e frias comerciais para os bancos, muitos dos quais foram fechados e guardados pela polcia. Havia no tom das notcias econmicas e financeiras 
algo que sugeria um princpio de pnico:
Rodrigo, que via a guerra atravs dum prisma apaixonadamente romanesco ~a revanche de Sedan, o estudante alsaciano, o esprit contra o Kultur) ficava indignado quando 
Cacique Fagundes, Joca Prates e Pedro Teixeira, revelando um descaso assustador pela sorte dos belgas, pela segurana de Paris ou pelas vitrias da formidvel esquadra 
britnica, mostravam-se preocupados apenas com as alteraes de preos nos gneros de primeira necessidade e" com a paralisao do mercado da banha. Naquelas primeiras 
semanas ~ estancieiros andavam apreensivos, alarmados mesmo, ante a possibilidade de a guerra trazer desastrosos prejuzos  pecuria. O couro, que havia pouco estava 
a 1 X64O, agora no tinha cotao. Os proprietrios das barracas do interior do Estado ordenavam aos seus representantes que suspendessem todas as compras.
Aquela gente s pensava na barriga - conclua Rodrigo - entristecido e revoltado. Seu prprio pai noo era diferente dos outros. No tinha a menor noo do que fosse 
realmente a Europa e sua importncia no mundo. Blgica, Srvia, Montenegro, Frana? Pura inveno dos jornais e dos compndios de Geografia .. .
Don Pepe, esse andava tomado duma agitao toda particular. Nos ltimos dias de ~ julho ainda afirmava, com a f dum apstlo, que a guerra no Seria deflagrada 
porque a conscincia socialista do mundo no apoiaria sob nenhum pretexto aquela criminosa aventura capitalista !
Vibrara de emoo e esperana ao ler no Correio do Povo que em Purto Alegre o Partido Socialista, considerano uma explorao inqua contra o interesse do Povo o 
aumnto injustificvel de
certos produtos nacionas, o que viria agravar a misria das classes, trabalhadoras, convocara a populao para um meeting de protesto na praa da Alfndega.
- Es para lo que sirben Ias guerras capitalistas! - exclamara, sacudindo o jornal no ar como uma bandeira. - Para explorar el pueblo. La Standard Oil ya aument 
el precio del kerosn y de la nafta.
- Mas noo se trata de explorar ningum, Pepito - retrucara Rodrigo com uma falsa pacincia. - )~ uma guerra de vida e de morte a civilizao contra a Larbrie, 
o 
despotismo contra a liberdade. p necessrio esmagar a Alemanha para que o mundo possa de novo respirar em paz.
Ao ler a notcia de que um estudante assassinara em Paris o deputado Jean Jaurs, lder do Partido Socialista. Don Pepe ficara to acabrunhado, que cara de cama, 
com febre alta.
- Est todo perdido - murmurava ele.
E nos seus delrios fazia discursos incendirios.
Se por um lado as atrocidades dos alemes causavam a Rodrigo a mas profunda revolta, por outro a leitura de Eelegramas que relatavam atos de herosmo e sacrifcio 
por parte de soldados aliados, enchiam-no dum clido, comovido entusiasmo. Foi com lgrimas nos olhos e com calafrios a percorrerem-lhe o corpo que leu a narrativa 
da proeza do aviador Garros - esse Garros que, para destruir um dirigvel alemo, no hesita em atirar contra ele o aeroplano que pilotava com maravilhosa destreza, 
tendo a tranqila certeza de que essa morte seria simplesmente sublime. Poucas vezes subiu to alto o alis tradicional herosmo francs.
Rodrigo tomou-se de grande ternura pelo Japo ao saber que seu governo declarara guerra  Alemanha. Aquele pequeno pas isolado nos confins do continente asitico 
honrara sua aliana com a Inglaterra, apesar de noo estarem em jogo os interesses nacionais!
E a Itlia? Que fazia a Itlia que no entrava tambm no conflito ao lado da Frana, sua irm latina? "Marco I,unardi!" - gritava ele quando encontrava o amigo. 
- "Quando  que vocs entram nessa guerra, homem?" Interpelava-o com ar de brincadeira, mas com certa impacincia, como se a declarao de guerra dependesse do jovem 
proprietrio da Fbrica talo-Brasileira . de Massas Alimentcias. Fazia a mesma pergunta ao Dr. Carbone, que sorria: "Pacincia, varino. Espera a primavera. Agora 
faz muito frio."
Um dia quando no Sobrado, Rodrigo comentava apaixonadamente a guerra  mesa do jantar, Licurgo observou:
- Esto morrendo patrcios nossos nessa luta no Contestado, e o senhor parece que nem se importa com isso. Ainda ontem passou por aqui um trem cheio de soldados 
que iam pra Marcelino Ramos.
#444        O RETRATO

Esto falando que os fanticos vo invadir o nosso Estado pelo Passo Fundo.
- Ora, papai, no acredito que esses caboclos mal-armados possam pr em perigo a vida da Repblica. Mas o Kaiser, esse sim  um pesadelo para toda a civilizao.
Nos primeiros dias daquele setembro de l4, Rodrigo organizou em Santa F uma grande festa, com leilo e tmbola, em benefcio da Cruz Vermelha belga.
- Essa tua paixo pela Blgica - disse-lhe Rubim - tem origem na velha piedade crist pelos fracos. Segundo um conceito corrente mas errneo, o fraco  necessariamente 
o bom, ao passo que o forte  o mau. Ora, vamos e venhamos, isso  um raciocnio infantil!
Rodrigo apanhou um exemplar do Correio do Povo que transcrevia um discurso que Rui Barbosa pronunciara recentemente no Senado.
- Veja o que diz da Blgica o maior brasileiro vivo.

Leu:

Agora que a Blgica atravessa as provaes de seu martrio sobre-humano, com um herosmo cuja sublimidade obumbra s vezes as pginas mais belas da antiga histria 
grega... (Aqui h um "muito bem" do Senador Azeredo) .
- Boa bisca - interrompeu-o Rubim. - Dem-lhe um baralho e um parceiro e ele ficar feliz .. .

O outro prosseguiu
... da luta helnica contra as hordas do Oriente, se por ali voltssemos s encontraramos naquele solo da indstria, do progresso, das letras, vastas necrpoles, 
campos ermos, cho gretado pelas ossadas, cidades consumidas, construes em runas. B que a guerra escolheu aquele torro de liberdade e trabalho para a sua semeadura 
de cinzas e luto. A guerra, uma guerra que baniu o direito, a humanidade, o cristianismo; uma guerra que eliminou as inviolabilidades mais sagradas, uma guerra que 
passa com" a iracndia do furaco sobre o princpio tutelar das neutralidades; uma guerra yue rasga todas as leis internacionais, uma guerra que considera os tratados 
como trapos, que no admite os direitos dos fracos, que no conhece o dever dos fortes; uma guerra que incendeia museus, bibliotecas e templos, uma guerra que arrasa 
cidades abertas, queima aldeias pacficas, tala campos sorridentes, cativa populaes desarmadas; uma guerra que fuzila velhos, invlidos, corta seios das mulheres, 
deepa mos das crianas; uma guerra qu sis
A SOMBRA DO ANJO        445

rematiza a crueldade, a destruio e o terror; uma ,guerra que escancara as fauces hiantes para a Europa dilacerada e se sacia nas presas sanguinolentas, no meio 
dum ciclone, a cuja rajada o mundo todo parece estremecer, como se o prprio solo da conscincia se lhe houvesse abatido debaixo dos fundamentos divinos, e sorvedouros 
do inferno se abrissem para tragar a civilizao fecundada pelo cu...        ,
Rubim escutou o discurso at o fim com um sorriso cptico.
- At o nosso grande Rui - comentou ele por fim - caiu na esparrela da propaganda aliada .. .
"O que se passava - acrescentou - era to claro e de natureza to prtica que dispensava a eloqncia e a retrica. A Alemanha e a ustria tinham, havia muito, os 
olhos voltados para o Oriente e para a sia Menor: falava-se at em estender a Grande Germnia de Berlim a Bagd. Por outro lado a Rssia queria impor o domnio 
eslavo a Constantinopla, numa expanso rumo do Adritico, passando pela Srvia ... No havia no mundo inteiro rea mais confusa e inflamvel que os Balcs. Jamais 
houvera na histria das naes zona mais confusa e cheia de intrigas polticas e complicaes religiosas e raciais. Aqueles pases, verdadeiras comdias de erros, 
colchas de retalhos de nacionalidades que se repeliam, no tinham estatura para se tornarem naes independentes. Eram apenas presas em estado potencial cobiadas 
por dois colossos: o alemo e o russo. Ora, a Frana. que vivia iludida com o poderio militar da Rssia, tinha com esta uma aliana. O povo francs esperava de certo 
modo tirar a revanche de 7O. Quanto  Inglaterra, a velha raposa ficaria de bom grado fora do conflito, deixando que as outras potncias se destrussem. a fim de 
que ela, intervindo no fim, pudesse ficar com a parte do leo. O diabo era que, vencedora a Alemanha, a sorte do Reino Unido estaria selada. No devamos esquecer 
tambm que entre a Inglaterra e a Alemanha existia uma tremenda rivalidade comercial. Os produtos alemes, em geral melhores e mais baratos que os ingleses, estavam 
comeando a dominar os~ mercados mundiais. A destruio da Alemanha, portanto, era coisa indispensvel no s para a sade econmica do Imprio Britnico, como tambm 
para a tranqilidade da Frana.
"O resto, meu amigo - rematou o capito -  rui-barbosismo, pura retrica dum pas de mulatos pacholas e pernsticos."
CAPITULO II
1
ABOLIR A SESTA ... Essa era a grande resoluo que Rodrigo havia tomado. Andava entusiasmado com o movimento da farmcia e do hospital e com as atividades do Dr. 
Carbone. Queria dedicar mais horas ao consultrio, acompanhar o negcio mais de perto, enfim, no perder tempo a -dormir estupidamente, enquanto Ooperador e seu 
assistente l estavam a abrir e fechar barrigas de colonos e nativos, e o pobre Gabriel se desdobrava entre o laboratrio, o balco e a sala de operaes, onde o 
cirurgio, como era natural, queria tudo a tempo e a hora.
Mas no era fcil cortar drasticamente um hbito to velho e gostoso. A resoluo era antiga, e ele vivia a prometer a si mesmo que ia pb-la em prtica "na .segunda-feira 
que vem" ... Semana nova: vida nova. Mas quall Mal terminava de almoar, vinhalhe o torpor, o peso nas plpebras, os bocejos, e ele acabava sempre encontrando um 
bom pretexto para subir ao quarto e deitar-se. Uma vez na cama, estava tudo perdido: dormia at s trs.
Naquela segunda-feira de janeiro, decidiu: hoje no sesteio. Apanhou na biblioteca Les Maladies de la Volont, de Ribot, e sentou-se. Era preciso educar a vontade, 
seguir o exemplo dos hindus. L"lllustratio" publicara, havia pouco, uma srie de gravuras mostrando um Togue nos seus incrveis exerccios. Aqueles monstros conseguiam 
libertar o esprito da matria, desviar os sentidos do mundo exterior. Ora, eu quero apenas perder o hbito da sesta .. .
Abriu o livro, passou os olhos por alguns pargrafos do prefcio (coisa que j fizera em outras ocasies) mas no pde concentrar a ateno no que lia. O diabo. 
era o olor. No inverno seria mais fcil dispensar a sesta. Mas no verio, depois dum almoo pesado... )~, mas seja como for, hoje no durmo. Est resolvido.
Fechou o livro e os olhos. (No vou dormir - comunicou a si mesmo. - S descansar um pouquinho.) Estava  beira do sono quando um grito agudo o despertou. Ps-se 
de p, sobres
A SOMBRA DO ANJO        447

saltado, e precipitou-se para a sala de jantar, de onde partiam os berros duma das crianas.
- Que foi ? Que foi ?
Maria Valria veio a seu encontro, com Alicinha nos braos. ,p~ menina chorava, o rosto contorcido de dor, as lgrimas a rolarem pelas faces afogueadas. Um filete 
de sangue escorria-lhe do canto da boca.
- Santo Deus! - exclamou Rodrigo.
Quis arrebatar a filha dos braos da tia, mas esta o repeliu com um gesto decidido.
- Deixe de fita! No  nada. A criana caiu e cortou o beicinho por dentro. Bota-se maravilha curativa e est pronto.
Com uma expresso de angstia no rosto, Rodrigo ficou a acompanhar com os olhos a Dinda, que subia a escada grande com a menina nos braos.
A meio caminho, Maria Valria deteve-se por um instante e olhou para o afilhado:
- No precisa fazer essa cara de capo de pinto. J disse que noo  nada.
Rodrigo vcltou para sua cadeira. Por algum tempo ficou a ouvir, penalizado, o choro da filha. Quando alguma das crianas se feria ou adoecia, ficava desnorteado, 
portava-se - no dizer de sua madrinha - como uma solteirona histrica, e s lhe faltava romper tambm o choro.
Um dia Floriano rolara pela escada e tombara com um estrondo a seus ps, ficando estatelado e imvel no cho, como que sem sentidos. Desatinado, ele erguera o filho 
nos braos e por algum tempo. quedara-se aturdido, incapaz duma palavra, duma resoluo.
- Chamem um doutor, depressa 1 - gritara depois. - Esta criana est com o crnio fraturado!
Lgrimas brotaram-lhe nos olhos, soluos rebentaram-lhe do peco. Flora, muito plida, andava dum lado para outro, cega e perdida no seu desespero. Fora nesse instante 
de confuso que Maria Valria interviera, arrebatando Floriano dos braos do pai e deitando-o no sof, onde o sacudira at faz-lo abrir o berreiro. Apalpara-lhe 
depois a cabea, as pernas, as coxas, os braos, tirara-lhe a camisa para examinar-lhe o trax. E quando o menino cessara de berrar, ficando apenas a fazer beicinho, 
os ombros sacudidos por soluos secos, ela tornara a apalpar-lhe vrias partes do corpo, perguntando: "Di aqui? E aqui?" Ble respondia que no, com movimentos de 
cabea. Poucos minutos depois estava de p a brincar, como se nada lhe tivesse acontecido.
- Esto vendo? No ficou nem galo. Eu sempre digo que vocs se assustam por qualquer coisinha.
#448        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        449
Rodrigo agora sorria, recordando a cena. Reconhecia qne
um pai sentimental e bobo. Vivia a contar as gracinhas dos filhos; coisas que nos tempos de solteiro achava to ridculo nos outros: Quando vinham visitantes ao 
Sobrado, chamava Floriano  sala punha o gramofone a tocar um disco e perguntava ao menino "Que msica  essa?" Floriano hesitava por um instante e depois,:. com 
o dedo na boca, os olhos baixos, respondia: "r o Palhacy do Caruso" ou "L a Traviata." Esto vendo a figurinha? Com; trs anos e j entende de pera! Eu queria 
que vocs vissem como essa criana gosta de msica! J capaz de ficar horas e horas (dano que era um exagero!) sentadinha ali no sof, escutando a Tetrazzin, o 
Tamagno, o Amato...
Rodrigo tornou a fechar os olhos. Juro, dou a minha palavra de honra como no vou dormir.
Da cozinha veio a voz doce e afinada da Laurinda:

Ai, Filomena!
Se eu fosse como tu, Tirava a urucubaca Da careca do Dudu!

Sorriu. Ah! Os tempos do Dudu... Aqueles quatro anos de governo do Marechal haviam sido um prolongado pesadelo, uma enfiada de desastres polticos e administrativos. 
A revolta dos marinheiros. O estado de stio. Os fuzilamentos do Satlite. O escndalo da prata. A interveno em Pernambuco. O bombardeio da Bahia. O caso do Amazonas. 
Nunca em toda a Histria do Brasil houvera governo mais catastrfico e acidentado. Jamais se vira tanto mandonismo, tanto nepotismo, tanta arbitrariedade. tanta 
poltica de corrilho. E o Marechal - todo o mundo sabia - no passava dum fantoche nas mos hbeis e poderosas de Pinheiro Machado. Por mais que admirasse o Senador, 
Rodrigo noo podia deixar de reconhecer que ele era autoritrio, prepotente e egocntrico. Durante aqueles quatro anos tormentosos, a voz eloqente de Rui Barbosa 
no cessara de clamar no medonho deserto nacional na defesa da Constituio, da liberdade de pensamento e palavra, e da autonomia dos Estados. No entanto, um homem 
da cultura e da fibra moral do Senador baiano havia sido derrotado nas umas por Hermes da Fonseca! Ah! Mas o povo tirara a sua desforra. Sem recursos materiais 
para derrubar o governo pelas armas, usara da caricatura, do humorismo para lan-lo ao ridculo. E por todo o Brasil se espalhara a lenda da estupidez do Presidente. 
O Dudu transformara-se em personagem de anedota. Atribuam-se-lhe os ditos mais obtusos, as intenes mais lorpas, as ignorncias mais crassas, as atitudes mais 
rastacueras, as gafes
mais clamorosas. Era um verdadeiro golpe de Estado pela stira. E atravs de quadrinhas, chistes, piadas, trocadilhos, a figura do Marechal fora projetada no pas 
inteiro como uma espcie de bobo da prpria Corte. Sabem a ltima do Dudu? E l vinha a anedota ... Apareciam em jornais e revistas, eram repetidas pelo homem da 
rua. Por fim inventara-se que o Dudu tinha urucubaca, azar, caiporismo. E a palavra urucubaca da noite para o dia ganhara foros nacionais. Aonde quer que fosse afirmava-se 
- o Dudu levava a sua aura negativa. O que quer que fizesse saa torto ; o que quer que dissesse era sempre errado- ou cmico.
No entanto - refletia Rodrigo - uma coisa sempre lhe parecera clara: o Z Povo da caricatura no queria mal a Hermes da Fonseca. Atacava-o por ach-lo mais vulnervel 
do que a pessoa que realmente o populacho odiava. Pinheiro Machado era imune  stira. O ridculo no atingia aquela figura olmpica.
Rodrigo abriu a buca num prolongado bocejo. Na cozinha, Laurinda continuava a cantar.
Abra os olhos. No. Vou ficar assim s um pouquinho mais .. .
Imaginou que Pinheiro Machado estava li na sala, pitando Oseu crioulo bem como naquele dia de inverno, em 191O.. .
Olhe, Senador, vou lhe dizer uma coisa com toda a franqueza que me caracteriza. O senhor cometeu um erro quando procurou candidatar-se  sucesso presidencial. Foi 
muito bom terem eleito o Wenceslau Braz. Outro erro seu  esse de querer agora fazer do Dudu um senador da Repblica. Deixe o homem em paz. No provoque a sanha 
popular. No chame mais dios sobre a sua pessoa e sobre o Rio Grande!
J agora Pinheiro Machado estava seminu como um faquir, sentado no soalho a fazer horrendas deslocaes de membros, como um contorcionista de circo. "Quem me ensinou 
estes exerccios - dizia ele - foi um Togue, um ndio velho de Nonoai. Nisto est o segredo de meu poderoso magnetismo pessoal."
O escritrio estava completamente s escuras e Rodrigo s via um ponto luminoso, que no sabia bem se era o olho ou o cigarro do Senador.
Quando Flora entrou, poucos minutos depois, encontrou o marido a dormir profundamente.
2
Rodrigo passou no Angico com a famlia todo o ms de janeiro e boa parte de fevereiro, aproveitando da maneira mais plena uma sucesso de dias luminosos, dum calor 
seco e agradvel: cam-
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A SOMBRA DO ANJO        451
pereadas em companhia do pai e do irmo; largas sestas na rede,  sombra de cinamomos; caadas de jacutingas e bugios nos matos; banhos na sanga ao entardecer.
Encontrou Licurgo ainda mas taciturno que de costume, e isso o deixou apreensivo. Que grande mgoa estaria a roer-lhe o corao? Sabia que o pai noo aprovava o 
tipo de vida que ele, Rodrigo, levava na cidade: achava-o um perdulrio, um bomio, um dandy. Estaria o velho zangado com ele? Ou toda aquela tristeza vinha da situao 
de constrangimento criada por suas relaes com a Car, as quais j agora ningum mais ignorava?
Por que papai no se abre? Por que no pe as cartas na mesa francamente, atacando o problema de frente e tratando de resolv-lo? Qual! Aquela gente antiga sofria 
porque procurava viver de acordo com um cdigo de honra que quase sempre estava em violento desacordo com suas necessidades e desejos mais profundos.
- Que diabo! - exclamou uma tarde em que viu o pai sair a cavalo  hora da sesta, rumo do rancho de Ismlia Car. - Por que  que no se casam duma vez e acabam 
com esse mistrio?
Mas ele sabia que tal casamento seria impossvel e que a soluo do problema no era to simples assim.
Outra coisa que lhe causava grande mal-estar eram as relaes do pai com Maria Valria. Nas poucas vezes em que se falavam era em dilogos lacnicos: duas lixas 
a se tocarem em contatos speros e rpidos. Nunca se olhavam de frente: evitavam-se o mais que podiam. Era evidente que se queriam mal. Mas por qu? Por qu?
 hora das refeies Rodrigo fazia o possvel para alegrar o ambiente, quebrar a atmosfera de gelo criada pela presena do pai e da cunhada. Contava histrias, ria 
alto, encontrando em Flora e Torbio uma platia interessada e entusiasta, sempre pronta a achar graa em suas anedotas, ditos e casos. O pai, porm, parecia no 
escut-lo. Mantinha a cabea baixa, os olhos no prato.
Ser que ele tem alguma coisa contra mim ? - perguntava-se Rodrigo. E a idia de noo contar com a estima e a admirao do velho era-lhe to opressiva que chegava 
a embaciar-lhe a limpidez daqueles dias de vero. Um dia em que caminhava ao lado de Licurgo, (dirigiam-se para a mangueira, a ver um terneiro que acabava de nascer) 
resolveu abrir-se.
- Papai, tenho notado que o senhor anda srio comigo. Ser que fiz alguma coisa que no foi de seu agrado?
Licurgo deu alguns passos em silncio; depois, sem, voltar a cabea, respondeu:
- No. O senhor no fez nada. Se tivesse feito eu lhe dizia como  meu costume.
- Ento que  que tem?
- Nada. r o meu jeito.
Entrou na mangueira. Inclinou-se sobre o animal recm-nascido, acariciou-lhe o plo e sorriu. Era o primeiro sorriso que Rodrigo via naquele rosto queimado e melanclico, 
desde que chegara ao Angico.


- Se no fosse um insulto  memria da nossa me - disse ele ao irmo, duma feita em que discutiam o pai - eu diria que no somos filhos do velho Licurgo.
Torbio soltou uma risada. Eram seis da tarde e ambos se despiam para mergulhar na sanga. Rodrigo ficou a contemplar o corpo troncudo e musculoso do outro. Torbio 
parecia-lhe mais forte que nunca, e muito mais "judiado", como j lhe observara Maria Valria. Seus olhos estavam injetados, a pele curtida pelo sol e pelo vento, 
as mos calosas e encardidas. Com sua cabea raspada a mquina nmero zero e seu cachao ndio dava a impresso - fantasiou Rodrigo - dum guerreiro trtaro.
Um dos seus divertimentos prediletos era segurar um novilho pelas aspas, torcer-lhe o pescoo e tomb-lo, mantendo-o por longo tempo subjugado. Os pees - a quem 
Bio tratava como iguais - adoravam-no. Rodrigo no se lembrava de jamais ter visto no rosto do irmo a mais leve sombra dum cuidado. Torbio parecia achar que todos 
os problemas, . mesmo os chamados morais, eram passveis duma soluo fsica. Nada lhe dava mais alegria que a ao. Comia desmedidamente e no podia passar por 
uma venda sem entrar para "tomar uma talagada". Confessava, aparentemente sem a menor mossa, ser pai de uns dois ou trs guris, ali no Angico e arredores, acrescentando: 
"E nem sei direito que cara tm os desgraadinhos."
E naquela tarde, depois do banho, quando, ainda despidos, estavam ambos deitados na grama. Torbio fez um relato de suas andanas e divertimentos na estncia e redondezas, 
durante os cinco meses em que andara ausente de Santa F: aventuras amorosas com chinocas e colonas, algumas sob os maiores riscos: bailes de "cola atada" que quase 
sempre terminavam em tiroteio: caadas e pescarias que duravam dias: carreiras dominicais em cancha reta nas quais se apostava  grande e se brigava a fartar; rinhas 
de galo e jogos de osso em que no raro os jogadores "se estranhavam" e acabavam arrancando os faces .. .
- E o velho que diz de tudo isso?
- No diz nada, porque no sabe da missa a metade. Vou te contar uma coisa que ainda noo contei a ningum. Um dia briguei com um cabra numa cancha de osso. Fui 
pra 
cima dele de-
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A SOMBRA DO ANJO        453
sarmado porque no queria lastimar o infeliz. Deitei ele no cho com uma tapona no ouvido. Pois noo  que o canalha se levanta
- vem pra cima de mim com um faco desta idade e me finca o bruto na coxa? Apliquei-lhe um soco nas ventas que lo deixei dormindo. Botei creolina no talho, amarrei 
um pano por cima e me toquei pra casa. Passei uma noite cachorra, o ferimento doendo e latejando, acho at que tive febre alta, mas noo soltei um pio pro velho 
noo 
descobrir a coisa. Porque, se ele descobrisse, acho que morria de desgosto.
Acariciando o peito nu com as mos espalmadas, Rodrigc olhava para o desbotado cu do entardecer, enquanto escutava a voz lenta e fosca do irmo.
- Um dos divertimentos que mais apreciava - prosseguia ele - era ir aos domingos a Garibaldina especialmente para jogar luta com os "forudos" da colnia. Tiravam 
as camisas e as botas
-        atracavam-se, pelo puro prazer de lutar. No fim, suados, ofegantes e sujos, iam abraados beber vinho nas cantinas.
- Isso  que  vida, Rodrigo. E  por essa e por outras que eu passo tanto tempo sem ir  cidade.
Nada, porm, divertia mais Rodrigo do que o espetculo que lhe proporcionava o quarto do irmo. Era uma pea acanhada, de cho de terra batida, com uma cama-de-vento, 
uma cadeira de palhinha e um caixo vazio de sabo que fazia as vezes de mesa de cabeceira e sobre o qual se via uma garrafa com um toco de vela metido no gargalo. 
Espalhados pelo cho, por cima da cama
- sobre o peitoril da janela, jaziam muitos livros - brochuras esbeiadas de capas encardidas e manchadas de espermacete. Rodrigo lia-lhes os ttulos com delcia: 
Os 1~fisrrios de Paris, Rocambole, O lmo dos Moicanos. Havia tambm folhetins ilustrados: aventuras de Buffalo-Bill, Nick Crrter, Arsne Lupin e Rafles.
- Sabes o que  que estou estranhando? - disse um dia ao irmo. - lr noo teres aqui nenhum livro pornogrfico.
Bio encolheu os ombros.
-  porque noo sou nenhum bandalho. Essas coisas a gente no l, faz. E quem faz noo tem necessidade de ler.
3
No domingo de Carnaval, mascarados comearam a aparecer nas ruas desde as primeiras horas da manh. Uns vinham a p, outros a cavalo, e eram - segundo a classificao 
de Maria Valria - os "sujos". Pees de estncias e chcaras prximas, changadores ou vagabundos, conservavam a indumentria habitual, em geral calas
de riscado ou bombachas com ou sem botas, o colete aberto sobre a camisa suja, chapus sebosos de aba revirada para cim, as caras escondidas sob velhas mscaras 
de papelo ou barbas feitas grosseiramente de pedaos de pelego ou chumaos de l. Um que outro envergava um fraque dum preto ruo e trazia um espadago  cinta. 
Aparentemente o nico divertimento dos sujos era andar pelas ruas, acima e abaixo, a gritar fininho - hi-hi-hi-hi! - e a dirigir gracejos em falsete para as pessoas 
que se encontravam nas caladas ou s janelas. Bandos de moleques. perseguiam os mascarados, provocando-os com dichotes - "Mascarado esculhambado!" ... "Oia a cara 
dele, vov!" - puxando-lhes os rabos dos cavalos ou dos fraques, numa gritaria estridente. Os "mascras" reagiam, erguiam os rebenques, perseguiam os garotos e, quando 
os alcanavam, desciam-lhes com vontade o chicote sobre os lombos.
Havia tambm os fantasiados "de famlia". Os ricos e os remediados exibiam fantasias de cetim-Paris, tarlatana e lentejoulas. Eram pierrs, pierretes, colombinas, 
arlequins, ciganas, damas e cavalheiros antigos, piratas, caraduras, apaches... Os pobres improvisavam disfarces baratos com o que encontravam em casa: fraques, 
vestidos, cartolas e chapus avoengos.
Mas esses mesmos - observava Rodrigo - eram to tristes quanto os "sujos", e muito menos dinomicos. Andavam pelas ruas sozinhos ou aos bandos, srios e solenes 
como 
se estivessem travestidos de anjos ou santos numa procisso. Traziam nas mos bisnagas, limes e pacotes de serpentina ou confete, e parecia divertirem-se principalmente 
com a idia de que estavam sendo vistos e "apreciados" pelo povo naquelas fantasias.
Duma das janelas do Sobrado Rodrigo observava que desde s nove da manh um solitrio pierr cor-de-rosa dava voltas  praa, com a cara coberta de alvaiade, a cabeorra 
metida num gorro de meia preta, os braos cados, o passo lento, a expresso melanclica, a larga tnica com pompons negros a danar-lhe no corpo magro. Depois de 
dar muitas voltas, sentou-se num banco, que os moleques em breve cercaram em algazarra e ali ficou aptico e inerte, sem reagir  provocanoo dos garotos. Aquele 
homem estava se divertindo! - observou Rodrigo, perplexo.
 tarde comeou o entrudo. Nas ruas as pessoas se encontravam e jogavam umas nas outras os limes de cera com gua de cheiro, ou se trocavam os esguichos de suas 
bisnagas de metal. Era, porm, na tera-feira gorda que o entrudo atingia o auge e, no fim do dia, esgotado o estoque local de limes e excitados os nimos, os carnavalescos 
saam para a rua com canecas ou baldes cheios dgua do poo e se davam banhos espetaculares.
Nos bailes do Comercial, o jogo de lana-perfumes assumia um carter geralmente romntico entre os namorados, mas entre
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A SOMBRA DO ANJO        45 5
os casados transformava-se quase sempre em ferozes duelos on batalhas, em que o objetivo supremo era esguichar o ter perfumado dentro do olho do adversrio, que 
ficava a sapatear, a gemer, a lacrimejar e a esfregar as plpebras com os dedos, num frenesr. Esses combates tinham um aspecto selvagem e no raro degeneravam em 
luta corporal - mas tudo dentro do esprito tatuavalesto, em meio de risadas e exclamaes de alegria. Rodrigo observava essas cenas, divertido. Por que ser - perguntava 
a si mesmo! - que o gacho acaba sempre por transformar seus jogos e divertimentos em simulacros de guerra? Deve ser porque o Rio Grande comeou com um acampamento 
militar e seus habitantes passaram mais de metade da vida de armas na mo.
Ao entardecer daquele domingo, estando  janela do Sobrado em companhia de Flora, Rodrigo viu passar na rua um carro de tolda arriada, conduzindo uma dama espalhafatosamente 
vestida de seda azul eltrico e trazendo na cabea um chapelo de palha, de largas abas, coroado de plumas tricolores. Era corpulenta, tinha as mos e os antebraos 
cobertos por mitenes negras e abanava-se com um amplo leque, em movimentos lentos e majestosos, batendo-o contra os volumosos seios. Voltou o rosto para a janela 
do Sobrado, fez um aceno de cabea e sorriu. Rodrigo conespon-de ao cumprimento, intrigado. Quem seria? Havia naquela cara branca de p de arroz, com um indecente 
excesso de carmim nas faces, algo de estranho e ao mesmo tempo de repulsivamente familiar.
- Quem ? - perguntou Flora.
- Alguma mulher da vida. Decerto me conhece do consultrio .. .
De repente, porm, como que lhe veio  mente um claro de reconhecimento.
- Cachorro! - exclamou, batendo com o punho cerrado no peitoril da janela. - Desavergonhado! Sabes quem  aquela mulher? O Salomo Padilha, o alfaiate.  o cmulo 
do descaramento. S a bala. S ca .. .
Engoliu as duas ltimas slabas do verbo, em ateno 
4

Na tera-feira gorda Rodrigo convidou Rubim para vir assistir da janela do Sobrado  passagem do prstito carnavalesco que A Voz da Serra anunciava como "o mais 
belo destes ltimos anos, e da autoria do habilidoso artista conterrneo, Sr. Jos Pombo"
Os rapazes do "Z Pereira" local saram  rua ponto depois
das quatro .horas e fizeram uma volta pela praa. Onze deles rufavam em caixas-claras; cinco batiam em tambores-surdos: o filho do Marcelino Veiga tocava bombo: 
um corneteiro do batalho de infantaria solava o Z Pereira. Achavam-se os componentes do grupo fantasiados de "caraduras" : calas brancas, fraques de cetim verde 
vivo. gravatas borboleta da mesma cor; nas cabeas, cartolas altas e negras como chamins. Suas caras pintadas a carvo estavam srias, solenes mesmo. apesar de 
o cronista d"A Voz chamar-lhes habitualmente "os alegres folies do Z Pereira". Marchavam numa cadncia dura, quase militar, e parecia que sua noo de divertimento 
tinha muito a ver com a produo de barulho. Que moada sem graa! - pensou Rodrigo, que os contemplava de sua janela. Mas no gostou quando Rubim, pousando-lhe 
a mo no ombro, disse:
- Os gachos, me desculpe a franqueza, so um povo triste e sem encanto. Olhe s esses rapazes: no cantam, noo danam, noo riem, no brincam. Ali vo graves e 
compenetrados 
como se estivessem a cumprir um dever cvico ou religioso. E depois, meu caro, vocs aqui no Sul noo tm msica prpria nem arte popular nem tradio.
- Como noo? - protestou Rodrigo. - Temos uma tradio muito rica e muito nossa.
Procurou exemplos para atirar na cara do capito de artilharia, mas eles noo lhe ocorreram com a desejada espontaneidade.
- Que queres? Passamos a vida brigando desde os primeiros tempos do povoamento do Continente. Tivemos onze campanhas em setenta e sete anos, veja bem, onze! No 
nos sobrou muito tempo para fazer msica, danar ou cantar. Os castelhanos nunca nos deixavam em paz!
- E quando deixavam, ramos ns que amos provoc-los .. .
- Isso! Praticamente trabalhvamos com a enxada numa mo e a espingarda na outra, porque o inimigo podia surgir a cada momento. Ou ento vinha de repente l de cima 
uma ordem de mobilizao.
Mascarados macambzios passeavam lentamente pelas caladas da praa, solitrios ou em pequenos grupos.
- Queria que voc conhecesse o Norte - disse Rubim - que visse o carnaval do Recife com os seus tradicionais blocos como os "Vassourinhas", os "Abanadores" ... E 
as danas! e as cantigas! O cho-de-barriga, o frevo, o maracatu, as congadas! Aquilo  que  riq ueza folclrica, seu Rodrigo! O Bumba-meu-boi, os Pastoris, as 
chega nas .. .
Rodrigo fechara-se num silncio enciumado, e olhava para os rapazes do Z Pereira, que agora passavam pela frente da Igreja, a repetir a cadncia barulhenta e enjoativa 
de seus tambores, enquanto
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o pisto traava no ar, hesitante e faahoso, a velha melodia uma. valesca.
- E noo  s no Recife - continuou Rubim. - Em todo o Norte voc encontrar uma arte popular riqussima, na forma de cermica, canes, danas, suprsties e lendas.
Fez avanar o rosto, com a dentua  mostra, como se quisesse morder o interlocutor.
- E que  que vocs tm aqui que noo seja importao ibrica, quando noo  pura imitao dos vizinhos platinos?
- Ora, noo diga isso! A lenda do Negrinho do Pastorewo  autctone, e, sem favor algum, a mais bela do Brasil!
- No  a mais bela lenda do Brasil, noo. Reconheo que  uma das mais belas. Mas  a nica. No, meu caro, a imaginao de vocs  pobre.
Rodrigo sacudia a cabea, numa negativa obstinada.
- No senhor, noo concordo.. O que nos tem faltado noo  imaginao, mas tempo, vagares, tranqilidade. E, depois, me parece fora de dvida que as lendas e supersties 
nascem do mistrio, do medo. Ora, na nossa paisagem noo h mistrio. So campinas rasas, horizontes largos, cus imensos, tudo limpo, claro, amplo, convidando  
ao, ao arremesso,  carga. Quanto ao medo, creio que  coisa que aqui noo conhecemos.
- Isso  que nos irrita l em cima 1 - replicou Rubim. - Vocs gachos vivem dando a entender que -tm no Brasil o monoplio da coragem. S vocs so machos, s 
vocs sabem brigar, s vocs lutaram pela ptria! Ora, isso noo  verdade. Abra a nossa histria militar e veja o contingente com que o Centro e o Norte sempre 
contriburam 
para todas as campanhas guerreiras.
- Sim, mas o campo de batalha era quase sempre o nosso territrio. Esta foi a terra devastada. J pensaste nisso? Imagina s as incertezas duma fronteira mvel a 
subir e a descer ao sabor das guerras e dos tratados. O perigo constante, as nossas mulheres sempre de luto e meio abandonadas, as lavouras destrudas ou sem braos, 
o gado dizimado, os homens mortos ou mutilados. J3 pensaste ?
Rubim soltou uma risada.
- Estamos conversando como se fssemos representantes de duas naes rivais, hein? E quem tem culpa disso so vocs, com essa mania de separatismo, de...
- Alto l, capito! - interrompeu-o Rodrigo. - Nunca fomos separatistas, mas sim liberais que sempre desejaram uma repb1iCa federativa. Esse foi o sentido da Guerra 
dos Farrapos. Alis para seres coerente com tuas idias nietzschianas devias admirar um Estado espartano como o nosso,, que  uma espcie de Prssia brasileira .. 
.
A SOMBRA DO ANJO        457

- Claro que admiro, homem! Mas eu queria que voc conhecesse o Nordeste, para ver que gente rija  aquela, que gente brava e que gente pitoresca. No tivemos vizinhos 
castelhanos com quem brigar, mas tivemos e ainda temos um inimigo que nunca nos deu trguas: a terra, o clima. E o pior, ou o melhor  que apesar de tudo ns amamos 
esse inimigo.
Calaram-se  aproximao do prstito, que foi anunciado pelos clarins da banda do regimento de artilharia, cujos soldados, fantasiados de mandarins, abriam o cortejo.
5
Na noite do ltimo sbado de maro, Rodrigo reuniu alguns amigos no Sobrado, para se despedirem do Cap. Rubim, que havia sido transferido para a guarnio de So 
Paulo.
Pouco depois das oito chegou o Cel. Jairo com a esposa, que estava trajada como para um baile de gala. Flora, que vestia uma simples blusa de musselina verde jade 
e uma saia cor de chocolate, pareceu ficar desconcertada ao ver entrar, toda de negro e coros= cante de jias, aquela branqussima criatura cuja esbeltez e elegncia 
lembravam a dos desenhos dos figurinos parisierses. Car= mem Bittencourt dirigiu-se para a sala de visitas no seu ndar lento e frgil de gara, a fisionomia impassvel, 
os grandes olhos amortecidos por um desinteresse cansado. Flora seguiu-a a balbuciar amabilidades, a elogiar-lhe o vestido e o specto. Rdrigo observara que a esposa 
perdia a naturalidade na presena da carioca : ficava numa atitude humilde, era a provinciana diante da dama da Capital Federal. Suas palavras, de ordinrio fluentes, 
transformavam-se num tartamudeio acanhado de colegial. Carmem no fazia o menor gesto nem dizia a menor palavra para deixar a outra  vontade. Portava-se com uma 
altivez um tanto desdenhosa (era sabido que, aborrecia Santa F e no perdia ocasio de pr em ridculo seus habitantes, principalmente as mulheres) e noo raro 
dirigia 
 Flora., ditos irnicos que deixavam Rodrigo indignado, ansios por darlhe o troco na mesma moeda - coisa que noo fazia apenas em considerao ao marido. Esnobe! 
- exclamou ele mentalrpente, lanando um rpido olhar na direo da sala, onde Flora fazia a carioca sentar-se no sof. Pomadista! Nem que te multipliqus poro dez 
chegars aos ps da minha mulher! Imaginava despiques torpes: despir aquela insolente e am-la da maneira mais aviltante. E a pensar nisso verificava, um pouco 
contrariado, que a idia de possuir a mulher do coronel noo lhe era indiferente. Sentia por
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ela uma curiosidade sexual meio mrbida, com nm esquisito cabo de incesto.
- Passe pra c, coronel - disse em voz alta, puxando Ooutro pelo brao e fazendo-o entrar no escritrio. - Sente-se naghela poltrona.
"`"-`,. Jairo Bittencourt obedeceu. Rodrigo acendeu um charuto e sentou-se tambm, soltando uma baforada feliz.
- r uma pena o senhor no fumar. No sabe o que perde. Um charuto no  apenas um prazer fsico, mas uma delcia tambm para o esprito. Ser que algum j escreveu 
sobre os efeitos psicolgicos dum bom charut? No h nada de melhor que um Havana para levantar a moral!
Esperou que o coronel aproveitasse a deixa e, como era seu costume, entrasse numa disserta que acabaria fatalmente no positivismo. O amigo, porm,. continuou 
silencioso, a fisionomia tristonha, a mo a acariciar num gesto perdido a cabeleira fulva onde j apontavam fios prateados.
Rodrigo falou na guerra e deu voz  sua indignao ante o fato de os alemes estarem empregando o lana-chamas.
- ~ uma monstruosidade! - exclamou. - Uma arma de brbaros!
Jairo encolheu os ombros.
- A guerra em si mesma j  a maior das monstruosidades. Pode parecer estranho que eu, um militar, faa tal afirmao. Mas  que antes de ser militar sou uma criatura 
humana.
- Veja como nesse assunto de guerra a humanidade tem retrogradado desde os tempos das nobres lias medievais, de homem contra homem, at este nosso sculo em que 
se massacraram populaes civis indefesas e os boches andam a empregar essa arma horrvel que chamusca e torra os inimigos, como se eles fossem ratos penteados. 
Aonde  que vamos parar?
Fez-se um curto silncio. As janelas do escritrio e da sala de visitas estavam abertas para aquela serena e tpida noite de princpios de outono. Da praa, onde 
crianas cirandavam, vinham vozes finas e musicais em coro:

O meu belo do castelo, mata-rira tirarei.

Rodrigo sorriu. As crianas de hoje - pensou - vivem numa paz e numa segurana que as de meu tempo no conheceram .. . O charuto preso entre os dentes, as pernas 
tranadas, atirou a cabea para trs e ficou a escutar a cantiga. Sentia-se feliz e em paz
A SOM$RA DO ANJO        459

com o mundo. Havia jantado bem, sua vida estava em ordem; noo tinha problemas materiais nem espirituais. Mas que diacho teria o coronel que estava to deprimido?
- E o bandido do Rubim? - perguntou afetuosamente. - J capito, hein?
- Foi uma promoo merecida. No tenha dvida : esse moo vai fazer um carreiro.
- Talvez chegue a ministro.
- Por que noo? ~ dessa massa que se fazem os estadistas.
Rodrigo sorriu.
- Mas no dia em qne o Rubim assumir a pasta da Guerra, a Argentina deve decretar sem tardana a mobilizao geral.
Jairo atirou o brao no ar, num gesto de quem quer afugentar uma mosca.
- Ora! As tolices do Rubim! No  ele o nico oficial do nosso exrcito que vive com essa idia fixa duma guerra entre o Brasil e a Argentina. Isso  pura falta 
de viso sociolgica, dum conhecimento mais profundo da Histria e da psicologia dos povos.
Depois de uma curta pausa, Rodrigo perguntou
- Tem sabido do Lucas?
- Notcias recentes, nenhuma. S sei que ainda est no Mato Grosso.
- A nossa Sibria.
Jairo suspirou.
- Quando nos querem castigar  para l que nos mandam.
Rodrigo sorria, pensando no tenente de obuseiros. Havia trs anos, Lucas Arajo provocara um escndalo que fizera a cidade inteira vibrar. Como o Cel. Joca Prates 
continuasse a opor-se ao seu namoro com a Ritinha,  rapaz vivia em constantes bebedeiras e mais duma vez ameaara desacatar aquele "coronel de bobagem". Um dia 
cumpriu a ameaa. Embriagou-se, despiu-se por completo, enfiou na cabea o quepe militar, apanhou uma espada, montou a cavalo e, saindo do quartel por entre as sentinelas 
embasbacadas, precipitou o animal a galope na direo da cidade. Sua teno era entrar assim na Rua do Comrcio e cruzar pela frente da casa de Joca Prates. Ao avist-lo, 
as mulheres que estavam nas caladas ou debruadas s janelas soltavam gritos, tapavam os olhos com as mos ou fugiam. Os homens, uns rompiam em ditos chistosos 
e gargalhadas, outros protestavam, indignados, contra o ultraje. Maneco Vieira, que se encontrava a cavalo na frente da Casa Schultz, a conversar com um amigo, viu 
o tenente de obuseiros passar, compreendeu tudo num relance e no teve a menor hesitao. Meteu as esporas nos flancos do animal, tocou-se atrs de i_ucas e alcanou-o 
quando ele j entrava a Praa da Matriz. Tirou
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o lao dos tentos, reboleou-o no ar e laou o oficial, colhendo-o pelos ombros e imobilizando-lhe os braos. Lucas tombou do cavalo no cho da praa, com um baque 
surdo. Maneco Vieira apeou, envolveu o tenente no seu poncho, levou-o a um mdico - "pra ver se o moo no tinha quebrado alguma coisa" - e depois entregou-o a seu 
comandante.
Rodrigo e outros amigos do alagoano tentaram abafar o escndalo, mas nada conseguiram. Era tarde demais: a cidade inteira j sabia do ocorrido. Lucas foi recolhido 
 priso militar. Poucas semanas depois era transferido para Mato Grosso.
- Bom corao - sentenciou o Cel. Jairo - mas mala cabeza.
E assim se vo os amigos, um por um - refletiu Rodrigo. Em setembro de 1914, depois da morte sbita de Celanira, Pepe Garcia decidira deixar Santa F, "huir a los 
recuerdos tristes", sair a burlequear pelo Brasil. Queria conhecer o Norte, subir o Amazonas num gaiola, passar uma temporada em Manaus, pintar a selva, "quizs 
morir de mataria o devorado por una onza".
O Cel. Jairo olhava fixamente para o soalho. E com uma voz sentida que Rodrigo jamais lhe ouvira, queixou-se:
- Pois , meu amigo, e a todas essas eu vou ficando por aqui. Nem promoo nem remoo. Tenho a impresso de que se esqueceram de mim. No  que eu no goste, desta 
terra e desta gente, mas, que diabo! j era tempo de me mandarem para um lugar maior.
Baixou a voz, lanou um olhar furtivo para a sala de visitas.
- A Carminha noo tem sade para agentar este clima. Num destes invernos, o voss minuano pode levar a pobrezinha.
Rodrigo ia dizer-lhe uma palavra de conforto quando foi interrompido pelo Cap. Rubim, que entrou no Sobrado soltando a sua risada convulsiva e arrastando pelo brao 
o Padre Astolfo.
6
Alto, esguio, meio encurvado, o rosto duma palidez oleosa de seminarista, o novo vigrio de Santa F tinha algo de adolescente na fisionomia, apesar de j haver 
completado trinta e trs anos. O cabelo cortado ~ escovinha e os grandes culos de aros de tartaruga davam-lhe um ar estudioso de ginasiano aplicado. Suas feies 
eram regulares e duma delicadeza quase feminina. "Que tal  o novo vigrio?" - perguntara .Maria Valria ao afilhado, no dia em que este fora apresentado ao Padre 
Astolfo. A resposta viera espontnea : "Um gurizo simptico." J agora, depois dum con
A SOMBRA DO ANJO        46I

vvio mais ntimo e prolongado, Rodrigo acrescentava algo  definio: "Um homem culto e inteligente, duma seriedade que impressiona.
..
Natural de Minas Gerais, o Padre Astolfo Neves, segundo se murmurava, fora j chamado  ordem por mais dum bispo, por causa de sua perigosa tolerncia no domnio 
das idias. Era indisfaravelmente um liberal, embora noo chegasse aos extremos do lendrio Padre Romano, que aceitava o evolucionismo e lia com paixo Voltaire, 
Diderot e Renan.
Depois de cumprimentar as senhoras na sala de visitas, Rubim apertou a mo do Cel. Jairo e do dono da casa, exclamando jovialmente:
- Vou m"embora de Santa F sem ter convertido o vigrio  minha filosofia!
Rubim envergava um uniforme de brancura imaculada, num contraste com a batina negra do padre. E no haveria - pensou Rodrigo - uma oposio identicamente radical 
entre as idias daqueles dois homens?
O vigrio sentou-se, cruzou as longas pernas e, num cacoete muito seu, ficou a puxar o lbulo da orelha, apertando-o entre o polegar e o indicador.
- Eu vinha procurando convencer o padre - contou Rubim - de que o homem cristo, na sua monstruosa tentativa de abafar os instintos, acabou perdendo a vitalidade 
e hoje em dia s pode achar interesse na vida recorrendo a entorpecentes como a religio, o esporte, a morfina, a msica, a literatura, a arte, enfim. Todas essas 
coisas so alcalides. - Deu uma palmada no respaldo da cadeira e exclamou: - A est! Deus tambm  um alcalide!
O vigrio olhava para o capito e sorria com benevolncia. Rodrigo interrompeu a discusso para perguntar que msica queriam ouvir.
- Verdi! - pediu Jairo. -  o meu alcalide predileto.
Rodrigo encaminhou-se para a sala de visitas, abriu uma das gavetas da estante do gramofone e escolheu um disco. Pouco depois saa da campnula do aparelho a melodia 
do preldio do ltimo ato da Trauiata. O coronel cerrou os olhos e reclinou a cabea. Rubim encarava o vigrio, provocador.
- Que diz da minha classificao, reverendo? Deus, o Grande Alcalide!
- Bem achada - respondeu o sacerdote. - Por que no? Deus  o blsamo para todas as dores morais, o remdio para todas as doenas da, alma .. .
Sua voz, grave e lenta, tocada duma fadiga precoce, era muito mais velha e vivida que. o rosto.
Violinos e violoncelos choravam o preldio. Rodrigo inclinou-
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A SOMBRA DO ANJO        463
se sobre a esposa do coronel e perguntou-lhe se gostava da Traviata.
- )r a minha pera predileta - responder ela, erguendo para n anfitrio os olhos de tsica.
Mais um agosto e um par de minuanos, ma chre, e tua alminha voar para o cu. E no ters conhecido o amor, mon auge. No me refiro a esse amor filosfico e senil 
de Augusto Comte por Clotlde de Vaux, mas o amor carnal dum homem jovem e ardente como o Dr. Rodrigo. Pois c"est dommage!
Voltou para o escritrio, onde Rubim continuava a provocar o padre.
- No  possvel aceitar a existncia de Deus a noo ser atravs da cegueira da f, que  outro entorpecente.
Astolfo puxava com fora o lbulo j congestionado da orelha.
Rodrigo sentou-se e ficou a observar o vigrio. Admirava e estimava aquele sujeito quieto e sisudo, que era hoje um dos convivas mais assduos  mesa do Sobrado. 
Observava-o com um interesse cheio de afeio e,  medida que o tempo passava, ia descobrindo nele facetas novas, muitas das quais pareciam destoar por completo 
do conjunto. Nossa tendncia - achava Rodrigo -  imaginar que as personalidades so geomtricas, e assim costumamos v-las como cubos, cones, cilindros ou esferas. 
Mas o diabo  que na realidade as pessoas psicologicamente podem ser polidricas, como no caso do Padre Astolfo. Quem diria que aquele pernilongo pachorrento e de 
aspecto franciscano era um dos melhores atiradores do municpio, e que j arrebatara aos ases do Turnuerein local mais de um campeonato de tiro ao alvo? Quem poderia 
imagin-lo metido em botas de cano alto, um chapelo de campeiro na cabea, a atolar-se em banhados, embrenhar-se em matos a caar veados. antas e jaguatiricas? 
Contava-se at que mais duma vez Astolfo fora visto no ptio da casa paroquial a alvejar tico-ticos e rabosde-palha com uma arma de salo. Hbil manejados de funda 
e bodoque, com freqncia tomava parte, com os moleques da vizinhana, em torneios de tiro em que os alvos era velhos vasos noturnos amassados e sem fundo, tirados 
aos monturos. Coisas como essas - conclua Rodrigo - pareciam-lhe incompatveis com aquele sacerdote de hbitos austeros, que privava com Santo Toms de Aquino, 
amava os escritos de Santa Teresa de vila e lia poc puro "prazer tratados de clculo integral e diferencial.
Rodrigo lhava para o padre, que dizia:
- A F  apenas um dos muitos caminhos que levam ao conhecimento e ao amor de Deus. A revelao  o atalho dos eleitos. mas um fantico da lgica, como o capito, 
um dia poder chegar a Deus pelos meandros da inteligncia.
- Absurdo! - replicou Rubim.
Ergoen-se. Os cabelos eriados, a dentadura  mostra, parecia mn ourio-acheiro. Aproximou-se do vigrio, bateu-lhe no ombro e perguntou com ar gaiato:
- Deus  slido, lquido on gasoso? Vamos l! Qual  a essncia de Deus?
Jaro, sempre de olhos cerrados, sacudia a cabea num movimento de pndulo, como se quisesse dar a entender que aquela discusso no s era intil como tambm inoportuna.
O padre no perdeu a calma.
- Nosso conhecimento da essncia divina - redargiu -  muito imperfeito, por isso no podemos deduzir a existncia de Deus da sua essncia.
- Mas noo se diz que Deus criou o homem  sua imagem e semelhana? - perguntou Rubim, dirigindo-se ao padre mas voltando a cabea na direo de Rodrigo e piscando 
O olho. - Deus deve ento ter como ns um corpo .. .
- Dens noo tem um corpo - respondeu o sacerdote, como um aluno que est sendo submetido a uma sabatina oral - porque os corpos tm partes e em Deus noo h composio. 
Deus  a Sua prpria essncia, razo por que Ele  simples.
O capito cruzou os braos, alou um pouco a cabea e lanou para o interlocutor um olhar que pareceu deslizar ao longo do nariz.
- Mas os doutores da sua Igreja no afirmam que Deus  composto da essncia e existncia?
- Composto? - repetiu Astolfo. - Absolutamente! N"Ele existncia e essncia so idnticas.
Rodrigo estava estonteado. Sentia-se perdido quando entrava no territrio das idias abstratas, e no escondia seu desamor s "filosofanas". Queriam discutir Histrias? 
Que viessem e ele faria brilhantes dissertaes sobre o Imprio Romano e as campanhas napolenicas, seria capaz de falar horas inteiras sobre a Revoluo Francesa 
e seus lderes. Sempre, porm que a discusso enveredava para o domnio da metafsica ele ficava tomado duma sensao de insegurana, era como um navegante sem bssola 
nem estrelas num mar brumoso.
- D-me ento uma definio clara de Deus - pediu o artilheiro e, enquanto o padre descruzava e tornava a cruzar as pernas, zle tirava o pinte-nez, embaciava as 
lentes com o hlito e limpava-as meticulosamente com o leno.
- Deus no pode ser definido - disse o sacerdote, encarando placidamente o militar. - Sua natureza s nos  conhecida atravs do que ela no  .. .
Rubim tornou a cavalar o pinte-nez no nariz e fez um mn
XOBO.
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A SOMBRA DO ANJO        465
- Confuso, padre, muito confuso. Sou um soldado, ten}~; am esprito matemtico. No aceito a existncia de nenhuma coia~; que noo possa ser provada.
- Bom ... murmurou o outro. E por um instante seu olhar vagou, meio perdido, pela sala.
- Mas haver coisas que Deus, o Todo-Poderoso, possa noo ser e noo fazer?
Jairo protestou
- Por amor desse Deus que estais discutindo, vamos ouvir msica, a divina msica. Deixem a discusso para outro dia.
Rodrigo foi at a sala de visitas para virar o disco. Flora lanou-lhe um olhar no qual ele leu um pedido de socorro. (Nossa Senhora! J noo se mais o que  que 
vou conversar com esta mulher.) Rodrigo sorriu:
- Manda servir alguma coisa, Flora.
Quando voltou para o escritrio, o Padre Astolfo estava enu
merando pacientemente as coisas que Deus noo podia ser:
- No pode ser um corpo, nem mudar-se a si mesmo. No
pode falhar .. .
A cada uma dessas asseres, Rubim perguntava com uma insistncia automtica: "Mas por qu? Por qu?" O vigrio, entretanto, prosseguia sem responder:
- Deus noo pode cansar-se nem encolerizar-se nem esquecer nem arrepender-se ... nem entristecer ... nem alterar o passado ... nem pecar ... nem fazer outro Deus 
.. .
- ,Mas pode deixar de existir, noo pode?
O sacerdote sacudiu a cabea.
- No, absolutamente. Deus  uma entidade sem acidentcs: noo pode ser especificada por nenhuma diferena substancial...
- Ora viva! - exclamou Rubim. - Seu Deus no fim de contas  mais limitado do que eu imaginava.
- Posso dizer-lhe tambm muitas coisas positivas sobre Ele. Deus  o que move mas nunca  movido.
O Cel. Jairo voltou a cabea e abriu os olhos.
- Axioma velho como Aristteles.
- Nem por isso menos verdadeiro. Mas deixem-me continuar ... Deus  o movedor inamovvel, a causa primeira e a origem mesma de toda a necessidade. Deus  a fonte 
de todas as perfeies do univrso .. .
Rodrigo achou que devia meter sua colher torta na discusso. - E todo o servio malfeito  empurrado pra cima do diabo.. . Como se noo o tivesse ouvido, Astolfo 
prosseguiu: - Deus  bom e ao mesmo tempo Ele  a Sua prpria bon
dade.
- Isso  forte demais para um simples capito de artilha
ria , , , - murmurou Rubim. - Comparada com essa espcie de
metafsica, a balstica hega a ser brinquedo de criana.
Apanhou o clice de vinho do Porto que Laurinda lhe oferecia. Jairo fez com a mo um sinal negativo: noo queria beber nada.
-        padre, porm, aceitou o vinho, levou o clice aos lbios, bebeu um pequeno gole e continuou:
- Deus  inteligente. - Subitamente animado, ps-se de p, como se fosse fazer um discurso: - E o Seu ato de inteligncia  Sua essncia.
- Uma bela frase que nada esclarece - replicou Rubim.
- homem de preto e o de branco estavam de p, frente a frente. Rodrgo contemplava-os, sorrindo. Jairo continuava de olhos cerrados a escutar o preldio.
- Deus  imutvel - afirmou o padre - porque n"Ele noo se contm nenhuma potencialidade passiva. Em suma: Deus  Verdade.
Rodrigo bebeu um largo gole de vinho e aproximou-se dos amigos com uma pergunta
- O padre tambm acredita como Aristteles que a alma est localizada na glndula pineal?
- Claro que noo. A alma inteira est presente em todas as partes do corpo.
Rubim baixou a voz
- Ser que a alma  transmitida de pai para filho por meio do esperma?
-        sacerdote meneou vigorosamente a cabea":
- Absolutamente. Uma alma nova  criada por Deus para cada ser que nasce.
Rubim deu uma palmada na coxa, vociferando:
- Como se explica ento a transmisso do pecado original de pai para filho, hein? Como se explica? Se  a alma que peca e noo o corpo, e se alma noo  transmitida 
de pai para filho, como pode cada ser novo que nasce herdar o pecado de Ado?
- Saia agora dessa, padre! - sorriu Jairo.
-        vigrio olhava reflexivamente para dentro do clice.
- Pois  - disse ele, franzindo os lbios. Santo Agostinho, que era melhor e mais esclarecido que eu, tambm ficava prplexo diante desse problema .. .
Ergueu os olhos para Rubim, encarou-o por um instante e por fim comeou a rir a sua risada "grave e lenta.
Jairo ergueu-se e caminhou para o vigrio.
- Deus conhece as coisas particulares ou s as universais, as verdades gerais?
-        padre noo hesitou.
- Est claro que Deus conhece at as coisas que ainda noo
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A SOMBRA DO ANJO        467
tm existncia, assim como ... - Olhou em torno e apon para o retrato de Rodrigo. - Assim como o artista que pint aquele quadro j o conhecia antes de pint-lo.. 
.
- Don Pepe no  exatamente a minha idia de Dens - tro. ou Rubim.
A msica havia cessado e agora s se ouvia o chiado da agu Rodrigo correu para o gramofone e p-lo a tocar uma valsa dt Strauss.
- Mas como  que Deus pode conhecer os contingentes fntqros? - tornou a perguntar o coronel.
- Porque Ele est fora do tempo.
- Em suma - observou Rubim - numa posio muito comoda. Uma verdadeira sinecura, um posto de comando sem sn perores hierrquicos e sem patro. No  de admirar 
que Deut possa dar-se ao luxo de sei bom e justo e perfeito como os telogos afirmam. Tem carta branca e est acima de qualquer tribunal.
Por um instante o vigrio ficou a escutar o gramofone, movendo a cabea ao ritmo da valsa.
Rodrigo olhava, meio apreensivo, para a sala de visitas, onde Carmem e Flora estavam imveis e silenciosas. Por que diabo havia o coronel trazido a esposa, se era 
evidente que ela no tinha a menor simpatia por Flora? Tomara que cheguem os Carbone para salvar a situao!
Quando Laurnda entrou com os pratos de fiambre, de po com caviar e croquetes, colocando-os sobre o bureau, Rubim e o padre discutiam as delcias deste e do outro 
mundo. Procuravam, sem chegar a nen}~um acordo, uma definio para a palavra felicidade. Para Rubim felicidade era sinnimo de fora, de poder, de vitria: vitria 
do homem sobre a natureza, sobre o medo e sobre os outros homens. No compreendia os que encontravam prazer na prtica dos chamados "atos virtuosos". O padre trincou 
naa croquete e glosou o mote:
- p a que muita gente se engana! Os atos de virtude noo podem ser um fim em si mesmos. So apenas meios.. . - Para que fim ?
- Para chegarmos um dia  contemplao de Deus, que  a felicidade suprema. Neste mundo no podemos ver Deus na saa essncia nem atingir a verdadeira felicidade. 
Na outra vida, se noa tivermos feito rrrerecedores da suprema graa, gozaremos o prvlgio de ver a face do Criador.
- Mas Deus tem uma face? - perguntou Rubim, com os
lbios e os dentes pontilhados de aviar.
- Ora, isso  uma figura de linguagem. Rubim insinuou:
- Quem sabe se Deus noo ser tambm apenas tema figura de linguagem?
Rodrigo soltou uma risada e fez andar  roda o prato de fiambre. Jairo segurou cordialmente o brao do padre, e, como para encerrar a discusso, disse-lhe com uma 
ironia paternal:
- O senhor sabe a sua Summa contra Gentiles na ponta da lngua. Aprovado com distino!
Rubim, porm, quis ficar com a palavra final:
- Santo Toms de Aquino foi um homem de gnio que andou em busca de razes para coonestar sua f. Partiu de concluses dogmticas e saiu  cata das premissas. Encontrou 
algumas com admirvel habilidade, no nego. Agora: aceit-las  uma questo de f, noo de inteligncia.
O vigrio sorriu e, para dar a entender que no estava ressentido, bateu de leve no ombro do capito.
Chiru chegou ao Sobrado depois das nove. Sem dar-lhe ao menos tempo de dizer boa noite, Rodrigo investiu para ele, segurou-lhe a lapela como se fosse agredi-lo fisicamente:
- Por que no trouxeste tua mulher, miservel?
- Ora, Rodrigo, tu sabes, quem tem filhos pequenos .. . Boa noite, coronel, boa noite, vigrio, boa noite, capito ... Pois . A coitada da Norata anda sempre envolvida 
com as crias.
Dirigiu-se para a sala de visitas e aproximou-se das damas, diante das quais ficou a fazer mesuras.
O casamento de Chiru Mena, em 1912, com uma rf herdeira de trs lguas de campo bem povoadas, causara quase tanta sensao em Santa F quanto a notcia do naufrgio 
do Tanic, ocorrido poucos dias antes. O namoro comeara num baile, continuara durante algumas serenatas e conversas ao p da janela da casa da moa - que vivia 
com um casal de tios pobres - e encaminhara-se a passo acelerado para um noivado-relmpago. O Padre Kolb casou-os num glido dia de julho, em que soprava o minuano 
e a noiva, no seu vestidinho branco, tremia de frio e emoo. Rodrigo, um dos padrinhos do noivo, pagou a este o fraque, as calas a fantasia, os sapatos de verniz, 
o plastro, e presenteou o casal com a moblia do quarto de dormir. Na flora em que o noivo assinava o nome no registro, Saturnino inclinou a cabea para Rodrigo 
e cochichou: "At que um dia o Chiru desenterrou um tesouro!" Parecia despeitado por perder o velho companheiro de perambulaes noturnas. Efetivamente, nos pri-
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A SOMBRA DO ANJO        469
meiros tempos de casado Chiru foi um marido exemplar: dedicado, amoroso e caseiro. A lua-de-mel, porm, durou dois escassos meses, ao cabo dos quais Chiru voltou 
 velha vida, s caminhadas noturnas em companhia de Saturnino, s serenatas com o Neco e s pndegas com quem quer que o acaso lhe deparasse. Levantavase s dez 
da manh e passava o dia na vadiagem, de roda de mate em roda de mate, ou ento metido no Comercial a jogar cartas ou bilhar. A todas essas no cessava de proclamar 
seus propsitos de trabalho: cuidar da estncia, multiplicar o gado, fundar uma charqueada ou uma barraca de couros. Parecia ter esquecido por completo o tesouro 
dos jesutas. Nunca deu, porm, o menor passo para realizar os grandes planos. Achou mais fcil e conveniente arrendar o campo e vender o gado. Por algum tempo andou 
com os bolsos cheios de dinheiro, pagando as despesas nas rodas de caf-E nos bordis e convidando os amigos para cestas e cervejadas. A esposa dera-lhe dois filhos, 
o ltimo dos quais nascera havia apenas quatro meses. Em 1913, assediado pelos credores, hipotecara a estncia. Sabendo que a hipoteca estava prestes a vencer-se
- que o amigo no tinha dinheiro para resgat-la, Rodrigo censurara-o: "rs um prdigo, um desorganizado, um vadio! Vais botar fora a segunda fortuna que a Providncia, 
que  cega, te atirou nas mos. Por que noo fazes alguma coisa, homem? No tens pena da tua tia, que se esfalfa pra sustentar a tua famlia?" Tia Vanja, porm - 
sabia-o ele - vivia no stimo cu. Conservara
- "velocino de ouro" em casa, ganhara uma "nora" e "netos". E, para cmulo da felicidade, o Correio do Povo estava agora publicando o mais formoso, o mais edificante 
dos romances: A Toutinegra do Moinho.

- Salafrrio! - exclamou Rodrigo quando o amigo voltou para o escritrio. - Podias ter deixado as crianas com tua tia. No truxeste a Norata porque no quiseste. 
s um mau marido, um mau cidado, um mau exemplo. Mas come alguma coisa, animal!
Chiru apanhou um croquete, meteu-o inteiro na boca e ps-se a mastig-lo com gosto e rudo. Havia engordado naqueles ltimos anos: ostentava uma corpulncia imponente 
de embaixador. A papada estava ndia, a cara rubicunda, a juba loura, mais abundante que nunca. As costeletas espessas e longas ameaavam transformarse em suas 
- o que j lhe dava uma certa parecena com os retratos de Dom Joo VI.
- O Dr. Carbone ainda no chegou?
- No - respondeu Rodrigo. - Tinha uma operao mar
cada pras oito. - Hrnia estrangulada.
- Aquele gringo  um carniceiro! - exclamou Chiru. - Mas
tem um corao de pomba. Pra com esse gramofone, homem, pra
gente poder conversar. Tenho um prato de primeira ordem pra vocs .. .
Quando a valsa terminou, Chiru olhou de soslaio na direc das mulheres, voltou-lhes as costas, inclinou um pouco o busto, e, num tom de voz a que Maria Valria 
chamava "murmurim", sussurrou
- Sabem que est pra estourar um escndalo na cidade?
Trs pares de olhos focaram-se no rosto de Chiru Mena. Comentava-se com insistncia - contou ele - que o Irmo Jacques Meunier, o marista, e a filha mais velha do 
Cel. Cacique Fagundes, a quem ele dava lies particulares de francs, estavam perdidamente apaixonados um pelo outro.
- Calnia! - reagiu Rodrigo. - Santa F  nm bn*go maldizente. No respeitam nem um sacerdote, isso pra noo falar na honra duma moa de boa famlia. Ento, s porque 
o rapaz est ensinando francs pra Doralice Fagundes... ora, seu Chiru, ora!
Calou-se, o cenho franzido. No estava to revoltado como queria parecer para agradar o Padre Astolfo. Na realidade no s achava os boatos verossmeis como tambm 
sentia certo alvoroo ante a perspectiva do escndalo.
Chiru empertigou-se, assumiu um ar grave de respeitabilidade, espalmou a mo sobre o peito:
- Perdo, noo sou eu quem diz. Apenas vendo a coisa pelo preo que compro. Todo o mundo fala nessa histria.
Tornou a lanar um rpido olhar cauteloso na direo da pea vizinha, onde as duas mulheres, imveis e caladas, pareciam figuras dum museu de cera.
- Dizem que ficam horas e horas fechados numa sala - murmurou. - Que diabo! . Padre  de carne e osso como qualquer um de ns, no , vigrio?
Astolfo, que estava a puxar o lbulo da orelha, sorriu, meio constrangido, e explicou, com seu jeito paciente e atencioso, que um marista noo  propriamente um 
padre 
como os outros.
- A Sociedade de Maria tem trs graus. O primeiro  o dos aspirantes, que fazem todos os anos um voto singelo de obedincia. O segundo  o dos professores, que depois 
do noviciado cannico e de haverem completado vinte e um anos, fazem trs votos singelos de castidade, pobreza e obedincia. H finalmente o terceiro grau, que  
o dos professores estveis, que devem ter trinta e cinco anos completos e, aps o segundo noviciado pronunciam o voto de estabilidade na Congregao. O Irmo Jacques, 
creio, est no segundo grau .. .
- Pode ento, no renovar o voto? - indagou Chiru.
- Claro.
- Ests ouvindo? - gritou Chiru na cara de Rodrigo. -
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A SOMBRA DO ANJO        471
Dizem que o homem vai tirar a batina pra casar com a moa. vejo nenhum mal nisso, meus patrcios!
Apanhou outro croquete e meteu-o na boca.
- Que  que o Cel. Cacique diz de toda essa lambana? indagou Rubim.
Por um instante Chiru lutou com um arroto. Encostou pontas dos dedos nos lbios e deixou-o escapar suavemente, rudo, e com certa dignidade.
- Quando o Cacique descobrir a coisa - disse - acho q bota o marista pra fora de casa com nm pontap no rabo, com perdo aqui do reverendo...
Sentou-se, desabotoando o colarinho e afrouxando o n gravata.
Rodrigo mandou Laurinda trazer taas e foi  cozinha b uma garrafa de champanha. Fez questo de abri-la no meio sala, para que todos ouvissem o estouro da rolha 
e vissem a esp ma jorrar. Serviu primeiro as mulheres. Depois encheu as ta dos homens e apanhou a sua.
- Se temos hoje champanha gelado  graas  diligncia Marco Lunardi, o nosso grande industrial, que teve a lumin idia de comprar uma mquina de fabricar gelo!
Voltou-se para Rubim:
- Tu noo mereces um brinde, soldado. Amanh, quand estiveres longe daqui, sei que esquecers esta cidade, esta casa e est amigos. Em todo caso, quero beber  tua 
sade. - Ergueu taa. - Desejo-te felicidades, sucesso e o Ministrio da Guerra
Chiru e o vigrio ergueram tambm as taas e beberam. Ru bim olhava fixamente para o anfitrio. De repente operou-se-lhe no rosto uma mudana completa: os olhos 
se umedeceram, os lbi tremeram sobre a dentua e ele ficou ali mudo e imvel, nu sbita nudez psicolgica. Rodrigo, surpreso, percebeu que o ca pito estava comovido, 
o que o deixou tambm com os olhos tur vos e um aperto na garganta.
8
Os Carbone fizeram sua entrada no Sobrado depois das dez, quando os Bittencourt j se haviam retirado por insistncia de D~ Carmem, que s queixara duma sbita enxaqueca. 
Livre da pesad obrigao de entreter a esposa do coronel, Flora recebeu Santuzz com grandes demonstraes de alegria. Ali estava uma criatura.. simples, fcil, espontnea, 
com quem a gente se podia abrir e ser natural sem o menor perigo de dar ratas. Alta, fornida, com um
busto abundante de prima-dona lrica e uma cintura surpreendentemente fina para as largas ancas calipgias, dava a esposa do Dr. Cario Carbone a impresso duma camponesa 
na qual no assentavam bem as roupas citadinas. Andava j pelo fim da casa dos trinta, tinha as faces coradas, a pele lisa, uns grandes olhos honestos de me de 
famlia, uma risada saudvel e uma voz levemente roufenha, que lembrava a Rodrigo a de certas cantoras aposentadas de caf=concert.
Depois de distribuir seus formidveis apertos de mos entre os presentes, Santuzza sem a menor cerimnia e, com o mais sadio dos apetites, atirou-se sobre os croquetes.
- Ento, Carbone, como correu a operao? - perguntou Rodrigo, dando uma palmadinha nas costas do cirurgio. Nunca lhe apertava a m com fora, pois temia desmontar 
o homenzinho.
- Maravilhosamente bem! - respondeu o italiano com sua rica voz musical que, por uma tola associao de idias (empostadaempastada-empastelada) Rodrigo classificava 
como "voz de pastel".
O cirurgio trincou um croquete e bebeu um gole de champanha com um jeito de conhecedor.
- Uma hrnia belssima! - exclamou, estalando os beios num simulacro de beijo, levando  boca os dedos unidos e depois abrindo-os em leque, como para espalhar o 
bacio no ambiente. - Belssima! - repetiu, mais cantando do que pronunciando a palavra.
Serviu-se de po com caviar. Rodrigo ficou a observ-lo com apaixonado interesse. Aquele homenzinho fascinava-o. Era uma fabulosa mistura de gnomo, feiticeiro, diplomata 
e ma?tre de hotel. Figura minscula - teria quando muito um metro e cinqenta e oito de altura - no seu fraque preto, suas calas a fantasia, colarinho e punhos 
engomados, era o tipo clssico do mdico francs. segundo a caricatura. O que lhe dava ao todo um ar um tanto grotesco era a desproporo entre a cabeorra - que 
bem podia estar plantada nos ombros dum homem de estatura acima da mediana - e o corpo franzino de meninote. A testa era larga e alta, e a barba - crespa, castanha 
e abundante como a cabeleira - estava cortada em bico, . que lhe dava  face algo de agudo, acentuado pelo nariz comprido e afilado, de narinas dilatadas e duma 
transparncia de porcelana. Acima dos olhos mio exorbitados, d~ pupilas dum cinzenta metlico, erivam-se as sobrancelhas grossas, com as pontas externas retorcidas 
para cim a madeira de mins= cujos corno. Rodrigo costumava chamar ao c~rgto "o meu sim-. ptico satans". Homem de idade indefinvel - pois tanto s~lhe podia 
dar trinta e cinco como quarenta e cinco ou cinqenta anos
tinha uma natureza apaixonada e a sensibilidade  flor da pele. Admirava D"Annunzio e Petrarca, era catlico praticante, amava a
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A SOMBRA DO ANJO        473
pera e, gourmet de gosto apurado, levava em grande co os prazeres da mesa. Comer, para ele, era uma espcie de ri Aos sbados tinha sempre ao jantar algum prato 
raro, geralmen rs  milanesa - o que era motivo de escndalo e falatrio na dade. Rodrigo no pudera conter o riso ao encontrar um dia Dr. Carbone enfarpelado na 
sua roupa de caador, de veludo v musgo, um bon de pano enfiado na cabea, as finas pernas env tas em perneiras de feltro - prestes a sair em excurso pelos ban 
dos das redondezas de Santa F, em busca de rs e cogume comestveis.
O casal Carbone causava sensao quando aparecia nas ruas cidade: ela alta e imponente, ele baixinho e serelepe no seu ira parvel fraque negro, a cabea metida 
num chapu-coco, a lon
teira de mbar a ertada entre os dentes. Diziam os
p p gaiatos:
vem D. Santuzza com sua bengala." Todos sabiam, entretanto, q apesar daquela desproporo fsica, quem cantava de galo em casal era ele. Afirmava-se at que aquele 
homnzinho de maneiras afveis e duma cordialidade beijoquenta era na intimidade um tiranetr - exigente, neurastnico, cheio de manias - e que a mulher, na obstante 
seu aspecto de amazona e sua energia transbordante, apequenava-se diante dos gritos do marido, fazendo-lhe todas as vou tades e desculpando-lhe todas as impertinncias.
Logo ao entrar, Santuzza perguntou pelas crianas. Flora respondeu que estavam dormindo. Casal sem filhos, os Carbone sc haviam tomado de amores por Floriano e Alicinha 
e enchiam-nos de mimos e presentes.
A esposa do cirurgio insistiu em subir para olhar "i pccoli." Fez uma proviso de croquetes e encaminhou-se para a escada grande, seguida de Flora, a qual - observava 
Rodrigo - no cessava de rir quando estava na presena da italiana.
Chiru aproximou-se de Carbone.
- Como  o negcio, doutor? Quando  que a Itlia ente. na guerra? A coisa est feia, precisamos de aliados.
O homenzinho colocou a taa vazia sobre o bureau, enfiou am cigarro na longa piteira, acendeu-o e soltou uma baforada de fumaa que subiu para o rosto de Chiru.
- Quando a primavera despontar, canino ... - cantarolou, pondo-se nas pontas dos ps como para que suas palavras -pudessem chegar aos ouvidos do outro.
Rubim pousou-lhe no ombro a mo protetora.
- Se vocs italianos entrarem no conflito do lado dos alados, cometero um ato de traio e ao mesmo tempo um erro: rompero uma aliana e perdero a guerra.
Carlo Carbone olhou reflexivamente para o cigarro, bateu-lhe a cinza com a unha do dedo mnimo, deu trs passinhos na ponta dos ps, como se estivsse danando um 
schottish e depois, voltando-se para o capito, respondeu, evasivo:
- Eh ... gi.
-        Padre Astolfo interveio, tendo entre os dedos um dos dourados quindins que Laurinda acabava de servir:
- O capito no h de querer - disse - que o bero da latinidade entre na guerra ao lado desses brbaros germnicos!
Rubim voltou-se para o sacerdote:
- O senhor acha que os padres alemes que servem no exrcito do Kaiser so da mesma opinio?
- Dr. Carbone estava agora como um quebra-mar entre o homem de branco e o homem de negro, a piteira entre os dentes a balanar o corpo, apoiando-o ora na ponta dos 
ps, ora nos calcanhares. Chiru passou pela cara o leno vermelho e esmagou um quindim na boca, atento  discusso que se acendera entre o padre e o militar, que 
j agora estavam s voltas com o Congresso de Viena, as guerras napolenicas e as intrigas balcnicas.
Rodrigo, escanso feliz, andava de taa em taa, com a garrafa de champanha nas mos, sorrindo:
- Paz, senhores, paz!
- cirurgio aproximou-se do gramofone, p-lo a funcionar e, quando voltou para o escritrio, j se ouviam os primeiros acordes da Serenata de Arlequim. Segurou o 
brao de Rodrigo e, os olhos entrecerrados, ficou a acompanhar a ria em surdina, com sua voz de tenorino.
Rubim puxou o italiano pela manga do fraque:
- Estive procurando provar ao padre que a guerra  uma coisa necessria. Imagine o senhor, doutor, as oportunidades de progresso que a cirurgia vai ter. Positivamente, 
a paz  a inrcia e o desfibramento dos povos.
Carbone noo lhe prestou nenhuma ateno. Continuou a cantarolar e agora a reger tambm a orquestra, com a piteira  guisa de batuta.
Rubim prosseguiu:
- Moltke disse que a paz perptua  uma iluso que nem chega a ser uma bela iluso e a guerra  um elemento de ordem no mundo, um mandamento de Deus, pois sem a 
guerra, a humanidade se estagnaria e perderia no materialismo.
- Que  que o padre diz a isso? - perguntou Rodrigo.
- Digo que h muita gente no mundo que fala em nome de Deus sem ter a menor autoridade para isso.
Laurinda entrou com um novo prato,_ de croquetes recm-sados
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A SOMBRA DO ANJO        475
da frgidera. Chiru atacou-o sem perda de tempo. Arlequim calou-se, Carbone correu para o aparelho.
- Pare com essa droga! - suplicou-lhe Chiru. - Queremos conversar em paz.
O cirurgio tornou ao escritrio e sentou-se numa poltrona, ficando com os ps no ar, como uma criana. Rubim acercou-se dele.
- Se a Itlia entrar na guerra, qual vai ser a sua atitude?
Carlo Carbone no teve a menor hesitao. Ergueu os olhos para o capito e declarou que ofereceria seus servios de mdico  cara ptria.
9
Da escada veio um rudo pesado de passos, um cascatear de risadas femininas, e pouco depois Santuzza" irrompeu no escritrio, trazendo Floriano e Alicinha, um em 
cada brao. Nos seus macaces de pelcia, as crianas tinham os olhos piscos e nos rostos afogueados uma expresso de sonolento espanto.
- D. Santuzza! - repreendeu-a Rodrigo. - Ento isso  coisa que se faa? Acordar as crianas a esta. hora da noite.. . Com efeito!
Mora esboou tambm um protesto. O Dr. Carbone precipitou-se para a esposa, arrebatou-lhe Alicinha dos braos e comeou a dar sonoras beijocas no rosto da menina, 
cujas mozinhas se lhe aferraram s barbas. Floriano enlaava o pescoo de Santuzza, a qual lhe murmurava ao ouvido palavras carinhosas.
- Cara, carina, - resmungava o Dr. Carbone, apertando Alicinha contra o peito. - Topolino mio.
Rubim, que se havia aproximado da janela, estava a olhar a noite. Rodrigo sabia que o sergipano noo gostava de crianas e no procurava esconder essa idiossincrasia 
nem mesmo justific-la. Ficava impaciente sempre que Alicinha e Floriano entravam na sala. (Um dia, quando estava a ensaiar os primeiros passos, a menina perdera 
o equilbrio e, para no cair, agarrara-se s pernas do oficial. Viste permanecera impassvel, noo fizera o menor gesto nem sequer esboara um sorriso: limitara-se 
a esperar que Flora acudisse, livrando-o daquela "coisa".)
Durante alguns minutos houve ali no escritrio uma alegre balbrdia em que as duas crianas passaram de brao em brao, sob o olhar indiferente do capito. Depois 
que Santuzza os levou de volta para a cama, Rubim afastou-se da janela, dizendo:
- Criana e cachorro, s em gravura ... Nunca fico tranqilo quando vejo esses bichinhos a meu redor.
Carbone lanou-lhe um olhar duro.
- Celerado!
Rodrigo abriu outra garrafa de champanha e tornou a encher
as taas. L de cima vinha agora a voz roufenha de Santuzza, a
cantar uma berceuse napolitana. Como  que as crianas vo dor
mir com um barulho desses? - sorriu o pai.
Naquele momento chegaram Neco e Saturnino com seus ins
trumentos. Vinham buscar Chiru para uma serenata.
- Mas comam e bebam alguma coisa antes de irem! - con
vidou Rodrigo.
- E cante um pouco para ns - pediu o padre, dirigindo-se
a Neco.
O seresteiro, que havia pedido cerveja, bebeu um largo sorvo,
lambeu os bigodes, afinou o violo e depois olhou para o padre: - Que  que vai ser?
- Aquela modinha nova que est fazendo tanto sucesso. O
Luar do Serto?
Todos aprovaram a escolha. Neco pigarreou e comeou

No h,  ,gente, oh, no, luar
como esse do serto.

Rubim ps a mo no ombro de Rodrigo.
- A tem voc a alma, a poesia do serto, meu caro.  como lhe digo. Querem um guerreiro? Mandem buscar um gacho. Querem um poeta? Procurem um nordestino. Um homem 
como Catulo da Paixo Cearense noo podia ter nascido nestas coxilhas.. .
- Ora, no diga asneiras!
- Preste ateno na beleza desses versos .. .
Neco cantava com sentimento.
O Dr. Carbone escutava com ar sonhador e seus olhos comeavam a ficar enevoados. Santuzza, que havia descido ao ouvir a voz de Neco, estava agora junto da porta, 
os seios arfantes, o rosto srio. Recostado  janela, com a flauta apertada contra a axila, como um enorme termmetro, Saturnino contemplava o companheiro. Chiru 
passeava o olhar em torno, com um ar orgulhoso de empresrio.
Quando o barbeiro terminou a cano, houve aplausos calorosos.
- )G ou noo  uma jia, essa modinha? - perguntou Chiru.
O padre ergueu-se, deu algumas passadas sem rumo pelo escri-
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trio e por fim, entortando a cabea e alando os olhos com ar sonhador, disse:
- No  mesmo estranho que enquanto estamos aqui alegres, cantando, em paz, seres humanos matam-se, destroem-se e sofrem as misrias da guerra nas terras da Europa 
?
O Dr. Carbone, que acabara de acender outro cigarro, olhou para a ponta das botinas (feitas a mo pelo Cervi, pois nas lojas noo havia calados suficientemente 
pequenos 
para seus ps de menino) e depois, tiuma surdina teatral, recitou:
- Vejo um soldado morto, e seu sangue sobre a neve  como uma rosa vermelha .. .
- Puro D"Annunzio! - exclamou Rodrigo. E o italiano soprou-lhe um beijo.
Rubim soltou uma risada sarcstica.
De novo se falou na guerra, nos mortos, nos mutilados, nas cidades destrudas, e no perigo de um dia o conflito estender-se at o continente americano.
Chiru bravateou:
- O Kaiser que noo se meta com a cavalaria gacha! Rodrigo apontou para as taas:
- Nada de tristezas. Vamos beber!
Neto tirava acordes plangentes do violo. Saturnino olhava para as estrelas. De sbito, Santuzza aproximou-se do gramofone e p-lo a tocar um calce-walk. A melodia 
saltitante, produzida por uma orquestra de negros de Nova Orleans, encheu o ar. A italiana tomou a mo do marido:
- Andiamo, Carlo. La vita  breve.
Puseram-se a danar. De braos dados, as cabeas e os bustos inclinados para trs, fizeram a volta da sala, atirando as pernas, como a darem pontaps no ar. O soalho 
soava como um tambor surdo s batidas cadenciadas dos ps dos danarinos. Vasos tremiam sobre mesas, consolos e aparadores. E os Carbone, como consumados artistas 
de vaudeville, prosseguiam no seu calce-walk. sob aplausos e risadas.
CAPfTULO III
EI~I PRINCPIOS de abril Rodrigo sentiu, mais forte que nunca. aquela sensao de inexplicvel nsia e descontentamento que o vinha assaltando ultimamente com certa 
freqncia;. Haveria algo de errado em sua vida? Se havia, que era? Estaria ficando neurastnico? Faltava-lhe alguma coisa? Tinha tudo quanto um homem pode desejar: 
a melhor das esposas, os mais belos e saudveis dos filhos, dinheiro, posio, prestgio, bons amigos... No entanto era s vezes tomado daquela sensao de inanidade 
qne o deixava aptico, deprimido, ablico ou - o que era mais freqente - irritado e insofrido, a desejar que acontecesse algo capaz de agitar a superfcie de sua 
vida, a qual - comparava ele - era agora como a dum aude em dia sem vento: azul, mas parada c sem vibrao.
Talvez estivesse precisando de novos amigos, de outros horizontes e interesse: duma viagem em suma. Mas .viajar para onde? Para a Europa era impossvel. Os Estados 
Unidos, com soas chamins a vomitar fumaa e fuligem, seus negociantes grosseiros, sua falta de bons museus, no o seduziam: de resto ele no falava nem entendia 
o ingls. Buenos Aires era nma cidade sem alma. Montevidu nem chegava a ser uma cidade .. .
Ests precisando mas  duma aventura amorosa - segredavalhe uma voz interior. -No. Ele no devia, no queria aceitar a explicao. Era imperativo que sentasse o 
juzo duma vez por todas. Que diabo! Tinha de respetr a esposa, pensar nos filhos, na reputao profissional... H loucuras qne am homem pode cometer at os vinte 
e quatro anos. Depois, no se justificam nem desculpam mais.
Seja como for,  a rotina que est me embolorando a alma - concluiu cert dia em que o trabalho do consultrio lhe fora particularmente penoso.
Logo que o Dr. Carlo Carbone chega;a, ele o ajudara nas primeiras operaes. Cedo, porm, cansara daquele contnuo abrir c fechar de abdmens, daquela sangueira, 
daquela carnificina. Havia
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A SOMBRA DO ANJO        479
muito que entregara a farmcia .aos cuidados do Gabriel, cuja: admirao apaixonada pelo patro levava-o a imit-lo nos gestos,. nas palavras e at na maneira de 
vestir, o que noo era difcil, pois" ele lhe dava as fatiotas, sapatos e gravatas que noo usava mais. Quanto  administrao do pequeno hospital, confiara-a  
Sra. 
Carbone, que era duma energia e duma eficincia assustadoras. Assim, tudo marchava normalmente sem que fosse necessria sua. presena num e outro lugar. De quando 
em quando, porm, sentisse picado de cimes  idia de que tudo aquilo pudesse funcionar to bem e render tanto dinheiro sem sua interferncia. Enchia-se, ento, 
de zelos patronais e tentava tornar-se indispensvel. Ia examinar os livros de Santuzza e dar-lhe sugestes quanto  direo da casa de sade. Fiscalizava as prateleiras 
da farmcia, passava oa olhos pelas faturas das drogarias, sabatinava Gabriel... Esses "acessos" de interesse, entretanto, duravam poucos dias e, depois que desapareciam, 
Rodrigo ficava semanas inteiras sem visitar o hospital e apenas passava pela farmcia quando entrava ou saa do consultrio.
J sei o que me falta - disse um dia a si mesmo, contemplando da janela do Sobrado a fachada da Intendncia.  uma boa campanha poltica. O patife do Rubim at certo 
ponto tem razo. Um homem no pode viver sem lutar. A paz  a estagnao, o amolecimento, o tdio. Minha "doena" no passa da nostalgia dos tempos d"A Farpa, dos 
Dentes Secos, das polmicas e das voluptuosas sensaes de perigo.
No entanto, tudo aquilo havia terminado, agora que o Joca Prates governava Santa F e ele, Rodrigo Cambar, era fregentemente chamado  Intendncia para dar sua 
opinio e conselho sobre assuntos de administrao e at de poltica. O Titi Trindade l estava em sua casa, imobilizado numa cadeira, invlido, com o lado esquerdo 
do corpo paralisado, a lngua emperrada, o crebro semimorto. Todas essas coisas davam a Rodrigo uma sensao de derrota, como se ele, por interesse pessoal ou covardia, 
houvesse aderido  situao. Entretanto em verdade podia afirmar que a eleio do pai de Ritinha fora obra sua. S sua? Claro que noo. Deus, que escreve direito 
por linhas tortas, tambm colaborara.
Em fins de 1911, quando os santa-fezenses se preparavam para as eleies municipais, Titi Trindade, o eterno candidato republicano, fora subitamente acometido duma 
hemorragia cerebral. Houve pnico entre os correligionrios, que se viram na contingncia de escolher s pressas um substituto, o que noo era difcil, pois noo 
podiam 
contar com o conselho de Trindade, que noo estava m condies de pensar e muito menos de falar. Formaram-se logo duas faces: uma tinha como candidato Laco Madruga: 
a outra inclinava-se para Joca Prates. Rodrigo ps-se imediatamente em
ao. Passou boa parte duma noite no telgrafo a conferenciar com Pinheiro Machado, tratando de convenc-lo de que a eleio do Madruga seria ruinosa para Santa 
F e para o partido. Conseguiu que o Senador passasse um telegrama ao Dr. Borges de Medeiros, recomendando Joca Prates como o candidato de sua simpatia. E a palavra 
de Pinheiro Machado encerrara definitivamente a questo.
- No tem graa! - disse Rodrigo em voz alta, sempre a olhar para a fachada da Intendncia. - Est tudo muito parado!
Em meados daquele mesmo ms chegou-lhe do Rio uma carta de Pinheiro Machado, a qual, como um clido vento cheio de promessas teve a virtude de agitar as guas do 
aude. Informava-lhe o Senador que sua candidatura para deputado  Assemblia do Estado achava-se definitivamente assegurada. J me dirigi ao Dr. Borges de Medeiros, 
que est de pleno acordo, de maneira que podes contar como cerca a tua indicao. Quanto  eleio, pettso que no haver tambm nenhuma dvida.        -
Abril ainda lhe reservara outra surpresa : a chegada do . automvel Ford de quatro cilindros que encomendara havia meses, e que lhe custara trs contos e quinhentos 
mil -ris. Junto com o carro veio-lhe tambm um novo chofer, o Epaminondas, mulato pernstico, de cabeleira besuntada de vaselina e nariz quebrado de boxeador.
Uma tardinha Rodrigo meteu toda a famlia no Ford inclusive Maria Valria, e saiu a passear pelas ruas centrais da cidade.
Quando o carro fazia a volta da Praa Ipiranga, avistou Titi Trindade  janela de seu palacete, a cara duma tristeza macilenta, a face esquerda como que cada e 
morta. Sentiu- se tornado duma piedade to profunda que se debruou sobre a porta do carro e, num assomo de cordialidade, cumprimentou o inimigo com um largo e generoso 
aceno.
- Coitado! - murmurou. - No posso guardar rancor de ningum. E, depois, se o Trindade tinha pecados, agora os est pagando.  Epaminondas, passa pela fbrica do 
Lunardi e me compra dois quilos de gelo.
Recostou-se no banco, apertou a mo de Flora e comeou a assobiar, feliz, uma valsa de opereta.
2
Naquele sbado Flora convidou o marido.
- Vamos ao cinema hoje? Imagina s: uma fita da Asta
Nielsen!
Na tarde daquele dia, o negro Srgio andara a distribuir c
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casa em casa o programa do Cinema Santa Ceclia, que anunciava para a noite o mjestoso drama "Levada  ~forte", dividido em trs longas partes e produzido pela 
conceituada fbrica dinamargoesa "Nordisk".
Com uma seriedade juvenil, que deixou Rodrigo enternecido, Flora apanhou o papelucho verde e leu:
- Suntuosa festa de arte que marcar poca nos anais da cinematografia moderna. Grande arrojo da fotografia animada. Fuga em balo, fuga a cavalo, fuga dum transatlntico 
em pleno mar. Ao do telgrafo sem fio. Escalada de montanhas. Garden-party maravilhoso. Danas caractersticas por sessenta bailarinas. Requinte de toilettes. 
Encenao riqussima. Glria do amor. Grandiosa produo de fina escola.
Olhou para o marido com uma expresso aliciante.
- E tem ainda no programa um filme natural e duas comdias, uma do Bigodinho e a outra do Deed!
Rodrigo enlaou a cintura da mulher, estreitou-a contra o peito, deu-lhe nm sonoro beijo na boca.
- Contigo vou a qualquer parte, meu bem, com ou sem o Deed, com ou sem Bigodinho, ests entendendo?
Antes das oito horas estavam ambos no Teatro Santa Ceclia, onde funcionava o cinematgrafo, sentados no camarote que o gerente da empresa reservava habitualmente 
para os Cambars. Flora gostava de chegar antes de a funo principiar, para ver como estavam vestidas as outras mulheres e para dar uma prosa com as pessoas do 
camarote vizinho, que naquela noite estava ocupado pelo C.el. Cacique Fagundes, a esposa, as duas filhas mais velhas e o Irmo Jacques. Ao ver o marista, Flora lanou 
um olhar significativo para Rodrigo, que mal pde disfarar um sorriso de malcia. Afinal de contas - refletiu ele - o boato parecia ter fundamento. Que diabo! Como 
podia um homem moo, forte, sanguneo e at bonito como frre Jacques viver indiferente aos encantos femininos?
O Cel. Cacique inclinou-se para o camarote de Rodrigo e lanou o seu protesto
- Estou aqui nesta droga porque me trouxeram a fora. Cinematgrafo  coisa pra criana, tempo perdido, dinheiro posto fora.
Tornou a recostar-se no respaldo da cadeira e ali ficou, a pana tombada sobre as coxas, sonolento, lustroso e impassvel como a imagem dum Bada.
Apenas trs dos camarotes da ala fronteira se achavam ocupados: nm deles pelos Amarais e os outros dois pelo cl dos Macedos. Toda vestida de negro, com nm bo sobre 
os ombros, um broche de brilhante a coruscar-lhe no peito, Emerenciana olhou na direo
A SOMBRA DO ANJO        481

de Rodrgo, sorriu e fez-lhe um aceno. Alvarino, sentado atrs da mulher, limitou-se a uma discreta inclinao de cabea.
Rodrigo passeou o olhar pela platia, cujas cadeiras estavam quase todas ocupadas. Percebeu que Amintas Camacho procurava cumpriment-lo com insistncia. Achava-se 
ao lado da mulher. Depois do casamento, havia engordado, estava com as bochechas como que inchadas e com umas gordurinhas indecorosas nas ancas e nas ndegas. Lesma! 
- pensou Rodrigo. E continuou a fingir que noo via o rbula. De repente deu com o Jlio Schnitzler a pequena distncia de seu camarote. Uma vermelhido cobriu o 
rosto, o pescoo e at a calva do alemo, cuja boca se abriu num sorriso, ao mesmo tempo que ele cumprimentava os Cambars com rgidos acenos de cabea. Rodrigo 
procedeu como se noo o tivesse visto. Flora censurou-o:
- Cumprimenta o homem, Rodrigo, noo sejas rancoroso. O coitado noo tem culpa dos banditismos do Kaiser.
- Quando me lembro do que os patrcios dele fizeram na Blgica, o sangue me ferve. Depois, esse tipo sempre que tem notcia de alguma vitria alem rene os patrcios 
na confeitaria pra comemorar.
- Afinal de contas a Alemanha  a terra dele.. .
- Pois que volte pra l!
Naquele instante percebeu que algum da platia lhe fazia sinais frenticos. Ah! A tia Vanja, e sozinha! Ergueu-se e foi buscar a velha amiga, trazendo-a pelo brao 
para o camarote. Onde se viu? - murmurava, enlaando-lhe carinhosamente a eiratura - a senhora sozinha na platia .. .
Tia Vanja beijou Flora em ambas as faces e sentou-se, muita tesa, ao lado dela. Contou que a Norata - ai que flor de moa! que corao! - tinha ficado em casa com 
as crianas, a fim de que "a vov" pudesse vir. Ah! Era uma sorte morarem to pertinho do Santa Ceclia...
- Sou louca por cinematgrafo! - exclamou. - Eu j disse l em casa: tirem-me tudo, o po, a gua, o oxignio que respiro, as estrelas do firmamento, tudo, mas noo 
me privem do folhetim do Correio do Povo nem do meu rico cinematgrafo. No achas, Rodriguinho, que  um invento to instrutivo? Que de maravilhosos espetculos 
nos proporciona! E que privilgio podermos ver naquele rico paninho branco os melhores atores e atrizes do universo! Eu s imagino se meu pai ressuscitasse dentre 
os mortos e pudesse ver essas fotografias animadas. Ele j achava o daguerretpo uma coisa mgica, imaginem! Ai! ~ como sempre estou dizendo, bendito seja o progresso!
Na mente de Rodrigo soou o espectro da voz de Maria Valria: "A D. Vanja  uma velha fiteira." Fiteira! Ali estava uma expres-
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so nova trazida pelo cinematgrafo, o qual j comeava a exercer uma sensvel influncia sobre o povo. Agora quando uma pessoa era teatral na maneira de falar ou 
gesticular, quando gostava de ostentaes ou se dava a exageros - dizia-se que ela era fiteira. Rodrigo sorriu. Lembrava-se de que um dia ouvira o pai gritar para 
um mascate que lhe batera  porta e tentava impression-lo com seus truques, a fim de lhe vender umas bugigangas: "Deixe de fita 1"
No entanto o velho jamais assistira a uma sesso de cinematgrafo!
3
Pouco depois das oito horas, o pianista - um escrivo da Coletoria Estadual - sentou-se ao piano e comeou a tocar o que o programa anunciava como uma "linda ouverture 
pelo maestro Salcede". Era um tango de Nazar, O Brejeiro.
Rodrigo franziu o cenho, e fazia muxoxos ante as hesitaes dos dedos do pianista sobre os teclados daquele velho piano desafinado.
Gostava de cinema, sim, mas noo tinha pacincia de ficar sentado numa cadeira de assento de pau durante mais duma hora, nem de esperar os longos intervalos entre 
uma parte e outra. Quando a exibio era interrompida porque a pelcula se rompia ou queimava, sentia mpetos de gritar, assobiar ou bater ps como faziam os espectadores 
do galinheiro.
Tinha a mais agradvel das recordaes da primeira sesso de cinematgrafo a que assistira em 19OO. ano em que se matriculara num ginsio de Porto Alegre. Ficara 
sentado na ponta da cadeira. o busto teso, a respirao contida, vendo na tela o milagre daquela lanterna mgica em ponto grande, cujas imagens se moviam como gente 
de carne e osso. O primeiro filme que vira se intitulava "Viagem a Jerusalm:" vistas das ruas do Cairo, das pirmides. duma caravana de camelos, das margens do 
Nilo e finalmente das ruas, monumentos e templos da Cidade Santa. Seguira-se um episdio fantstico: a histria duma grande carruagem puxada por um cavalo mecnico 
e que conduzia a tuda a velocidade quatro negros. Num dado momento os negros transformavam-se em palhaos brancos, que se punham a brigar, e de sbito voltavam a 
ser de novo negros para mais tarde tornarem-se outra vez brancos. Por fim as quatro figuras se uniam, formando o corpo dum nico negro de propores gigantescas, 
o qual se recusava a pagar a passagem do nibus. O condutor, enfurecido com isso, prendeu fogo
na carruagem e o negro ardeu e se extinguiu como um boneco de celulide.
Eram os tempos da primeira infncia do cinematgrafo em que no se faziam ainda filmes de enredo e sim pequenos relatos ou colees de vistas naturais: a chegada 
dum trem; o Vesvio em erupo; operrios saindo duma fbrica ... Havia tambm cenas de magia: o homem da cabea de borracha, diabos- que saltavam de dentro de relgios; 
pessoas que andavam com uma rapidez sobrehumana sobre os telhados... Vieram depois fbulas e histrias de fadas: o Chapelinho Vermelho, o Pequeno Polegar, Jack, 
o matador de Gigantes. Rodrigo jamais esquecera uma das cenas d A Gata Borralheira - quela em que a abbora se transforma na maravilhosa carruagem que levar Cinderela 
ao baile do prncipe.
Doze anos depois, como uma prova de que o cinema atingia a idade adulta, ele vira ali mesmo no Santa Ceclia as verses cinematogrficas dos Miserveis, de Hugo, 
do Germinal, de Zola, e tivera tambm a satisfao de apreciar Sarah Bernhardt na Tosca e n"A Dama das Camlias. Eram filmes vindos de Paris, pois em matria de 
cinmatgrafo, como em tudo o mais, a Frana estava sempre na vanguarda. Os italianos produziam tambm grandes filmes e eram especialmente inimitveis em suas reconstituies 
da Roma do tempo dos csares. Rodrigo assistira emocionado  exibio de In Hoc Signo Vincis, filme em que aparecia com um realismo impressionante a grande batalha 
entre as legies de Constantino, o Grande, e as de Maxncio. Outro sucesso da mesma poca fora o Quo Vadis, inspirado no romance de Sienkiewicz, com suas majestosas 
cenas do Coliseu de Roma, onde gladiadores e retiris se empenhavam em lutas de morte, e cristos eram lanados s feras. Da Itlia tambm vinham dramas da vida 
moderna, em sua maioria histrias escabrosas de amor, com cenas duma lubricidade trrida. O pblico que ia s funes de cinematgrafo j comeava a guardar na memria 
os nomes de seus atores e atrizes favoritos. Uma das vedettes mais apreciadas era Francesca Bertini, formosa e esbelta mulher de feies finas, ancas escorridas, 
olhos lnguids sob plpebras machucadas, e especialista em papis dramticos. Seus beijos duravam longos minutos e suas agonias {pois os rmances daqueles filmes 
italianos terminavam quase sempre +em morte) arrastavam-se longussimas ao som das valsas lentas batidas precariamente no piano pelo escrivo da coletoria. Havia 
outras belas fmeas como a loura Hespria que, para o gosto de Rodrigo, era demasiado corpulenta; a Pina Menichelli, de ancas venustas, lbios grossos, narinas palpitantes, 
mulher duma sensualidade avassaladora. A predileta de Rodrigo, porm, era Leda Gys, de cabelos e olhos escuros, mais franzina que suas colegas, e com lgo de ctrusco 
no rosto moreno. Quanto aos atores, Gustavo Serena fi-
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zera-se famoso no seu papel de Petrnio, o arbiter elegantiarum do Quo Vadis. Emlia Ghione notabilizava-se em papis de personagens do bas-fond, o apache cujos 
beijos noo raro eram rematados por um golpe de punhal. Havia ainda Alberto Capozzi, de cera descarnada e dramtica. E, talvez o maior de todos, Amleto Novelli, 
o 
trgico que o cinematgrafo trouxera do teatro.
Uma vez que outra - raros mas seletos - vinham os filmes da "Nordisk", de Copenhague, cujo principal gal, W. Psilander, comeava a inspirar paixes com sua figura 
alta e esbelta de gentleman sempre impecavelmente trajado. (Dizia-se que Mariquinhas Matos, a Gioconda, alimentava por ele uma paixo platnica e que at lhe escrevia 
cartas. )
As fbricas norte-americanas produziam filmes esportivos, histrias de aventuras vertiginosas em que pioneiros e cowboys andavam em correrias pelas plancies do 
Far West a caar bfalos e ndios peles-vermelhas. Exploravam tambm os batidos temas da Guerra Civil ou ingenuidades como as da Cabana do Pai Thomas. Rodrigo aborrecia 
esses filmes que sempre terminavam bem, merc dum enredo feito de coincidncias absurdas, e que pareciam encerrar uma lio de moral, como as fbulas. Cheiravam 
a sermo de pastor protestante e noo tinham o realismo e a paixo dos dramas da Cines, da Ambrosio e da Pascuali e muito menos o refinamento e o valor artstico 
das produes da Path, da Gaumont e da Eclair.
Quando discutia o assunto, Rodrigo costumava dizer:
-  natural que assim seja. Os americanos do norte so anglo-saies; ora, ns somos latinos e os filmes que nos vm da Frana e da Itlia falam mais diretamente 
aos nossos coraes.
Nenhum brasileiro sensato e de bom-gosto podia preferir aa palhaadas absurdas de Charlie Chaplin - aquela figurinha ridcula, de chapu-coco, bigodinho mosca, casaco 
curto, calas largas e sapates descomunais - s finas comdias de, Max Linder, o perfeito cavalheiro, que sempre trajava fraque, cala a fantasia e c}.apu alto, 
e que era a encarnao mesma do esprit francs. Como poderia o bulldog britnico superar em matria de arte o Galo gauls?
4

Quando a ouverture terminou, da galeria vieram risotas e ditos gaiatos em falsete, acompanhados dum simulacro de aplauso cortado de assobios. As orelhas do pianista 
ficaram vermelhas.
Apagou-se a luz, ouviu-se um ratar metlico e cadenciado, am feixe luminoso irradiou-se da janelinha da cabina de projeo e clareou o pano branco. Quando o primeiro 
quadro apareceu -
A SOMBRA DO ANJO        485

letras claras sobre nm fundo negro - o operador noo havia con-. seguido ainda ajustar as lentes do projetor, de sorte que foi com dificuldade que Rodrigo leu - 
Jornal 
Gaumo"t. Salcede rompeu a tocar um dobrado. A primeira cena mostrava a chegada de M. Poincar, na gare de Moscou, por ocasio de sua visita ao Czar Nicolau II da 
Rssia. O quadro luminoso comeou a tremelicar (os inimigos do cinematgrafo afirmavam que aquele pisca-pisca fazia um mal terrvel aos olhos) a tremelicar com tamanha 
intensidade que as imagens ficaram plidas e embaralhadas.. Do galinheiro partiram assobios, gritos e sapateados. Por fim, quando o tremetreme cessou, o pblico 
pde ver com relativa clareza o Presidente Poincar no momento em que de cartola em punho, descia do trem e apertava a mo a cavalheiros de crois e de uniforme 
militar. Rodrigo teve mpetos de gritar: "Viva a Frana?" A projeo, porm, continuava enevoada e as figuras caminhavam e gesticulavam em movimentos rpidos e duros, 
como grotescos bonecos de mola. Na cena seguinte, M. Poincar era visto no convs dum encouraado russo, passando em revista a tripulao formada em sua honra. O 
terceiro` quadro mostrava o exrcito alemo em suas manobras de outono: um regimento a desfilar em passo de ganso. E quando o Imperador da Alemanha apareceu numa 
cena fotografada a curta distncia - o porte marcial, o peito coberto de medalhas, o agressivo capacete na cabea altivamente erguida, as mos pousadas sobre o copo 
da espada - todo o teatro prorrompeu numa vaia. Rodrigo, que tambm assobiava e batia ps, inclinou-se para o camarote dos Fagundes e gritou para o Irmo Jacques: 
"Olha s o canalha." O marista exclamou: Sale
cochon!
A assuada cessou quando na cena seguinte aparece um aeroplano a voar ao redor da Torre Eiffel. E o jornal terminou com uma corrida de bicicletas - o "Circuito de 
Paris".
A luz tornou a acender-se. Tia Vanja, risonha e de rosto afogueado, chupava com grande -entusiasmo- uma de suas balas de ovos. Estava num alvoroo meio nervoso: 
parecia uma criana solta numa loja de brinquedos.
O prximo filme era uma comdia - O Casamento e Deed - em que o heri  perseguido. por uma" preta, que o obriga a casar-se com ela. Q resultado da unio  uma 
srie de filhos com raias pretas re brancas, como zebras.        .
- Uma anedota infantil - murmurou Rodrigp para a mulher.
Achava ridculas todas as comdias de correrias em que Andr Deed recebia pasteles de nata em plena cara ou se punha a quebrar pratos e a virar cambalhotas como 
um saltimbanco. Mas o povo, que adorava aquelas palhaadas, ria tanto e to alto que suas
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vozes abafavam os sons das mazurcas, polcas, tangos e habaneras que o pianista tocava distrado, com os olhos erguidos para a tela e tambm sacudido de riso.
A segunda comdia da noite - Bigodinho e o Formigueiro - apresentava o famoso M. Prince, ator do Odon e do Varits de Paris, numa excurso ao campo com a namorada. 
No momento em que est a fazer-lhe uma declarao de amor, tem a infelicidade de sentar-se sobre um formigueiro, e quando as formigas comeam a entrar-lhe pelo canho 
das calas, pelas mangas do casaco e a correr-lhe pelo corpo, fica to desesperado, que se pe a tirar a roupa. Umas solteironas pudicas que passam na ocasio, ficam 
escandalizadas e chamam um gendarme, que leva Bigodinho para a cadeia. Por uma feliz coincidncia, a namorada do heri  uma advogada e consegue livr-lo da polcia.
Quando a luz se acendeu Rodrigo voltou-se para o marista e meneou lentamente a cabea ao mesmo tempo que fazia uma careta. Queria que o outro visse que ele no apreciava 
aquelas infantilidades.
Olhou depois para o camarote dos Amarais e avistou Emerenciana ainda sacudida de riso, os seios arfantes, a mo sobre o corao, a cara congestionada.
- Ai, meu Deus! - exclamou tia Vanja. - Agora vem o rico draminha. J vou me preparar para o choro.. .
Ps-se a procurar na bolsa de croch o lencinho rendado, recendente a patchuli.
A luz tornou a apagar-se. Apareceram nos primeiros quadros o ttulo do drama e os nomes dos intrpretes.
- A Asta Nielsen  uma beleza - murmurou Flora ao ouvido de Rodrigo, que lhe acariciava a mo.
- Mas eu gosto  de ti, meu bem.
O escriturrio da Coletoria comeou a tocar uma valsa lenta. E quando Asta Nielsen apareceu na tela, muito loura e fina, algum gritou em falsete no galinheiro: 
"Mame quero queijo!"
Tia Vanja ficou indignada:
- Que falta de respeito. Logo na hora do drama.
De sbito ouviu-se um baque surdo seguido dum grito de mulher. Vozes, altearam-se, confusas e aflitas. Algumas pessoas ergueram-se na platia e o pnico comeou 
com exclamaes e atropelos. - Luz! - gritou Cacique, pondo-se de p. Outras vozes repetiram: "L~z! Luz! Luz!" Quando o recinto de novo se iluminou, Rodrigo viu 
uma aglomerao no camarote dos Amarais e teve logo a intuio do que acontecera: Precipitou-se para l. correndo, quando j algum gritava: "Dr. Rodrigo! Ligeiro, 
pelo amor de Deus!" Abriu caminho por meio da multido. "Por favor, me deixem passar!"
D. Emerenciana achava-se estendida no cho, de costas, a boca entreaberta, os olhos vidrados. O marido, num desespero, sacudia-a pelos ombros, gritando-lhe o nome 
com voz engasgada. As meninas estavam em pranto. Rodrigo afastou Alvarino, ajoelhou-se ao p da amiga e no levou muito tempo para verificar que ela noo tinha mais 
pulso e que seu corao cessara de bater. Acendeu um fsforo e aproximou-o dos olhos da matrona: as pupilas estavam dilatadas e noo reagiam  luz.
No tinha mais nada a fazer.
5
Quando havia pouco menos dum ano, Emerenciana Amaral cara gravemente enferma, tendo sido desenganada pelos mdicos reunidos em conferncia ao p de seu leito - 
Z Pitombo apressara-se a fazer um fino caixo nas dimenses da matrona, com gales dourados e belas alas de metal prateado. Como, porm, a doente tivesse conseguido 
salvar-se, "Graas a Deus no cu e ao Dr. Rodrigo na terra", o armador encolhera os ombros filosoficamente, murmurando - segundo o testemunho do Cuca Lopes - "No 
morreu? Pacincia. Seu dia chegar. A morte  a nica coisa certa que h na vida."
Guardou o esquife. E foi dentro dele que depositaram D. Emerenciana naquele sbado de abril, s dez e vinte da noite, na sala de visitas do casaro dos Amarais. 
O prprio Pitombo acendeu. os crios com lgrimas nos olhos. Chiru Mena, que o observava, murmurou para Rodrigo, mal contendo a indignao. "Hipcrita!  capaz 
de cobrar tambm essas lgrimas de crocodilo quando mandar a conta do enterro."
As caras compungidas, o olhar velado, parentes, amigos e at desafetos dos Amarais entravam na ponta dos ps na casa morturia, iam direito aos quartos, abraavam 
os membros da famlia, aproximavam-se depois do esquife, contemplavam o cadver por breves momentos e, isso feito, ficavam pelos corredores e cantos, a pontuar a 
quietude do velrio com murmrios, cochichos, pigarros, suspiros e tosses, afundando num silncio contrafeito e cabisbaixo toda a vez que as filhas da defunta rompiam 
em acessos de choro ou exclamaes de dor.
Rodrigo andava de quarto em quarto, a atender a gente da casa, a ministrar calmantes s mulheres e abraos e palavras de conforto aos homens. Aturdido pelo golpe, 
Alvarino Amaral esfava deitado na cama do casal, os olhos secos e exorbitados fitos no teto, o peito sacudido por soluos convulsivos. Deixava-se
A SOMBRA DO ANJO        487
#488        O RETRATO

abraar passivamente, e quando algum tentava consol-lo, o mais que conseguia articular era: "Que barbaridade... que barbaridade..."
Quando se ouviram as badaladas da meia-noite, Rodrigo teve a impresso de que o velho relgio do casaro batia-lhe no peit, ecoando dolordamente nas paredes do 
crnio. Ah, como ele detestava todo aquele cerimonial da morte: seus aspectos, cheiros, gestos. convenes... Queria ach-lo ridculo, antiquado, medieval, mas na 
realidade a coisa toda o comovia e ao mesmo tempo atemorizava. Havia pouco desmanchara-se em pranto ao ver a mais moa das filhas de D. Emerenciana a rolar em cima 
da cama, gritando num desespero: "Mezinha, no me deixe, por amor de Deus, noo v embora!" Estava deprimido, com um aperto no corao, o corpo quebrado por uma 
sensao de frio que noo era apenas da epiderme, mas tambm das entranhas, dos ossos. Desejava que um novo dia raiasse, o sol tornasse a brilhar, a morta fosse 
sepultada 
e a vida retomasse o passo normal. Aquele cheiro de cera derretida que impregnava o ambiente, mesclado com a fragrncia das flores, levava-o de volta a outro velrio, 
numa noite de 1898, e ele tornava a sentir com esquisita pungncia sua tristeza pela perda da me e ao mesmo tempo o seu horror ao imaginar que ela ia ser fechada 
para sempre no mausolu da famlia - ela, to frgil, to meiga. to triste ... Os senhores de preto iam lev-la para o cemitrio .. . Ah! Mas o culpado de tudo 
era o velho Pitombo, o desenterrados de defuntos, aquele homem hediondo que estava encolhido num canto da sala, esperando a hora de fechar o caixo. E o pior  que 
iam fazer aquilo com a cumplicidade de seu pai, que chorava mas noo dizia nada, a permitir que levassem para sempre a sua mulher... Como ele odiara o pai naquela 
noite!
Rodrigo entrou na cmara ardente. Envolta numa mortalha negra, Emerenciana Pereira do Amaral jazia no seu esquife, coberta de flores at o peito. As chamas dos crios 
lanavam-lhe mveis reflexos rosados no rosto de cera, acentuando-lhe as sombras. Por alguns instantes o nico som que se ouviu ali na sala foi o da voz cavernosa 
de Srgio, o lobisomem, que rezava com um rosrio nas mos, ao p do atade.
Ao redor da defunta, a acotovelarem-se com o intendente de Santa F, com o juiz de comarca, o coletor federal, o promotor pblico e membros das famlias Macedo, 
Prates, Teixeira e Fagundes, estavam os negros e negras da cozinha do casaro, muitos dos quais eram filhos, netos e bisnetos de escravos. Entre eles viam-se mulatos 
e caboclos em cujos rostos se percebiam nitidamente traos da famlia Amaral. O peito convulsionado de soluos, chorando e fungando, uma negrinha de onze anos, que 
Rodrigo muitas vezes encontrara a fazer cafun em D. Emerenciana, agarrava as bordas
A SOMBRA DO ANJO        489

do caixo com as mos pretuscas, o rosto contorcido numa expresso de dor, as faces lavadas de lgrimas, e na ponta dos ps esforavase por ver o rosto da defunta.
- Rodrigo sentiu que lhe seguravam o bao. Voltou a" cabea e viu tia Vanja, que se aconchegou a ele, com o leno no nariz, os olhos midos.
- Que calamidade, meu filho... - murmurou ela, olhando para o caixo. E com doura, quase a sorrir, acrescentou: - Coitadinha da Emernciana, no vai poder ler o 
fim da Toutinegra do Moinho .. .
Rodrigo sorriu mas noo pde evitar que as lgrimas lhe viessem aos olhos. Bateu de leve na mo da amiga numa carcia silenciosa.
Gente continuava a chegar. Salom, o alfaite, todo vestido de preto, deps um ramo de vigletas sobre o cadver. O Dr. Matias aproximou-se do rosto da morta, com 
se ,fosse -dizer-lhe algum segredo, enxugou disfaradamente uma lgrima e depois tirou um chumao de fumo da .bolsa de boriacha e ps-se a enrolar um cigarro. Liroca 
saiu do seu canto e acercou-se de Rodrigo.
- Uma federalista- dos quatro costados. Gente antiga, de boa cepa. - Deixou escapar um suspiro. - Mundo velho sem porteira!
Pouco depois entrou o Dr. Carlo Carbone. Ajoelhou-se ao p do atade, tranou as, mos, abaixou a cabea, cerrou s olhos e ficou a rezar por alguns instantes. Ergueu-se, 
fazendo o sinal da cruz e, ao avistar Rodrigo, soltou um ah! musical e encaminhouse para ele.
- Uma laparotomia fortunatssima I Terminei f poucos minutos. O paciente  "de Garibaldina, um bravo jvem. Sabe onde est agora a Santuzza? Lavando o cho da sala 
de operaes.
Guarda, que gerenta!
Lanou um olhar para a morta.
- Mas que catstrofe! Uma dama virtuosssima. Uma vera catstrofe!
Saiu na pontinha dos ps na dire do quarto do casal.
6
s duas da madrugada a maioria das pessoas havia j deixado a casa dos Amarais. Ficaram apenas os que estavam dispostos a fazer a viglia da noite; eram noo s 
os 
parentes e amigos mais chegados da famlia como tambm os "aficionados" de velrio, gente que tinha certo prazer em passar a noite m claro ao p dam defunto e que 
para isso dispunha por assim dizer duma tcnica
especial.
#49O        O RETRATO

A atmosfera do casaro como que se desanuviou. Cuca Lopes tomou o comando do velrio, formou uma roda na sala de jantar e comeou a contar histrias. Algum tempo 
depois foi  cozinha sugerir que servissem nova rodada de caf bem forte, insinuar~o tambm que j era hora de obsequiar os presentes com algo de slido.
Chiru Mena organizou no escrtrio de Alvarino uma roda de truco que aos poucos se foi animando de tal modo, que em breve os parceiros pareciam esquecidos do lugar 
e das circunstncias em que se encontravam. Houve um instante em que o vozeiro de Chiru encheu jovialmente a casa, anunciando que "tinha flor" ;
Don"a Manuela Contrera A su hi jo Manuel escribe,
Mandando decir que vive Como flor en la tapera.
Rodrigo apareceu  porta do escritrio e fez chtl
Na cozinha comeou o tero, puxado peto negro Srgio: e o coro roufenho invadiu a casa, doloroso, arrastado, funreo. Os jogadores de truco aplacaram-se. O choro 
recomeou nos quartos. Eram coisas como aquela - refletiu Rodrigo - que tornavam a morte ainda pior e mais negra do que era .. .
De mistura com as vozes dos negros comeou a vir da cozinha um cheiro de frituras. Esfregando as mos, Cuca Lopes saiu a comunicar aos presentes que estavam fritando 
os famosos sonhos de D. Emerenciana, preparados segundo uma receita antiqussima que passara de me para filha, atravs de muitas geraes.
Rodrigo achava brbaro comer na presena dum cadver. O cheiro de fritura misturado com o de vela queimada e flor era-lhe ofensivo  sensibilidade. Teve um sbito 
desejo de ar livre. Segurou o brao do Padre Astolfo, que at ento andara de Amaral em Amaral tentando convenc-los de que a morte noo era o Fim mas o Princpio:
- Vamos tomar um pouco de ar l fora, padre.
Saram, atravessaram a rua, ganharam a calada da praa, sobre a qual ficaram a andar lentamente. O ar da madrugada estava picante. No havia lua, mas as estrelas 
cintilavam no cu dum azul fosco de tinta de .escrever. Cachorros latiam em ruas longnquas e um que outro galo amiudava.
Ambos acenderam os .:igarros em silncio e, sempre calados, continuaram a andar e a pitar. Ao passarem pela frente da igreja, Rodrigo falou.
- Padre, estive olhando para aquela gente amontoada em roda do caixo de D. Emerenciana e pensando umas coisas engraadas .. .
A SOMBRA DO ANJO        491

-        vigrio continuou calado, com o cigarro preso entre os lbios, as mos s costas, esperando que o outro continuasse.
- Negros descendentes de escravos, mulatos, ndios, caboclos... Gente miservel do Barro Preto e do Purgatrio, pobresdabos descalos, molambentos e cheirando mal... 
E tambm fazendeiros ricos, com boas roupas e boas botas ... E tipos como o Lunardi e o Spielvogel, cujos antepassados nasceram na Europa, em terras distantes. Pois 
bem. Comecei ento a perguntar a mim mesmo se essa coisa que se chama vida tem um sentido, uma finalidade, ou se todos ns no passamos de simples fantoches nas 
mos dum manipulador que se diverte  nossa custa.
-        padre sorriu mas noo disse nada. Passavam agora pela frente da Intendncia, em cuja cpula estava pousada uma ave noturna.
- s vezes - prosseguiu Rodrigo - tenho a impresso de que Deus, o movedor inamovvel,  um jogador d xadrez e ns somos as pedras. Uns poucos reis, rainhas, bispos 
e torres, mas uma infinidade de pobres pees. Ele joga apenas para se distrair e, a fim de tornar o espetculo mais divertido, d-nos a iluso de que ns  que nos 
movems por vontade prpria ... Agora? Nossa tendncia  acreditar que Ele nos move com algum propsito certo e que o jogo todo tem um grande sentido.
- padre deu um puxo na prpria orelha. Dirigiram-se ambos para a figueira, e s depois de se haverem sentado no banco, sob a grande rvore,  que o sacerdote tomou 
a palavra:
- A imagem no deixa de ser curios, ms no  enata. A coisa toda  sria demais paca se lhe dar o nome de jogo. Est " claro que Deus tem um prposito com relao 
ao mundo e s suas criaturas. E, no devemos esquecer que as" pedras do xdrez trn" vonti3e prpria, um intelecto que as~ capacita a. escolher entre o" bem e o 
ml. Enfm, se o amigo quiser insistir m usara imagem do jogo de xadrez, poderemos "dizer que as regras do "Grande Jogo esto contidas ns ensinamentos da Santa 
Madre Igreja, .e qum as segu ganhar na certa .. .
Rodrigo olhou na direo da casa dos Amarais.
- Vou -lhe contar uma coisa, padre, que lhe dar uma idia de como sou pteso aos .prazeres deste. mundo, por ,.menores que sejam. Tia Vanja me disse l no velrio 
que foi. uma pena D. Emerenciana morer sem ter visto o final "do folhetim d Correio do Povo. Acho que a velhinha no disse nenhuma tolice. Viver  bom por causa 
duma srie de coisas grandes e ~equ~enas entre as quais est tambm a de "ler, a Toutinegra do Moinho. A idia da morte me  to desagradvel que nem a certeza de 
ganhar o Cu me faria encar=la com menos horroi.
- E o . senhot j pensou algum vez ha morte ... quero
#492        O RETRATO
dizer, a srio, como uma coisa que lhe pode acontecer a qualquer momento, amanh, depois... agora?
- No. Para falar a verdade, tenho a impresso de que morrer  coisa que no pode acontecer a mim, Rodrigo Cambar.
- Espere a casa dos quarenta ... - murmurou o padre, atirando longe o cigarro.
- Por que diz isso,. se .ainda noo chegou aos trinta e quatroi
- Falo com a experincia alheia. Ao chegar aos quarenta o homem torna-se inquieto, faz a si mesmo perguntas ansiosas, reexamina os seus valores ..morais.  a fase 
da vida em que comea a pensar na velhice que se aproxima e conseqentemente na Morte
-        em Deus .. .
Rodrigo sorriu.
- Sempre ouvi dizer que na casa dos quarenta os homens perdem a cabea e saem a correr atrs das mulheres. ); que, voltando-se pra trs, ficam assombrados por verem 
o tempo que perderam e, olhando para a frente, compreendem que tm poucos anos de vigor viril, e toca a aproveitar enquanto podem.
- Exatamente. Esse  o caso da estpida maioria. Entre o tempo e a eternidade escolhem o tempo, que lhes parece mais prximo e certo, e atiram-se ao$ prazeres carnais. 
Mais tarde, velhos
- doentes, quando o corpo de nada mais lhes vale, eles o hipotecam  Igreja, procurando trocar uma carcaa perecvel pelo tesouro da vida eterna. Muitos deixam o 
arrependimento para a ltima hora. Pensam assim: Deus deve ser um bom sujeito, um papai bonacho sempre disposto a perdoar. Mas, quando menos esperam, o Anjo da 
Morte se interpe entre eles e o sol... e adeusa A  tarde demais.
Rodrigo olhava para as janelas iluminadas do casaro doa Amarais, arrependido j de ter provocado aquele assunto. O sacerdote, entretanto, prosseguiu:
- s vezes a sombra do Anjo se projeta no nosso caminho,
- ns nos recusamos a compreender o aviso, dizemos que  apenas uma nuvem que cobriu o sol, e continuamos a andar, esquecidos de Deus.
Rodrigo ps-se a assobiar baixinho, como se no estivesse escutando o que o outro dizia.
Um blide riscou o cu. Chegava ainda at eles as vozes dos negros, que continuavam no tero.
- Lembra-se da doena que quase matou D. Emerenciana h coisa dum ano? - perguntou o vigrio. - Depois disso ela se preparou para morrer. Confessava-se e comungava 
todas as semanas.. Esta noite, ao erguer os olhos para a face do Anjo, sua alma estava limpa de pecados.
Houve uma curta pausa. Rodrigo procurou desconversar
A SOMBRA DO ANJO        493

- O Dr. Carbone me disse que fez hoje uma "laparotomia fortunatssima" - Soltou uma risada falsa. - Laparotomia .. . No acha que essa palavra foi feita especialmente 
para ser pronunciada pelo italiano com aquela bela voz de queijo derretido e massa, temperada de manjerona e nadando em leo de oliva?
A mo do padre pousou leve no ombro de Rodrigo.
- H muito que estou para lhe falar neste assunto, mas noo cenho encontrado oportunidade. Acho que a hora  propcia. Por amor de Deus, noo se ofenda nem me julgue 
um intrometido. Afinal de contas, alm de ser um sacerdote, sou tambm seu amigo e admirador .. .
Levantou-se num movimento brusco e comeou a puxar furiosamente o lbulo da orelha: um ginasiano perplexo diante dum problema de matemtica. .
- Sua vida tem sido at agora um rosrio de triunfos, uma estrada atapetada de rosas e batida de sol. Mas no pense que isso vai durar sempre. Ora. se um dia vai 
ter de fazer uma reviso completa de valores e procurar o amparo da Igreja, por que no comea agora? Olhe,  melhor.  mais fcil...
Rodrigo pensava no rosto de cera da defunta. Imaginou-se a s mesmo dentro dum esquife, coberto de flores. Vou pedir a Flora - decidiu - que quando eu morrer no 
deixe ningum ver meu rosto. Botem um leno em cima. Ou fechem logo o caixo e no o abram mais.
- Est claro - continuou o sacerdote - que no plpito, falando para essa gente de poucas letras, tenho de simplificar os problemas da alma, da f e da vida eterna, 
falar em Cu e inferno. em castigo e recompensa. O povo  criana. Mas a coisa toda noo  to simples assim. Olhe, leia os pensamentos de Pascal. Vou lhe emprestar 
o meu exemplar .. .
Calou-se. Rodrigo acendeu outro cigarro. O tero havia cessado. Agora as nicas vozes da noite eram o trilar dos grilos e um que outro cantar de galo. Astolfo comeou 
a andar dum lado para outro, dentro da zona de sombra que a figueira projetava no cho. De repente parou diante do amigo e segurou-lhe os ombros com ambas as mos.
- Deus  uma coisa muito sria, meu querido amigo, muito sria!
Rodrigo encolheu-se todo, num sbito calafrio. Levantou-se.
- Estou ficando gelado, padre. Deve ser o ar da madrugada ... Vamos at o Sobrado, tomar um traguinho de conhaque.
CAPITULO IV
1
DURANTE as ltimas semanas de abril, Rodrigo acompanhou com apaixonado interesse, atravs dos jornais, o desenvolvimento da batalha de Ypres, e quando um telegrama 
urgente anunciou ao mundo que os alemes haviam empregado nuvens de gases asfixiantes contra tropas canadenses e argelinas, sua indignao foi tamanha, que ele teve 
mpetos de sair para a rua e quebrar a cara do primeiro alemo que encontrasse. Precipitou-se para o telefone, pediu o nmero do quartel do regimento de infantaria, 
chamou o Cel. Jaro e, depois de p-lo ao corrente do monstruoso acontecimento, comentou
.- p o cmulo da barbrie. Gases asfixiantes! Dizem os telegramas que a tortura fsica produzida por essas nuvens  dantesca. Os soldados caem sufocados, alguns 
at vomitando pedaos dos pulmes... uma coisa medonha!
Da outra extremidade do fio o positivista soltava tambm exclamaes de horror.
- Venha logo de noite ao Sobrado, coronel. Preciso desabafar com algum, senoo rebento. Olhe, at estimo que o Rubim j tenha ido embora, porque se nos encontrssemos 
hoje e ele quisesse justificar mais esse banditismo dos boches, acho que eu perdia a pacincia e a coisa acabava em briga!
Por aqueles dias chegavam tambm notcias da campanha submarina em que os alemes, sem aviso prvio, punham a pique navios mercantes e de passageiros noo s das 
naes inimigas como tambm das neutras. No princpio de maio os jornais trouxeram um comunicado revoltante: um submarino alemo torpedeara em guas da Irlanda o 
transatlntico Lusitnia, causando a morte de 1153 passageiros! Ao ler a notcia, Rodrigo ficou tomado duma fria indignada : deixou o Sobrado de bengala em punho, 
disse um mundo de desaforos ao Otto Spielvogel, que encontrou a soltar gargalhadas  frente da Casa Schultz, e ameaou:
- Bandidos! Vocs todos, deviam ser capados para acabar
A SOMBRA DO ANJO        495

com essa raa maldita. Enquanto existir um alemo na face da terra a humanidade no poder viver em paz!
Espantado, Spielvogel no reagiu: recuou na direo da parede da casa, limitando-se a murmurar: "Mas doutor... mas doutor..."
A cena atrara curiosos, o que deixou Rodrigo ainda mais exaltado. Vendo na vitrina da loja do Schultz uma tricromia do Kaiser, no se conteve: ergueu a bengala 
e f-la descer com toda a fora contra o vidro, partindo-o. E para o dono da casa, que apareceu  porta no momento em que ele arrebatava o retrato da vitrina e rasgava-o 
em muitos pedaos, vociferou:
- No me exponha mais a cara desse bandido,  Schultz, senoo eu mando prender fogo nesta pocilga, ests ouvindo, lambote?
Dito isto, fez meia volta, deu alguns passos, e, sem olhar para trs, gritou: "Me mande a conta dos prejuzos, .que eu pago." E, vermelho, o ritmo da respirao 
alterado, as narinas dilatadas, um formigueiro no corpo todo, caminhou uma quadra inteira com passo duro. Ao chegar  praa tinha-se-lhe arrefecido um pouco a fria 
e ele comeava quase a envergonhar-se do papelo que fizera diante de tanta gente. Mas, que diabo! o que me corre nas veias  sangue e no limonada. Algum tem de 
jogar bruto com esses boches, senoo amanh eles querem tomar conta do Brasil. O que fiz est muito bem-feito. Ento, j se viu? Torpedearem um navio de passageiros 
sem aviso prvio ... Quase mil e duzentos mortos, diz o jornal. Mulheres, crianas, velhos... O maior crime da Histria! Uma vergonha para a raa humana!
Quando, dias depois, Flora o convidou para irem ao teatro assistir ao espetculo da Philarmonische Familie, uma famlia de msicos austracos que percorria a Amrica 
do Sul dando concertos, Rodrigo replicou
- No vou. No quero saber de nada com esses boches.
Flora olhou para Maria Valria, que encolheu os ombros como quem diz: "Que  que vou fazer?"
- Mas Rodrigo .. .
- No tem funfum nem fole de ferreiro - replicou ele, fazendo um gesto cortante para encerrar a discusso. - Guerra  guerra. A ustria-Hungria  aliada da Alemanha. 
Se a populao de Santa F tivesse um pingo de vergonha na cara, ningum ia ao espetculo e essa alemoada morria de fome I
- Est bem - disse Flora, entre amuada e irnica. - Est bem. No precisas brigar comigo. Sou brasileira puro sangue.
Caindo em si, Rodrigo enlaou a cintura da esposa e beijou-lhe os cabelos.
- Eu sei que tu e a madrinha acham que sou um exagerado,
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um apaixonado. Mas noo ... Nessa guerra da civilizao contra a barbrie, noo pode haver dois pesos e duas medidas.
- Mas tu precisas compreender que essa pobre gente nem estava na ustria quando a guerra rebentou .. .
- Se quiseres, podes ir, meu bem. Convida a Dinda e a tia Vanja... Porque eu no vou.
Flora deixou escapar mansamente um suspiro, sorriu e replicou que no iria, porque afinal de contas a coisa toda noo tinha nenhuma importncia.
Quando Rodrigo deixou a sala, Maria Valria tranqilizou a outra
- No faa caso do que ele disse. Aposto como amanh ele bota esses burlantins pra dentro de casa.
2
No dia seguinte a Famlia Filarmnica era o assunto obrigatrio em quase todas as rodas de Santa F. O teatro estivera completamente cheio na primeira noite e o 
espetculo fora um sucesso. Os espectadores afirmavam com unanimidade que, alm de msicos consumados, os austracos eram pessoalmente simpaticssimos. Herr Weber 
tocava violino, clarineta e flauta. Frau Weber, piano e rgo. O jovem Wolfgang, alm de admirvel tocador de cordeona, era um prodgio no xilofone. E os moos da 
terra estavam positivamente entusiasmados ante a beleza e a graa de Fraulein Weber, que tocava violoncelo e obo.
Pela manh, ao sair para o consultrio, Rodrigo j comeou a ouvir elogios  Philarmonische Familie. O primeiro partiu do Pitombo, que, ao avist-lo, atravessou 
a rua e veio dizer-lhe com os olhos pegajosos de emoo:
- Que beleza, doutor! Que coisa sublime! Nunca vi orquestra melhor em toda a minha vida. Quando fechei os olhos na platia, tive a impresso que estava no reino 
dos cus, escutando os anjos.  bem como diz o poeta, a msica  o idioma dos deuses.
Cuca Lopes atacou-o  entrada da farmcia. J sabia coisas sobre os Weber. Eram naturais de Viena, vinham percorrendo OBrasil desde Belm do Par e estavam a caminho 
do Prata. Achavam-se hospedados no Hotel dos Viajantes e davam-se mal com a comida. Dizia-se que o velho sofria do estmago e s se alimentava de leite e frutas. 
A Frau, ah! essa gostava de cerveja e era muito alegre. O rapaz tinha um jeito suspeito, meio adamado.
A moa era linda como uma estampa, e os machos da terra j andavam assanhados.
Rodrigo noo lhe disse palavra. Continuava no seu boicote psicolgico  famlia austraca, embora sem nenhum rancor.
Na farmcia, o Gabriel contou-lhe que estivera no teatro e que chorara a ouvir a Serenara de Schubert tocada pela mocinha.
Rodrigo entrou no consultrio, sentou-se  mesa e dali ficou a olhar, atravs da janela aberta, um trecho da praa. Andava no ar parado esse olor seco e matinal 
de bruma tocada de sol. O cho sob os pltanos, estava juncado de folhas amarelentas. Les sanglots longs des violons de !"automne... No. Estava errado. O instrumento 
cuja voz mais sugeria o outono era o violoncelo. Tinha mais profundidade que o violino, um acento mais. humano, uma tristeza serena e digna que to bem se casava 
com a languidez da atmosfera e com sua luz de mbar. Aqueles dias "de maio pareciam encher as criaturas duma dormncia gostosa que as predispunha  pacincia, a 
uma certa terriura meio sonolenta e esquisitamente melanclica. Eram manhs e tardes em que - mistura de ouro e violeta - pairava no ar uma nvoa que parecia amortecer 
todos os sons e acalentar todos os desejos, de sorte que a gente ficava com a impresso de andar fsica e espiritualmente envolta em paina. Era como ele, Rodrigo, 
se sentia agora : com o esprito aclchado em paina; nenhum atrito de idias, nenhum conflito interior ou exterior. Abriu a boca num bocejo cantado. Com uma tnue 
sombra de aborrecimento pensou nos clientes que teria de atender dentro em breve - malcheirosos, tristes e duma fealdade encardida e vil.
Ouviu uma batida  porta, que se entreabriu devagarinho. A cabea do Dr. Carlo Carbone apontou na fresta.
- Se pode?
- Ah! Entre, doutor.
O cirurgio entrou, com o avental branco todo manchado de sangue. Acabava de sair da sala de operaes e trazia nas mos uma cubeta.
Rodrigo ergueu-se e caminhou para o colega.
- Que  que traz a?
- Uma vera beleza. Guarda.
Mostrou-lhe a cubeta dentro da qual um rim humano boiava num lquido viscoso laivado de sangue.
- Opa! - exclamou Rodrigo, franzindo o nariz e a testa. - Donde saiu isso?
- Dum colono de Nova Pomernia. Um tumor. O paciente  morto.
E mostrava com o dedo "le bale ramificazioni".
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Sorria. Dava a impresso dum ogre que trazia nas roupas o sangue ainda quente da criana que acabara de devorar.
- Mas o senhor entrou aqui s pra me mostrar esse rim?.. . - sorriu Rodrigo. - O doutor sabe que no preciso de aperitivos .. .
- Ah! - fez o outro, dando uma palmada na testa.
Deps a cubeta sobre o bureau, pegou o telefone, deu-lhe manivela, pediu ao centro um nmero e, enquanto se fazia a ligao. ele olhava para o amigo com uma expresso 
diablica.
- Pronto! Sei tu, Santuzza Guarda, carina, me fai a colazione rognon alia griglia capito? Eh! Ma no! Tutto bene. A mezzogiorno. Tant bac. Ciao!
Carbone largou o telefone, tornou a apanhar a cubeta e acer
cou-se de Rodrgo, que recuou um passo. - Por que noo foi ao teatro ontem? - Ora, acontece que...
O italiano noo esperou a explicao:
- Um espetculo divino! - cantarolou.
E derramou-se em elogios  Famlia Filarmnica. Fazia muito
que noo ouvia to boa msica nem via to brava gente. Herr
Weber parecera-lhe um "gran maestro", Frau Weber, uma con
tralto "de la pi pura scuola" e la ragazza - aqui o cirurgio
estralou os lbios num simulacro de beijo - ah! la Frulein tinha
um rosto belssimo que lembrava o das madonas de Botticelli. Rodrigo, porm, relutava em deixar-se seduzir. - As madonas de Botticelli noo so o meu gnero. - Mas 
a msica, carino, a msica! - Prefiro a do meu gramofone.
Carbone aproximou perigosamente a cubeta do peito de Rodrigo, que deu mais um passo  retaguarda.
- O gramofone? - exclamou o operador. - Aquilo no passa de msica em conserva, ao passo que a dos Weber era palpitante, viva, tinha o calor da presena fsica dos 
artistas que a produziam.
Rodrigo tornou a sentar-se, para colocar o bureau entre si e aquele repugnante rim humano.
- Pra lhe falar com toda a sinceridade, resolvi no tomar conhecimento dessa famlia - explicou sem muita convico. - Estou revoltado com o torpedeamento do Lusitnia 
e com todos os outros crimes que os alemes esto cometendo nesta guerra. Afinal de contas os Weber so austracos, aliados do Kaiser.
Carbone sorriu, e quando seus lbios vermelhos se abriram, pondo  mostra os dentes midos e as gengivas rosadas, Rodrigo teve a impresso de ver partir-se uma rom 
madura.
- Mas a arte no tem ptria, carino, a arte  universal e eterna !
A SOMBRA DO ANJO        499

O outro sacudia a cabea, numa fraca negativa. Comeava j a sentir uma certa curiosidade por aquela famlia vienense que os ventos do destino haviam soprado para 
Santa F. Depois, como era possvel odiar algum ou alguma coisa num dia de maio?
Carlo Carbone continuava a falar,  sua voz melodiosa enchia
- consultrio. Rodrigo odiava a Alemanha? Pois quebrasse ento todas as chapas que continham composies de Beethoven e Schubert, queimasse todos os livros de Goethe,-Schiller, 
Heine...
Rodrigo quis ainda replicar, mas Carbone deteve-o com um gesto e entrou a cantar em surdina uma das canes de Schubert que Frau Weber interpretara na vspera. Rodrigo 
contemplava aquele homnculo de roupas ensangentadas a cantar em alemo - lngua que nada tinha a ver com sua voz quente, redonda e doce - enquanto suas mos apertavam 
a cubeta, e uma lgrima lhe brotava no canto do olho e rolava pela face. Quando ele se calou, Rodrigo disse:
- Estou desconfiado de que o Senhor  empresrio dos Weber
-        o que quer  me vender um camarote.. .
- Mas no!. - exclamou o italiano, tirando do bolso e jogando sobre a mesa um papelucho cor-de-rosa. - Tenho este camarote para hoje e requesto ao signore Dr. Rodrigo 
e sua signos
-        prazer e o honor da vossa companhia esta Bera .. .
3
A primeira parte do programa da Famlia Filarmnica naquele segundo espetculo foi dedicada a canes folclricas do Trol e da Baviera. Rodrgo ficou vagamente 
irritado ao ver ali na platia do Santa Ceclia o rubicundo entusiasmo dos alemes e teuto-brasileiros, que no s apreciavam as melodias como tambm, por entenderem 
a letra das canes, soltavam grandes risadas s suas passagens humorsticas, e, ao fim de cada Lied rompiam em aplausos ruidosos, quase sempre pedindo bis. A verdade 
era que desde o primeiro nmero se estabelecera uma to forte corrente de simpatia entre os artistas e o pblico, que Rodrigo teve a sensao de que a prpria atmosfera 
fsica do teatro se aquecera e de que os Weber no se encontravam num palco e sim numa das salas de sua residncia, em Viena, no incio dum tranqilo sero musical.
Herr Weber era um homem de estatura mediana, basta cabeleira alourada, olhos muito claros e um jeito distrado e abandonado de professor. Ao erguer-se o pano, entrara 
no palco bisonho e desajeitado e Rodrigo tivera a impresso de que o homem noo sabia que fazer com as mos. Frau Weber, porm, pareceu mais  von-
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fade diante do pblico. Baixinha, bem fornida, seguira o marido em passadas decididas, quase marciais, e, quando os aplausos comearam, seu sorriso se alargara, 
pondo-lhe  mostra os belos dentes brancos e parelhos, e seus olhos pareceram ganhar mais fulgor, ao mesmo tempo que uma vermelhido lhe cobria as faces, as orelhas
- o pescoo. O jovem Wolfgang, vestido dum modo demasiadamente infantil para seus presumveis dezoito anos fizera uma curvatura rpida e rgida de autmato e depois 
quedara-se, srio e imvel, os olhos postos num ponto indefinvel do espao,  espera de que os aplausos cessassem. A ateno de Rodrigo, porm, desde logo se concentrara 
em Toni Weber, que estava vestida de branco
- trazia laarotes de fita azul nas pontas das tranas - o que lhe dava um ar comovedor de colegial.
~ O Dr. Carbone estava enganado. A Fraulein no tinha a cara rechonchuda das madonas de Botticelli cujas bocas em geral pareciam estpidos botes de rosa. Sua face 
era dum perfeito oval e os olhos claros duma tonalidade que Rodrigo de longe no podia discernir. Entretanto, o que mais o fascinava naquele rosto emoldurado por 
ca"~elos castanhos com reflexos de bronze, eram os zigomas levemente salientes e a boca rasgada de lbios polpudos e sugestivos.
- Guarda que maravilha! - murmurou o Dr. Carbone.
- A menina  uma belezinha ... - sussurrou Flora, voltando a cabea para o marido.
- No  feia ... - respondeu este, com fingida indiferena.
Na segunda parte os Weber evocaram a Viena da opereta, tocando valsas e pot-pourris, com um gosto e uma alegria contagiantes. Quando o jovem Wolfgang interpretou 
ao xilofone alguns trechos de Offenbach e Strauss, acompanhado pela me ao piano
- pelo pai ao contrabaixo, o pblico aplaudiu freneticamente e um dos Spielvogel chegou a erguer-se na platia para gritar bis. Rodrigo tambm aplaudiu. J naquela 
altura do concerto noo s se declarava vencido e convencido como tambm enternecido por aquela esplndida famlia de msicos.
Durante o segundo intervalo, o Dr. Carbone trouxe o Padre Astolfo da platia para o camarote. Inclinada sobre Flora, Santuzza deixava transbordar sobre ela todo 
o seu entusiasmo e fazia planos de convidar os artistas para uma macarronada em sua casa. E o sacerdote, que tambm estava encantado com o espetculo, contou que 
havia sido procurado naquele dia pelos Weber.
- So catlicos! - revelou com alegria. - Vo  missa e comungam!
Os olhos do Dr. Carbone estavam empapados de ternura. Rodrigo queria saber mais coisas sobre a vida dos austracos.
A SOMBRA DO ANJO        5O1

O padre contou que o filho mais velho do casal estava na guerra
- que, numa localidade de So Paulo, durante um espetculo da Famlia, um grupo de aliadfilos provocara uma tremenda vaia, chegando ao ponto de atirar nos Weber 
ovos podres e tomates.
- Canalhas! - exclamou Rodrigo, indignado. - Onde est a nossa tradio de hospitalidade? Que idia essa gente vai fazer de nossa educao e de nossa cultura? Precisamos 
prestigiar essa famlia.
Flora lanou-lhe um olhar pasmado.
A terceira parte do programa era composta de msica sria. Quando Herr e Frau Weber tocaram o adgio da Sonata de Kreutzer, Rodrigo sentiu que de repente a atmosfera 
perdia um pouco de seu calor e nas faces da maioria dos espectadores se ia estampando lentamente uma expresso de quase impaciente aborrecimento, e,  medida que 
a sonata se prolongava, as pessoas comeavm a remexer-se nas cadeiras e algumas bocas se abriam em mal disfarados bocejos. Num dado momento, um rato atravessou 
o fundo do palco e essa inesperada nota cmica, que provocou risnhos, contribuiu um pouco para aliviar a tenso ambiente criada por Beethoven. Quando a pea terminou, 
os aplausos foram fortes mas breves.
Wolfgang tocou na flauta um Romance de Schumann. A seguir, Toni apanhou o obo e postou-se ao lado do piano. Quando levou o bocal do instrumento aos lbios, ouviram-se 
risos abafados na platia. Rodrigo teve gana de gritar: "Silncio, bagualada!" Jamais se vira em Santa F uma mulher tocar qualquer instrumento de sopro. Para aquela 
gente, os nicos instrumentos decentes recomendveis a uma moa de famlia eram o piano, o violino e o bandolim.
A voz pastoral e merencria do obo comeou como que a riscar um sereno desenho no ar. Era um trecho do Oratrio da Pscoa, de Joo Sebastio Bach. Rodrigo teve 
a sensao de que o erguiam da cadeira, deixando-o em levitao. Aquela melodia pura, duma tristeza profunda mas sem desespero, despertava nele ecos misteriosos, 
saudades inexplicveis. Tinha a intuio de que j ouvira, sentira, amara e at tocara numa outra vida muito remota
- numa outra paisagem igualmente perdida... Sim, ele tambm achava um nadinha ridculo uma moa soprar naquele instrumento. Sentia para com aquela menina de ar to 
inocente uma certa piedade mesclada de ternura e ao mesmo tempo de um desejo lbrico que procurava exorcizar, indignado consigo mesmo, pois tanto a msica como a 
intrprete deviam inspirar-lhe sentimentos e pensamentos puros. No entanto, a coisa era superior s suas foras, pois seu olhar estava poderosamente preso aos lbios 
de Toni, que se pregueavam, carnudos e mveis, em torno do bocal do obo. Fe-
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chou os olhos. Foi pior, porque a Toni de seus pensamentos tava completamente despida  beira da sanga do Angico, e a de Bio misturava-se com a melodia de Bach, 
esta a elevar Rodn para o cu, rumo das estrelas, a outra a arrast-lo para a gra
-        a insinuar libidinagens.
Abriu os olhos e focou-os no camarote fronteiro, de onde Cel. Jairo, avistando-o, lhe fez um lento, solene aceno de cabe
Quando os sons do obo e do piano morreram no ambie morno do teatro, houve uma pausa duma frao de segundo. sbito estalaram os aplausos. Quem se ps de p dessa 
vez Rodrigo. "Bravo! - gritou - Bravo! Bravo!" E aplaudia c tanta fora, que as palmas das mos comearam a arder. To agradecia com reverncias graciosas, o rosto 
iluminado por um sor riso que lhe fazia saltar os zigomas.
- prximo nmero foi um quarteto de Mozart, durante qual o Cel. Cacique se retirou ostensivamente do teatro com t a famlia. Irmo Jacques acompanhou-os, mas antes 
de deixar camarote voltou-se para Rodrigo, encolheu os ombros e fez u careta, como a dizer: Qu"est-ce que tu veux que je fasse?
- penltimo nmero foi Rverie de Schumann, que Toni interpretou ao violoncelo. Rodrigo escutou a melodia, perturbado como se a voz do instrumento tivesse o dom 
de penetrar-lhe n camadas mais profundas do ser, revolvendo-as e fazendo vir  tons lembranas de tempos idos, tristezas recalcadas, desejos esquecidos!., Sentiu 
a respirao opressa, um aperto na garganta. Se no tra tasse de dominar-se, acabaria chorando como o Dr. Carbone, que ali a seu lado de quando em quando limpava 
os olhos com pontas dos dedos.
Quando menino, Rodrigo interessava-se tanto pelos atores t atrizes dos circos e companhias teatrais que visitavam Santa F, que esse interesse s vezes chegava a 
revestir-se da intensidade duma paixo. E quando o circo ou a troupe se ia para outras terras, ele ficava tomado duma melancolia e duma saudade que durante dias
- dias lhe empanavam a vida. Sempre se sentira atrado por aquela gente de palco e picadeiro, to diferente do comum dos mortais no vestir, no falar, no viver e 
at nos traos fisionmicos. Ahf Quantas vezes, depois que o circo se ia, ele se punha a andar pels= cidade, falando sozinho, a curtir a saudade da mocinha do trapzio 
ou da malabarista! Seu nico consolo, ento, era fazer peregrinaes ao lugar onde estivera armado o barraco. L estava, como uma tortura em meio do terreno baldio, 
o redondel do picadeiro, ainda coberto de serragem, cujo cheiro ele aspirava com dolorosa delcia. Apanhava do cho, para guardar como lembranas, pedaos de madeira 
ou papel, pontas de cigarro, botes .. .
Para o menino Rodrigo os atores eram criaturas dum mundo
A SOMBRA DO ANJO        5O3

que pouco ou nada tinha a ver com Santa F - nm mundo que s encontrava par nas novelas de Dumas, Ponson du Terrail, Richebourg e Jlio Verne. Sempre achara fascinante 
a linguagem dos palhaos, aquela mistura de portugus e castelhano que para ele era o vernculo dum misterioso pas de onde provinham todos os clowns e tonies que 
andavam pelo mundo. Por muitos anos entesourara na memria a palavra mgica que ouvira o diretor dum circo pronunciar repetidamente no picadeiro para o cavalo amestrado, 
sempre que o animal executava bem cada uma de suas proezas: verigude. Atribua-lhe um misterioso poder de encantao. Mais tarde, porm, ao iniciar os estudos de 
ingls, tivera a desiluso de descobrir que vecigude era very good e queria dizer apenas muito bom.
Agora, ouvindo a Rverie e contemplando Toni Weber, ele tornava a sentir milagrosamente a volta do antigo fascnio.
Que tristeza na fisionomia da menina! Como seria a voz dela? Grave, como a do violoncelo ou alta como a do obo? De que cor seriam seus olhos?
Rodrigo ficou um pouco desconcertado quando, ao voltar casualmente a cabea para o lado de Flora, percebeu que ela estava a observ-lo disfaradamente com o canto 
dos olhos.
4

Quando o espetculo terminou, o Padre Astolfo sugeriu que esperassem os Weber no saguo, a fim de que ele pudesse apresent-los aos Cambars e aos Carbone.
- Mas no  muito tarde? - perguntou Flora, consultando o marido com os olhos.
-  cedo - respondeu Rodrigo, que no olhara para o relgio desde que sara de casa.
Os Weber, entretanto, tardavam. O teatro achava-se j completamente vazio e comeavam a apagar-se as luzes. Flora insistiu para que fossem embora. Estava ansiosa 
por saber das crianas. Agastado, Rodrigo tomou-lhe o brao:
- Pois ento vamos.
Encaminharam-se para a porta, seguidos do padre e dos Carbone. Havia na noite sem lua nem estrelas um arrepiante prenncio de inverno. Na calada fronteira alguns 
homens conversavam em voz alta, um tanto exaltados. Uma figura destacou-se do grupo e atravessou a rua. Era o Cuca Lopes. Acercou-se de Rodrigo e despejou a novidade:
- A Itlia declarou guerra  ustria!
- No diga !
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- Por Deus Nosso Senhor! - jurou o Cuca, tirando, damente o chapu. Contou que viera do telgrafo, onde havia despacho para o intendente.
- At que enfim! - exclamou Rodrigo, voltando-se para Dr. Carbone e envolvendo-o num abrao, nquanto Santuzz d safava o pranto. O cirurgio beijou Rodrigo em ambas 
as fa deu alguns passos sem rumo nem propsito na calada para d cair nos braos da mulher, cobrir-lhe o rosto de beijos e mistur suas lgrimas com as dela.
- Padre - disse Rodrigo com a voz alterada pela comoa - a Itlia no nos decepcionou. O sangue latino falou mais fo que qualquer aliana ou interesse material!
O sacerdote acariciava o lbulo da orelha, olhando para porta do teatro.
- Isso torna os Carbone inimigos dos Weber - disse ele, entre srio e trocista.
O italiano parecia ter perdido a voz. Meteu nervosamente unot cigarro na piteira e levou muito tempo para conseguir acend-1
- Vamos todos ao Sobrado comemorar o acontecimento convidou Rodrigo.
Olhou para o Cuca.
- Mas essa histria  certa mesmo ou  boato?
Cuca que cheirava azafamado a ponta dos dedos, apressou-se a fazer novo juramento.
- Por esta luz que me alumia: eu vi o telegrama.
Desejou boa noite a todos e abalou. - Vamos embora! - gritou Rodrigo.
Meteu a mulher e os Carbone no Ford e mandou o chofer
tocar para o Sobrado.
- Ns vamos a p.
Depois que o automvel dobrou a primeira esquina, ele se voltou para o Padre Astolfo.
- Ficar mal a gente levar os Weber agora l pra casa? Sera que os Carbone vo ficar sentidos?
- Esses italianos so criaturas bonssimas. No creio que possam ter a menor m vontade para com a Famlia, principalmente depois dum espetculo desses.
- Que diabo! Afinal de contas somos todos filhos de Deus. no  mesmo, padre?
Naquele momento os Weber saam do teatro. Padre Astolfo puxou o amigo pelo brao, aproximou-se dos austracos e comeou as apresentaes. Fez o elogio de Rodrigo 
em francs. Vir a Santa F e no conhecer o Dr. Rodrigo Cambar e o Sobrado era o mesmo que ir a Roma e no ver o Papa nem a Baslica de So Pedro. O Dr. Rodrigo 
era mdico, uma bela cultura, um grande
carter. Possua a melhor biblioteca do municpio, era um amante da boa msica e tudo indicava que em breve seria eleito deputado. Enquanto o vigrio falava, Herr 
Weber murmurava de instante a instante j, j, ao passo que Frau Weber dava risadinhas curtas e cordiais. Tuni e Wolfgang achavam-se num segundo plano, silenciosos. 
O rapaz trazia o contrabaixo num estojo negro, que ali na sombra parecia um estranho monstro. Toni abraava o estojo do violoncelo, como a um irmo mais moo. Herr 
Weber tinha debaixo do brao a caixa do violino. Quando Rodrigo, fazendo questo de falar francs sem o menor sotaque, convidou a Famlia para ir ao Sobrado tomar 
alguma coisa, Herr Weber fez uma curvatura, formulou desculpas num francs eriado de erres rascantes. Impossvel! Era muito Larde, mam Weber e as crianas estavam 
cansadas. Merci beaucoup! Merci! Merci! Cada merci era acompanhado duma inclinao de cabea.
Rodrigo estava desapontado. Queria ver Toni de perto, descobrir-lhe a cor dos olhos, ouvir-lhe a voz. Deixou escapar um suspiro de impacincia e, olhando para o 
padre, disse:
- Bom, noo vamos deter por mais tempo esta simptica famlia .. .
Os adeuses foram rpidos e clidos da parte de Rodrigo: um tanto formais da parte de Herr Weber, que fez uma prolongada curvatura. Frau Weber apertou-lhe a mo com 
vigor, Wolfgang, timidamente. Toni deu apenas as pontas dos dedos e murmurou algo que ele no chegou a ouvir direito. Adieu? Au cevou?
Rodrigo chamou um carro e mandou levar a Famlia Filarmnica ao hotel:
- No cobre deles - gritou para o cocheiro. - Quem paga sou eu!
Depois, de braos dados com o padre, voltou a p para o Sobrado. O vigrio falava apreensivo na guerra. Aonde ia parar o mundo? Havia indignao nos Estados Unidos, 
pois no naufrgio do Lusitnia tinham perdido a vida quase duzentos cidados norteamericanos. Era possvel que Washington acabasse declarando guerra ao Kaiser.
Rodrigo olhava para a sombra alongada do padre na calada. Mas no pensava na guerra. Na sua mente, Ton Weber soprava no obo: estava num vestido curto de bailarina, 
no picadeiro do Circo Sabattini.
5
No dia seguinte pela manh, o Padre Astolfo entrou no consultrio de Rodrigo e contou-lhe que a Philarmo"ische Familie se
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encontrava numa situao crtica. Seu empresrio, um rumeno que os contratara na Europa para aquela tourne sul-americana, abandonara-os em Bag, seguindo para Montevidu 
de onde - prometera - no s telegrafaria dando informaes sobre a data dos prximos concertos no Prata, como tambm lhes mandaria o dinheiro para as passagens. 
No entanto havia j quase um ms que o homem se fora e at agora no dera o menor sinal de vida.
- A Famlia est alarmada! - contou o vigrio, sentando-se numa cadeira e fitando em Rodrigo seu olhar transparente. - O rumeno era o tesoureiro da troupe e levou 
consigo todo o dinheiro que tinham apurado nos ltimos concertos em Porto Alegre, Cachoeira e Santa Maria. O que os Weber fizeram aqui d para pagar o hotel mas 
no  o bastante para as passagens .. .
Rodrigo esbofeteava em pensamento aquele rumeno cuja me noo conhecia mas  qual j dirigia mentalmente os maiores insultos. O canalha! O vigarista!
Levantou-se e deu dois passos na direo do padre.
- O bandido fugiu, no resta a menor dvida. Veja bem: a Famlia est em Bag, j perto de Montevidu, onde deve dar o prximo concerto. Que faz o sacripanta? Manda 
essa pobre gente de volta para o noroeste do Estado, para Santa F. Por qu? Me diga: por qu? Porque j tinha o plano formado!
- E o pobre do velho Weber agora l est no hotel, atirado em cima duma cama, sem saber que _fazer. ~ um homem tmido, desprovido de qualquer senso prtico, um verdadeiro 
artista. As doas crianas coitadinhas, esto com os olhos deste tamanho, d pena v-las... Por sorte Frau Weber  uma mulher decidida. Veio me procurar hoje s oito 
para me contar a histria e me pedir conselho.
Olhou intensamente para Rodrigo e estendeu os braos num gesto de desamparo.
- Mas que . que a gente pode fazer?
Recostado contra o bureau, Rodrigo olhava para o amigo, pensativo.
- No h de ser nada ... - disse, aps alguns segundos de reflexo. - Deixe, que eu dou um jeito na vida desses austracos. - Como?
- Vou arranjar o dinheiro pra viagem a Montevidu.
- Mas acontece que, depois duma troca de telegramas com os teatros de Montevidu e Buenos Aires, os Weber descobriram que os falados contratos no passavam de mais 
uma mentira do rumeno!
Idias brotavam vivas e efervescentes no esprito de Rodrigo, comeando a deix-lo exaltado.
- No h de ser nada. Arranjaremos um concerto da Philarmonische Familie em Nova Pomernia. Foi o diabo a Itlia ter
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declarado guerra  ustria, pois eu ia ajeitar tambm um concerto em Garibaldina. - Soltou uma risada. - Por que o Rei Vittorio Emanuele no esperou mais uma semana?
O padre parecia no ver a menor graa naquilo tudo. Apertava o lbulo da orelha com uma expresso de incerteza no rosto juvenil.
- Sm, mas depois desse concerto, que vai ser dos Weber, que no sabem uma palavra de portugus e noo conhecem ningum no Ro Grande do Sul? Est claro que noo 
podero 
voltar para a Europa, por causa da guerra. ~ uma situao dos diabos.
- Por que ento noo ficam em Santa F?
- Esta cidade no comporta mais de dois concertos.
- Sim, mas eles podem fazer outras coisas. Olhe, por que no tocam no cinema? A est uma idia. O velho e a velha podem dar lies de canto, piano e violino. Que 
 que esto fazendo as filhas do Cel. Cacique que no aprendem algum instrumento? E as Teixeiras? E as Macedos? J  tempo de civilizar essa gente. No se aflija, 
padre, deixe a coisa por minha conta. Que diabo! Precisamos manter o prestgio da hospitalidade gacha. Seria o cmulo se uma famlia talentosa como essa morresse 
de fome na nossa terra.
Teve um rompante de generosidade.
- Em ltimo caso, eu levo essa gente pro Sobrado.
O padre sacudia a cabea numa lenta, obstinada negativa : a coisa no era assim to simples.
- E o pior - disse -  que a sade do velho  pssima. C para ns, acho que ele tem lceras gstricas.
- Et~ ,tambm dou jeito nas lceras do maestro.
Tirou o relgio do bolso e tornou a guard-lo sem ver direito a hora.
- Vamos agir, padre, antes que a coisa esfrie. Diga ao velho Weber que me aparea no consultrio hoje s quatro, que eu quero fazer-lhe um exame completo. V logo 
avisando que a consulta  grtis, pro homem no ficar preocupado. E hoje de noite leve toda essa simptica famlia ao Sobrado, l pelas oito, pra gente fazer um 
serozinho com msica, boa prosa e salsichas de Viena legtimas, no se esquea de dizer isso, ouviu?, legtimas! Pro velho mando preparar um mingau de maisena. 
Precisamos levantar o moral dos Weber. No final de contas no podemos responsabilizar esses pobres austracos pelas crueldades das tropas do Kaiser. Seria o mesmo 
que culpar Goethe ou Beethoven pelo torpedeamento do Lusitnia, noo acha, padre?
Segurou com fora o brao do sacerdote.
- A gente vira, mexe e acaba sempre nos Evangelhos. Quem tinha mesmo razo era Jesus Cristo...
#5O8        O RETRATO
Procurou, para citar, uma frase sobre a fraternidade humana, mas noo lhe ocorreu nenhuma. Despediu-se do vigrio, botou o chapu, saiu da farmcia e foi bater  
porta da casa d Podalrio Leal, concessionrio do cinematgrafo. Podalrio apareceu, recm= sado da cama, os olhos piscos, a voz pastosa. Convidou Rodrigo a entrar 
e sentar-se. E quando o visitante lhe falou na possibilidade de o cinema contratar a Famlia Filarmnica para tocar nas suas trs funes semanais, o homem exclamou:
- S se eu estivesse louco varrido 1 Isso vai me custar os olhos da cara!
- Criatura de Deusl Voc ter uma orquestra de primem ordem. Muita gente que no gosta de cinema ir ao Santa Ceclia s para ouvir a orquestra.
Podalrio mirava-o de boca entreaberta, os dois nicos dentes superiores que lhe restavam a apontarem amarelos nas gengivas descaradas.
- O senhor pensa que cinematgrafo  alguma mina de ouro? Pois fique sabendo que  um negocinho mui mixe. O que fao mal d pro fumo. Por muito favor pago trinta 
pilas pro Salcede tocar aquelas porcarias no piano.
Rodrigo brincava, impaciente, com a corrente do relgio.
Pois voc vai contratar a Famlia Filarmnica, e hoje mesmo. - Hein?
Podalrio lanou para o outro um olhar alarmado.
- Sim. E vai pagar aos Weber duzentos mil-ris por ms. Ergueu-se, aproximou-se do concessionrio do cinematgrafo e
segurou-o pela gola da camisa:
- No se assuste, que esse dinheiro no sair de seu bolso e sim do meu.
Viu que o homem noo havia compreendido. Repetiu a proposta lentamente, escandndo as slabas de cada palavra, com uma falsa pacincia. Nunca simpatizara com o Podalrio 
e muito menos com o filho, o Calgembrino: eram dois pulhas, dois sovinas sem escrpulos, que noo mereciam a menor considerao.
- Vamos, homem, sim ou noo?
- Se o senhor paga, a coisa  diferente, mas noo estou entendendo direito .. .
- Nem precisa entender. Quero ajudar esses estrangeiros que esto em dificuldades e ao mesmo tempo fazer que o cinema da minha terra tenha a melhor orquestra do 
Estado. Est claro agora?
O outro encolheu os ombros.
- Mas... e o Salcede?
- Continue a pagar-lhe os trinta mil-ris mensais, e ele que fique em casa se quiser. Se noo quiser, que v pro infernol
A SOMBRA DO ANJO        5O9

Podalrio acariciou a calva, de beio cado.
- Outra coisa - acrescentou Rodrigo. - Essa histria tem
de ficar entre ns dois. Ningum precisa saber que sou en quem
vai pagar o ordenado da Famlia Filarmnica. Est entendido?
- Est, mas  que .. . - Que  que h?
- No era melhor a gente fazer um contrato, um compro
misso escrito e assinado pelo senhor, dizendo que se responsabi
liza .. .
Rodrigo atalhou-o:
- J viu algum Cambar faltar  palavra empenhada?
- No, doutor, longe de mim duvidar da sua palavra. Mas
 que todos estamos sujeitos a mover duma hora para outra... Rodrigo, que j se encontrava na rua, de chapu na cabea,
gritou
- Pois eu no pretendo morrer to cedo. Tenho ainda muito
que fazer neste mundo. Passe beml
6
Cheios de gratido e num comovido abandono.. os Weber entregaram seu destino a Rodrigo, maravilhados com as coisas que ele lhes dava, e fazendo, numa obedincia 
filial, tudo quanto ele lhes sugeria. Aceitavam o emprego no cinema e os alunos de canto, violino e piano que foram aparecendo naquelas ltimas semanas de maio, 
alguns trazidos pelo prprio Rodrigo - que doutrinava calorosame.~te os chefes de famlia sobre a necessidade de dar uma educao musical aos filhos - outros mandados 
espontaneamente por famlias alems e tento-brasileiras. Otto Spielvogel empregara o jovem Wolfgang Weber em seu escritrio, como arquivista e correspondente em 
lngua alem. E Herr Weber, cuja sade melhorara visivelmente, graas aos remdios que Rodrigo lhe prescrevera. fora convidado pelo intendente para reorganizar a 
banda de msica municipal.
Achando que a Famlia Filarmnica por motivos econmicos no podia continuar no hotel, Rodrigo cedeu-lhe de graa uma casinha de propriedade de seu pai e que no 
momento estava desalagada - uma meia-gua com pomar, situada  Rua do Poncho Verde, nas proximidades dos trilhos. Resolveu o problema doa mveis da maneira mais 
rpida e simples: ps numa carroa e mandou para os Weber uns tarecos fora de uso que estavam atirados no poro do Sobrado - uma cmoda e um guarda-comida de ps 
lascados: cadeiras com os assentos de palha furados ou
#51O        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        511
pernas quebradas: e uma mesa em cuja prancha sem lustro se viam talhos de facas feitos por mais duma gerao de cozinheiras. Oe Spielvogel e os Schultz contriburam 
com camas, cadeiras, louas e talheres. Contava-se que, a cada mvel ou utenslio que chegava  meia-gua, Frau Weber desatava o choro, murmurando: "Qut santa gente, 
meu Deus, que santa gente!"
Os membros da Philarmonische Familie passaram uma semana inteira a trabalhar na casa. Convidado um dia a visit-los, Rodrigo ficou surpreendido ao ver a transformao 
que sofrera aquela meia-gua que sempre lhe dera a impresso dum cachorro sentado a olhar melancolicamente para o cu. A fachada tinha sido caiada por Wolfgang, 
auxiliado por Toni, e os caixilhos das janelas - onde se balouavam alegremente vaporosas cortinas brancas - pintados dum azul de ndigo. Dentro, Rodrigo no reconheceu 
os velhos mveis que mandara: estavam lustrados, reluzentes, com o aspecto de_ novos. N cho da sala de jantar estendia-se um tapete feito por Frau Weber com retalhos 
multicores. Em cima duma prateleira alinhavam-se canecos para cerveja, pratos de cermica alem e os cachimbos de loua de Herr Weber. Havia - naquele interior um 
tal aspecto de asseio e rdem, que Rodrigo chegou aficar perturbado. Derramou-se em elogios  casa, e Frau Weber, num assomo de agradecida ternura, tomou-lhe do 
rosto com ambas as mos, ps-se na ponta dos ps e aplicou-lhe dois sonoros beijos nas faces.
- Notre pratecteurl Le plus gnreux et le plus beau des hommes!
Rodrigo ficou comovido. Sentado numa cadeira, Herr Weber contemplava-o com um ar de devoo quase canino. Seu olhar - notou Rodrigo - exprimia no s gratido como 
tambm estranheza. Era como se ele no pudesse compreender por que aqueles estranhos faziam pela Famlia todas aquelas coisas desinteressadas.
Nas ruas de Santa F durante muito tempo os Weber constituram um espetculo que os naturais do lugar no cansavam de apreciar. Quando os austracos passavam, mulheres 
assomava** s janelas e portas e ficavam a segui-los com o olhar, trocando comentrios com os vizinhos. Toda a vez que Fcau Weber saa s compras ou com livros debaixo 
do brao dirigia-se  casa de seus alunos, as comadres de Santa F mal continham o riso, achando-a "esquisita" no -seu vestido cor de chumbo, de golilha alta, cintura 
de vespa, saia rodada e comprida cuja fmbria varria as caladas por onde ela passava com seu jeito azafamado e seu caminhar mido e rpido.
Frau Weber fizera j amizade com tia Vanja, que a adorava, pois a austraca lhe evocava personagens de romances que se passa
vam em Berlim, Viena e Budapeste. Rodrigo enternecia-se ao ver aquelas duas mulherzinhas em seus colquios, a trocarem sorrisos, amabilidades, receitas de doces 
e croch, uma sem poder falar a lngua da outra, mas a entenderem-se por um milagre de boa vontade e simpatia humana.
Herr Weber tambm chamava a ateno quando saa  rua, de chapu-coco pardo, gravata  Lavalire, o guarda-chuva sempre a pender-lhe do brao. Andava de ordinrio 
apressado tinha um caminhar arrastado, as costas encurvadas e um modo vago de olhar, como se estivesse com o corpo neste mundo e o pensamento no outro. O jovem Wolfgang 
fazia tambm sucesso com sua roupa de veludilho verde, de casaco cintado, os sapates de alpinista e o chapu de feltro com uma pena de pavo enfiada na fita.
As moas d~ Santa F no podiam esconder sua m vontade para com aquela "alemoazinha" que parecia andar virando a cabea a muitos dos rapzes do lugar. Toni Weber 
pouco saa, pois era ela quem cozinhava e fazia a limpeza da csa. Quando, porm, aparecia na Rua do Comrcio, sempre em companhia do pai, da me ou de ambos, as 
mulheres a miravam com ar crtico -e os homens com lho lbrico.
- Anda de trana s pra parecer menina - comentara a Gioconda. - Mas garanto que j tem uns vinte e cinco anos, fora os que andou de tamancos .. .
Esmeralda Dias inventava coisas horrveis: os Weber no eram casados, mas amigados, Wolfgang era um maricas e Toni, ah! "essa cadelinha est aqui em Santa F pra 
fisgar marido rico, isso ningum me tira da cabea". E j se murmurava que, dos pretendentes que rondavam Toni, o mais palpvel era o Erwin Spielvogel, moo rico, 
com o qual a jovem austraca j fora vista a passear de automvel.
Por muito tempo foram os Weber o assunto predileto dos mexericos da cidade, onde havia at discusses em que se tratava de chegar a uma concluso sobre qual dos 
dois casais estrangeiros era o mais grotesco, os Weber ou os Carbone.
Nas noites de segunda, tera e sexta-feira, quando no havia funo no cinema, os Weber compareciam aos seres do Sobrado, onde ficavam a conversar, a comer, a beber 
e a fazer msica. Desde que a Famlia Filarmnica comeara a freqentar sua casa, Rodrigo procurava evitar qualquer referncia direta ou indireta  Guerra. Os Carbone, 
que raramente faltavam aos seres, ficavam-se agora
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A SOMBRA DO ANJO        513
meio bisonhos pelos cantos, enciumados - percebia Rodrigo sestrosos, decerto a temer que aqueles austracos lhes roubassem lugar que ocupavam no corao dos Cambars. 
Frau Weber apat tonara-se tambm pelas crianas da casa, e era divertido ver a aos: traca e a taliana numa guerra sarda, na disputa da amizade Alcinha e Floriano, 
cada qual procurando trazer-lhes o brinquedo mais interessante, o doce mais gostoso ou ento inventar as pala uras e os gestos mais cmicos para faz-los rir. Havia 
moment em que era necessrio Flora intervir, a fm de evitar um atrito entre as duas estrangeiras.
Outro que parecia ralar-se em silencioso despeito era o Saturnino, cuja flauta andava calada desde o dia em que Herr Weber entrara no Sobrado. Uma noite, depois 
que o "maestro" interpretara na flauta uma composio de Schumann, Saturnino aproximou-se do Neco e sussurrou-lhe:
- Toca bem, mas no tem alma. Esses gringos so frios.
-        o seresteiro com ar de entendido, completou:
- Frios como focinho de cachorro.
Jairo no cansava de elogiar aqueles seres em que tinha s oportunidade rara de ouvir to boa msica e to boa prosa.
Carmem, que agora vinha com mais freqncia ao Sobrado, aproveitava a ocasio para exibir seus conhecimentos de francs e de arte, o que parecia deixar Flora um 
tanto deprimida. E o vigrio que se sentia responsvel pela aproximao entre os Weber
-        os Cambars, dava mostras de estar contente de tudo e de todos.
Numa noite em que se discutiam compositores, Herr Weber, comendo seu mingau e lanando olhares compridos para o prato de po com caviar, fz uma dissertao sbre 
a decadncia da msica italiana, para tortura de Rodrigo, que ficou todo o tempo como que sobre brasas, a observar, aprensivo, o Dr. Carbone. Quem examinasse - 
dizia o maestro - a msica italiana do sculo rrx e daquele princpio do xx, com seus xaroposos compositores operticos como Verdi, Puccini e Leoncavallo, dificilmente 
compreenderia que aquela mesma ptria, onde o Renascimento tivera seu apogeu, houvesse produzido no passado msicos como Vivaldi, Cimarosa, Pergolesi, Scarlatti 
e tanta outros.
- llr. Carbone avanou com um copo de vinho numa das mos e a piteira na outra. Verdi xaroposo? Era o cmulo da estupidez, da ignorncia e da m vontade fazer uma 
afirmao como aquela! Detestvel era Wagner com suas cacofonias pretensiosas! Dali a mil anos. Verdi, Pnccini e Leoncavallo seriam ainda ouvidos, cantados e amados, 
porque sua msica era bela, doce, clara
-        ia direito ao coao do povo. E dizendo isso, Carbone batia heroicamente no peito com a ponta da pitein.
Herr Weber noo perdem a calma.
- A pera noo passa duma pardia musical. A verdadeira msica, para meu gosto,  a clssica. Dem-me Bach e podem ficar com o resto!
Numa bem torneada frase, e com boa dose de falsa modstia, Rodrigo confessou que sua ignorncia o impedira de compreender
-        amar Bach. Herr Weber mirou-o com seus olhos vagos.
- Mon cher Doktor, s se pode apreciar devidamente Bach depois dos quarenta anos.
- Guarda que absurdo! - exclamou Carbone.
Liroca, que uma vez por semana comparecia aos seres, estava no seu canto, calado, a ouvir aquela lngua que no entendia, o olhar fito nas portas, por cujo vo 
de quando em quando passava
-        vulto de Maria Valria.
Herr Weber certa noite desenvolveu uma tese: a da comunho universal atravs da msica. Sim, o mundo s poderia viver em paz se todas as criaturas amassem verdadeiramente 
a arte e se reunissem  noite, nas suas comunidades, como uma grande famlia, para fazerem msica. Ah! Mas tinha de ser um tipo de msica puro, desses que elevam 
a alma e jamais embriagm os homens de entusiasmo marcial a ponto de lev-los  violncia,  destruio e  guerra. O mal da pera  que, sendo descritiva, verista, 
ela se apega excessivamente s mais baixas paixes humanas. A msica pela msica - Qsse era o grande, o supremo ideal.
Jaro concordava em que a msica poderia ajudar o congraamento da famlia humana, mas achava que s a msica noo era o bastante. Fazia-se necessria tambm uma 
religio, no a do Padre Astolfo, que estava comprometida em sua pureza original por quase dois mil anos de contaminao poltica, mas uma religio de bases cientficas 
de perfeito acordo com o Progresso.
A discusso foi interrompida quando os Weber comearam a tocar um quarteto de Mozart para cordas e piano. Carbone escutou-o num silncio reverente, movendo a cabea 
ao ritmo da melodia ou usando a piteira como uma batuta. De momento em momento, Maria Valria espiava a sala, escudada por uma folha de porta. E Chiru, que no escondia 
sua impacincia naqueles seres em que s se falava "lngua de gringo", marcava o compasso com o p, fungava, suspirava, olhava o relgio e abafava bocejos. De olhos 
cerrados, a cabea reclinada contra o respaldo da cadeira,
-        Padre Astolfo parecia adormecido, as mos tranadas  altura do estmago.
Por mais que se esforasse, Rodrigo noo podia desviar os olhos de Toni. Estava um tanto inquieto por causa de Flora, temendo que ela interpretasse mal seu interesse 
pela rapariga. De quando em quando lanava-lhe um olhar oblquo, para ver se ela o estava observando ou noo.
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A SOMBRA DO ANJO        515
A verdade  que aquela famlia estrangeira trouxera para sua vida um interesse novo. Os seres do Sobrado tinham ganho mais. animao, o gramofone jazia mudo e 
esquecido no seu canto, e as vezes Rodrigo julgava ver na campnula do aparelho uma certa expresso de cime que lhe lembrava a da fisionomia dos Carbone.
A cor dos olhos de Toni continuava a ser para ele um enigma. Era um cinzento que ainda noo se havia decidido bem entre o verde e o azul, mas que s vezes lhe parecia 
puxar mais para o azul. E agora, enquanto ouvia o adgio do quarteto e observava a Fraulein, ele encontrava por fim uma definio satisfatria para aquele par de 
olhos. Eram duas guas-marinhas purssimas: dois lagos redondos, frescos e lmpidos, em cujo fundo nadavam peixes. Quando estava na frente da rapariga, Rodrigo tinha 
a impresso de que sua prpria imagem, refletida no fundo daqueles poos, era como um grande e estranho peixe. E essa idia deixava-o conturbado.
Uma das coisas de que mais gostava era a risada de Toni - uma risada musical, com algo de vidro e de gua, a sugerir um parentesco prximo com os olhos.
No princpio daquele sero Rodrigo permitira- se tornar a mo de Toni (Que mal podia haver nesse gesto, se ele o fazia na frente dos pas da moa e da prpria Flora?) 
e, numa atitude avunculat que lhe era esquisitamente voluptuosa, voltara-se para Chiru:
- Apresento-te a minha nova sobrinha. Que achas dela?
O outro noo hesitara:
- Um peixo!
Pouco depois, puxando Rodrigo para um canto, murmurou: - Sobrinha, hein; magano? Com essa parte de tio o que tu queres  apalpar a alemzinha .. .
Rodrigo lanara um olhar rancoroso para o amigo. Aquele porcalho do Chiru s pensava em imoralidade. No compreendia que pudesse existir entre homem e mulher um 
sentimento de pura, desinteressada amizade. Ora, ele gostava de Toni do mesmo modo que gostava do Hino ao Sol, ou do cu do Angico ao entardecer. No fundo, entretanto, 
sabia que a coisa noo era bem assim, pois sempre achava difcil esquecer que Toni Weber afinal de contas era uma mulher.- Quando mirava aqueles olhos de gua-marinha, 
ficava lrico, tinha vontade de escrever poemas. A boca da criatura, entretanto, no o convidava a pensamentos puros: tinha lbios polpudos, palpitantes, dum vermelho 
vivo e mido. Diante desse contraste, quanta confuso de sentimentos? Bom - conclua ele, noo sem uma pontinha de ironia - Tini  minha sobrinha do nariz para cima 
: do nariz para baixo; noo.
Mas at quando a gua fresca daqueles olhos conseguiria neutralizar o fogo daquela boca? - perguntou a si mesmo, com o
olhar fito na rapariga, esquecido do quarteto, dos circunstantes, de cudo.. .
g
Naquela mesma noite, depois que Flora se retirou para o quarto e Maria Valria terminou a costumeira inspeo de portas e janelas, Rodrigo ficou sentado sozinho 
na sala, a olhar para o Retrato e a lembrar-se da expresso de encantada surpresa que se estampara no rosto de Toni, a primeira vez que vira. o quadro. Meias Gott! 
- balbuciara ela, de mos tranadas. - Meias Gott! Tinhase a impresso de que seu rosto se iluminava,-como se a tela irra- diasse luz. Comine c"est beau, moas Dieu, 
comine c"est beau! Disse estas palavras baixinho, como para si mesma, indiferente s outras pessoas em derredor. Que era que Fraulen Weber achava belo? O quadro 
ou o homem?
Rodrigo aspirou o ar com fora, na esperana de que andasse ainda no ambiente um pouco do perfume de Toni, aquela morna fragrncia de carne moa recendente a sabonete 
de alfazema.
Cerrou os olhos e fitou a fumar e a ruminar o prazer, o doce choque daquele momento do sero em que - estando os outros a conversar animadamente - ele surpreendera 
Toni a contempl-lo de seu canto com um olhar Comprido e cheio dum amoroso interesse. Embora aquele encontro de olhares tivesse durado apenas uma frao de segundo, 
fora o suficiente para dar-lhe um arrepio e acelerar-lhe o ritmo do sangue.
Por que no? - perguntou em voz alta, erguendo-se e pondo-se a caminhar dum lado para outro na sala deserta. Aproximara-se do piano, bateu distrado numa tecla, 
cornou a olhar para o Retrato e quedou-se num dilogo mental com o Outro.
Qual  a tua opinio:
Tudo pode acontecer.
Mas no ser bom parar enquanto  tempo?
Agora  tarde.
Eu sei .. .
Desde o princpio sabias que um dia havia de ser carde, mas quiseste criar o inevitvel.
Acho que ela gosta de mim.
E de mim tambm.
Ah, mas tu ests preso nessa tela, s de tinta, ao passo que eu aou de carne e osso e nervos!
Era bom estar vivo, brincar com fogo, embriagar-se com aquela vertiginosa sensao de perigo prximo.
Acercou-se do gramofone. No. No toco. E tarde, os ou-
#516        O RETRATO

tros esto dormindo. Depois, no convm desmanchar a impresso do quarteto .. .
Ficou de cabea alada a seguir a fumaa que subia do cigarro,
- tentando rememorar trechos da msica. Era engraado: podia lembrar-se, com uma clareza cristalina, das melodias que ouvia. no entanto jamais conseguia reproduzi-las 
assobiando ou :antarolando. Aquele quarteto de Mozart - areo, inocente, matinal - podia bem ser uma descrio musical de Toni Weber. Mas at onde iria a inocncia 
da criaturinha?
Tornou a sentar-se e a tranar as pernas, preparando-se para um dilogo consigo mesmo.
Sabia que Toni tinha vinte anos. Eram as tranas que lhe davam a aparncia de menininha, e era esse ar infantil que o fazia sentir-se um pouco pervertido, at rt~esmo 
incestuoso, toda a vez que sentia por ela desejo fsico. Por que  que noo faz outro penteado? Mas que  que o penteado tem -a ver com o que en sinto por ela ou 
com o que ela possa sentir por mim? Mas que ser que Toni sente por mim? E eu por ela? Que absurdo - concluiu, sem muita convico - estar eu, um homem de quase 
trinta anos, casado e pai de dois filhos, a preocupar-se com uma mocinha de vinte, solteira e provavelmente virgem!
Levou o cigarro  boca e imediatamente em pensamento viu Toni com os lbios pregueados em torno do bocal do obo. Por alguns instantes ficou o imaginar que tinha 
a rapariga nos braos
-        lhe beijava sofregamente a boca.
Que diabo! Se um homem noo goza de toda a liberdade no reino da imaginao, onde  que vai gozar? No h de ser nesse mundo de mexericos e mesquinhezas das Esmeraldas, 
dos Cucas e dos Zagos - concluiu, indignado j ao pensar no que poderiam estar murmurando na cidade a respeito de suas relaes com Fraulein Weber.
Por alguns instantes soou-lhe na mente a voz de Toni, que noo tinha nada de extraordinrio, a noo ser o fato de sair daquela boca. Recordou a conversa que tivera 
com ela no dia em que lhe mostrara, orgulhoso, sua biblioteca, com as obras completas de Flaubert. Balzac, Victor Hugo, Renan ... Diante do armrio de livros, lera-lhe 
em surdina um trecho do Chantecler.
- Jaime bien Rostand - disse-lhe Toni. - Mas ele me parece nm poeta menor, apenas hbil, brilhante, agradvel. Corresponde em msica a Tchaikovsky ou Lizst. O mundo 
poderia passar perfeitamente sem Rostand i.izst, mas duvido que fosse
-        mesmo se nunca houvesse nascido um Goethe ou um Bach.
Essas palavras, ditas por uma menina de .tranas com laarotes de fitas azuis, haviam-no deixado no apenas surpreendido, maa tambm desconcertado, pois elas como 
que o derrubavam inespera
A SOMBRA DO ANJO        517

damente do pedestal de paterna superioridade em que ele se colocara perante a jovem austraca.
Relembrando agora a cena, Rodrigo sorria. Toni era a Europa. No tinha apenas vinte anos, mas dois mil, ao passo que ali no Rio Grande, em matria de arte e cultura, 
estava-se ainda numa espcie de idade da pedra lascada.
Ergueu-se, apagou a luz, subiu para o quarto, despiu-se, enfiou o pijama e deitou-se sem fazer rudo ao lado de Flora, que lhe pareceu adormecida. Apagou a lmpada, 
sobre a mesinha -decabeceira, e ficou de olhos abertos, a pensar. Estava sem sono, inquieto, com um peso no estmago. Decerto comera demais. Psse a apalpar o peito, 
o ventre, os braos. Comeava j a engordar. Era preciso cuidar da dieta, abolir a feijoada, o talharim, os doces, a cerveja... Entre o que ele era hoje e o Rodrigo 
do Retrato havia j algumas diferenas de volume visveis a olho nu. Era o diabo .. .
No sou nenhum vaidoso, mas - bolas! - ningum quer parecer ridculo aos olhos alheios nem aos prprios. Gordura  uma coisa grotesca. Olhem s o indecente do Chiru, 
a imagem viva de Dom Joo VI. E o Cel. Cacique, ndio como um capo cevado .. .
Flora estava deitada de lado, com as costas voltadas para ele. Rodrigo enlaou-a e f-la voltar-se.
- Estavas dormindo, meu bem?
- Dei uma cochilada - bocejou ela. - Que horas so?
- Pouco mais de meia-noite.
- Perdeste o sono?
- Acho que sim.
Rodrigo beijou-lhe os lbios com um ardor que noo deixava dvida quanto s suas intenes.
- Vamos dormir - resmungou ela.
- Pra dormir no falta tempo.
- Mas  to tarde, querido!
Procurou desvencilhar-se mas noo conseguiu. Soltou um suspiro.
- Tu s um homem impossvel. Quando queres uma coisa, queres mesmo.
E noo lhe ofereceu mais nenhuma resistncia.
Nos momentos que se seguiram Rodrigo no pde nem quis afastar da mente a imagem de Toni Weber.
#518        O RETRATO
9
Rodrigo e Flora iam agora com mais freqncia ao cinema e achavam, como de resto quase todos os freqentadores do Santa Ceclia, que os seus programas andavam muito 
mais interessantes, graas ao acompanhamento musical. A Philarmonische Familie ordinariamente iniciava o espetculo com ouvertures de Von Supp, Offenbach, Strauss 
e at Wagner. As msicas eram escolhidas de acordo com a natureza do filme: marchas e dobrados para os naturais; galopes frenticos e polcas ou mazurcas saltitantes 
para as fitas cmicas; valsas lentas, fantasias ou trechos de pera para os dramas.
Numa daquelas primeiras noites de junho, o Santa Ceclia exibiu um capolavoro de Cines, cuja protagonista era Francesca Bertini. Herr Weber, com uma honestidade 
profissional que impressionara a populao de Santa F, exigira que Podalrio lhe passasse o filme  tarde, numa sesso especial, a fim de que ele pudesse escolher 
as msicas adequadas ao acompanhamento de suas diversas cenas. Foi por isso que  noite os espectadores puderam assistir  longa agonia final da personagem encarnada 
pela grande Bertini ao som da marcha fnebre de Chopin.
De seu camarote, Rodrigo com freqncia desviava o olhar da tela para foc-lo no vulto de Toni, que l estava ao p da tela, metida no seu casaco de l azul-marinho, 
fazendo gemer seu instrumento. A menina lhe dava s vezes uma to comovedora impresso de fragilidade e desamparo, que ele se sentia invadido pelo desejo de tom-la 
sob sua proteo e traz-la para casa como uma filha (ou como uma amante, patife?) . Imaginava o que podia estar-se passando naquela alminha exilada. Ficava enternecido 
ao pensar em que, tendo nascido e crescido em Viena, ela pudesse estar agora, naquela noite de fins de outono, a esfregar o arco nas cordas do violoncelo no cineminha 
do Podalrio. Achava aquilo tudo ao mesmo tempo belo, triste e improvvel, principalmente improvvel... E no instante mesmo em que pensava essas coisas, a imagem 
do pai se lhe desenhou na mente e lhe gritou com a habitual aspereza: "Deixe de fita!"
Que iria o velho dizer quando soubesse das coisas que ele, Rodrigo, fizera pela Famlia Filarmnica? No tardou a saber, pois Licurgo chegou d Angico d-;, dias 
depois e, tendo sido informado por Flora da situao dos Weber, comentou:
- Esse rapaz nem trata de saber direito quem so as pessoas. Vai logo botando qualquer estrangeiro pra dentro de casa.
Quem era aquela gente? - perguntava. - De onde tinha
A SOMBRA DO ANJO        519

vindo? Podiam ser pessoas de bem mas podiam ser tambm uma pandilha de vigaristas. Conhecia casos...
Quando Flora lhe transmitiu esses comentrios, Rodrigo sorriu sem surpresa, pois era exatamente essa a reao que esperava do velho. Licurgo Cambar, como todo o 
homem do campo, tinha para com o estrangeiro uma invencvel desconfiana, temperada de m vontade.
Quando, certa noite, os Weber chegaram ao Sobrado trazendo seus instrumentos, cantarolando e rindo, na expectativa dum alegre sero, Licurgo retirou-se ostensivamente 
para o quarto, recusando-se a ser apresentado aos "lambotes". No dia seguinte voltou para o Angico, mas no sem antes ter dito  nora:
- Seu marido nasceu para miliardrio. Se continua gastando desse jeito, ainda vai acabar sem um vintm pra fazer cantar um cego.
Maria Valria repetiu estas palavras ao afilhado.
- E a senhora acha que o papai tem razo?
- Acho.
- Pois eu noo. Mais vale um gosto que trs vintns.
Rodrigo ainda no conseguira saber ao certo o qu a Dinda pensava dos Weber, aos quais ela se obstinava em chamar "os polacos". Raramente aparecia na sala quando 
os austracos visitavam o Sobrado. Uma noite Rodrigo surpreendeu-a a fazer uma simpatia para as visitas irem embora: estava atrs duma porta virando uma vassoura.
Foi tambm por aqueles dias que Flora se queixou ao marido de que os seres j comeavam a cans-la. Estava muito bem que os Weber aparecessem de vez em quando, 
mas trs ou quatro noites por semana, em horas e dias certos, era positivamente uma coisa aborrecida. A casa no parava mais limpa, as despesas de armazm aumentavam. 
Depois, as crianas estavam ficando mal-acostumadas, pois Frau Weber e D. Santuzza tinham o hbito de acordlas e tir-las da cama tarde da noite, trazendo-as para 
baixo e excitando-as de tal forma, que depois era um caro custo faz-las adormecer de novo. Alm do mais, comia-se, bebia-se, cantava-se e fazia-se tanto barulho 
naqueles seres, que o povo at podia falar .. .
Nesse ponto Rodrigo atalhos a mulher com certa aspereza:
- No me interessa o que o povo possa pensar ou dizer. A casa  minha e quem manda aqui dentro sou eul
Flora fitou nele os olhos_ espantados.
- Mas Rodrigo .. .
- Est bem. Vou dizer ao Cel. Jairo, ao Padre Astolfo, aos Carbone, aos Weber e aos outros amigos que noo venham mais 
#52O        O RETRATO

minha casa porque a minha mulher no quer mais saber de reunies. )r isso que queres que eu faa ?
Flora cobriu o rosto com as mos, desatou a chorar e saiu da sala precipitadamente, subindo para o quarto. Por alguns instantes Rodrigo ficou onde estava, os msculos 
da face tensos, a respirao lenta e funda, um caloro no corpo todo. Estavam bem arranjados se fossem dar ouvidos  boca do povo. Havia de ter graa que o Zago 
ou a Esmeralda Dias passassem a governar o Sobrado. O que acontecia - ah 1 isso ele via agora com clareza - era que Flora comeava a ter cimes de Toni ... Ficou 
a andar dum lado para o outro, as mos nos bolsos, os olhos no soalho. Os soluos da mulher continuavam em seus ouvidos. Coitadinhal No estava habituada a ser tratada 
com rispidez. Ele simplesmente perdera a tramontana, portara-se como um cavalo.
Olhou para o Retrato, viu-se todo de negro, de colete claro, plastro carmesim, bengala e cartola - um dandy, um gentilhomem, um perfeito cavalheira. No entanto 
tratara a esposa como um brutamontes ... Aos poucos foi se sentindo invadido por uma fria vergonha. Precipitou-se para a escada, galgou os degraus quase a correr 
e entrou no quarto de dormir. Flora estava deitada de bruos, o rosto metido no travesseiro, o corpo convulsionado de soluos. Rodrigo sentou-se na cama e ps-se 
a acariciar os cabelos da esposa, murmurando:
- Me perdoa, meu amor, fui um bruto, um animal... Olha, meu bem estou arrependido. Quem tem razo s tu. Vamos acabar com esses seres e viver a nossa vidinha. 
No precisamos de estranhos para sermos felizes.
Os soluos continuavam, cada vez mais fortes.
- Que  isso. minha flor? Escute, olhe pro seu maridinho.. . Magoava-o ver a mulher chorando e essa mgoa era agravada
pela idia de que fora ele o causador do pranto. Orgulhava-se de
ser um marido atencioso, delicado e terno. Agora se sentia dimi
nudo ante os olhos dela e os seus prprios. - Meu bem, escuta .. .
Inclinou-se, beijou os cabelos, as faces, as mos de Flora e depois, como os soluos dela noo cessassem; encostou as prprias faces no travesseiro e, j com lgrimas 
nos olhos e a voz alterada. ficou a ciciar-lhe ao ouvido as mais apaixonadas juras de amor.
CAPITULO V
1
EM MUITAS daquelas tardinhas de junho, com um prenncio de inverno no ar, Rodrgo levou os Weber de automvel  coxilha do cemitrio, para que de l eles pudessem 
contemplar os .fabulosos crepsculos daquele fim de outono. Frau Weber soltava exclamaes de espanto ante os cambiantes do cu. Herr Weber exprimia sua admirao 
num movimento repetido de cabea: ficava como um boneco de mola a fazer que sim, que sim, que sm ... No rosto de Wolfgang, cuja personalidade Rodrigo achava cada 
vez mais inescrutvel, havia uma expresso indefinvel que ora parecia tristeza ora mal contida revolta. Toni quedava-se numa contemplao muda, exttica e ofegante 
do horizonte. Nessas ocasies Rodrigo portava-se com um alvoroo cheio de orgulho. - "Olhem s aquele verde por baixo da nuvem cor-de-rosa .... J viram coisa igual?" 
- como se fsse o proprietrio ou o autor mesmo daqueles poentes.
Voltavam para a cidade quando Vnus j brilhava num cu em que havia muito da tonalidade e da transparncia dos olhos de Toni. A presena da rapariga no automvel 
a seu lado, a paz do anoitecer, o aroma de folhas secas queimadas a evolar-se das fogueiras que meninos acendiam nas ruas suburbanas - tudo isso lhe dava uma sensao 
de profunda felicidade na qual existia um insituvel elemento de inquetao. No raro, ao entrar em casa de volta duma dessas excurses - o corpo e o esprito amolentados 
por uma languidez quase triste, cortada de longe em longe por calafrios - ele chegava a se perguntar se no estaria doente. Olhava-se no espelho longamente, examinava 
a lngua, tomava a prpria temperatura .. .
r-,_ Passava agora os dias a pensar em Toni. Nas noites em que os Weber noo vinham ao Sobrado, ficava infeliz e,  medida que os minutos se escoavam, essa sensao 
de infelicidade se ia transformando em impacincia e era pouca ou nenhuma a ateno quc prestava s palavras do Cel. Jairo e do Padre Astolfo, os quais, como de 
costume, se entregavam a interminveis discusses sobre
#522        O RETRATO

Dens, Religio, tica, Moral e Histria. A cada rudo de passos na calada, a cada batida na porta, o corao de Rodrigo disparava, na esperana de ver entrar Toni.
s vezes, quando passava mais de um dia sem v-la, inventava pretextos para ir  meia-gua de janelas azuis. Levava presentes  moa - livros, bombons, perfumes 
- procurando fazer isso tudo com um ar desinteressado de parente mais velho, temeroso de que os pais de Toni interpretassem mal suas intenes. Mas quais eram, afinal 
de contas, suas intenes? Nem ele prprio sabia ao certo. Por mais que se esforasse (e para falar a verdade nunca se esforava muito) ao analisar os prprios sentimentos 
e propsitos, no conseguia ver claro neles. Duma coisa estava convencido e quanto a isso noo tinha a menor dvida, pois era algo que sentia na carne, nos nervos 
: gostava de Toni, necessitava de sua presena e quando a tinha perto de si, o desejo de toc-la, de abra-la, de beij-la era to intenso, que chegava quase a 
doer fisicamente. Disso ele tinha certeza; quanto ao resto... Mas, ,que era o resto? Possu-la? Descobrir se ela o amava? No podia esperar que Toni pudesse levar 
muito longe aquele interesse por ele, um homem casado, pai de dois filhos. No podia esperar mas esperava. Mais duma vez surpreendera a rapariga a mir-lo dum modo 
que no deixava dvidas. Duma feita, estando os dois lado a lado no auto, sua mo tocara de leve a dela. Nesse momento os olhos de ambos se encontraram e ele lera 
nos de Toni tudo quanto desejava saber. Ela retirara a mo, sim, desviara o olhar, mas ficara toda perturbada, o rosto afogueado, os lbios trmulos.
Que iria acontecer agora? Sus sentimentos para com Fraulein Weber eram de tal natureza que ele j achava difcil escond-los aos olhos dos outros. Havia instantes 
em que chegava a lamentar que o destino houvesse trazido para Santa F a Philarmonische Familie. Essas ocasies, porm, eram raras, e, quando vinham, breves. Na 
maioria das vezes ele se enchia dum furioso orgulho e resolvia no renunciar a Toni, enfrentar todos os perigos, arcar com todas as conseqncias .. .
2
Era um dos primeiros seres de inverno no Sobrado (o frio chegara sbito, no dia anterior, com nuvens cor de chumbo e uma garoa gelada) e Laurinda trouxera para 
a sala uma grande panela cheia de pinhes cozidos, que os Weber por insistncia de Rodrigo comearam a provar com desconfiada caute:~, mas depois acabaram comendo 
com gosto.
Torbio, que chegara inesperadamente do Angico aquele en
tardecer para mostrar a Rodrigo a ferida inflamada que tinha no
antebrao direito, passou o sero inteiro escarrapachado numa ca
deira de balano a cocar Toni com olhinhos cheios duma curiosi
dade lbrica. Rodrigo percebeu tudo e ficou contrariado. No se
mostrou muito cordial para com o irmo quando, no dia seguinte
pela manh, o levou ao consultrio para o primeiro curativo. Exa
minou a ferida, limpou-a com um algodo embebido em gua oxi
genada, fez-lhe algumas perguntas profissionais e depois continuou
a trabalhar em silncio. Foi Bio quem falou primeiro:
- Eu no te disse que no devias casar?
Rodrigo ergueu os olhos mas no respondeu. Pressentindo
aonde o outro queria chegar, fazia-se de desentendido. Depois de
pequena pausa, disse:
- Me casei e me sinto perfeitamente feliz. - Vai ver se eu estou ali na esquina .. . - Que besteira  essa?
- Pensas que eu no sei que andas querendo dormir com a
alemzinha?
- Bio!
- Te conheo das casas velhas .. .
Rodrigo quis protestar, zangar-se, dizer um palavro, mas
achou melhor noo continuar fingindo.
- Como foi que descobriste?
- Ora, mal ela entrou, eu vi tudo.
- No admira. No tiraste os olhos de cima da menina a
noite inteira.
- U, eu tambm gosto do que  bom.
Rodrigo achava vagamente sacrlego estarem afalar de Toni
naqueles termos.
- A moa no  o que tu ests pensando. - Eu no estou pensando nada.
Rodrigo apanhou um vidro de iodo e uma pina.
- Ento a coisa d muito na vista? - perguntou, com um
falso sorriso.
- S noo v quem  cego. Ouve o que te digo. A Flora
no  cega. Mulher enxerga longe .. .
- E que  que achas dessa coisa toda?
- Acho que o negcio  muito perigoso. Pode no dar certo. - Viraste moralista?
- Va-te pro diabo! Tu sabes que sou amigo da Flora, e
noo quero que ela sofra com essa histria. - Que queres ento que eu faa? - Acaba com isso. - No posso.
A SOMBRA DO ANJO        523
#524        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        525
- J dormiste com a guria ?
Rodrigo encarou Bio, disposto a protestar contra a grosseria da pergunta, mas a expresso do rosto do irmo desarmou-o. Tinham demasiados pecados em comum e conheciam-se 
demais para guardarem segredos um do outro.
- Ainda no.
- Pois ento desiste enquanto  tempo. - Agora  tarde.
Impaciente, Rodrigo mergulhou no vidro de iodo a pina com as pontas envltas em algodo.
- No te encomendei sermo...
- J pensaste em tudo que pode acontecer? - J.
- Ests disposto a agentar todas as conseqncias?
- Quem tem medo de barulho no amarra porongo nos tentos.
- Est bem. Estou s te prevenindo .. . Rodrigo baixou os olhos.
- Cuidado, que vai arder um pouco.
- Traca fogo. Tenho o couro grosso. Rodrigo pincelou de iodo a carne viva.
- Pensa tambm no velho ... - acrescentou Bio, enquanto
O outro lhe soprava a ferida.
- Sou maior de idade e papai no  nenhum santo.
- Te lembra ao menos das crianas.
- Ora, Bio! Ests fazendo drama quando noo h nenhum.
drama.
- No h mas pode haver.
- Pois que haja. Chegaste tarde com o teu sermo. Agora ningum me ataca mais. Nem o Papa.
- Puxa! Ento a coisa  sria mesmo?
Rodrigo deu de ombros. Admitir que estava apaixonado era de certo modo ficar numa situao inferior. Negar seria absurdo. O Bio que pensasse o que quisesse!
Cobriu aferida com uma pomada, ps-lhe em cima uma gau e depois envolveu-a com uma atadura. Por alguns instantes ficaram ambos calados.
- Quando voltas para o Angico?
- Achas que -posso ir embora amanh?
- Se  pela, ferida, podes. Lava todos os dias com gua. oxi
genada e depois bota essa pomada. Numa semana isso est seco. Bio meteu o pote no bolso. Ao sair do consultrio, aplicou
uma palmada nas costas do irmo.
- No tens mais cura - disse.
E se foi, rindo.        ~,,
3
Em princpios de julho, numa tarde em que soprava o minuano, Cuca Lopes entrou afobado no consultrio da Farmcia Popular, encolhido dentro dum sobretudo seboso, 
o pescoo envolto numa manta de l cor de vinho, que lhe tapava completamente a boca e parte do nariz.
- Pomba, que vento! - exclamou, com olhos lacrimejantes, desenrolando a manta.
- Ento Cuca - perguntou Rodrigo - qual  a ltima?
Por alguns segundos fcou apreensivo, temendo que a "ltima" fosse algum mexerico da cidade em torno de suas relaes com Toni VJeber. Preparou-se para o pior.
O outro aproximou-se do ureau, esfregando as mos.
- O Irmo Jacques tirou a batina e pediu a Doralice Fagundes em casamento! O Cel. Cacique fcou fulo, quase botou o padre pra fora de casa a rabo de tatu. A moa 
disse que vai tomar lisol. O marista anda por a feito louco. Est um angu danado.
- Isso tudo no ser inveno tua, Cuca?
- Por esta luz que me alumia... Eu vi o padre nd"ago- rinha  paisana!
Poucos minutos depois que Cuca Lopes se foi, Jacques Meunier procurou Rodrigo, contou-lhe seu drama e suplicou-lhe fizesse as vezes de juiz de paz: convencesse o 
velho Cacique a concordar com o casamento, para evitar que a histria tivesse um desenlace fatal.
- Por que no me quer para genro? Porque fui marista? Mas  tilue sou um homem como os outros, de carne e osso!
Dizendo isso apalpava o corpo, procurando dar provas anatmicas de sua masculinidade. Rodrigo mirava-o com olho. curioso. Estava j to habituado a ver o homem dentro 
duma sotaina negra, que no podia deixar de ach-lo grotesco naqula fatiota cinzenta mal cortada.
- Diga ao coronel qut se ele continuar irredutvel na sua conduta, eu tiro a Doralice de casa.
- E o velho provavelmente lhe meter cinco balas no corpo.
O rosto do ex-marista endureceu. Como nica resposta, tiru do bolso traseiro das calas um revlver de cabo de madreprola e mostrou-o.
- S se ele for mais ligeiro que eu!
Rodrigo ficou surpreendido. Era-lhe difcil acreditar que aquele sujeito agitado e resoluto que tinha agora na sua frente era o tmido irmo marista que, havia pouco 
mais de cinco anos, lhe oferecera candidamente uma banana no trem de Santa Maria .. .
#526        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        527
- Ggarde o seu revlver, Irmo... perdo!... professor. Vou falar com o Cel. Cacique. Se eu no lhe trouxer o consentimento do homem, no me chamo mais Rodrigo Cambar. 
Pode ir preparando o enxoval.
- Evite a tragdia, doutor.
- No haver tragdia, fique descansado.
Apertaram-se as mos  porta da farmcia. Gabriel olhava
para o ex-marista com olhos cheios de espanto.
- Ento, como vai o Sport Club Charrua? - gritou Ro
drigo, para dar  palestra um fecho menos dramtico.
O rosto de Jacques Meunier iluminou-se de sbito, num largo
sorriso juvenil.
- Vamos dar uma sova no Avante no prximo domingo - respondeu ele. - Uns quatro a zero no mnimo.
E se foi rua em fora, segurando a aba do chapu para o vento. no arrebat-l~o.
Rodrigo voltou para o consultrio coando a cabea e murmurando para si mesmo: Neste mundo tudo pode acontecer. Eu j no duvido de mais nada.
Quem, entretanto, lhe proporcionou a maior surpresa do dia foi o prpria Cacique Fagundes, que ele visitou aquela mesma tarde. Esperava v-lo sombrio ou irritado, 
mas encontrou-o sorridente, na melhor disposio de esprito imaginvel.
- Abanque-se. Mas que milagre  esse... visitando os pobres ?
Rodrigo sentou-se, srio, e foi direito ao assunto. Usou da. melhor dialtica de que era capaz e daquele ar entre carinhoso e paternalmente autoritrio que. assumia 
com tanto sucesso  cabeceira dos doentes. Dissertou sobre a ordem dos Maristas, sobre a falibilidade humana e as qualidades pessoais de Jacques Meunier. Que diabo! 
Os dois jovens amavam-se, eram sadios e livres e queriam unir-se em matrimnio perante Deus e os homens. Haveria coisa mais natural, mais humana, mais bela? O Cel. 
Cacique escutou-o num silncio pachorrento, as mos tranadas sobre o ventre, os olhinhos entrecerrados e um risinho enigmtico a encrespar-lhe os lbios gretados 
pelo frio. Quando Ooutro se calou, ele soltou um suspiro que foi quase um ronco,. e disse:
- Mas acontece que essa histria est resolvida. No faz nem uma hora que dei o meu consentimento pra esse casrio.
- Mas como? - estranhou Rodrigo. - No foi isso que me disse h menos de" uma hora o prprio Jacques Meunier!
- Decerto ele ainda noo sabia.  que o Padre Astolfo veio me ver e ficou aqui um tempo, proseando comigo e acabou me convencendo. Me explicou que mane a no  
bem 
padre como os outros e teretet e tal, e que o hon~m tinha tirado a batina na
legalidade e teretet e tal, enfim, foi um verdadeiro sermo. E vassunc compreende, o vigrio fala dum lado, minha patroa fala do outro, a filha l no quarto se 
exclamando e querendo morrer, e as outras meninas me olhando assim como se eu fosse um bandido ... O que eu quero  o meu sossego, e cuidar das minhas vaquinhas 
teretet e tal e enfim quem vai dormir com esse gringo no sou eu,  a Doralice. Dei minha palavra ao vigrio, mas mandei dizer pro moo que a noiva no tem dote. 
E eu s quero ver o que vai sair dessa cruza de estrangeiro de olho azul com cabloca de plo duro.
Rodrigo estava desapontado. Perdera seu latim, pois o Padre Astolfo se lhe antecipara.
Ergueu-se.
- J vai? r muito cedo. Vamos tomar um amargo.
- No, coronel, fica pra outra ocasio. Tenho muito que fazer.
No corredor, a caminho da porta, murmurou:
- Pois eu o felicito pela sbia resoluo. Pode ficar descansado, que sua filha vai casar com um excelente rapaz. E, no tenho dvida, o patife do francs pegou 
o melhor partido de Santa F!
- Fagundes nunca negou fogo.
J  porta, o dono da casa indagou:
- E a poltica? Parece que as coisas esto ficando pretas, no?
- Pretssimas.
- Ainda que mal pergunte, o amigo vai votar no Marechal Hermes?
- No diga isso nem brincando, coronel. J avisei a Jota Prates que noo conte comigo pra propaganda. Se o Marechal foi um desastre na Presidncia da Repblica, 
por 
que noo deixam o homem quieto no seu canto? A troco de que vamos levar essa tiulidade pro Senado? E, depois, o Rio Grande livre est repudiando essa candidato;a 
nposta pelo mandonismo do Pinheiro Machado.
- U! Pensei que o .Senador fosse seu amigo.. .
- L meu amigo, sim, o homem que mais admiro neste pas, mas isso noo quer dizer que en seja seu lacaio.
- Pois , mas o Dr. Borges de Medeiros diz amm a todo quanto o Senador faz. Mandou os republicanos votarem no Marechal, e a carneirada vai obedecer.
- Nem todos, coronel. O partido est cindido. Temos na oposio homens como o Rdmiro Barcelos, o Carlos Barbosa e parece que at o Firmino de Paula. A corada vai 
ser braba.
Cacique fez uma coreu de pessimismo
- E, mas o Marechal vai ganhar outra vez. O Pinheiro
#528        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        529
quando teima  pior qne mola. Este pas est perdido. Precisamos  duma boa revoluo como a de 83.
Rodrigo sorriu.
- Se sair outra revoluo, coronel, acho qne desta vez ns dois vamos ficar do mesmo lado.
O dono da casa coou o gneizo, onde apontava uma barbicha rala de bugre.
- Um filho do Licnrgo Cambar com leno vermelho no
pescoo? Qual, seu Rodrigo! Is~ nem no dia em que as galinhas criarem dentes!


4

Quando, naquela tarde de domingo, Rodrigo viu Toni passar no automvel dos Spielvogel, ao lado de Erwin, pela primeira vez em toda a sua vida sentiu cime - mas 
cime violento, na forma duma sbita sensao de desfalecimento, dum choque fisicamente doloroso. No momento em que o Mercedes cruzava pela frente do Sobrado, Toni 
avistou-o  janela e fez-lhe am aceno alegre. Rodrigo, porm, cerrou o cenho e virou-lhe as costas ostensivamente. Seus olhos deram ento com o Retrato, l na parede 
da sala de visitas, e ele teve a sensao de qne era surpreendido por nm estranho num momento de absoluta nudez espiritual em que ficavam  mostra todas as soas 
fraquezas.
Sentia-se diminudo, logrado, insultado. Ento o qne se murmurava na cidade a respeito de Toni e Erwin era verdade? No havia comadre qne no comentasse, excitada, 
as possibilidades daquele noivado. Ele anata deu adito aos falatrios, mas agora comeava a ter suas dvidas. Dvidas? Qnal! Agora tinha a certeza 1
Era incrvel que uma moa bonita, instruda e inteligente como Toai pudesse achar algum encanto naquele colono boal, sardento e desengonado. Sim, Erwin Spielvogel 
no valia coisa alguma: s tinha estatura fsica.
Se Toni no gosta do rapaz, por que  que anda sozinha com ele de automvel ? Por que vai aos bailes com aquele jeriv ?
Tentou chamar-se  razo. Acontece que ela  livre, solteira, pode andar com qne quiser. Nunca me prometem nada, prometes?
No, mas... e a maneira como me olha? E sua perturbao quando est perto de mim? E os apertos de mo demorados?
Imaginao tua.
Qual! Nunca me engano.
Mas desta vez foste logrado!
Comeou a andar dum lado p n outro. O simples fato de
sentir cime de Erwin Spielvogel dava-lhe uma abjeta sensao de rebaixamento, feria-lhe o orgulho de homem.
Ora, eu me nivelar com aquele alemo analfabeto!
Decerto j se beijaram. Ou dormiram juntos. So do mesmo . sangue, entendem-se. Pois bem. Que se casem; sejam felizes, vo pro diabo!
Acendeu um cigarro, aspirou a fumaa com fora, expeliu-a num sopro cheio de raiva.
Decerto os pais de Toni  que insistem no namoro, vem no Spielvogel um bom partido. ~ natural... A eterna histria.
Ah ! Mas no acredito que. ela se deixe vender. Ora, por que no? No ser a primeira mulher no mundo a casar-se por interesse.
Mas se ela no quer, por que no lhe diz no duma vez por todas? Por que anda com o Erwin em festas e passeios?
Imaginou-se a insultar os Weber, a perguntar-lhes se a filha estava em leilio. Sim, porque se  questo de preo eu pago mais 1
Envergonhava-se, entretanto, desses pensamentos. E de sbito lhe veio uma grande ternura pela rapariga, um desejo protetor de estreit-la ao peito, beijar-lhe os 
olhos, as faces, a boca. E atravs da ternura e de todos esses desejos, o sentimento de cimes perdurava.
Passou a tarde e a noite irritado. E no dia seguinte a irritao se agravou ao chegar-lhe aos ouvidos a notcia de que Toni havia partido em companhia dos pais para 
Nova Pomernia, onde tomaria parte num Kerb. Rodrigo conhecia bem aqulas farras que duravam s vezes trs dias e trs noites. O que se bebia de cerveja! O que se 
comia! O que se cantava! O que se danava! Toni estaria no meio daqueles rudes colonos - ela, que lia Goethe e tocava Bach - Toni, a sua Toni de olhos de gua-marinha. 
Cantaria com os outros o Deutschland ber alles, e beberia  vitria das foras do Kaiser .. .
Bem-feito! Vives te iludindo com as pessoas.
Mas no. Tudo isso deve ter uma explicao. Tira a coisa a limpo!
Como?
Fala com ela. Fala claro. Abre. o corao:
No desci a tnto. Um homem tem o seu amor-prprio.
Ento trata Toni como ela merece: despreza-a.
E o que vou fazer. A primeira vez que ela entrar nesta casa encontrar em mim nm estranho. Est tudo acabado.
Ficou perturbado quando descobriu Maria Valria parada junto da porta, a mir-lo com seu olhar verrumante.
- U - fez ela. - Agora deu at pra falar sozinho?
#53O        O RETRATO

- Falo e noo  da conta de ningum. - Maroto!
5
No viu Toni no dia seguinte nem durante o resto daquela semana chuvosa e fria em que seu estado de esprito oscilou entre uma melancolia depressiva - que o levava 
a ficar sentado ou deitado numa sonolncia estpida - e uma irritao nervosa, que o tornava impaciente com tudo e com todos.
J no pensava mais em humilhar Toni, em feri-la com mostras de indiferena. O que queria agora era simplesmente tornar a v-la, t-la a seu lado. Esse desejo se 
lhe estava tornando uma idia fixa, uma espcie de doena que nem por szr crnica perdia o carter agudo. s vezes, quando os filhos se aproximavam e tentavam subir-lhe 
pelas pernas, gritava
- Flora, tira estas crianas daqui! Que diabo! Um cristo no pode ficar em paz nem na sua prpria casa?
Certa ocasio, exasperado por uma travessura de Floriano, pela primeira vez bateu no filho: uma palmada seca nas mozinhas. A criana desatou num choro sentido e 
Rodrigo, imediatamente arrependido, ergueu-a nos braos, apertou-a contra o peito, beijou-lhe as faces, murmurando palavras de conforto. Como o menino continuasse 
sacudido de soluos apaixonados, ele se comoveu tambm at as lgrimas e prometeu a si mesmo que dali por diante trataria de dominar-se, vencer aquela irritao 
que o estava transformando num sujeito azedo e intratvel.
Notava que Flora havia algum tempo estranhava sua atitude, embora jamais a comentasse. Andava tristonha e meio arisca. Passava fechada no quarto horas inteiras, 
ao rabo das quais saa. plida, os olhos vermelhos e inchados.
Uma tarde de chuva, percebendo que a mulher estivera a chorar, Rodrigo tomou-a nos braos, perturbado por um sentimento de culpa, beijou-lhe os cabelos, a testa, 
os olhos, sussurrando-lhe ao ouvido palavras carinhosas e penitenciando-se de seu comportamento. Explicou que estava sofrendo de surmenage e que ia fazer um tratamento 
de fosfatos. Talvez o melhor fosse irem todos passar uma semana no Angico e "tudo, meu amor, tudo dentro de pouco vai voltar  normalidade". Sorriu e pediu um sorriso 
 mulher. Flora, porm, mirava-o com seus olhos escuros e srios, o rosto anuviado por uma expresso de constrangida tristeza. E seus lbios se recusavam a sorrir.
A chuva contnnava a cair fina e mansa. Fazia quase uma semana que os Weber noo apareciam no Sobrado. Onde estaria
A SOMBRA DO ANJO        531

Toni? - pensou Rodrigo aquela mesma tarde no consultrio, vendo da janela o chuvisqueiro cair tristemente sobre as rvores da praa. Por onde andar essa ingrata? 
- murmurou, encostando a testa no vidro que seu hlito embaciava.
Num impulso calou as galochas, vestiu o impermevel, ps o chapu e saiu. Achou agradvel o contato gelado da garoa no rosto escaldante. Seus passos o levavam para 
a Rua do Poncho Verde. O que ia fazer era tolo, juvenil, ridculo, indigno dum homem de sua idade, de sua posio. Podia dobrar a esquina e tomar outro rumo, ir 
direito ao clube, entrar numa roda" de pquer ou ficar bebendo um conhaque com o Saturnino._ No entanto aproximava-se cada vez mais da .casa tios Webr. Ou via Toni 
ou estourava. L estava a meia-gua caiada, triste sob o cu enfumaado. Aproximou-se da casa com o corao aos pulos e uma ardncia na garganta. Bateu  porta, 
uma, duas, ~ trs vezes, primeiro em pancadas curtas e fracas, depois repetidamente, com fora. Fez uma pausa. A porta continuou .fechada. Tornou a bater. Um vizinho 
apareceu  janela de seu chal e gritou: "No tem ningum em casa, doutor. Os Weber foram tocar numa festa na colnia." Sem ao menos agradecer pela informao, Rodrigo 
fez meia volta, com a desnorteante sensao de ter sido pilhado no momento em que tentava arrombar uma casa para roubar. Voltou sobre seus passos, com um sentimento 
de malogro, entrou na farmcia, casmurro, sentou-se numa cadeira e, ficou - a olhar para o cartaz colorido em que havia um pescador de suas com um bacalhau s 
costas. Santuzza Carbone aproximou-se dele com um papel na mo. Era a conta do armazm. Queria saber se o doutor no achava que deviam mudar de fornecedor, porque 
os preos .. .
Atalhou-a, brusco:
- A senhora faa o que entender e o que fizer estar muito bem-feito.
O Dr. Carbone passou de avental branco, a caminho da sala, de operaes. Fez um gesto amstoSo:
- Hrnia estrangulada. Quer me ajudar?
- No.
- Ciao, carino!
Rodrigo meteu-se no consultrio, fechou a porta a chave, atirou o chapu sobre a mesa e sentou-se. Toni outra vez em Nova Pomernia! Teria ido com ela o idiota do 
Erwin? Era o que ele desejava ardentemente saber. Pensou em telefonar para a firma Spielvogel e chamar Erwin sob qualquer pretexto, a fim de verificar se ele estava 
on no na cidade. Oh! Mas isso era dum ridculo de matar! Sentiu-se mais uma vez ferido no seu orgulho de macho. E essa ferida ardia, sangrava e, como Toni fosse 
a causa
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A SOMBRA DO ANJO        5 33
de tudo, odiou-a. Mas nem por isso desejou com menos urg v-la.
6
Esperou com ansiedade a festa de aniversrio de Flora, para s qual os Weber haviam sido convidados.
Pouco antes das oito horas comearam a chegar os convidados Chru Mena, que como de costume deixara a esposa em casa ("coitada da Norata sempre envolvida com os 
guris") apareceA enfarpelado na roupa do casamento, trazendo pelo brao pia Vanja apertadinha num vestido de rendo preto que cheirava a ba velho.
O Padre Astolfo entrou em companhia do Cel. Jairo, cuja esposa, havia algumas semanas, tinha partido para o Rio de Ja-, neiro, fugindo a mais um inverno gacho. 
Liroca infiltrou-se no Sobrado  sua maneira discreta, e s muito tempo depois de comeado o sero  que Rodrigo, surpreso, deu com ele num canto dv escritrio a 
picar fumo. Ao contrrio de Jos Lrio, os Carbono irromperam rYidosamente, distribuindo abraos e beijos e enchendo de presentes os braos de Flora.
Aderbal Quadros, que chegara do Sutil aquela tarde com a mulher, envergava uma roupa de casimira preta e tinha os ps apertados em botinas de elstico: trazia ao 
pescoo um leno branco de seda. pois "s depois de morto  que me botam colarinho duro". Andava dum lado para outro nas salas a pitar seu cigaro de palha.
Sobraando os estojos dos instrumentos, os Weber entraram pouco depois, envoltos numa aura de alfazema e naftalina. Rodrigo recebeu-os no vestbulo com uma clida 
cordialidade. Frau Weber beijou-lhe ambas as faces. Herr Weber apertou-lhe a mo, sacudindo-a repetidamente, os olhos claros cheios dessa expresso vazia de quem 
noo sabe com quem est falando. Rodrigo noo prestou a menor ateno ao que Wolfgang lhe disse no momento de cumpriment-lo, porque seus olhos estavam j postos 
em 
Toni, que recostava o estojo do violoncelo contra o consolo.
Mas seria mesmo Toni quem ali estava a olhar furtivamente para o espelho e a umedecer faceiramente os lbios com a ponta da lngua? Rodrigo franziu a testa. Achava-a 
mais alta, mais adulta, mais mulher, e isto no s o surpreendia como tambm lhe aumentava o desejo de possu-la. Que se passara com Fraulein Weber? Ah! Cortara 
as tranas, penteara o cabelo em bands, calava sapatos de salto alto...
Caminhou para ela de braos estendidos, tomou-lhe de ambas as mos e beijou-as num doce estonteamento. E no momento em
que a ajudava a tirar o casaco, apertou por alguns segundos os ombros dela, aspirou-lhe a fragrncia dos cabelos e murmurou: "Tenho sentido muita falta de ti ... 
"
Toni nada disse. Caminhou para Flora, que naquele instante vinha a seu encontro, e ambas as mulheres apertaram-se as mos.
Rodrigo voltou a cabea e viu a prpria imagem refletida no espelho: a face dum homem de orelhas afogueadas e olhar apaixonado. Ajeitou a gravata num gesto automtico 
e acompanhou o grupo que se dirigia para a sala de visitas.
Abreu duas garrafas de champanha, encheu as taas dos convivas e por fim ergueu a sua:
- Nesta data, precisamente h cento e vinte e seis anos, na cidade de Paris caa a Bastilha, e exatamente nesta data h .. .
Olhou para a mulher e sorriu:
- Posso dizer?... H vinte e cinco anos nascia a Flora. O primeiro acontecimento foi de importncia capital na Histria da Humanidade. O segundo, decisivo na histria 
da minha vida. En poderia citar os nomes de Robespierre, Marat, Danton, Saint-Just e dezenas de outros como os heris do primeiro fato .. .
Olhou para o casal Quadros, que estava sentado no sof e prosseguiu.
- Mas ali esto os dois respnsveis pel segundo acontecimento. 1;  sade de Flora e  deles que eu bebo.
Todos ergueram as taas e beberam. Rodrigo beijou a testa da esposa, em cujas orelhas faiscavam os brincos de brilhante que ele lhe dera aquela manh como presente 
de aniversrio.
7
O relgio de pndulo bateu nove badaladas. O Sobrado estava cheio doma alegre algazarra. Como de costume as mulheres se haviam reunido na sala de visitas; os homens 
tinham ficado no escritrio.
Espremida no sof entre Frau Weber e D. Santuzza, tia Vanja comentava o noivado de Jacques Meunier e Doralice Fagundes.
- Bem como nos romances! Dir-se-ia uma pgina sada duma obra de Gaboriau ou Perez Escrich ... Quem havia de imaginar, no  mesmo? O amor tudo pode e a constncia 
tudo vence. Deus. na sua infinita sabedoria, deve ter compreend;do as neessidades do moo. E de resto, mais vale um bom marido que um mau padre!
Frau Weber escutava a tia de Chiru com ar atencioso, e como no entendesse o que ela dizia, limitava-se a sorrir e a sacudir a
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cabea. D. Santuzza, desatenta  conversa, seguia com o olhar marido que naquele momento atravessava a sala, entrava no critrio, batia no ombro de Rodrigo e entregava-lhe 
um papel.
- Que  isso, Dr. Carbone?
O cirurgio fez o amigo ler uma cpia da carta que naquele ele dirigira ao cnsul da Itlia em Porto Alegre, oferecendo servios mdicos ao exrcito de Sua Majestade 
o Rei da Itlia. R Brigo passou os olhos distraidamente por aquelas linhas, come endendo apenas aqui e ali o sentido duma frase - o suficiente pa ver que a coisa 
toda era. uma mistura de patriotismo de pera, ima Bens dannunzianas e jargo cirrgico.
A um canto do esritro Babalo contava a Liroca suas pra zas no Sutil: a prxima colheita de trigo, planos de comprar n touro Polled Angus, nome este que ele aportuguesava, 
reduzindoa "culango".
Impassveis e ptreas como um par de caritides, Maria Val
e Titina, sentadas lado a lado, os braos cruzados sob os xales;, olhavam a cena com uma serenidade crtica. E Flora, com o prat de croquetes numa mo e o de pastis 
na outra, andava de conviv em conviva, servindo-os.
Vindo da cozinha, Chiru entrou na sala com uma perna dt galinha na mo, a mastigar com gosto. Olhando para o len vermelho cuja ponta sobressaa do bolso superior 
do palet d "velocino de ouro", o Cel. Jairo perguntou:
- Como vai a situao poltica, Sr. Mena?
Chiru arrancou mais um naco de carne da perna da galinh antes de responder:
- A coisa est feia, coronel. Acho que vai haver barulho.
Havia menos de duas semanas, Borges de Medeiros, que esta gravemente enfermo, passara o Governo do Estado ao vice-pres dente, Gal. Salvador Pinheiro Machado. Por 
toda a parte os nimos andavam exaltados por causa da candidatura de Hermes d Fonseca  senatoria. O Dr. Ramiro Barcellos, republicano dissidente, aceitara finalmente 
a sua em contraposio  do Marechal. O Comit Central Acadmico de Porto Alegre telegrafara a Rafael Cabeda e Fernando Abbott fazendo-lhes um apelo para que apoiassem 
a campanha de Ramiro Barcellos contra o que ele chamava de "a ignomnia da Candidatura marechlica".
- A esta hora - disse Chiru - est havendo um meeting em Porto Alegre., na Praa Senador Florncio. E as orelhas do marechal e do Senador Pinheiro devem estar ardendo...
Jairo ps a mo no ombro do interlocutor:
- Nunca em tda a Histria de nossa Ptria houve homem pblico mais injustamente atacado e difamado do que o Marechal Hermes!
- Injustamente ? - estranhou Rodrigo.
- E por que no? - retrucou Jairo com veemncia. A caricatura, a imprensa oposicionista e a malcia popular ajudadas pela insdia dos inimigos do Marechal, haviam-no 
apresentado ao pas como um imbecil, um dbil mental, quando na verdade ele era um homem culto e talentoso, um grande estrategista, o nico chefe militar sul-americano 
que realmente impressionara o Estado-Maior do Kaiser.
- Ch mico! - exclamou Babalo. E, num eco, Liroca repetiu: "Ch mico."
- Alm disso - prosseguiu o coronel - Hermes da Fonseca era um homem honesto, decente, de vida privada limpa e corao generoso. Sim, no negava que em seu governo 
tivesse havido excessos, npcias, erros ... Mas pode um Presidente da Repblica ser responsvel por tudo quanto acontece no imenso territrio nacional? A Hermes 
da Fonseca, o Exrcito devia sua reorganizao e muitos Estados a extino de suas odiosas oligarquias.
Rodrigo no prestava mais ateno ao que o amigo dizia, pois estava com o olhar e a ateno voltados para Toni, que conversava animadamente com o Padre Astolfo junto 
 porta da sala de jantar. De repente a moa atirou a cabea para trs e soltou uma risada. Rodrigo sentiu-a como uma carcia que lhe percorreu o corpo inteiro, 
num calafrio.
Desviou o olhar da Fraulein e fitou-o no irmo, que l estava no escritrio, sentado em silncio ao lado do pai. Que diabo ter o rapaz? - tornou a perguntar a si 
mesmo. A proximidade de Wolfgang causava-lhe certo mal-estar. Achava-o demasiadamente belo, duma beleza feminina, e isso de certo modo Oofendia. Enfim .. .
Naquele instante Flora tomou o brao de Toni e levou-a para o fundo da casa. O Padre Astolfo aproximou-se do grupo masculino.
- J discutindo poltica? - perguntou, sorridente, apoiando os cotoveios no respaldo duma cadeira.
Aderbal ergueu os olhos para o vigrio.
- Eu estava dizendo ao coronel que o Dr. Jlio de Castilhos est fazendo uma falta danada. O Partido est dividido. O Borjoca se deixa engambelar pelo Pinheiro Machado, 
faz tudo o que ele quer .. .
Babalo - refletiu Rodrigo, olhando para o sogro - no deixava apagar-se nunca sua lmpada votiva ao p do altar de So Jlio de Castilhos. Por sua vez Liroca vivia 
a acender velas de libra diante da imagem de So Gaspar Martins. Aqueles dois exem~los de f e devoo deixavam-no comovido.
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- O Borges no tem vida pra muito tempo - declarou de maneira peremptria.
- Deus te oua! - murmurou Liroca. E o Cel. Jairo on-lhe nm olhar de reprovao.
- No diga uma coisa dessas, Sr. Lrio. O Dr. Borges Medeiros  um dos maiores estadistas vivos do Brasil!
- Ch mico! - E o rosto de Liroca de sbito mudou de expresso quando ele avistou Maria Valria que entrava com prato de pastis fumegantes, recm-sados da frigideira.
Rodrigo procurava Toni com os olhos. Para onde diabo tema Flora levado a menina? Era angustiante t-la sob o mesmo teto, e no poder sequer aproximar-se dela.
Chiru segurou o brao de Rodrigo, arrastou-o pau perto da janela e segredou-lhe:
J reparaste no jeito do Weberzinho olhar pau ti? - No. Por qu?
- Aquilo  paixo, menino, e paixo cabeluda. - Deixa de bobagem!
- Meu olho nunca me engana. No  de hoje que ea venho.. observando a coisa. Disfara e olha ...  como se noo ezistisse" mais ningum nesta casa, s tu.
Rodrigo ficou embaraado, pois de repente compreendia certa coisas que antes lhe pareciam obscuras. Sempre notara no olhar do rapaz uma expresso estranha que lhe 
tornava insuportvel enur-1o. E agora ele recordava o dia em que Wolfgang lhe aparecera no consultrio, queixando-se de dores no peito e pedindo-lhe am exame geral. 
Ele lhe dissera: "Tire o casaco e a camisa", aprozimara-se da pia e ali ficara a lavar demoradamente as mos. Ao voltar-se, vendo o rapaz completamente despido, 
murmurara com certa rritao : "No era necessrio ... " E ficara contemplando, conturbado, aqule adolescente que ali estava de braos cados, rara, alvo e louro 
como um jovem deus da mitologia germniu. E o rapaz mirava-o com um olhar splice, ansioso, tristonho, e pelo pulsar acelerado de sua veia jugular Rodrigo podia 
avaliar o ritmo daquele pobre corao. Era uma situao embaraosa. "Sente-s " - ordenara com rispidez. O rapaz obedecera. Ele lhe auscultara os pulmes e o corao 
descompassado, apressando-se a dizer: "O senhor no tem nada de orgnico. Deve ser ama dor muscular." Receitara-lhe um ~ linimento e mandara-o embora. E agora que 
Chru lhe dizia aquelas coisas embaraosas, ele via toda a asna a uma nova luz.
- Deixa de bobagem! - repetia.
- Atiraste no que viste e acertaste ao que no viste. A vida  assim mesmo, rapaz.
Aquela referncia velada a Toni exasperou Rodrigo, que fechou a cara.
- Probo-te de me tocares outra vez nesse assunto. E se contares isso a outra pessoa, palavra que corto as relaes contigo.
- Est bem, no te ofendas, est bem. Este peito  um tmulo.
g
Quando Rodrigo voltou para o grupo, Jairo fazia a defesa de Borges de Medeiros e da ditadura republicana positivista, a qual, a seu ver, seria a nica salvao para 
o Brasil. E o coronel que chegara um tanto macambzio  festa, falava agora com paixo, de p, a gesticular na frente do vigrio.
- Que panorama oferece nossa poca? - perguntou. - O da mais profunda e desoladora anarquia moral e mental. Ningum acredita em mais nada, noo se adora nem sequer 
a deusa Razo, como os revolucionrios de 1789, mas a deusa Dvida .. .
- Nem todos, coronel - protestou o vigrio - nem todos...
- As velhas bases intelectuais e morais da humanidade ruram por terra por culpa do regime qu por tanto tempo dirigiu os destinos da Humanidade: o catlico feudal.
- Mas o senhor se esquece - obtemperou o padre, com seu jeito ponderado e respeitoso - do servio que o feudalismo prestou ao mundo com as Cruzadas, por exemplo 
.. .
- Ah! Mas depois das Cruzadas o catolicismo perdeu toda a iniciativa social e ficou numa triste dependncia- dos poderes polticos. O que tem feito de l para c 
 simplesmente tratar de sobreviver .. .
- O que noo  pouco - observou Rodrigo, com os olhos a andar dum lado para outro, em busca de Toni.
Babalo alisava uma palha de milho com a lmina da faca, dando ao que o coronel dizia uma ateno meio cptica.
- Isso  o que diz Comte - reagiu o padre. - Mas o que ns catlicos lemos na Histria  coisa muito diferente.
- Ora - prosseguiu o coronel, apanhando distraidamente um croquete.- o regime feudal se foi aos poucos decompondo  medida que o esprito positivo e a atividade 
industrial se iam desenvolvendo. E que aconteceu quando a velha organizao tombou desfeita em p? No havia nada para substitu-la. Em suma: a humanidade necessitava 
e necessita ainda hoje duma doutrina de carter geral, uma doutrina social e religiosa capaz de constituir um regime para esta nossa poca desencantada.
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- Creio que o senhor saltou por cima de alguns captulos importantes da Histria aniversal - observou Rodrigo, no momento exato em que Wolfgang lhe lanava mais 
um de seus olhares desconcertantes. - Onde fica a Revoluo Francesa?
O positivista fitou o croquete que tinha entre os dedos, e fraziu a testa:
- A revoluo de 89 apenas apressou a derrubada do velho regime, mas acabou insistindo na metafsca revolucionria, que  uma arma de destruio e noo de construo, 
pois est baseada no princpio da negao de todo o governo e de toda a organizao social. Em suma: o passo que se deu com a Revoluo Francesa noo foi  frente. 
Foi, por mais paradoxal que parea,  retaguarda.
Comeou a comer o croquete.
- Heresia! - exclamou Rodrigo.
- A crise social em que nos debatemos comeou no sculo XIV e se tornou mais aguda ainda depois da Revoluo Francesa.
Naquele momento Toni voltava  sala de visitas. O Dr. Carbone aproximou-se da moa, enlaou-lhe a cintura, tomou-lhe uma das mos e comeou a danar com ela uma 
valsa de opereta, que ele prprio trauteava.
Patife! - pensou Rodrigo. Ali estava a vantagem de usar barbas. Como  que posso parecer um tio inofensivo com esta cara raspada, e todo perfumado de Chantecler 
de Caron?
Tornou a encher a taa de champanha e bebeu um prolongado sorvo.
- Qual  ento - perguntou o padre - a soluo que o coronel prope?
- Precisamos duma nova f, reverendo.
- E que  que h de errado na velha?
- A vossa f diz respeito s coisas e s almas do outro mundo ao passo que estamos precisando duma f que ponha em ordem as coisas e a gente deste mundo.
- Mas este mundo  apenas uma passagem para o outro, coronel. E o grande problema noo  apenas de ordem poltica, mas antes de natureza moral.
- De pleno acordo! Temos de fazer que a reorganizao mental e moral preceda a reorganizao poltica. Necessitamos regular o quanto antes as relaes entre a Famlia 
e a Sociedade.
- S quem pode fazer isso  a Igreja, com a sua autoridade moral.
- E por que noo o fez nestes quase 2OOO anos de sua existncia? Mas no mudemos o rumo desta palestra, caro reverendo. Veja bem o meu ponto de vista. A nica coisa 
capaz de evitar as perturbaes sociais oriundas da anarquia espiritual em que nos debatemos  a criao duma autoridade temporal verdadeiramente
poderosa, capaz de efetuar a regenerao moral e mental da humanidade, criar, em suma, uma nova F.
- Uma ditadura ? - exclamou Rodrigo.
- Sim - confirmou o coronel. - No a ditadura orgulhosa, cruel e desumana preconizada pelo. nosso Rubim, mas a ditadura republicana positivista.
Babalo escutava o coronel, muito srio, como a fazer um esforo para compreender aquela dissertao. Rodrigo noo conseguiu decifrar a expresso do rosto de Liroca: 
no era de perplexidade ou confuso, mas de aborrecimento temperado de leve ironia : era como se o velhote achasse que tudo aquilo no passava de conversa Fiada.
Rodrigo deu um passo na dreo do coronel, segurou-lhe um dos botes da tnica e, com voz j um pouco arrastada, disse:
- Pois permita que eu faa mais uma vez a mitiha declarao de princpios. Creio nos Direitos do Homem e em todas as conquistas da Revoluo Francesa. Creio na liberdade, 
na igualdade e na fraternidade. Numa palavra: creio na Democracia.
- Mas, meu amigo .. .
- No me interrompa, coronel, por favor. Quero terminar o meu pensamento. Acredito no progresso e, como Saint-Just, acho que a felicidade  possvel sobre a Terra. 
O que vai pr essa felicidade ao .nosso alcance, no que diz respeito ao conforto material e  sade,  a cincia, a cincia aplicada. Estamos no limiar duma grande 
era!
Aquele princpio de embriaguez dava-lhe um otimismo exalta- do e fcil.
- Neste momento - prosseguiu - a grande tarefa que temos pela frente  a de derrotar o Kaiser e as foras da barbrie, limpando o caminho para a Democracia. No 
tenho a menor dvida: vamos entrar na idade de ouro da Histria!
- Pois eu ... - comeou Jairo. Mas de novo Rodrigo Ointerrompeu.
- Olhe, coronel, noo tenho a menor simpatia pelos Estados Unidos, mas admiro a Constituio dos yankees, que reza: "Todos os homens foram criados iguais ... etcetera 
... etcetera ... etcetera ... "
O coronel segurou-lhe com fora ambos os braos
- A influncia norte-americana na Constituio brasileira  uma influncia anrquica e retrgrada. Quisemos fazer uma imitao emprica da repblica americana e 
qual foi o resultado? Acabamos caindo na metafsca parlamentar.
- Pois eu sou pelo Parlamento - afirmou Rodrigo, j desinteressado da discusso, a vasculhar a sala com o olhar. (Toni. onde ests, meu bem?)
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- O regime parlamentar  caro e inoperante - replicou o positivista.
Naquele momento Carbone aproximou-se do gramofone e plo a funcionar. Amato rompeu a cantar a grande ria d"O Barbeiro de Sevilha. Chiru fez uma careta e tapou os 
ouvidos com as mos. Olhando para Herr Weber, que comia o mingau que Flora acabava de lhe trazer, Rodrigo teve a mpresso de que o maestro sofria : para ele pera 
era cacofonia, caricatura musical. Mas Carlo Carbone, esse estava feliz, andava de grupo em grupo, com a taa na mo, em passinhos de ballet a cantarolar com o bartono 
- fgaro, fgaro, fgaro! Parecia um gnomo bebedo em meio duma floresta.
Rodrigo deixou os amigos e acercou-se de Toni. Era. horrvel no poder ficar a ss com a FrauIein, lev-la para algum canto escuro daquela casa, ou p-la dentro"do 
Forde e sair com ela a andar pelo campo sob as estrelas.
- Est gostando da festa? - perguntou.
- ~patant! - exclamou ela. - Vraiment patant, orou ami.
E de novo ele se viu como um peixe imvel no fundo daqueles dois lagos de gua-marinha. Ia dizer-lhe um galanteio, mas com o rabo dos olhos viu que Titina e Maria 
Valria o vigiavam como ces de fila.
Santuzza ergueu-se, pegou no brao de Toni e convidou-a a subir para ver "i bambini". Sem esperar a aquiescncia da menina, arrastou-a consigo.
Gringa maldita! - pensou Rodrigo. Ser que fez isso de propsito, porque desconfia de alguma coisa? O remdio era beber mais, mais, sempre mais. Trouxe da cozinha 
outra garrafa de champanha, abriu-a no meio da sala, com estardalhao, encheu sua taa e bebeu como quem se dessedenta. O barbeiro de Sevilha cessou de cantar. Chiru 
postou-se na frente do gramofone e gritou para Carbone, que se aproximava:
- Se o senhor me bota outra chapa ns nos estranhamos!
- Brigante! - sorriu o cirurgio. E com a piteira riscou o colete branco do outro. - Que belo ventre para uma laparotomia 1
Chiru acercou-se, mesureiro, de mam Weber.
- Por que a senhora noo toca alguma coisa, D. Frau?
A austraca sorriu, encolheu os ombros e ergueu as mos espalmadas: noo entendia a pergunta. Rodrigo traduziu o pedido.
Frau Weber caminhou para o piano, abriu-o, fez girar o assento do banco, sentou-se e comeou a tocar uma valsa de Chopin. A princpio todos escutaram em silncio, 
mas em breve as conversas se reataram, primeiro em murmrios e cochichos, depois livremente, em tom natural.
9
Quando Rodrigo tornou a entrar no escritrio, o coronel ainda atacava o sistema parlamentarista. Seria um regime de desigualdade - dizia - em que s teriam representantes 
os fazendeiros de caf e de gado, . os usineiros de acar e o alto comrcio. Como acontecera no tempo do Imprio, seriam eleitos _apenas os que possussem dinheiro, 
posio social, qualidades de orador ou bons padrinhos. Em suma: o parlamentarismo era o governo da burguesia!
- Mas poder haver regime realmente republicano - perguntou Rodrigo - sem Parlamento, isto , sem a participao no governo dos representantes do povo?
=  uma iluso imaginar que os parlamentares seriam verdadeiros representantes do povo. O povo nunca os . elegeu e jamais os eleger. O povo vota em quem os chfetes 
locais mandam. E, depois veja quanto custa um Parlamento. E o povo ter de pagar por um luxo de que ele no tira o menor benefcio. De resto, todos sabemos que o 
sufrgio universal  uma farsa.
O padre fez um gesto que exprimia o seu desacrdo. Rodrigo encheu a taa dos amigos.
- Em suma - disse o Padre Astolfo - o que o senhor preconiza  um ditador .. .
- Padre, no pronuncie com tanto desprezo a palavra ditador. Digamos antes que o governo ideal ser o de nm estadista, veja bem o sentido desta palavra, um estadista 
capaz de exercer a ditadura republicana, a qual, segundo Augusto Coorte, deve concentrar todo o poder poltico, deixando a uma cmara, com um nmero reduzido de 
membros, as funes puramente financeiras.
- r o que temos no Rio Grande! - disse Rodrigo.
- Para felicidade vossa e do resto do Brasil.
- No estou muito certo disso .. .
Jairo voltou a cabea para o dono da casa e mirou-o com uma expresso de surpresa.
- Mas o meu caro amigo noo vai candidaur-se a nm lugar na Assemblia, indicado pelo partido governista?
Rodrigo somo:
- Tambm disso no estou muito certo .. .
O padre olhou para dentro de +sua taa.
- Mas quem  que vai fiscalizar essa sua admirvel ditadura, evitando que o ditador cometa ezcessos, o que  de se esperar dum ser humano falvell
- A opino publica! - ezdamou o coronel. - No dia em
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que o ditador tentar entravar o progresso social, o povo o for a demitir-se.
- Como? - insistiu o vigrio. - Senhor de barao e cutel
o ditador poder perpetuar-se no poder, abafando pela fora ou pela, fraude essa opinio pblica!
- A prpria cmara ser o porta-voz da opinio pblica, negando-se a votar impostos.
- Falcias, coronel - retrucou o Padre Astolfo - falcias.
- No precisamos ir muito longe para achar um exemplo de bom republicanismo positivista. O vosso Estado segue o ideal d Comte no que diz respeito  liberdade espiritual. 
O governo d Dr. Borges de Medeiros  progressista e social e noo se imiscue em crenas e doutrinas religiosas. D plena liberdade de discusso reunio, de sorte 
que o povo, bem informado, ser sempre o melhor fiscal do governo. O mal da civilizao teocrtica foi a fuso do poder temporal com o espiritual. O governo poltico 
tem de evitar o terreno terico.
A valsa terminou. Houve aplausos distrados.
- E que  que os senhores positivistas querem dizer - perguntou o vigrio, puxando o lbulo da orelha - com a "incorporao do proletariado  sociedade moderna?"
Rodrigo sentou-se pesadamente. Por que o padre provocava o coronel? Assim noo havia nenhuma esperana de que o homem se calasse. Que importava a ele, Rodrigo, a 
ditadura positivista, o Dr. Borges de Medeiros, Augusto Comte  a confuso mental dq Ocidente? Seu corpo ardia de desejo pelo de Toni. No havia partcula de seu 
ser que noo estivesse faminta de Toni dum modo clido, latejante, insuportvel. Por onde andaria ela? Ah! Se e pegasse essa guria sozinha num desses cantas escuros 
.. .
L estava o Dr. Carbone a encher de novo a taa de champanha. Como podia caber tanta bebida num corpo to pequenod Quis erguer-se e fazer esta pergunta em voz alta 
ao cirurgio, mas deixou-se ficar sentado, num estonteamento que lhe dava desejos de dizer e fazer tolices.
O coronel estava inflamado. O proletariado - discursava - produto da poca industrial pacfica que se seguira  Idade Mdia, havia ficado  margem da sociedade. 
Seus membros ganhavam pouco, viviam expostos  fome e  misria, eram uma mancha na face da Terra. Ora, os diretores das indstrias que se beneficiavam do trabalho 
desse proletariado, deviam assegurar-lhe melhores condes de vida. Os ricos no cumpririam jamais esses deveres se noo fossem forados a iso sob a preso da opinio 
pblica esclarecida. Assim era necesrio um novo sacerdcio, uma nova F para esclarecer essa opinio pblica. Era indispensvel uma Religio Definitiva baseada 
na liberdade de crena e culto e no livre exame.
- Mas at onde - perguntou o padre - devem ir essas liberdades ?
- At o ponto em que no ponham em perigo a ordem pblica. E oua mais isto, meu caro vigrio, essa nova F de que tanto necessitamos deve ser o fundamento duma 
verdadeira educao nacional que abranja todas as cincias, desde a matemtica at a moral.. .
Rodrigo tinha vontade de gritar: "Calem a boca! Que importa a matemtica e a moral? O que eu quero  a Toni, a Toni, a Toni! O mais  conversa."
- O poder temporal - prosseguiu Jairo - deve governar apenas os atos. As doutrinas e as opinies, a F, em suma, so coisas que pertencem ao reino da conscincia 
e devem ser deixados ao arbtrio de cada indivduo.
O padre parecia estar empenhado em dilacerar a prpria orelha.
- Tudo isso  muito confuso, coronel.
- E vs aqui no Rio Grande do Sul tendes no Dr. Borges de Medeiros o homem capaz de exercer essa benfica ditadura cientfica.  um estadista duma probidade indiscutvel, 
um verdadeiro ~-aro de Plutarco. Seu governo tem sido modelar. Conseguiu o milagre do equilbrio oramentrio e criou para o resto do Brasil um padro exemplar 
de honestidade.
Achegou-se ao padre e pousou-lhe ambas as mos nos ombros;
- E a diviso de terras entre os colonos, obra de seu governo,  o primeiro passo srio que se d neste pas no sentido de arranc-lo do regime feudal no qual de 
certo modo ile ainda se encontrai
Sentou-se, ficou por alguns instantes a olhar para o padre e depois,  guisa de remate:
- O Progresso - disse -  o desenvolvimento da Ordem. No poder haver Progresso sem Ordem. E s poderemos conseguir Ordem e Progresso se combinarmos inexoravelmente 
o estado ditatorial com o republicano. O primeiro assegurar a Ordem mediante a autoridade e o segundo garantira o Progresso por meio da liberdade.
Babalo e Liroca trocaram um olhar cptico.
1O
Chiru levou a tia Vanja para casa antes das dez, segredando ao ouvido de Rodrigo que noo voltaria, pois Saturnino o esperava para uma vagabundagem noturna. Babalo 
e Titina estavam j recolhidos a seus aposentos quando o vigrio e o coronel fizeram as despedidas e saram juntos de braos dados. Ningum viu quando
544        O RETRATO
Liroca se esgueirou da sala como nm ladro, apanhou no v balo o chapu e a bengala e ganhou a rua.
Flora, que acabava de descer, murmurou para Rodrigo:
- Sabes o que aconteceu pra D. Santuzza? Estava cantam pras crianas dormirem e acabou tambm pegando no sono. Ag esto os trs na nossa cama .. .
Rodrigo sorriu.
- Quero s ver como  que vamos remover de l aquela leia .. .
Carlo Carbone, completamente bebedo, comeou a danar zinho no meio da sala uma fantstica tarantela, sob o olhar provador de Maria Valria, que o observava mato 
sria, senta na sua cadeira de balano.
Hen Weber ergueu-se, tirou o relgio do 1"lso do colete, olh o mostrador e fez um sinal para o resto da famlia.
- No senhor! - protestou Rodrigo. - r muito cedo. Ag ra  que a festa vai ficar boa. Titia, mande vir mais nm minga pro maestro!
Foi empurrando o austraco cordialmente na direo duma ca defira e obrigando-o a sentar-se de novo. Num assomo de cordialidade abraou Wolfgang.
- Toque nm pouca de cordeona - pedia.
O rapaz tirou o instrumento do estojo, acomodou-o sobre as coxas e arrancou um acorde que enchem a casa.
Flora sentou-se com um suspiro de canseira. Maria Valria Icvon a mo  boca para abafar um bocejo.
- Uma valsa! - pediu Rodrigo.
Wolfgang comeou a tocar a valsa d"A Viva Alegre, e Tons Frau e Herr Weber, Rodrigo e Flora puseram-se a acompanhar a melodia com movimentos de cabea. Carbone 
olhava fixamente para Herr Weber e, quando a valsa terminou, ergueu um dedo acnsador na direo do maestro e disse com voz solene:
- Um submarino austraco ha torpedeado o cruzador italiano Amalfi. Maledizione!
Herr Weber mirava-o com seus olhos ausentes, mas em seu rosto havia uma vaga expresso de alarma. O cirurgio continuou.
- Ea devia te odiar, tedesco duma figa, mas tn sei mio fratello in Cristo. Io te bacio la faccia!
Aproximou-se~ de Herr Weber, tomou-lhe a cabea com ambas as mos e apliou-lhe um sonoro beijo em cada face. Rodrigo batem-lhe nas costas com tanta fora que Carbone 
quase caiu por cima do austraco.
- Bravo, doutor! Isso  que  esprito cristo.
Carbone recuperou o equilbrio e disse algo que ningum ouviu, pois o som da cordeona abafou-lhe a voz. La Paloma.
A SOMBRA DO ANJO        545

Rodrigo namorava Toni com olhos famintos. Wolfgang olhava para Rodrigo, que Flora tambm observava disfaradamente. Herr Weber piscava: o sono j lhe havia jogado 
areia nos olhos. Mas quando Wolfgang, inesperadamente, entrou a tocar a Pequena Fuga, o maestro sorriu, voltou-se para Rodrigo e gritou-lhe com uma alegria de criana
- Bach !
O outro fez com a cabea um sinal afirmativo. Afinal de contas at Bach lhe sabia bem aquela noite. Olhou para a Dinda, que parecia balouar-se na cadeira ao ritmo 
de fuga.  mistrios do mundo! Bach, a cadeira da velha Bibiana, Maria Valria, o Sobrado, a Guerra. e Toni, sobretudo Toni. A vida era misteriosa, absurda e bela. 
E como era bom estar vivo!
Wolfgang fez uma pausa, ficou a olhar para a janela, com uma expresso noturna nos olhos de clios longos. Rodrigo aproximou-se de Toni, tomou-lhe ambas as mos 
e disse em portugus:
- Agora a minha sobrinha vai interpretar alguma coisa no seu violoncelo.
Traduziu a frase para o francs e Toni fez um sinal de assentimento. Naquele momento Wolfgang rompeu a tocar o BoiBarroso. Frau Weber desatou a rir. Flora empertigou-se 
na cadeira, como se tivesse despertado de sbito e Carlo Carbone comeou a andar ao redor da pea, em passo de cake-walk.
No meio da confuso, Ton deixou apressadamente a sala. Rodrigo seguiu-a, numa insensata esperana. () agora ou nunca!) Entrou no vestbulo. L estava a Fraulein 
a mirar-se no espelho. correu para ela, agarrou-a pelos ombros, f-la dar meia-volta, puxou-a contra o peito e beijou-a com furor. Sua bca sugou como uma ventosa 
os lbios da rapariga, que no primeiro momento ficou como que paralisada, o corpo retesado numa instintiva atitude de defesa. Em seguida, porm, ele sentiu que os 
dedos dela entravam em seus cabelos, numa carcia desordenada, e que aquele corpo quente, tenro e palpitante no apenas se entregava, mas procurava tambm o seu. 
Ps-se a beijar-lhe as faces, a testa, os olhos, numa pressa gulosa. A boca de Ton ento tomou a iniciativa, colou-se avidamente  sua, o que o deixou desatinado. 
Suas mos comearam a. percorrer o corpo da Fraulein, numa nsia cega e dlaceradora. Sentindo, porm, que ela desfalecia - a cabea atirada para trs, os olhos 
semicerrados, um dbil gemido a escapar-lhe da boca entreaberta - teve de enlaar-lhe a cintura para que ela noo casse. Passou-lhe pela mente uma idia alucinada; 
ergu-la nos braos, subir a escada e lev-la para um dos quartos, l em cima ... Mas o corpo de Toni tornou a enrijar-se e, desvencilhando-se dele, a rapariga apanhou 
o violoncelo e se foi quase a correr, rumo da sala de visitas.
546        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        547
Aturdido, Rodrigo desceu a escada, abriu a porta e saia. Seu corpo inteiro latejava de desejo, o corao descompassado. Sentia ainda nos lbios a presso dos lbios 
de Toni, e nas narinas o perfume de seus cabelos. Ps-se a andar meio s tontas na calada,. depois atravessou a rua na direo da praa, metem a mo no bolso, tirou 
um cigarro, prendeu-o entre os dentes e, esquecido de acend-lo, sentou-se num banco e dali ficou a olhar, ofegante, para aa janelas iluminadas do Sobrado. Ela me 
ama ... ela me ama . . ela me deseja... ela  minha. O resto mo importa. O resto e nada.
Cuspiu longe o cigarro. S aos poucos  que foi tendo conscincia do ar frio da noite e do fato de estar com a cabea descoberta. Levou as mos s faces e sentiu-as 
escaldantes. Tirou outro cigarro do bolso e acendeu-o com dedos trmulos. Chegavam agora at ele, vindos de sua casa, os sons aveludados do violoncelo. Rverie. 
Rodrigo ficou a escutar ... E a melodia caiu como um doce leo sobre as queimaduras de seu desejo, mas no as apazigou: deu-lhes, isso sim, uma esquisita . pungncia. 
E de novo ele teve vontade de ver Toni. Ergueu-se, passou a mo pelos cabelos, ajeitou a gravata e tornou a atravessar a rua.
O relgio bateu a ltima badalada da meia-noite. Flora estava j recolhida. Maria Valria, depois da ronda habitual, subira para o quarto. Os Carbone dormiam, completamente 
vestidos, num dos quartos do andar superior. O casaro estava silencioso. Sozinho na sala de visitas, Rodrigo olhava para o prprio retrato e pensava em Toni. O 
efeito do champanha havia passado: bebera havia poco uma xcara de"caf preto, sem acar. Sabia que no poderia dormir e ali estava a fumar, inquieto, com um sentimento 
de irritao que lhe vinha do desejo insatisfeito - um desejo que j agora era mais do crebro que propriamente do corpo. Aonde iria ele parar com quela obsesso 
pela rapariga? Conhecia-se suficientemente bem para saber que no descansaria enquanto no a possusse e que, mesmo depois de possu-la, seu apetite por ela no 
ficaria saciado, pois havia de querer t-la mais vezes, muitas vezes... At quando, santo Deus, at quando? Pensou em Flora com um sentimento de culpa. Ela mo merecia 
aquilo ... Deu uma palmada no respaldo da poltrona, ergueu-se de sbito e comeou a andar dum lado para outro. Pensou nas conseqncias que aquela aventura podia 
ter, mas sabia - com que profundeza, com que plenitude, com que certeza! - sentia que agora era tarde demais para recuar, mesmo que quisesse.
Ficou olhando para a cadeira junto do piano aberto - a cadeira onde Toni se sentara para tocar a Rverie. Era ridculo, absurdo, mas ele envolvia na sua ternura 
ertica at o violoncelo
de Toni, como se o instrumento fosse uma parte anatmica daquele corpo querido.
Enfiou o sobretudo e o chapu e saiu. Parou na calada, indeciso. No seria melhor avisar Flora de que ia sair? Deu de ombros. Fechou a porta a chave e comeou a 
andar, as mos nos bolsos, o cigarro pendente dos lbios. Era uma noite clara, grilos trilavam. estrelas luziam, cachorros latiam em ruas longnquas, Seus passos 
soavam solitrios na calada, levando-o para a Rua do Poncho Verde. Rodrigo deixava-se conduzir. Que adiantava pensar? O instinto sempre tinha razo, e o nstinto 
o levava para Toni. O resto era covardia. Talvez fosse uma caminhada perdida, uma excurso platnica de namorado que se contenta apenas com ver a casa onde sua bem-amada 
est dormindo. Mas Toni na podia estar dormindo. Se estivesse, que se rasgassem ento todos os tratados de psicologia e que ele, Rodrigo, atirasse aos cachorros 
sua experincia das mulheres. O mundo estava errado - concluiu, parado  esquina, a contemplar a meia-ga dos Weber. L dentro daquela casinhola vivia uma mulher 
de vinte anos que o amava, e ali fora estava ele a arder de desejo por ela. No havia na natureza nenhuma razo por que no se juntassem e amassem. No entanto, erguia-se 
entre ambos um muro, e um muro transparente, feito de convenes, mentiras, hipocrisias, fraquezas. Estava tudo errado, tragicamente errado - refletiu mordendo o 
cigarro e aproximando-se vagarosamente da casa. No fundo, a soluo do problema era uma questo de coragem. E coragem era o que mo lhe faltava.
A janela do quarto de Toni dava para um terreno baldio. Rodrigo aproximou-se dela, pisando de leve, e ficou a escutar e a olhar para as vidraas. No viu o menor 
sinal de luz: a casa estava silenciosa e s escuras. Chegou a levantar a mo para tamborilar nos vidros com a ponta dos dedos. Mas conteve-se. Seria uma temeridade: 
os outros podiam ouvir. Talvez Toni tivesse trocado de quarto ... E mesmo que isso mo houvesse acontecido, teria ela coragem de abrir a janela? Recostou-se na parede, 
e de repente o ridculo da situao caiu sobre ele, deixando-o com uma sensao de frio interior.
O melhor era voltar para casa - decidiu, contrariado. Mas naquele exato momento ouviu um rudo e seu corao disparou. Viu entreabrir-se a gelosia. Deu alguns passos 
e postou-se  frente da janela. Aos poucos a gelosia se foi abrindo e  luz do luar ele divisou o vulto de Toni por trs da vidraa. Por alguns segundos ambos ficaram 
imveis, como que presos dum mesmo sortilgio. Depois Rodrigo acercou-se da janela e com sinais pediu  Fraulein que erguesse a vidraa. Ela, entretanto, continuava" 
imvel, com um ar de sonombula. Rodrigo encostou nos vidros as
#548        O RETRATO

mos espalmadas e tentou erguer a guilhotina. Toni procurou t-lo com um gesto, mas, como ele insistisse, veio ajud-lo. E tava ainda de braos erguidos, tratando 
de prender a guilhotina, j Rodrigo lhe enlaava a cintura, beijava-lhe as faces, os olhosu procurava-lhe a bca. Os braos da moa desceram e envolveram lhe o pescoo, 
e de novo ele lhe sugou os lbios; cortando-lhe a< respirao. Quando lhe deu um alento, ela murmurou: "Por amo de Deus, v embora!" Rodrigo sentia-a toda trmula 
- de medo, de frio, de amor? - e seus braos ora o repeliam ora o chamavam "Por tudo quanto  sagrado neste mundo" - suplicava ela "v embora!"
Como nica resposta Rodrigo largou-a, firmou-se com ambas" as mos no peitoril e saltou para dentro.
No momento exato em que saa do quarto de Toni, pulando para o terreno baldio, um galo cocorcou num quintal prximo. ( Galo cantando fora de hora : moa roubada.) 
Ficou por um instante acocorado onde tinha cado. Depois ergueu-se e comeou a andar por entre as ervas respingadas de sereno, na direo da rua. Sentia-se areo 
e trmulo, com um vcuo no crnio. Tinha a seusao de que caminhava dentro dum sonho. A noite, o ar frio e o silncio das ruas desertas contribuam para essa impresso 
de irrealidade. Ao alcanar a calada oposta, fez alto, voltou-se e ficou contemplando a casa de Toni. Sentiu um aperto no corao, uma sbita fraqueza e comeou 
a chorar. As lgrimas escorriam-lhe pelas faces e ele noo procurava enxug-las. Tirou um cigarro do bolso, levou-o  boca e acendeu-o. Ficou a fumar, a fungar e 
a olhar ora para a meia-gua dos Weber ora para a lua, que luzia
sobre os telhados midos. Pensou comovido naquela menininha que nascera havia vinte anos num subrbio de Viena, freqentara um colgio de freiras onde aprendera 
a falar francs e a tocar violoncelo, naquela menininha que percorreu lguas e lguas e lguas de terra e mar para vir entregar sua vrgindad a um Cambar num quartinho 
recendente a alfazema, l naquela meia-gua caiada. Algo de assustadoramente importante acontecera no universo: depois duma separao de milhes e milhes de anos, 
dois corpos celestes de rbitas diferentes se haviam encontrado. O mundo no poderia continuar a ser o mesmo depois desse encontro.
Ps-se a andar na direo de sua casa, ouvindo mentalmente vozes familiares - a do pai, a da esposa, a da madrinha. "Fizeste
A SOMBRA DO ANJO        549

mal a nma mo ". At tia Vanja lhe apareceu no pensamento. censurando-o: "Ai, cabecinha de bano, desonraste uma donzela!" Rodrigo queria sentir remorso pelo que 
acabara de fazer, procurava achar-se indigno, pois- talvez por meio da auto-recriminao pudesse at certo ponto redimir-se perante... Perante quem? Perante si mesmo? 
Mas a verdade  que no se sentia culpado de nenhum crime. Amava Toni e Toni o amava. O que fizera no fora premeditado (ou fora?) Como podia saber que ela era virgem? 
Ora! um incidente anatmico. Mas no era bem assim, ele sabia que noo ra. Toni ia sofrer. Viriam complicaes. Santo Deus! Se cu fao coisas como essa  porque 
estou vivo, vivo, vivo!
Mesmo que vivesse mil anos jamais poderia esquecer os momentos que passara na perfumada escurido daquele quarto. Sentia uma certa pena de Toni. Sim, pena, porque 
para ela aquele episdio ertico representara sofrimento. No fora apenas um dilaceramento fsico, mas tambm psicolgico, moral. Ah! O quanto a criaturinha relutara, 
mesmo depois que estavam na cama. Defendera-se durante um tempo que a ele parecera uma eterndade. Eram os seus preconceitos religiosos, seus escrpulos com relao 
a Flora e at s crianas ... Por fim, todas aquelas inibies se sumiram, ele como que as apagara a beijos, bem como uma esponja apaga riscos de giz num quadro-negro. 
Recordava com uma nitidez pungente a crise de desespero de que. Toni fora tomada depois que o irremedivel acontecera. Lembrava-se tambm da prpria surprsa ante 
o acesso de ternura que se seguira a esse desespero, uma ternura que aos poucos se fora aquecendo at transformar-se num desejo que levara Toni a se lhe oferecer, 
mas dessa vez num abandono completo. Rodrigo pensava tambm no longo perodo de calma em que ambos tinham ficado, enlaados na cama, peito contra peito, ventre contra 
ventre, coxa contra coxa, perna contra perna, a respirarem um dentro da boca do outro sob a calidez das cobertas - quietos, mudos, num delicioso torpor - ele a sentir 
as lgrimas dela a carem-lhe no peito numa ccega mida. E quando Toni lhe sussurrara ao ouvido que era hora de se separarem, ele se despegara dela com a dolorosa 
impresso que lhe arrancavam metade do prprio corpo.
Comeou a assobiar distraidamente a Rverie. Que iria dizer Flora se a encontrasse acordada? Cheirou as prprias mos, temendo que conservassem ainda o perfume de 
Toni. Se houvesse gua quente em casa, tomaria um banho de corpo inteiro antes de deitar-se... Encolhem os ombros, fatalista. De qualquer modo Flora ia desconEar 
de que algo de extraordinrio se passara com ele. Era viva e tinha nma intuio agndssima.
Avistou o Sobrado e, como acontecia sempre, a casa lhe dea uma sensao de segurana e proteo. Atravessou a rua em passos
11
#55O
O RETRATO
apressados e, quando ia meter a chave no buraco da fechadura, ouviu um rudo de passos e uma voz. - Rodrigo!
Fez meia volta. Um vulto aproximou-se. Era o Neco. - Que sorte eu te encontrar! - Que foi que houve?
- Aconteceu uma coisa horrorosa. Em Porto Alegre a Brigada Militar dissolveu a bala o comcio dos estudantes contra a candidatura do Marechal.
- No diga!
- Mataram cinco pessoas e feriram umas trinta. Uma barbaridade, um banditismo!
- Como foi que soubeste?
- Acaba de chegar um telegrama pro Cel. Prates.
Rodrigo olhou na direo da Intendncia e viu uma janela iluminada.
- Vamos at l.
12
Encontraram o Cel. Joca Prates em companhia do delegado de polcia e do secretrio municipal. Tinham os trs o specto sombrio.
- Ento, j soube? - peguntou o primeiro.
Rodrigo sacudiu afirmativamente a cabea, sentou-se numa poltrona e fiou a olhar por cima da cabea do intendente para o busto do Dr. Jlio de Castilhos que ali 
estava contra a parede, sobre pequena coluna de granito polido. Com um certo constrangimento, o Cel. Prates lhe resumiu o texto do telegrama: O piquete da Chefatura 
fora obrigado a carregar contra os manifestantes, que estavam perturbando a ordem.
- Mas  uma monstruosidade! - bradou Rodrigo. - No h nada que justifique atirar contra os estudantes, contra o povo. Na certa, havia mulheres e crianas nas ruas, 
no?
Joca Prates encolheu os ombros. Rodrigo ps-se de p.
- Essa candidatura desastrada est dividindo o nosso partido
-        vai acabar lanando o Estado numa nova guerra civil !
Num silnciq estpido, o intendente olhava fixamente para o telegrama que .jazia sobre o bureau. Rodrigo apanhou o papel e leu. O despacho esclarecia que o comcio 
correra em perfeita ordem
- que a interveno da fora policial se fizera mais tarde, quando os manifestantes percorriam em prstito a Rua dos Andradas, gricando vivas e tentando perturbar 
a ordem.
- Canalhas! - murmurou ele. -  a histria de sempre. Quem tem fora abusa dela.
Depois, encarando firme o intendente, acrescentou:
- Vou passar um telegrama de protesto ao Presidente do Estado e outro ao Presidente da Repblica. E vou telegrafar tambm a Senador Pinheiro dizendo que me envergonho 
de pertencer a
m partido cujos chefes noo trepidam em espingardear o povo.
O delegado olhava espantado do intendente para Rodrigo. O secretrio municipal limpava as unhas com a ponta dum canivete.
- Tenha calma, doutor - pediu Joca Prates. - No se Precipite. A gente noo sabe direito como foi a coisa.
- S sei  que h cinco mortos e trinta feridos. Para mim
 ~ quanto basta!
- Pode ter havido provocao.
- A desculpa de sempre! O que acontece  que nossos governantes noo toleram oposio. Nossa democracia  apenas de fachada. Estou farto dessa farsa!
Neco olhava para o amigo com afetuosa admirao.
- Se o Dr. Borges de Medeiros estivesse no govrno - murm~rou o delegado - nada disso acontecia .. .
- O Dr. Borges no  diferente dos outros - replicou Rodn8o- -- O que ele quer mesmo  eternizar-se no poder.
- A bicho! - gritou Neco Rosa, com ar belicoso.
Rodrigo enfiou o chapu na cabea.
- Vou passar agora mesmo pelo telgrafo.. .
- Est fechado - atalhou-o Joca Prates. E essa informao Prtica, ue valeu como um jorro dgua fria sobre seu fervor cvico irr tou Rodrigo.
- Pois passarei amanh de manh.
O intendente soltou um suspiro.
-  sempre bom a gente dormir em cima dos casos. O travesseiro  o melhor conselheiro.
Rodrigo voltou-lhe as costas e saiu da Intendncia acompanhado de Neco.
Na praa encontraram Chiru e Saturnino, que j sabiam da IIOtcia. Ficaram a conversar, sentados sob a figueira grande. Chiru achava que a rebentar uma revoluo. 
Saturnino, com seu ar re
ser~ado e grave, dizia que preferia aguardar os jornais para ler os detalhes e formar um juzo definitivo com conhecimento de causa. Rodrigo pensava j em barricadas.
-        - Eu dava o brao direito pra estar na Rua da Praia na hora m Sue o piquete carregou contra o povo. Mas queria estar armado
-        eom af amas caixas de balas no bolso ! Corja !
- Enquanto o Senador Pinheiro estiver vivo, este pas no pode viver em paz - declarou Chiru.
A SOMBRA DO ANJO
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#5 5 2        O RETRATO

Rodrigo pensava em Toni. Qne noite! Snas idias eram am tumulto. Ele precisava fazer algo de violento para descarregar o~s nervos. Que horas seriam? Chiru trou 
o relgo do bolso, Neco riscou um fsforo e aproximou-o do mostrador: duas menos cinco.
Rodrigo despediu-se dos amigos e entrou em casa. Agora uma espcie de feroz alegria apoderava-se dele. Tiha na mente uma efervescncia de planos. Sim, era preciso 
lutar, tomar posio. Deixaria o Partido Republicano, escreveria uma carta ao Dr. Fernando Abbott aderindo aos democratas. Faria ali em Santa F e arredores a propaganda 
de Ramiro Barcellos ... S de pensar na luta seu peito como que inflava de esperana e alegria.
Acendeu a luz da sala de visitas e ficou por alguns instantes parado na frente do Retrato. O outro Rodrigo l estava no topo da coxilha, a olhar para o futuro com 
certa arrogncia.
Tens cinco anos menos que eu, rapaz, mas no te invejo, porque ests preso nessa tela e eu estou livre, e vivo, compreendes? Livre e vivo! E, caso ainda no saibas, 
comunico-te que Toni  minha. E que pretendo romper com o Partido e com o Senador. Daqui por diante sou um homem novo. O que vai acontecer no sei, nem quero saber. 
S sei que vai ser divertido.
Como estivesse com fome, entrou na sala de jantar, abriu uma lata de lngua em conserva, tirou algumas fatias de po do guardacomida e improvisou uma ceia. Comeu 
com uma pressa nervosa, mastigando com muito rudo. Abriu uma garrafa de vinho Borgonha e bebeu sofregamente trs clices cheios. Depois, subiu. No acendeu a luz 
do quarto para no acordar a mulher. Despiu-se em silncio. Trazia ainda no corpo (ou era apenas nas narinas?) o perfume de Toni.
- Rodrigo?
- Sou eu, no te assustes.
- Que horas so?
- Mais de duas.
- Onde  que andavas?
- s voltas com o Cel. Prates. Aconteceu uma coisa horrvel em Porto Alegre.
Contou-lhe tudo. Flora soergueu-se na cama. O luar caa-lhe agora em cheio no rosto estremunhado e Rodrigo encheu-se duma sbita ternura pela mulher.
- Nossa Senhora, que ser que vai acontecer? - balbuciou ela.
- Seja o que Deus quiser.
Flora tornou a deitar-se e ficou de olhos entreabertos, pensativa. Rodrigo estendeu-se a seu lado e puxou-a contra si, achando gostosa a proximidade daquele corpo 
quente.
- Este pas no tem compostura... - murmurou ele.
A SOMBRA DO ANJO        553
- E tn vais te meter tambm nessa questo?
- J estou metido, meu bem. - Ora...
Rodrigo sentia o latejar das tmporas. Estava excitado, sabia
que no poderia dormir aquela noite. Comeou a acariciar os om
bros da mulher.
- Tem modos, Rodrigo.  tarde.
- Que  que o relgio tem a ver com essas coisas?
Um desejo que a princpio foi apenas do crebro ("Tens o
olho maior que o estmago" - ralhou a Dinda) comeou aos
poucos a tomar-lhe conta do corpo e a regular a intensidade e o
ritmo de soas carcias.
- Que homem impossvel) - resmungou Flora. E entregou-se.
#CAPfTULO VI
1
NO DIA SEGUINTE Rodrigo leu no Drio do Interior de Santa Maria pormenores dos acontecimentos da noite de 14 de julho.
O meeting na praa Senador Florncio, organizado pelo Comit Central. Acadmico contra a candidatura do Marechal Hermes, terminara por volta das oito horas da noite, 
sem incidente. A massa que comparecera ao comcio se dissolvia em ordem pelas ruas adjacentes quando os estudantes espontaneamente se organizaram num prstito e 
subiram a Rua dos Andradas vivando nomes de polticos da oposio. Quando os manifestantes defrontavam os cafs Gioconda e Amrica alguns acadmicos resolveram dirigir 
o prstito rumo das redaes dos jornais. A Rua dos Andradas estava atestada de gente - homens, mulheres, crianas que tinham ido assistir ao comcio ou se dirigiam 
para os cinemas.
Os soldados do piquete da Chefatura de Polcia, de prontido desde o anoitecer, fizeram juno com a escolta presidencial  esquina da Rua Gen. Cmara e, sem que 
houvesse da parte dos civis a menor provocao, desembainharam suas espadas e arremessaram os cavalos contra os manifestantes. A multido foi tomala de pnico. Gente 
corria para todos os lados, aos gritos, procurando abrigo nos cinemas, cafs e casas comerciais que ainda estavam de portas abertas. Muitos tombavam, golpeados pelas 
espadas dos soldados ou derrubados -:pelos seus cavalos,. Outros rolavam sobre o calamento, pisoteados pelas patas dos animais. O terror era indescritvel. Ouviram-se 
vrios estampidos. Alguns populares reagiam e alvejavam a tiros de revlver os soldados que, por sua vez, atiravam contra o povo com seus Nagants, em descargas cerradas. 
Num largo trecho de rua houve uma confuso medonha de gritos de raiva, dor e mdo, de mistura com o estrpito de patas, estamFidos e tinir de ferros.
Quando tudo serenou, viam-se estendidos pelas caladas e sobre o pavimento da rua cerca de vinte e cinco pessoas, das quais cinco mortas ou agonizantes. Um dos mortos 
era nm acadmico que cursava o ltimo ano de Medicina. (Emocionado, Rodrigo leu: uma.-das figuras mais salientes da Faculdade de Medicina, moo distinto, verdadeira 
expresso de intelectualidade rio-gran
A SOMBRA DO ANJO        555

dense.) Hava sangue nas caladas, nas pedras da rua, nas paredes .. .
~ Os telegramas davam detalhes horripilantes. No melo da rua ~aza morto um desconhecido- com a testa perfurada por um ferimento de bala que lhe punha  mostra a 
massa enceflica. Durante a luta, um soldado cara do cavalo e fora apanhado e arrastado por um automvel que passava no momento .. .
- P monstruoso! - exclamou Rodrigo, dobrando o jornal e atirando-o sobre a mesa.        "
O Padre Astolfo e o Cel. Jairo, que naquele dia haviam almoado no Sobrado, achavam-se sentados na frente do amigo, ambos srios e apreensivos.
- Logo no dia do aniversrio da Constituio do Estado! - disse Rodrigo. - Da vossa famosa Constituio positivista, coronel, to cheia de amor pela Humanidade.
Jairo cofiou o bigode com dedos incertos.
- O meu amigo no vai culpar a Constituio pelo que aconteceu. Nem o Dr. Borges de Medeiros, que noo est no governo.
- Qual! - retrucou Rodrigo. - O Gal. Salvador Pinheiro Machado  um preposto do Dr. Borges. So vinho da mesma pipa.
Floriano entrou na sala, aproximou-se do padre e puxou-lhe a manga da batina, murmurando: "Cavalo." O vigrio sorriu, fez o menino montar-lhe nos joelhos, tomou-lhe 
ambas as mos e ps-se a sacudir as pernas.
- E depois - continuou Rodrigo - est se vendo que a coisa toda foi premeditada. Na noite do comcio o piquete da Chefatura est postado na Rua Sete, de prontido. 
A escolta presidencial tambm se acha alerta, nas proximidades do Palcio. Na Rua Riachuelo est o primeiro regimento de cavalaria. Santo Deus! Pra que tudo isso? 
Ser que o comcio dos estudantes ia pr em perigo o regime?
- A coisa toda deve ter outra explicao... - arriscou Jairo.
Floriano ria, atirando a cabea para trs, e o padre agora sacudia as pernas com maior rapidez, pondo o "cavalo" a galope.
- Explicao coisa nenhuma! - vociferou Rodrigo. - Veja o que diz o jornal. Quando terminou o comcio, as foras da Brigada Militar foram-se aproximando da Rua dos 
Andradas. Est clara a premeditao. O chefe de polcia devia ser demitido e julgado como um criminoso vulgar!
Laurinda entrou trazendo uma bandeja com trs xcaras de caf fumegante. Os homens serviram-se. Rodrigo bebeu o seu dum sorvo s e sentiu o lquido descer-lhe escaldante 
pelo esfago.
5 56        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        5 5 7
Quando, alguns minutos mais tarde, Joca Prates entrou no Sobrado, Rodrigo correu para ele e, sem dar-lhe sequer a oportunidade de cumprimentar os presentes, empurrou-o 
para cima duma cadeira.
- Sente-se e oua o telegrama que passei hoje de manh, e cujo texto ser publicado em seo livre pelos principais joraaia do Rio Grande, dentro de dois dias.
Tirou do bolso um papel, desdobrou-o e leu

Senador Pinheiro Machado. Palcio Monroe. Rio de Janeiro. Revoltado e envergonhado ante os brbaros acontecimentos da noitede quatorze de julho ltimo, em que o 
governo de vosso irmo no hesitou em mandar espingardear o povo indefeso, inclusive mulheres e crcangas, nas ruas de Porto Alegre, comunico-vos que acabo. de me 
desligar do Partido Republicano, pois no posso continuar pertencendo a um grmio poltico cujos chefes com tanta fceqn-: cia recorrem  brutalidade e ao assassnio, 
na estpida e criminosa iluso de que as patas dos cavalos de sua Brigada Militar e as armas de seus beleguins e capangas possam abafar os gritos e anseios de liberdade 
do nobre e bravo povo gacho. Aproveito a oportunidade para manifestar o meu repdio  nefasta candidatura do Marechal Hermes, que em to m hora resolvestes eleger 
senador, para escrnio do Ro Grande e do Brasil.

Terminada a leitura, Rodrigo tornou a dobrar o papel, metendo-o no bolso num gesto brusco que valeu como um vigoroso ponto final.
Joca" Prates coou a coroa da cabea, embaraado.
- O senhor botou fora a sua candidatura. O Senador no
vai lhe perdoar nunca mais esse telegrama .. . Rodrigo encolheu os ombros.
- Que me importa? Por esse preo no quero ser nem. Presidente da Repblica.
- Pois  uma pena. Ia dar um deputado de mo cheia. Podia prestar muitos servios  sua terra .. .
- No faltaro capachos I
2
Durante aquele resto de julho e as duas primeiras semanas de agosto, Rodrigo geralmente deixava o Sobrado s oito da noite, metia-se no clube, jogava vrias mos 
de poquer e, quando o sonolento relgio do bufete dava a ltima batida das doze, ele saa, en
caminhava-se para a Rua do Poncho Verde, ficava a rondar a casa dos Weber, com os olhos postos na janela do quarto de Toni. Se a vidraa estava erguida (haviam convencionado 
sinais) e s a gelosia fechada, esgueirava-se para o terreno baldio, achegava-se  janela e assobiava ou tossia baixinho. Toni vinha abrir cautelosamente a gelosia 
e ele saltava para dentro.
Quando, porm, encontrava a vidraa descida - e isto era o que acontecia na maioria- das noites - passava de largo, e seu clido desejo pela rapariga era violentamente 
cortado pelo gelo da decepo, e  medida que se afastava da meia-gua a sensao de malogro ia aumentando de tal forma, que ao chegar ao Sobrado ele se punha a 
fumar cigarro sobre cigarro, no silncio do escritrio deserto, a andar dum lado para outro, impaciente, agastado, com agonia de fazer um gesto violento que lhe 
descarregasse o peito, livrando-o daquela angustiante impresso de abafamento. Dificilmente ficava a ss com Toni mais duma vez por semana, e mesmo quando, vencidas 
as dificuldades - alguma janela aberta e iluminada nas vizinhanas, um passante inesperado que o obrigava a dar voltas ridculas ao redor do quarteiro - conseguia 
pular para dentro do quarto, nem sempre podiam gozar por completo daquela intimidade, pois ficavam ambos cheios de apreenses e sustos, sobressaltando-se aos menores 
rudos da casa: uma viga ou mvel que estalava, uma tosse ou arrastar de ps nos quartos contguos .. . Ar mesmo o rumor de vozes e passos vindos da rua deixava-os 
perturbados. E na penumbra daquela pequena pea, deitado com a rapariga nos braos, Rodrigo sentia dum modo ttil o medo que agitava a criaturinha. E, como por um 
processo de osmose, esse medo passava para seu prprio corpo, deixando-o desinquieto e ao mesmo tempo humilhado. Sabia que sua vida no corria perigo, mas a possibilidade 
de ser descoberto naquele quarto causava-lhe nm temor quase infantil. Detestava a idia de ver-se envolvido num escndalo. Pensava com horror no ridculo de ser 
pilhado a saltar da janela, como um gatuno .. .
Nos breves instantes que passavam juntos naquele universo morno e sombrio, falavam pouco e, quando o faziam, era um sussurro, um no ouvido do outro. Rodrigo sentia 
que esses cochichos lhe aguavam o desejo, pois davam a sensao de que as palavras sadas da boca de Toni eram como dedos a lhe roarem a orelha, numa ccega mida 
e morna. A verdade  que no necessitavam falar. Seus corpos diziam tudo quanto era indispensvel dizer, e as mos e os lbios possuam uma eloqncia e uma sutileza 
que faltavam s palavras.
No entretanto, terminada aquela espcie de luta corporal que se avizinhava da epilepsia, quando os dois ficavam lado a lado, numa calma exausta e meio triste - mais 
duma vez ele sentira que devia
#5 5 8        O RETRATO
dizer alguma coisa, fazer alguma promessa, lanar enfim uma 1 sobre o futuro. Esforava-se, mas em vo, por encontrar palavras convincentes e ao mesmo tempo to 
leves que no ofendessem Tona. No entanto, o mais que conseguia era balbuciar "eu te quero, eu te quero muito" - enquanto seus dedos se metiam pelos cabelos dela 
ou passeavam numa carcia esfrolante pela nudez dos seios e do ventre.
Rodrigo em geral pagava esses minutos de prazer com dias s dias de separao de Toni, vendo-a apenas na rua, de longe e fortuitamente, ou ento quando ela vinha 
ao Sobrado em companhia do resto da famlia. Nestas ltimas ocasies ele continuava a representar o papel do titio cordial e meio trocista, esforando-se por no 
trair seus verdadeiros sentimentos. No cessava, porm, de clhar de instante a instante para Flora, tratando de ler-lhe os sentmentos e os pensamentos atravs da 
expresso fisionmica, querendo ansiosamente saber se ela desconfiava ou no do que se passava. Quanto a Toni - coitadinha? - ficava no seu canto, mais silenciosa 
e acanhada que nunca, e pelos seus gestos, olhares e palavras, Rodrigo percebia que a menina estava a debater-se numa terrvel luta de conscincia.
Havia momentos em que ele pensava, apreensivo, no futuro. No queria perder Flora e era-lhe insuportvel a idia de ficar diminudo perante os olhos dela. Achava 
que noo poderia ser feliz sem seu amor, sua admirao, seu respeito. Sabia, sem a menor sombra de dvida, que noo cessara de amar a esposa. Que diabol No era 
possvel 
catalogar os sentimentos, metendo-os em escaninhos numerados. O corao humano era um poo de mistrios e contradies. Sim, ele amava tambm Flora. Tinha ainda 
por ela a mesma afeio dos tempos de namorado e noivo. (Olhava para o Retrato e o outro Rodrigo parecia dizer-lhe: "A mesma? Ou quase a mesma?") Certas noites desejava 
a mulher legtima com uma intensidade de amante e isso o alegrava, pois de certo modo esse desejo o redimia - pelo menos perante si mesmo - do pecado de amar e desejar 
Toni Weber.
Tratava Flora com um carinho redobrado. Prometera lev-la a Buenos Aires, onde assistiriam  temporada lrica do Teatro Colon. No perdia ocasio de fazer-lhe elogios, 
principalmente na presena de terceiros. "Como ests linda hoje, meu bem." "Esse vestido te fica uma maravilha, meu amor." "Como  possvel ficares mais bonita - 
medida que o tempo passa?"
Nos momentos em que o remorso noo o picava e seu esprito parecia aceitar sem nenhum .atrito aquela situao ambgua, comprazia-se em fazer confrontos. Flora era 
um fruto sazonado e tenro, de sumo alcalino. Toni, uma fruta meio verde, de polpa rgida e sabor agridoce.
A SOMBRA DO ANJO        5 5 9

s vezes,  hora das refeies, contemplando a mulher e como que redescobrindo nela as feies que tanto o haviam atrado - o rosto oval dum moreno desmaiado, os 
olhos amendoados de expresso serena e lmpida - ficava enternecido e mentalmente se dizia os piores nomes.
Bolas! S porque apareceu na minha vida essa austraca no quer dizer que eu v deixar de amar e respeitar minha mulher, adorar os meus filhos, gostar da minha casa!
Maria Valria mirava-o com freqncia dum jeito que o deixava desconfiado. Teria ela farejado alguma coisa? No raro, depois do meio-dia ele se deitava no sof da 
sala, com a cabea pousada no regao da madrinha, que ficava a fazer-lhe cafun. Numa dessas ocasies, a propsito de nada, a Dinda lhe dissera em voz muito baixa: 
"Se tiver de fazer alguma patifaria, faa de jeito que sua mulher noo descubra, j"ouvu?" Seu primeiro mpeto .fora o de explodir num protesto. Achou melhor, porm, 
manter-se num mutismo cauteloso.
Os amigos continuavam a comparecer ao Sobrado, onde os seres de inverno tinham um sabor especial na sala aquecida por uma estufa de querosene, cujo cheiro evocava 
a Rodrigo a lanterna mgica de sua infncia.
Andava ele agora intrigado com a atitude de Wolfgang, que no lhe dirigia mais aqueles longos olhares apaixonados mas sim relances rpidos em que se podia perceber 
um mal contido ressentimento. Desconfiaria o rapaz de alguma coisa? Quanto a Frau e Herr Weber, noo haviam mudado. Ela ainda lhe beijava as faces, afirmando que 
ele era o rnais belo homem do mundo. O maestro continuava a contempl-lo com aquele olhar em que havia um misto de~ gratido e- perplexidade. E pela maneira natural 
e afetuosa com que Flora continuava a tratar Toni, Rodrigo chegava  reconfortante certeza de que sua mulher -noo suspeitava de nada.
3
Em meaos de agosto leu com emoo no Correio do Povo um dos ltimos discursos de Pinheiro Machado, ficando particularmente impressionado pelo seu tom dramtico:
~ possvel que durante a convulso que sacode a Repblica em seus fundamentos, possamos submergir. ~ possvel. ~ possvel mesmo que o brao assassino, impelido pela 
eloqncia das ruas, nos possa atingir. Afirmamos, porm, aos norsos correligionrios que, se esse momento chegar, saberemos ser dignos de vossa confiana. Tombaremos 
na arena, fitando a grandeza da nossa Ptria, sere-
#56O        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO _        561
namente, sem maldio nem desprezo, sentindo to-somente com-. paixo para com aquele que assim avulta a nobreza inata do bc+ssileiro.
Rodrigo sabia que o Senador no era homem que dissesse tais coisas levianamente, com o intuito apenas de criar uma aurola de martrio em torno de sua cabea. Como 
conseqncia das ltimas eleies, nas quais ficara iniludivelmente assegurada a vitria do Marechal Hermes - eleies em que mais uma vez a oposio ae declarara 
esbulhada, fraudada e coagida - a atmosfera do Pas estava carregada de ressentimentos e dios, e muitos polticos, publicistas e demagogos tratavam de instigar 
o povo contra a pessoa ds Pinheiro Machado, cujo assassnio era abertamente pregado em ~mcios no Rio de Janeiro. Um deputado federal chegam a dizer da tribuna da 
Cmara que, se apresentasse um projeto, sem artigo primeiro seria: "Elimine-se o Sr. Pinheiro Machado."
J em princpios daquele ano o Senador reunira em sua residncia do Morro da Graa os representantes do Rio Grande, czortando-os a manterem-se unidos para o bem 
da Repblica, caso ek viesse a tombar assassinado. Em palestra com o jornalisu Joo do Rio, confiara-lhe: "Morro na luta, menino. Eles me maum. Mas pelas costas. 
So uns "pernas-finas". Pena  que no seja no Senado, como Csar. H de ser na rua. Morro em defesa da Repblica."
Contavam-se histrias que ilustravam bem a atitude serena impvida do Senador em meio dessas malquerenas e ameaas. Dama feita, ao passar de automvel por meio 
dama multido ezaluda que, havia pouco, gritava insultos a seu nome, disse em voz alo ao chofer, para que todos ouvissem:
- S tire o revlver quando eu tirar o meu. S dispare o sem primeiro tiro depois que eu tiver disparado o meu.
E o automvel passou pelo meio da multido, onde x fizera de sbito um silncio respeitoso.
Noutra ocasio, ao deixar o Senado, a cuja poro se aglomeravam populares dispostos a vai-lo, instruiu o chofer:
- Siga. No to depressa que possam pensar que tenho medo. nem to devagar que possa parecer acinte.
Quando um amigo bajulador assegurou que o pas inteiro scria convulsionado caso atentassem contra sua vida, Pinheiro Machado replicou
- Sim, se o` atenudo falhar.
Rodrigo lia ou ouvia todas essas histrias e ficava a pensar, j tomado de remorsos, no telegrama que passara ao Senador aps os acontecimentos de 14 de julho. No 
se arrependia de ter jogado fora a oportunidade duma carreira poltica sob a proteo de Pinheiro Machado. Lamentava, isso sim, ter perdido a amiude
daquela figura que admirava, apesar de todos os seus defeitos, e pela qual sentia uma afeio quase filial. Relia os termos do telegrama e achava-os insolentes e 
agressivos. E agora que os inimigos do Senador aulavam o povo contra ele, apontando-o como a causa de todos os males que desgraavam o pas, agora que escribas 
e oradores de praa pblica recomendavam claramente seu assassnio, Rodrigo achava que era seu dever apoiar aquele homem, sem olhar convenincias pessoais e nem 
mesmo idias polticas.
Chegou a rascunhar um telegrama em que exprimia sua solidariedade irrestrita ao representante do Rio Grande no Senado. Mas rasgou-o, insatisfeito com a redao.
Fica para outro dia - decidiu. Mas esse dia noo chegou. Rodrigo esqueceu o Senador, pois Toni Weber absorvia-lhe os pensamentos, fazendo-o alternadamente feliz 
e 
desgraado. Feliz porque descobria que a rapariga o amava com , uma intensidade cada vez maior, desgraado porque era exasperante ter de esperar s vezes um semana 
inteira pela oportunidade de ficar a ss com ela.
Aqueles encontros no quarto da moa faziam-se cada vez mais difceis, arriscados e constrangedores.
Numa daquelas noites de agosto em que o minuano soprava, fazendo tremer as janelas da meia-gua, Frau Weber ergueu-se da cama, subitamente indisposta, e veio bater 
 porta do quarto de Toni, para pedir-lhe um remdio. Rodrigo enfiou s pressas o sobretudo e, descalo, com a roupa e os sapatos nas mos, saltou pela janela e 
ficou sentado no cho gelado, atrs dum arbusto, a vestir-se atabalhoadamente e a tremer de frio, de despeito e vergonha, amaldioando - quem? qu? - por se achar 
naquela situao grotesca. Prometeu a si mesmo que jamais voltaria quela casa. Precisava descobrir outro lugar onde encontrar-se com Toni. Passou mais duma semana 
sem falar com a rapariga. E ficou de sovo enciumado ao v-la, durante esse perodo, umas duas ou trs vezes em companhia de Erwin Spielvogel, que costumava ir esper-la 
 sada do cinema, nas noites de funo.
Um dia em que Ton veio ao Sobrado com os pais, Rodrigo, sem que os outros vissem, conseguiu meter-lhe na mo um bilhete em que lhe pedia fosse no dia seguinte, 
sob qualquer pretexto, ao consultrio.
Toni foi. E enquanto Rodrigo, alvoroado, fechava a porta a chave, ela se sentava numa cadeira, constrangida como uma visita de cerimnia. E quando ele a beijou, 
seus lbios permaneceram inertes, como que mortos, o busto retesado, os braos cados. Que era que ela tinha? - quis saber Rodrigo. Estava enfarada dele? No o amava 
mais? Havia outro homem? Sim, ele a vira muitas vezes aquela semana com o Spielvogel... Vamos, diga alguma coisa I
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A SOMBRA DO ANJO        563
Tomando-a nos braos, sacudiu-a. Toni mirava-o com os olhos cintilantes de lgrimas, mordendo os lbios, num silncio que deixava Rodrigo cada vez mais exasperado. 
Por fim largou-a e foi sentar-se atrs do bureau, procurando parecer indiferente  presena dela.
Houve um silncio de alguns segundos, ao cabo dos quais Toni se ergueu, aproximou-se dele, passou-lhe a mo de leve pelos cabelos, beijou-lhe a testa, as faces e 
murmurou-lhe ao ouvido: "Mais je t"adore! Je t"adore!"
Ento ele no compreendia? Aquela sala excessivamente clara, a mesa de operaes, os instrumentos cirrgics no armrio de vidro, a proximidade dos empregados da 
farmcia, o rudo das vozes e passos dos que passavam pela calada ... Tu sais ... Rodrigo ficou enternecido. Sim, era um estpido, um animal. Compreendia tudo e 
pedia-lhe perdo. F-la sentar-se sbre seus joelhos, .beijou-lhe a boca com uma ternura arrependida que procurava ser pura, mas que pouco a pouco se foi transformando 
em desejo, fazendo que suas mos comeassem a passear pelo corpo da rapariga. Toni ps-se subitamente de p, compondo o vestido e aproximando-se da porta.
- Por favor, deixe-me ir agora, sim?
Ele soltou um suspiro, passou as anos pelos cabelos. - Ento? - perguntou. - E agora?
Ela lhe suplicou que esperasse um pouco, tivesse pacincia. Tudo estava to confuso ... E, com os olhos midos, contou-lhe que ultimamente no dormia direito, sonhava 
muito, tinha pesadelos aflitivos, e o remorso e o medo a atormentavam. O que estavam fazendo era errado, era mau, era pecaminoso. Tudo fora .uma loucura. Ela o amava, 
sim, de tal maneira que s vzes lhe parecia que ia perder a razo. Mas nem por isso sofria menos. Vivia assaltada de temores. Os pais estranhavam sua atitude, no 
compreendiam por que ela recusava ir ao confessionrio. Por outro lado, pediam-lhe com insistncia que tratasse. melhor Erwin Spielvogel. Era uma situao insuportvel!
Rodrigo olhava perdidamente para Toni. Havia no rosto dela, como na voz, algo de machucado que o penalizava.
Comeou a andar dum lado para outro, as mos nos bolsos. a pensar numa soluo.
- Queres- ento terminar com tudo? - perguntou, estacando bruscamente diante da Fraulein.
Como nica resposta ela desatou o choro. Rodrigo puxou-a contra o peito, beijou-lhe os cabelos, e ficaram assim abraados em silncio por longos minutos. Por fim, 
enxugando os olhos. Toni murmurou:
- Preciso ir.
Disseram-se adeus, ele abriu a porta e ela se foi.
4

A primeira pessoa a receber a notcia em Santa F foi o telegrafsta que estava de planto na noite de oito de setembro. Principiou a transformar os sinais de Morse 
em letras, com uma indiferena profissional temperada apenas pela tnue curiosidade que -lhe vinha de o telegrama trazer a rubrica de urgente e ser endereado ao 
Cel. Joca Prates.  medida, porm, que as letras iam formando as palavras e estas as sentenas, os olhos do funcionrio se agrandavam, sua caligrafia tornava-se 
menos firme e por fim, depois de escrever a ltima letra do nome do signatrio do despacho - um deputado estadual - os lbios do telegrafista tremeram e ele ficou 
olhando para o papel com uma expresso de mudo horror, como se tivesse acabado de ler nele sua prpria sentena de morte.
Levou alguns segundos para se refazer do choque. Depois passou a limpo o telegrama e chamou o estafeta.
- Leve isto depressa ao intendente. Se ele no estiver em casa, est no clube. Raspa, que a coisa  sria.
Joca Prates jogava poquer com trs correligionrios quando Saturnino veio entregar-lhe o despacho. Abriu-o de cenho cerrado, leu e ficou lvido. Depois passou o 
papel para um dos amigos e, como se tivesse perdido a fala e o movimento, ficou a olhar com uma fixidez estpida para as cartas sobre o pano verde.
- Que barbaridade! - exclamou um dos jogadores. Os outros dois, que haviam lido a dramtica mensagem por cima do ombro do primeiro, saram a andar pelas dependncias 
do clube numa pressa ofegante e atnita.
Joca Prates ps-se de p lentamente e, como um sonombulo, encaminhou-se para o telefone do bufete, comunicou-se com a prF~ria casa e, ao ouvir a voz da esposa, 
balbuciou:
- Ded, aconteceu uma coisa horrorosa .. .
No pde continuar, pois o pranto lhe cortu subitamente a voz. Atrs do balco do bufet, Saturnino cofiava sombriamente o bigode, murmurando: "Que- calamidade! 
)~ o fim do mundo. Que calamidade!"
A notcia chegou aos ouvidos do gerente do Cinema Santa Ceclia quando a funo estava j quase a findar. O homem esperou, aflito, que terminasse a ltima parte 
do drama e, quando a luz se acendeu, subiu para o palco e deu a notcia, ao pblico com voz sumida e ar trgico, como se estivesse anunciando o juza final.
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A SOMBRA DO ANJO        565
Quando terminou de falar, fez-se um silncio duma frao de se Bundo e depois um clamor se ergueu da platia, dos camarotes r da galeria, onde um homem se ps de 
p e berrou: "Bem-feito Era o que esse canalha merecia!"
De vrios pontos do teatro surgiram protestos indignados Ouviu-se um grito: "Lincha!" Foi ento o pnico. Os espectadores precipitaram-se atropeladamente na direo 
da porta, coma se algum houvesse gritado - incndio! ! Algumas mulheres sol lavam lamentos histricos, muitas desatavam o choro; outras gn lavam os nomes dos maridos 
e dos filhos. Alguns cidados trepavam nas cadeiras e pediam calma. Vrios deles empenhavam-se em discusses que degeneravam em briga. De quando em quando no meio 
da balbrdia ouviam-se frases como: "Abaixo a tirania!" "Viva a liberdade!"
No centro telefnico, no podendo dar conta de todos os chamados, a operadora rompeu a chorar, numa crise de nervos, e teve de ser substituda.
Vinte minutos depois de chegado o telegrama a Santa F, quase toda a populao da cidade, pelo menos as pessoas que residiam na Rua do Comrcio e nas transversais, 
j estavam a par do acontecimento que comeava a abalar o pas inteiro: O Senador Pinheiro Machado havia sido assassinado pelas costas com duas punhaladas!
Rodrigo estava em casa em companhia do vigrio e do Cel. Jairo quando Joca Prates entrou intempestivamente e deu-lhe a notcia. Teve a impresso de que recebia uma 
bordoada na cabea. Sentou-se, aturdido. Por alguns instantes nenhum dos quatro homens falou. Refeito do choque inicial, Rodrigo pediu pormenores. Quem fora o assassino? 
Onde se dera o fato? Conte alguma coisa, homem de Deus!
O Cel. Prates passou-lhe o telegrama. Era dum laconismo dramtico. Dizia apenas que o crime fora cometido cerca das cinco horas da tarde, no Hotel dos Estrangeiros, 
no Rio, e que o criminoso, natural do Rio Grande do Sul, estava preso.
- A coisa no vai ficar assim - murmurou o intendente. - O Rio Grande no pode ficar acovardado depois duma barbaridade dessas. Matarem o nosso Pinheiro!
E, num assomo de dio, exclamou: - Vai haver uma revoluo!
- Contra quem, coronel? - perguntou o padre placidamente. - Ora... ora, contra os inimigos do Rio Grande! - Mas no foi um gacho que assassinou o Senador? - per
guntou o vigrio com um bom-senso desarmante.
Joca Prates lanou-lhe um olhar em que j havia um elemento
de rancor.
Mas deve estar a soldo da camarilha poltica que no gosta de ns!
Astolfo encolheu os ombros filosoficamente.
_ Isso noo se faz - murmurava o Cel. Jairo, sacudindo a cabea. - Isso noo se faz .. .
Rodrigo aproximou-se da janela e por alguns instantes ficou a olhar a praa, atravs dos vidros meio embaciados. O desaparecimento do Senador dava-lhe uma estranha 
sensao de orfandade que ele noo procurava explicar nem combater. E agora lhe vinha uma sbita e enternecida saudade do pai, o desejo de v-lo, ouvi-lo, t-lo 
ali 
no Sobrado como companheiro naquela hora amarga.
Desenhou-se-lhe na mente, ntida, a imagem de Pinheiro Machado tal como o vira no inverno de 191O. O Senador apertavalhe a mo e dizia: "H homens que nasceram talhados 
para o sacrifcio. Mas uma coisa sei te dizer: eu no tenho vocao para
martir.
Rodrigo fez uma brusca meia-volta:
- Pelas costas, os miserveis!
Ao saberem da notcia, Flora e Maria Valria vieram para a sala e ficaram junto da porta, mudas, num silncio apreensivo:
Rodrigo leu nos olhos de ambas uma expresso que com freqncia vinha ao semblante das mulheres do Rio Grande: o medo ancestral da guerra.
~ - Precisamos fazer alguma coisa! - exclamou, olhando para o intendente. - Vou redigir um telegrama  nossa bancada no Rio. Algo de vibrante que leve o nosso protesto, 
a nossa indignao ante esse crime brbaro, esse.. .
Calou-se, engasgado.
E naquela mesma noite, ao entrar no Comercial, onde esperava colhr assinaturas para o telegrama, ouviu um forasteiro comentar em altos brados: "Bem-feito! Foi uma 
limpeza! Era nm caudilho, um dspota, a. asa negra do Brasil!" Precipitou-se sobre ele. segurou-o pela gola do casaco, deitou-o sobre um dos bilhares e esbofeteuu-lhe 
repetidamente a cara, vociferand:
- ; para aprenderes a respeitar os homens, canalha!
5
Nos dias que se seguiram leu nos jornais os pormenores da tragdia do Hotel dos Estrangeiros.
Pinheiro Machado havia sido apunhalado pelas costas no momento em que, ladeado por Bueno de Andrade e Cardoso de Al-
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meida, se encaminhavam para o salo situado entre o refeit o saguo do hotel.
Cardoso de Almeida contou mais tarde  polcia que tiv impresso de que algum desferira um soco nas costas do Se e, como ao voltar-se visse um jovem armado dum 
punhal, pitara-se sobre ele para desarm-lo, enquanto Pinheiro Ma dava alguns passos, cambaleante, e caa nos braos de Buen Cunha, exclamando: "Fui apunhalado!" 
.O assassino, porm seguira fugir, sendo perseguido por populares, um guarda e o prio Cardoso de Almeida. Preso por um civil na travessa de Salvador, entregou a 
arma que ainda empunhava e na qual n via o menor vestgio de sangue. Suas palavras foram: "S assassino do Senador Pinheiro Machado."
Interrogado pela polcia, declarou chamar-se Francisco
de Paiva Coimbra, ser padeiro e natural do Rio Grande do Confessou que odiava Pinheiro Machado e que ao ler nos ja as notcias de que o Pas estava dividido por 
causa da can fura do Marechal Hermes, chegara  concluso de que era in pensvel que algum matasse o homem que infelicitava o Br Mais tarde, sabedor dos acontecimentos 
da noite de 14 de ~ em que a Brigada Militar carregara em Porto Alegre sobre o reunido em meeting contra a candidatura do Marechal, assasse do estudantes e, entre 
eles, um filho duma protetora sua, con cera-se de que ele, Manso de Paiva Coimbra, devia ser o assas " para vingar a morte do jovem. Comprara ento uma faca a preto 
no Largo de So Salvador (e Rodrigo estremecia de ho ante o detalhe) a faca custara ao criminoso seiscentos ris. A disso, pouco depois desistira dp intento resolvendo 
procurar emprego. Em breve, porm, lera na Gazeta de Notcias um art sobre a candidatura de Hermes da Fonseca e de novo ficara tom do desejo de eliminar Pinheiro 
Machado .. .
Com o jornal na mo Rodrigo caminhava dum lado para tro no escritrio, na frente do Padre Astolfo, para quem estiver ler em voz alta o relato da tragdia.
- Essa histria est mal contada! - exclamou. - Alg pagou o sicrio pra assassinar o Senador, isso ningum me tira cabea. Foi dinheiro grosso, e o homem  capaz 
de cumprir a sem confessar o nome dos mandantes. Ah! Mas a histria pode ficar assim. Havemos de desmascarar essa camarilha de as sinos e lev-los~  barra dos tribunais, 
nem que para isso teu mos de provocar uma guerra civil !
O laudo dos mdicos-legistas dava como causa mortes uma morragia interna provocada por ferimento no pulrxo direito e respectiva artria, produzido por um instrumento 
perfuro-cortan A autpsia - declaravam os mdicos  imprensa - revelara
sn~a de leses graves no organismo do ilustre morto. Notava-selhe apenas um comeo de esderose arterial, pelo que se conclua que o Senador ainda poderia viver 
longos anos.
._ Que estupidez! - exclamou Rodrigo. - Uma faca comprada a um negro por seiscentos ris cortou a vida do maior poltico do Brasil! E noo me admirarei se o bandido 
for absolvido. Este pas noo cria vergonha, o que ele merece mesmo  um ditador da fibra do Senador pra botar a canga no pescuo da canalha!
O Padre Astolfo mirava-o em silncio.
- Agora, vigrio, vou ler-lhe um trecho do telegrama que Rui Barbosa passou  viva de Pinheiro Machado. Veja que nobreza de sentimentos, que dignidade, que estilo!
Apanhou o jornal e leu:
Para mim que sempre considerei inviolvel a vida humana, a dele era duplamente, ainda por mais dois ttulos, sagrada: o da antiga amizade e do antagonismo atual. 
Fao votos para que todos vejamos neste crime deplorvel uma lio viva contra os excessos da violncia e do sangue, com os quais nunca transigi e de que sempre 
preguei o horror. Queira V. Excia. aceitar as homenagens de meu pesar e o respeito que ponho, comovido, a seus ps.
A descrio que o jornal trazia dos momentos que se seguiram ao crime, comoveram Rodrigo at s lgrimas.
Ao ver o cadver do Senador Pinheiro Machado, Rivadvia Corra rompera em pranto, abraando-se com Flores da Cunha, que tambm chorava sentidamente. E quando o delegado 
de polcia mandou pr o corpo sobre uma padiola, muitas das pessoas presentes comeararr~ a disputar o privilgio de conduzi-la. Algum. entretanto, exclamou:
- E a bancada do Rio Grande que vai conduzi-lo.
A porta do hotel, Pomplio Dias bradou:
- Esperem pela revanche. Havemos de vingar essa morte 1
Da multido que se aglomerava na rua partiram gritos: "Apoiado! Apoiado!" Voltando-se para o chefe de polcia e apontando-o com dedo acusador, Pomplio Dias disse 
em voz alta:
- O senhor  responsvel por este crime, pois permitia meetings em que se aconselhava o assassnio do Senador Pinheiro.
Terminada a autpsia, a viva foi levada  presena do corpo do marido. Segurando-lhe a cabea com ambas as mos, beijava-lhe nervosamente o rosto, soluando:
- Deixe-me, deixem-me aqui. Tenho muita coisa a conversar com ele.
Um fazendeiro, amigo ntimo de Pinheiro Machado, beijavalhe freneticamente as faces. Ao entrar no hotel, o Almirante Alexandrino de Alencar exclamou:
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- Qne horror? Mataram-no pelas costas.
- cadver foi transportado para o Morro da Graa em duma multido de onde partiam lamentos, protestos e vivas a pblica e  liberdade.
- Rio de Janeiro estava convulsionado. Viam-se por t cidade bandeiras hasteadas a meio pau. O governo decretara nacional e concedera honras militares  memria do 
Senador. das as diverses aquela noite foram suspensas.  frente da re dos bornais o povo se aglomerava em grupos onde de quando quando rompiam discusses e brigas. 
Dizia-se que o corpo Senador seria embalsamado e levado para o Rio Grande do cujo governo tomara luto oficial por oito dias.
- Padre Astolfo chamou a ateno de Rodrigo para o tedo da carta encontrada no bolso do assassino no momento que fora preso:
Caso eu seja morto pelos capangas deste homem me leva a praticar este ato, no culpem ningum. mo rio-grandense vingo meus conterrneos mortos ruas de Porto Alegre; 
como brasileiro, a afronta cada sobre um povo roubado e esfomeado.

- A est a prova de que o crime teve como mandante al grado, padre? Leia bem essa farta e me diga se isso  estilo padeiro?
Havia na reportagem da tragdia detalhes que comoviam R Brigo dum modo particular, pois lhe recordavam a presena f" de Pinheiro Machado, o homem que um dia ele 
vira de perto que o tratara por tu, chegando a caminhar de brao dado com pelas ruas de Santa F.
Contava o reprter que no dia em que fora assassinado, o nador, trajava fraque aberto, com um cravo vermelho na botoei calas escuras,. e colete a fantasia em cuja 
cava se via um pu de cabo de ouro e marfim. Ao lado do cadver jazia seu chape de- Chile e a bengala de unicrnio.
Rodrigo lia e relia, sensibilizado, o inventrio das coisas q o comissrio de polcia arrecadara dos bolsos do morto: uma garreira e uma lapiseira, ambas de ouro, 
um relgio de plati oma corrente com prolas, nm alfinete com um chuveiro de lhantes, uma carta, dois telegramas, um pinte-nez, um revl Smith and Wesson, um leno 
de seda e trs mil e duzentos em dinheiro .. .
- Veja, padre, se isso noo tem uma significao enorme? homem de maior prestgio do Brasil morre com trs mil e duzent ris no bolso?
-        vigrio sacudiu lentamente a cabea. Rodrigo ergueu
A SOMBRA DO ANJO        569

acendeu o cigarro e pensou em Toni, com um desejo lnguido de t-la a seu lado, de pousar a cabea cansada no colo dela. Precisava v-la o quantos antes. Ficou a 
imaginar o encontro... Ia explicar-lhe o sentido daquela morte. o valor simblico daquele homem e as conseqncias tremendas que o crime podia ter para o Rio Grande 
e para o Brasil. Anteviu a expresso do olhar de Toni, to puro, to longnquo, to incapaz de compreender aqueles dramas violentos duma terra de homens morenos, 
apaixonados e semibrbaros. Depois eles esqueceriam o assassinado, o assassino, a poltica, tudo, para se entregarem ao ato do amor, que era tambm uma espcie de 
homicdio, em que havia um apunhalador e um apunhalado e uma agonia convulsiva, seguida duma deliciosa
morte.
Seu encontro com Toni, entretanto, no lhe proporcionou as delcias imaginadas e desejadas. Trouxe-lhe, isso sim, um novo e terrvel choque. A moa apareceu-lhe 
inesperadamente no consultrio na tarde do dia seguinte e, logo depois que Rodrigo fechou a porta, tomada duma formigante alegria que lhe vinha da antecipao das 
coisas que iam acontecer, ela se sentou no div coberto de oleado negro, fitou nele os olhos alarmados e disse: Je sufis
encei nte.
Qu? Rodrigo julgou ter ouvido mal a frase. Pediu-lhe que a repetisse. Toni repetiu. No havia dvida: Estou grvida. Grvida, grvida ... Ficou a contempl-la com 
um olhar vazio, imbecil, como se noo a estivesse vendo, como se no compreendesse ainda o sentido daquelas palavras.
Toni ps-se ento a murmurar frases em alemo, numa pressa nervosa. Seu corpo tremia sob o casaco de l.
Grvida? - repetiu ele. No era possvel. Como era que sabia? Que provas tinha? Que entendia ela daquelas coisas?
Sem coragem agora de encarar Rodrigo, os olhos postos no cho, a Fraulein contou que sentia tonturas, enjos e que, vous savez - hesitou. - J fazia quase quarenta 
dias que ... uous
savez.
Santo Deus - balbuciou ele. Aquilo tambm era demais! A cabea comeou a doer-lhe e ele teve mpetos de gritar. Toni desatou o choro, estendeu-se no sof e escondeu 
o rosto nas mos. E agora - soluava ela - e agora, que vai ser de mim?
Rodrigo contemplava-a, de braos cados, com uma conscincia dolorosamente aguda das batidas de seu prprio corao, do latejar do sangue nas tmporas e daquelas 
.ferroadas que pareciam
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A SOMBRA DO ANJO        5 71
trespassar-lhe os miolos. Por longos segundos quedou-se imvel calado, enquanto Toni continuava a chorar.
Rodrigo procurava alguma coisa para dizer, mas as palavras francesas ou noo lhe acudiam  mente ou, quando vinham, ele no sabia como disp-las numa frase coerente. 
Pensava no que podia acontecer se as suspeitas de Toni se confirmassem. Era o escndab, o ridculo, seu nome arrastado na lama. Perderia o amor e o respeito de Flora, 
noo teria mais. coragem de olhar de frente o pai, a mdrnha, os amigos ... Ao mesmo tempo recriminava-se pot
causa desses sentimentos e pensamentos egostas que excluam Toni. como se ela noo tivesse tanta coisa a perder quanto ele, ou mais.
Acercou-se dela, sentou-se na beira do div e ps-se a acariciar-lhe de leve os cabelos. Tenha calma - pediu - noo desespere, pode ser um rebate falso...
Toni, porm, sem tirar as mos do rosto, sacudia a cabea numa negativa desesperada.
Mas que experincia tinha ela daquelas coisas para julgar? Froi com o rosto em fogo e com uma vil sensao de constrangimento que ele props fazer-lhe um exame, 
je vous prie, o exame normal a que se submetem as mulheres que desejam ver confirmada a suspeita de gravidez. Toni meneava ainda a cabea: no, no, no! Rodrigo 
indagou: Mas... e se o Dr. Carbone fizesse aquilo? Era um homem decente, de bom corao, e, fosse como fosse, teria de manter o segredo profissional.
Toni alou para ele a face desfigurada:
- Eu preferia morrer a fazer isso.
Rodrigo ergueu-se, comeou a caminhar dum lado para outro. as mos metidas nos bolsos das calas.
- Algum mais sabe disso alm de ns dois?
Toni sacudiu a cabea negativamente. Ps-se a enxugar os olhos soluando ainda, mas agora de mansinho.
Os minutos passavam. Da farmcia vinham vozes: Gabriel gritou uma ordem para o aprendiz. O Dr. Carbone passou a cantarolar pelo corredor. Rodrigo temeu e ao mesmo 
tempo desejou que ele entrasse. Temeu porque sabia que, se o italiano entrasse, bastar-lhe-ia um relance para descobrir-lhes o segredo. Desejou porque, uma vez descoberto 
o segredo, Toni seria forada pelas circunstncias a deixar-se examinar pelo cirurgio. O Dr. Carbone, porm, passou de largo. Um auto buzinou na rua. Depois fz-se 
silncio e no silncio Rodrigo ficou escutando o pulsar d~o prprio sangue nas fontes. Oh! Mas a maneira como se estava portando era egosta. mesquinha, covarde. 
Num assomo de ternura sentou-se no div ao lado de Toni e enlaou-a. Ela recostou a cabea em seu ombro e cerrou os olhos. Apertou com ambas as
mos a mo que Rodrigo tinha livre e ficaram assim por longe tempo num trmulo silncio.
Rodrigo pensava numa sada. J agora a situao lhe parecia menos negra. Era impossvel que um homem como ele fosse afogar-se em to pouca gua ... Claro! No estonteamento 
da surpresa, a princpio lhe parecera que o mundo vinha abaixo, mas agora, refletindo melhor, via a possibilidade de encontrar uma soluo para o problema. Primeiro 
era preciso verificar com certeza se Toni estava mesmo grvida. Se estava, teriam ainda no mnimo trs meses para agir, antes que comeassem a aparecer sinais externos 
de seu estado.
Se, entretanto, tivessem de recorrer ao aborto (a idia lhe causava um frio horror, e ele noo pde deixar de lanar um olhar para o armrio dos instrumentos cirrgicos) 
deveriam pratic-lo sem perda de tempo. Mas quem ia fazer aquilo? Ele? Nunca. No teria coragem para tanto. ~ Carbone, talvez ... pedir-lhe-ia esse obsquio especial. 
Se o homenzinho recusasse, iria at a ameaa para obrig-lo. Sim, Carbone era o homem indicado. Seu oferecimento ao exrcito italiano havia sido aceito e dentro 
de um ms ele embarcaria para a Europa, levando consigo o segredo. Mas ... e se sobreviesse uma infeco ou uma hemorragia e Toni morresse ?
Rodrigo beijava com ternura os cabelos da Fraulein, apertavalhe a mo com fora e por mais que fizesse noo podia afastar da mente um quadro perturbador: Toni, plida, 
estendida sobre a mesa de operaes, a esvair-se em sangue e Carbone com o avental todo manchado de vermelho a trabalhar com seus ferros nas entranhas da craturnha 
... Como tudo aquilo era srdido, estpido!
E se Toni casasse com Erwin Spielvogel? S de pensar nessa sada Rodrigo sentiu que as faces e orelhas ficavam em fogo. Como era capaz de pensar numa coisa to torpe, 
to baixa? A possibilidade daquele casamento lhe dava um sentimento de cime. No entanto - insistia dentro dele uma voz cnica - era uma soluo... Sim, mas e o 
filho? Mesmo que casassem em seguida, poderia Erwin acreditar em que era o pai da criana? Cus, como  que tenho coragem de estar pensando estas coisas?
Como para redimir-se de tamanha vileza, pensou num recurso corajoso: procurar Herr e Frau Weber, contar-lhes tudo honestamente, sem omitir nenhum detalhe, e depois 
dizer-lhes : "Agora faam o qxe entenderem: me processem, me denunciem, me matem ... " Talvez - tornou a insinuar a voz cnica - talvez o maestio e sua Frau te peam 
uma indenizao para. irem-se de Santa F com toda a famlia sem fazer escndalo...
E se eu me aconselhasse com o Padre Astolfo? Qual! Que  que um celibatrio pode entender desses assuntos de amor e filhos
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ilegtimos? Provavelmente ele me falar em pecado, em inferno e repetir a histria da sombra do anjo.
No entanto, por mais brutal que parecesse, a soluo mais prtica, mais rpida era a do aborto. Feito este, tudo voltaria a ser como antes e ele saberia no futuro 
tomar precaues... PorQue agora, passado o susto do primeiro momento, comeava a vir-lhe o temor de perder Toni para sempre.
Lembrou-se do primeiro dia em que a vira no palco do Santa Ceclia, toda vestidinha de branco, com laarotes de fitas azuis nas pontas das tranas. Era, toda ela, 
um smbolo matinal de juventude, graa a pureza. Agora a coitadinha ali estava desfeita em pranto com as feies descompostas e como que envelhecidas pelo sofrimento. 
Era como se entre a noite de seu segundo espetculo em Santa F e aquele momento no se tivessem passado apenas alguns meses mas muitos anos. E ele, Rodrigo, era 
o culpado daquela transformao. Ele a desgraara, por egosmo, por vaidade, por lascvia.
Veio-lhe  mente um dia da infncia em que, caminhando por uma estrada e vendo uma andorinha pousada num fio telegrfico, apanhara uma pedra e alvejara o passarinho, 
matando-o. Seu primeiro sentimento fora de orgulho. Que pontaria! Que trol Correra para o lugar onde a andorinha cara e tomara-a nas mos. Vendo, porm, a ferida 
sangrenta que a pedra abrira na cabea do passarinho e sentindo o contato daquele corpo frgil e ainda tpido, tivera de repente uma conscincia dolorosamente aguda 
da extenso de seu crime, de sua malvadeza. Matara o bichinho apenas para provar a si mesmo que era um bom atirador. Fora ento tomado dum to forte sentimento de 
culpa e remorso, que desatara a chorar sentidamente.
E agora Rodrigo tambm chorava, abraando Toni e beijando-lhe os cabelos, com a impresso de que tinha nos braos uma andorinha morta.
Durante a semana seguinte - que passou sem ver Toni Rodrigo viveu num estado de angstia que em casa tratava de justificar dizendo que era a situao poltica do 
pas que o trazia preocupado.
Por mais duma vez esteve a pique de procurar o vigrio e abrir-se com ele. s vezes quedava-se a olhar para o Cel. Jairo e a perguntar a si mesmo como havia de aquele 
homem cordial e aparentemente compreensivo receber sua confisso ou melhor, julgar sua conduta no caso de Ton. Mas nool Se confiasse seu se
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gredo ao padre e ao militar, ficaria perante ambos numa situao de inferioridade insuportvel para seu orgulho. Preferia que tanto um como Ooutro continuasse a 
consider-lo, como at ento, um dono da vida, um homem capaz de remover todas as dificuldades  resolver todos os problemas noo s os prprios como os alheios.
Por que, ento, noo contar tudo ao Chiru, velho amigo? No. Chru com sua exuberncia havia de propor para a questo uma soluo simplista e provavelmente grosseira. 
Depois, no saberia guardar o segredo: ris logo pass-lo ao Saturnino, e era natural que assim fizesse, pois no h nada no mundo que predisponha mais uma pessoa 
 confidncia do que uma caminhada pelas ruas desertas, na calada da noite.
E Carlo Carbone? Rodrigo riscava-o sumariamente da lista dos possveis confidentes, pois sabia da profunda afeio e respeito que o italiano votava a Flora.
Se ao menos Bo estivesse na cidade... Sim, teria de dar a mo  palmatria, ouvir do irmo o inevitvel "eu no te disse?" Mas, que diabo! preciso desabafar com 
algum.
Lia com um interesse muito aguado as notcias da guerra... E o conflito que sacudia a Europa, o mundo inteiro, parecia-lhe to remoto no tempo quanto a guerra das 
Rosas ou a dos Trinta Anos. Abria livros mas no conseguia ler.. Andava de ateno vaga e seu pensamento fugia sempre para Toni. Reduzira as horas de consulta, noo 
tinha pacincia com os clientes e irritava-se quando Santuzza vinha pedir-lhe a opinio sobre algum problema administrativo do hospital.
At a voz de Caruso soava-lhe diferente aos ouvidos, depois que Ton lhe fizera a terrvel revelao. A msica que saa da campnula do gramofone parecia-lhe sem 
brilho nem relevo. Perdera tambm o apetite e os vinhos lhe sabiam mal. Enfim - conclua ele - era como se houvessem passado sobre as pessoas e as coisas uma pincelada 
gris. Levava agora uma vida opaca e sem ressononcia e passava a maior parte das horas oprimido pela desconfortante sensao de que algo de muito mau estava por 
acontecer.
Notava que Flora andava tristonha e arisca, a mir-lo de longe com olhos interrogadores e apreensivos. Em certas ocasies isso lhe aumentava o sentimento de culpa: 
noutras, porm, apenas o irritava, levando-o a perguntas bruscas:
- Por que ests me olhando desse jeito? Nunca me viste?
Quando isso acontecia, Flora desatava a chorar e subia para o quarto. Ele ficava por algum tempo a ruminar seu ressentimento mas depois, serenado e arrependido, 
subia para pedir perdo 
mulher.
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- Dinda - disse ele um dia em que se vira a ss com Maria Valria - h momentos na vida duma pessoa .. .
No terminou a frase, temeroso de romper uma confisso completa.
Olhava para o prprio retrato com certa animosidade. Aquele outro Rodrigo agora chegava a parecer-lhe insuportvel na sua serenidade olmpica. Chegou. a invej-lo. 
Bons tempos aqueles em que noo tinha cuidados nem problemas!
Pensou em fazer uma longa viagem com Flora, irem a Buenos Aires, Montevidu, Santiago, ficarem alguns meses ausentes de Santa F. Quanto ao resto, fosse o que Deus 
quisesse. Mas como poderia ele passar tantos meses longe de Toni quando noo podia suportar nem uma separao de dias?
Muitas vezes, sob os mais absurdos pretextos, cruzava no seu Ford pela frente da casa dos Weber, na esperana de avistar Toni. Urna tarde ficou tomado dum sentimento 
de despeito e cime quando, ao defrontar a meia-gua, viu Erwin a bater-lhe na porta, tendo nas mos um pacote embrulhado em papel de seda, com toda a certeza um 
presente para a namorada.
Naqueles dias espalhou-se pela cidade a notcia de que Fraulein Weber havia contratado casamento com o filho de Ott Spielvogel.
- Impossvel - exclamou Rodrigo numa reao automtica, quando Chiru lhe contou a novidade.
- Por que, impossvel? Fazem um lindo par. Diz que o maestro e a Frau andam to satisfeitos que noo fecham mais a boca... Que diabo! O rapaz tem dinheiro, tem futuro.
Doi$ dias depois, o jornal de Amintas Camacho trazia a participao do noivado. Rodrigo leu-a e sua primeira - reao foi de revolta. Teve gana de sair porta fora, 
procurar Toni e atirar-lhe em rosto um insulto. Mas sentiu ao mesmo tempo -uma curisa sensao de alvio: talvez ali estivesse mesmo a soluo do pro= blema. Se 
se casassem antes que se revelasse o estado da moa, a honra dela (oh! o ridculo daquelas frmulas) ficaria salvaguardada. Se Erwin a amasse de verdade, noo teria 
coragem de abandon-la mesmo depois de descobrir a verdade. E, bolas,.,o rapaz tambm noo havia de querer envolver-se num escndalo .. .
Ao cabo dessas reflexes, Rodrigo soltou um suspiro. Aos poucos, porm, comeou a sentir-se esporeado pelo cime e a -querer saber como era que Toni, a sua Toni, 
ia sujeitar-se quele asamento sem amor. Era-lhe inconcebvel e repugnante a idia de que Toni ia dormir com Erwin Spielvogel. Por muito tenpo ficou amargando 
aquela sensao de desapontamento e logro. xudo vai ser resolvido  melhor maneira alem - refletiu com amargor. O outro ficar com a mulher que amo e com o filho 
que fiz nela
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E amanh os dois viro com Herr e Frau Weber ao Sobrado, e todos beberemos champanha juntos e trocaremos amabilidades, como se nada tivesse acontecido.
Deu um murro na guarda da cadeira, ergueu-se, botou o chapu e saiu. Havia no ar sinais de primavera. Um vento frio perfumado de glicnias agitava as folhas novas 
dos pltanos da praa. Grandes nuvens brancas flutuavam no cu.
Quem  que pode compreender a alma duma mulher? - perguntava Rodrigo a si mesmo, as mos enfiadas nos bolsos, os olhos postos na calada. Seus passos o levavam para 
a Rua do Poncho Verde. No lhe saam da mente as palavras que ele lera na Voz da Serra, naquela participao idiota dentro duma cercadura que era uma ridcula imitao 
dum carto de visita com uma das pontas dobrada. Otto Spielvogel e Senhora tm o prazer de participar aos parentes e pessoas de suas relaes o contrato de casamento 
de seu filho Erwin com a Srta. Amnia Weber (Toni).
Est tudo bem - concluiu, despeitado. Encerra-se um captulo da vida amorosa do Dr. Rodrigo Cambar. Agora, meu amigo,  criar juzo, cuidar da sua mulher, que  
a melhor mulher do mundo, dos seus filhos, da sua casa, da sua clnica, da sua vida.
Mas apesar desses conselhos e propsitos, continuava a aproximar-se da casa dos Weber. Ao passar pela frente da meia-gua, avistou o vulto de Toni, imvel por trs 
das vidraas. Seritiu-se invadido por uma to clida ternura por ela, que esqueceu todo Oseu ressentimento e s teve um desejo: atravessar a rua correndo, erguer 
a guilhotina da janela, tomar a criatura amada nos braos e cobrir-lhe o rosto de beijos. Ficou, no entanto, parado na calada oposta, esperando que Toni lhe fizesse 
um gesto, um sinal. O vulto, porm, continuava imvel.
Vou ou noo vou? - hesitava ele. Deu alguns passos ociosos, dum lado para outro, comeou a assobiar (numa das casas vizinhas uma mulher assomara  janela) e, confuso, 
sentindo-se grotesco e infeliz. continuou a andar, sem voltar a cabea para trs.
Desejava Toni com uma intensidade dolorosa. Sentia uma saudade aguda dos beijos dela, daquela excitante combinao: a frescura elstica dos lbios e a mornido mida 
do hlito. _
Ser possvel, Deus meu, que eu noo v mais beijar aquela boca? Claro que vou. Claro que vou. Toni me ama. Solteira ou casada .ela  minha, minha, minha!
~        Antes de dobrar a esquina, . olhou furtivamente para trs. A
izinha curiosa continuava  janela, com meio corpo para fora, a cabea voltada na direo dele. Bruaca! Um sentimento de revolta cresceu-lhe no peito. Odiou todas 
as pessoas e todas as coisas que se interpunham entre ele e Toni. E sua incapacidade para venclas lhe dava uma fria sensao de impotncia.
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Custou-lhe conciliar o sono aquela noite. Ficou de olhos abertos a fumar na cama e a ouvir o relgio grande bater as horas.
S
Na manh seguinte, pouco antes do meio-dia, teve a satisfao de ver Torbio apear do cavalo no ptio do Sobrado. Abraou-o com grande efuso e, depois do almoo, 
levou-o para a gua-furtada. Fechou a porta a chave e contou-lhe tudo. Torbio escutou em silncio sem a menor mostra de surpresa. Quando o irmo terminou a histria, 
a nica coisa que disse foi : " o diabo ... " E ficou olhando reflexivamente atravs da janela para as copas das rvores da praa que o vento de setembro sacudia.
- Vamos, homem! - exclamou Rodrigo. - Diz alguma coisa. Que  que eu vou fazer?
- Deixa correr o barco .. .
- No tenho sangue de barata. Preciso fazer alguma coisa, seno estouro.
- Fica firme. Deixa que ela case com o Spielvogel. - E depois?
- O futuro a Deus pertence.
- Eu te peo um conselho e me vens com ditadinhos .. . esqueces de que eu gosto da menina. - Ento tira ela de casa.
- Bio!
- Que  que queres que eu diga ? - Sei l!
Den um pontap num livro que estava no cho, atirando-o contra uma das pernas do catre. Bio inclinou-se, apanhou o volume e comeou a folhe-lo.
- Te lembras do velho Wnter?
- No mudes de assunto.
Torbio soltou um suspiro de impacincia.
- Te meteste nessa enrascada e agora tu mesmo  yue tens de sair dela.
- No sei, noo sei, no sei!
Torbio atirou o toco de cigarro sobre o telhado.
- Uma coisa te peo. Acontea o que acontecer, poupa a tua mulher. No deixa que ela venha a saber dessa histria.
- O pior  que ando sem pacincia, irritado, intratvel. A Flora j deve estar desconfiada. As mulheres tm um sexto sentido .. .
Torbio estendeu-se no catre, de costas, e tranou as mos sob
a nuca. Rodrigo sentou-se no peitoril da janela e ficou a olhar para o cata-vento da Matriz, que o sueste mantinha num contnuo rodopio.
- Parece at feitio, Bio. Essa menina noo me sai da cabea. Penso nela o dia inteiro e quando durmo sonho com ela. No podes avaliar o que sinto porque ... ora, 
tu sabes ... s vezes acho que o melhor  terminar com tudo, deixar que ela case e viva a sua vida. Mas  que no vou poder viver em paz sabendo que a Toni est 
em Santa F, to pertinho de mim, e que continua a me amar e que me basta ir  casa dela, bater na porta pra ela cair nos meus braos. Depois, s de pensar que ela 
vai dormir com aquele alemo. chego a sentir engulhos e me vem uma vontade danada de esbofetear o cachorro!
Torbio escutava em silncio. Com os olhos sempre fitos no galo de ferro, o outro prosseguiu:
- A primeira vez que fui pra cama com ela, v que estava perdido. Compreendi que a Toni tinha sido feita pra mim, que no podia pertencer a ningum mais, que aquilo 
tudo estava acontecendo por determinao do Destino e que portanto noo adiantava fugir... E te confesso sem nenhuma vergonha que, quando deixei o quarto dela na 
primeira noite, cheguei a chorar de to comovido.
Rodrigo sentia que a voz lhe saa fsca  incerta. Mas era bom aliviar o peito.
- Tu sabes que na minha vida tenho tido muitas mulheres. de todos os tipos e idades ... Mas esta ... esta  diferente, palavra de honra que . O que sinto por ela 
no  s desejo mas tambm ternura. Ests dormindo?
- No. Estou s de olho fechado. Vai falando...
- E quando penso que desgracei essa menininha que veio de to longe, e que chegou aqui de tranas compridas... palavra que chego a .. .
Calou-se de sbito, com um aperto na garganta.
- No h de ser nada - murmurou o outro. - Um dia tudo isso passa.
- Quando me contaram que ela tinha contratado casamento com ... com esse colono, fiquei louco de cime e de despeito. Depois pensei: com que direito? Que  que eu 
posso oferecer pra essa moa?
- Claro. E esse casamento talvez resolva o problema.
- Isso  fcil de dizer, mas acontece que a histria toda no me sai da cabea. No posso fazer mais nada. Se a coisa continua assim, a minha vida familiar, a minha 
tranqilidade, a minha clnica, e eu mesmo... vai tudo guas abaixo.
- Poupa a Flora,  o que te digo. Ela merece outra sina. E cens de pensar nos teus filhos, na tua madrinha e que diabo! tam-
Te
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bm no velho. O resto no tem importncia. O resto se arran com o tempo.
Rodrigo aspirou o ar com fora.
- Este perfume de flor que anda por toda a parte, este.. , esta ... Eu sei que  besta estar dizendo estas coisas, mas afinal de contas um homem precisa desabafar 
com algum. Esta primavera est me bulindo com o sangue. Faz quase um ms que eq tive a Toni pela ltima vez. No agento mais a saudade. Sei que depois desse contrato 
de casamento eu devia ter mais amorprprio e esperar que ela me procurasse, mas noo posso. A falta que sinto dela s vezes chega a doer, como se me tivessem cortado 
um pedao do corpo.  a voz dela, o cheiro dela, o jeito dela beijar... sinto falta de tudo.
Rodrigo olhava agora para a grande nuvem bojuda .que o vento impelia na direo do poente.
- Em certas horas - continuou ele - fico assim meio lrico, me lembro daqueles olhos de boneca, e me vem uma pena danada da menina, tenho vontade de p-la no colo, 
passar a mo nos cabelos dela e fazer a criatura nanar como uma criana. Ests achando graa, noo ? Pois podes rir, no me importo.
- Continua, homem.
- Ah! Mas o mais difcil  quando sinto saudades da fmea. Nessa hora  na boca de Toni que eu penso. Nunca reparaste na boca dessa menina?
- Mais ou menos. Por qu ?
- No sei, tem qualquer coisa que me deixa meio louco. Uma vez fiquei to excitado que dei uma mordida naqueles beios. No outro dia ela amanheceu com o lbio inferior 
inchado, teve de mentir em casa que era mordida de marimbondo.
Bio devia estar achando ridculas aquelas confidncias. Sim, o amor tinha sempre algo de grotesco para quem o examinava de fora, a frio. Dali a um ano ou dois, ao 
pensar em todas aquelas coisas, talvez ele prprio viesse ach-las ridculas. Mas agora .. .
- No penses que no vejo que toda essa histria  uma loucura - disse Rodrigo em voz alta - e que mais tarde ou mais cedo tenho de voltar  minha vida normal. No 
quero perder o amor nem o respeito da Flora. Se que tudo que fiz est errado e que procedi como nm canalha. Tu me preveniste em tempo. Eu mesmo me preveni. Mas 
que adianta a razo recomendar nma coisa quand o corpo est gritando violentamente por outra muito diferente? Estou cada vez mais convencido de que amor  doena, 
e doena infecciosa. Uma espcie de febre, Bio. E o pior  que o doente noo quer nem ouvir falar em cura.
Houve um -curto silncio. Uma pandorga metade amarela, me
tade escarlate. apareceu, muito alto, por cima da cpula da Intendncia.
- E agora essa gravidez agravou tudo. J pensaste no que pode acontecer se os outros vierem a saber desse filho. J pensaste no escndalo, no falatrio, nas sujeiras? 
Pensas que acredito que essas pessoas que me cercam e adulam so meus amigos de verdade? Qual! A maioria noo me perdoa por eu ter dinheiro, talento, boas roupas, 
prestgio, posio ... Meus inimigos vo aproveitar a oportunidade pra rne atirarem lama na cara. No descansaro enquanto noo me virem completamente derrotado.
Calou-se e ficou a esbofetear em pensamento todos os maldizentes da cidade. Depois esqueceu-os, pois Toni passou a ocuparlhe a mente por completo. Como seria bom 
sair agora com ela para longe de todas aquelas misrias! Iriam os dois de mos dadas para o campo, ao encontro da primavera.
- Eu podia deixar que o barco corresse, como queres. Mas  que no sei esperar. Fico exasperado. Se ao menos pudesse ver a Ton mais uma vez... Queria que ela me 
dissesse: "Ainda te quero, vou me casar cbm o Erwin porque meus pais me obrigaram, e porque este filho que est dentro de mim precisa dum pai. Mas  a ti que eu 
quero e hei de querer sempre." Bastava que ela dissesse isso. Eu s queria falar com ela uma vez mais .. .
Falar? No, noo podia enganar-se a si mesmo. O que ele desejava, com uma intensidade pungente era de novo apertar Ton nos braos, beijar aquela boca, morder aqueles 
lbios.


No eram ainda quatro horas da tarde quando o telefone do Sobrado tilintou e Rodrigo, ao atender o chamado, reconheceu a voz de Frau Weber, que tentava dizer-lhe 
lguma coisa que ele no entendia, pois a mulher falava aos gritos, num desatino, a misturar francs com alemo. Compreendendo que algo de terrvel se passava na 
casa dos Weber, precipitou-se para l a correr, com um pressentimento medonho. Entrou na meia-gua, foi direito ao quarto de Ton e encontrou-a tombada no cho, 
os olhos exorbitados e vtreos, o rosto lvido contorcido numa expresso de dor violenta, os lbios e o queixo queimados pelo veneno que tomara.
Estava morta.
9
Achavam-se ambos fechados no consultrio havia j quase meia hora. Torbio olhava para o irmo que, sentado no div, tinha o rosto escondido nas mos e o corpo sacudido 
por soluos secos.
#58O        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        5 81
Rodrigo esforava-se por chorar mas no podia: era como se ninai mo de ferro lhe apertasse a garganta e oprimisse o corao, retendo o pranto. E ele precisava chorar 
porque do contrrio algum coisa ia rebentar-lhe dentro do peito. Sentia contra o rosto o con tato gelado das prprias mos. Ardia-lhe a garganta e a boca estva 
seca. Houve um instante de nsia e nusea em que sentiu contrarem-se-lhe os msculos do estmago, como se fosse vomitar. Deitou-se de borco no div e apertou o 
peito e o ventre contra o oleado ... Se conseguisse vomitar - concluiu estonteadamente - talvez toda a angstia sasse pela boca e ele ficasse aliviado . . Lembrou-se 
do dia em que Toni viera a seu consultrio (Je saia enceinte) e ficara ali deitada no div, bem como ele estava agora .. . Por mais que se esforasse, noo podia 
apagar a lembrana horrenda. Toni estendida no cho, os olhos arregalados e imveis, a boca queimada, a boca queimada, a boca queimada ... De novo o peso daquela 
desgraa caiu sobre ele com uma fora esmagadora. Rodrigo apertou os olhos num novo e vo esforo para chorar, mas os soluos secos e agnicos continuaram.
- Vou pedir um calmante ao Dr. Carbone - murmurou Torbio.
- No! Me deixem em paz. Vai-te embora!
Naquele instante bateram  porta. Torbio aproximou-se dela. - Quem  ?
De fora veio uma voz:
- Sou eu, o Padre Astolfo.
Aps um breve momento de hesitao, Torbio abriu a porta. O vigrio entrou, parou no meio da sala, olhou longamente para Rodrigo, em silncio, depois acercou-se 
dele, inclinou-se e tocou-lhe de leve a face com a ponta dos dedos, numa desajeitada e tmida carcia. Rodrigo ergueu os olhos e, vendo o amigo, rompeu finalmente 
num choro convulsivo. As lgrimas lhe rolaram em grossas bagas pelas faces. Ficou assim por longos instantes a solu~ar, enquanto o padre e Torbio conversavam em 
voz baixa. a um canto do consultrio.
Por fim, desoprimido, Rodrigo sentou-se no div, enxugou aa lgrimas com a manga do casaco, tirou um cigarro do bolso, prendeu-o entre os lbios e aproximou-o da 
chama do fsforo que Torbio havia riscado. Soltou algumas baforadas com uma lnguida, trmula e culposa sensao de bem-estar. Olhou para o vigrio demoradamente 
e teve um desejo sbito de confessar-lhe tudo
- Padre, a menina estava grvida e o filho era meu. Ela se matou por minha causa.
Sentiu que ao dizer estas palavras estava pedindo piedade, simpatia, apoio; no entanto o que queria era incriminar-se, bater no
peito, fazer nm ato de contrio. O sacerdote ,mirava-o com expresso melanclica.
- O senhor sabia? - perguntou Rodrigo.
- Sabia.
- Ela lhe contou?
- No. Quem me contou foi o senhor mesmo: o seu olhar, os seus gestos, tudo .. .
Rodrigo baixou os olhos para o cho e murmurou:
- Procedi como nm covarde.
- No se trata de achar um qualificativo para a sua conduta. J que o mal est feito, o que o senhor tem a fazer agora  salvar o que sobrou.
- No sobrou nada, padre, nem a minha dignidade.
- Sobrou muito. Sua mulher, seus filhos, sua vida enfim.
- Mas que  que vai ser da minha vida daqui por diante, com essa morte na conscincia?
E num acesso de autocomiserao rompeu de novo a chorar, mas dessa vez um choro silencioso, sem soluos, frio, mole, abjeto.
Tornou a voltar em pensamento quele quarto. Toni no cho, os lbios queimados, queimados, queimados .. .
- Sou nm egosta, um vaidoso, um canalha .. .
Deixou cair o cigarro e de novo escondeu o rosto nas mos.
Torbio, que agora picava fumo com sua faca de prata, olhou para o sacerdote.
- Mas a moa no deixou mesmo nenhuma carta ... nada ?
- No.
- E esquisito.
- Deve ter feito aquilo num momento de desespero, num repente. Se pensasse um pouco, no faria. Era uma boa catlica.
Contou que desde o dia anterior Herr Weber e Wolfgang estavam em Nova Pomernia, e que Frau Weber sara pela manh, muito cedo, ficando para almoar na casa duma 
de suas alunas de canto. Toni, dizendo-se indisposta, permanecera em casa, fechada no quarto. Tudo indicava que ingerira o veneno cerca das oito da manh. Ao tornar 
 casa pouco antes das quatro da tarde, Frau Weber batera  porta do quarto da filha e, como no tivesse resposta, ficara alarmada e correra a pedir o auxlio de 
vizinhos, os quais arrombaram a porta, encontrando a menina j sem vida.
Rodrigo imaginava a longa agonia da pobre Toni, sozinha naquele quarto a estorcer-se no cho, a boca, a garganta, o esfago, o estmago corrodos pelo veneno, um 
vmito sanguinolento com pedaos de mucosa a escorrer-lhe dos lbios queimados. E a dor dilacerante, a nsia espasmdica, a falta de ar... Aquilo durante horas, 
horas, horas... Santo Deus!
#582        O RETRATO
A SOMBRA DO ANJO        583
Rodrigo queria afastar da imaginao aquela cena de horror mas noo conseguia. Entrou a tremer e a suar frio.
-        Padre Astolfo caminhava dum lado para outro, em passadas: largas e compassadas. Bio enrolava o crioulo.
Rodrigo olhou para o sacerdote.
- Quando vai ser o enterro?
- Amanh s oito. Diz o Dr. Matias que noo convm esperar mais tempo.
- E o corpo.. , vai ser encomendado?
-        padre sacudiu a cabea numa desalentada negativa.
- Um sacerdote catlico noo pode encomendar a alma dum suicida.
Rodrigo pensou no golpe que aquilo ia ser pra os Weber. Sim, os Weber. No tinha ainda pensado neles. Pobre gente!
- Tudo por culpa minha - balbuciou. - Se eu tivesse um pingo de vergonha na cara, o que fazia era meter uma bala nos miolos.
Disse estas palavras sem nenhuma convico, pois por trs de seu desespero o que havia era ainda uma descomunal vontade de viver.
- O suicdio  sempre uma soluo covarde - replicou o sacerdote.
Covarde? Ento o padre achava que Toni era covarde? Como ousava ele dizer aquilo?
- Que entende o senhor dos assuntos do corao? - perguntou num assomo de indignao. - Como pode ser juiz das aes dos homens se nem homem inteiro o senhor ?
Por um curto instante Rodrigo como que se aliviou da carga de culpa, transferindo para o homem de batina negra a responsabilidade da tragdia. Astolfo era o confessor 
de Toni, um guardio da virtude, da moral, de todos os preconceitos sociais que haviam impedido que ele e Toni fossem felizes juntos.
- E se existe um Deus e esse Deus  bondoso e justo - acrescentou com os olhos iluminados dum repentino brilho - Toni vai para o Cu sem precisar da interferncia 
de sua Igreja!
-        Padre Astolfo escutou-o sem que um nico msculo de seu rosto se movesse. S os olhos traam sua mgoa.
- Pode desabafar, meu amigo, se isso lhe faz bem. O que pensa de mim noo tem a menor importncia. O que importa  evitar que o senhor cometa outro desatino.
Rodrigo, que se havia erguido para dizer as ltimas palavras, tornou a sentar-se. Tinha o corpo dolorido, as pernas bambas.
- Seu irmo tem algo de importante a propor-lhe - murmurou o padre, aps um breve silncio.
- Tu no vais ao enterro amanh - disse Torbio.
Rodrigo teve um sobressalto.
- Por qu?
- Teu desespero pode dar na vista e todo o mundo vai compreender o que aconteceu. J basta a cena que fizeste na casa dos Weber, na frente de toda aquela gente.
Por alguns segundos Rodrigo ficou perdido, dando uma ansiada busca na memria. No se lembrava de como tinha vindo da casa de Toni para o consultrio.
- Mas  impossvel - reagiu - que a esta hora a cidade continue ignorando a verdade.
O Padre Astolfo relatou-lhe ento, com visvel constrangimento e algumas reticncias, o que se comentava em Santa F a respeito do suicdio. Corria uma verso segundo 
a qual Toni se matara porque noo amava Erwin Spielvogel, com quem os seus queriam obrig-la a casar-se. Bio contou-lhe uma . histria mais srdida : Toni suicidara-se 
de vergonha, ao descobrir que o irmo era um invertido sexual. E o Zago - acrescentou o vigrio, hesitante - veiculava maliciosamente o boato de que Toni estava 
grvida e que o pai da criana era um dos filhos de Maneco Macedo, com o qual a moa fora vista um dia passeando de automvel.
- Que infmia! - vociferou Rodrigo. - U filho  meu.
E por um rpido instante ficou turbado pela sombra duma ciumenta suspeita.
Torbio ps-lhe a mo no ombro.
- Vais hoje mesmo pro Angico.
- Ests doido!
- J preparei tudo. Disse  Flora que o papai mandou te chamar com urgncia porque noo anda se sentindo bem.
- Mas  um absurdo ... - replicou Rodrigo, mas j com menos veemncia. - Que  que vo dizer se noo me virem no enterro?
O padre interveio:
- O essencial  evitar que a situao piore. Temos de impedir que outras pessoas sejam atingidas por essa. desgraa. V para a estncia e fique l uns dias. A fase 
aguda do caso passar e ento o senhor poder voltar para casa e recomear sua vida sobre uma base nova.
Rodrigo relutava:
- Que  que vocs pensam que eu sou? Desde quando esto me dando ordens?
O vigrio fez um gesto de desamparo. Bio alteou a voz:
- No compreendes, idiota, que estamos tratando de poupar tua mulher, tua famlia, teu futuro?
Rodrigo tinha agora a impresso de que estava no fundo dum
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poo. De que lhe adiantava lutar? Fez ainda uma objeo, mas com a esperana de que os outros o convencessem do contrrio.
- Mas de que vai servir toda essa comdia? A Flora deve saber de tudo... no sabe, padre?
Astolfo levou algum tempo para responder. Quando o fez foi em poucas palavras:
- Dona Flora  uma mulher inteligente e de bom-senso. Torbio estava agora impaciente.
- O Ford j est pronto - anunciou. - Precisas r o quanto antes, pra chegares ao Angco antes do anoitecer. Deixa o resto por minha conta : fico aqui at voltares.
Saiu do consultrio e tornou pouco depois, trazendo um copo graduado e uma garrafa de conhaque. Ergueu o copo contra a luz e derramou nele a bebida.
- Vamos, bebe, homem. Sessenta gramas. Vai te fazer bem. Rodrigo bebeu.
- Mais um pouco?
O outro disse que no com um meneio de cabea. - E o senhor, padre?
- No, obrigado.
- Pois eu estou precisando de uma talagada, que noo sou de ferro. Umas cem gramas ... ou cento e vinte.
Serviu-se, levou o copo aos lbios e emborcou-o. Estralou os beios e olhou para o irmo:
- Agora enxuga essas lgrimas, penteia esse cabelo e vai te despedir da tua famlia. Te lembra do velho Babalo: desgraa pouca  bobagem.
Rodrigo ergueu-se, aproximou-se da pia e ficou a mirar-se no espelho, no qual viu a imagem do padre por trs da sua. Um voz macia mas grave soou-lhe junto ao ouvido:
- Lembra-se daquela nossa conversa na praa, na madrugada do velrio de D. Emerencana?
Rodrigo franziu a testa. E lembrou-se.
1O
O sol j se tinha posto quando chegou ao Angico. Fez um esforo para noo desatar o choro no momento em que, ao abralo, o pai perguntou:
- Que surpresa  esta? Que foi que houve?
Gaguejou uma escusa. Estava cansado, trabalhara demais nos ltimos dias, precisava passar algum tempo na paz do campo, para se refazer. O senhor compreende: aquela 
lida do consultrio.
A SOMBRA DO ANJO        585

uma operao atrs da outra e, por cima de tudo, essas histrias de poltica .. .
- Fiquei muito abalado com a morte do Senador. Foi como se eu tivesse perdido um parente chegado.
Sim, ele sentira sinceramente a perda de Pinheiro Machado, mas por que razo essas palavras agora soavam como uma mentira ?
- Foi uma coisa brbara ... - murmurou Licurgo.
Pouco depois, sentado  mesa de jantar, falaram ainda na tragdia do Hotel dos Estrangeiros. Licurgo recordou passagens da vida poltica e privada de Pinheiro Machado.
Rodrigo, porm, estava abstrato, noo prestava ateno no que o pai dizia.
- O senhor noo come?
- Estou sem apetite.
- Tome ento um copo de leite.
- No, papai. Ando meio enfastiado.
E de sbito a primeira frase da Rverie de Schumann soou-lhe na mente e, sentindo que ia romper o choro, ergueu-se, saiu da sala em passos apressados, meteu-se no 
quarto escuro e atirou-se na cama. Oh! Tudo estava muito pior do que ele imaginara! A solido do campo, os lampies a querosene, o cheiro de picum e sebo frio, 
o desconforto, o vento, aquele vento alucinado que uivava l fora, fazendo bater folhas de janelas, o vento implacvel a raspar, a raspar, a raspar como uma lixa 
nos nervos da gente!
Uma tbua do soalho rangeu. Rodrigo voltou ~ cabea e viu o pai no meio do quarto com uma vela acesa na mo.
- Meu filho, fale a verdade. Que foi que aconteceu?
Deitado de bruos, com ambas as mos agarradas s barras do lastro da cama, Rodrigo continuava a chorar.
- Morreu algum, eu sei.
Licurgo fez uma pausa em que o castial lhe tremeu na mo.
- Diga quem foi? Estou preparado pra tudo.
- Por favor, apague essa vela .. .
Licurgo hesitou por uma frao de segundo. Pot fim soprou a chama e o quarto ficou de novo s escuras.
Rodrigo contou ento sua histria desde a noite em que conhecera Toni Weber at o momento em que a encontrara morta com a beca corroda de cido. Sentiu um certo 
prazer em esmiuar pormenores que o incriminavam, em procurar agravantes para sua culpa. Quando terminou a narrativa, fez-se um silncio que s Opigarro seco de 
Licurgo cortou.
- Eu tinha de tirar esse peso do peito. O senhor  meu pai. Pode dizer que sou um miservel, um canalha, porque sou mesmo.
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A SOMBRA DO ANJO        587
Me castigue, tem todo o direito. Diga o que quiser, que eu tutu a cabea. No tenho desculpa, noo tenho perdo.
No corao de Licurgo havia uma praa e no centro dessa praa um monumento: a esttua do jovem Dr. Rodrigo Cambr, homem de carter, mdico humanitrio, bom filho, 
bom irmo, bom marido, bom pai, bom amigo. Agora ele prprio, Rodrigo, derribara a esttua com aquela confisso, atirara sua prpria imagem no barro. Isso o fazia 
sofrer mas ao mesmo tempo o redimia um pouco.
Licurgo riscou um fsforo: a chama subiu, trmula, parou a altura do cigarro e depois apagou-se, ficando apenas um ponto luminoso na escurido.
Por que o velho noo dizia alguma coisa? A fumaa de sea crioulo espalhou-se no ambiente e, aspirando-lhe o cheiro acre, Rodrigo teve a mpresso de que estava vendo 
e tocando o corpo do pai.
- O Bio me aconselhou que viesse ... Achou que eu noo devia ir ao enterro, estava com medo que eu me trasse... Meu dever era ficar e enfrentar a situao, mas 
fugi 
como um covarde.
- Fez bem em vir. Seu irmo andou acertado. O senhor tem que zelar pela sua mulher, pelos seus filhos. Isso  o principal.
Rodrigo noo queria que o pai dissesse aquelas coisas. Preferia que ele o insultasse, que o esbofeteasse, que o expulsasse de casa.
- O senhor noo procedeu bem - murmurou Licurgo - fez mal pra moa. Isso noo  direito, noo  decente, mas  da vida, pode acontecer pra qualquer homem. O principal 
agora  noo perder a cabea. O mundo no vai acabar. O senhor tem que continuar vivendo como dantes, sua famlia tambm, e o Sobrado. Sinto muito o que aconteceu. 
Que lhe sirva de lio.
No havia no tom de voz do pai nem indignao nem solenidade, mas apenas uma tristeza seca de serrano.
E no silncio que de novo se fizera, Rodrigo escutava o uivo do vento e o farfalhar do bambual.
11
O quarto frio e mido estava fracamente alumiado pela chama dum lampio a querosene. Deitado de costas, completamente vestido, Rodrigo olhava para o teto e pensava 
na longa noite que tinha pela frente. Havia mais de uma hora que a cabea lhe doa sem cessar. Era uma do surda e latejante, que lhe dava a mpresso
de ser produzida pelas pancadas do sangue nas tmporas. Ahl Se ao menos tivesse trazido algum narctico .. .
Acendeu um cigarro, soltou uma baforada, cerrou os olhos e ficou escutando o pulsar do corao, pensando nas muitas noites em que sentira contra o peito nu as batidas 
medrosas do corao de Toni. Sobre o fundo escuro das plpebras ele como que viu uma menininha de longas tranas, com a face ternamente encostada no brao do violoncelo, 
tocando a Ruerie. Em sua mente soaram as primeiras oito notas da melodia, e ficaram a repetir-se dum modo cbsedante, acompanhando a cadncia lenta e regular do 
sangue.
Pobre Toni! quela hora seu corpo estava sendo velado na pequena sala da meia-gua dos Weber. Rodrigo imaginou a cena: o caixo negro, o cadver coberto de flores, 
o rosto tapado por um leno e, debaixo do leno, os lbios queimados, os lbios queimados, os lbios queimados ... Herr Weber decerto ~ olhava em torno, atarantado, 
com o ar de quem continua a no compreender. Frau Weber chora num desespero, a pobre Frau Weber para quem o Dr. Rodrigo Cambar era o mais. belo e generoso dos homens 
.. . Ir Wolfgang ali est a olhar tristemente para a irm morta .. .
Ao pensar em que Cuca Lopes estaria tambm no velrio a animar as conversas com suas piadas, e que Chiru talvez naquele instante mesmo estivesse a propor alegremente 
uma partida de truco - Rodrigo encolhia-se, sensibilizado,  idia de que a pobre Toni jazia abandonada, exposta  indiferena ou, pior ainda,  maledicncia geral 
numa terra de gente estranha que no lhe quera nenhum bem. Isso lhe deu tamanha pena da menina, que lgrimas lhe vieram aos olhos.
Ps-se de p, cuspiu fora o cigarro e ficou com as mos a segurar a cabea. Comeou depois a dar voltas pelo quarto numa nsia aturdida. Olhou o relgio: ainda no 
eram onze horas. Tornou a atirar-se na cama. Teve a mpresso de que seu crnio era uma casa enorme como o Sobrado, onde soava um violoncelo enorme, tocando uma 
msica enorme, e cada nota era como uma ferroada que lhe varava o crebro. "Depois sua cabea passou a -ser misteriosamente uma meia-gua de janelas pintadas de 
aiul (santo Deus, acho que estou ficando louco) e em seguida j .era apenas um pequeno quarto recendente a alfazema. De sbito, num desespero, abraou :o corpo clido 
da mulher que sentia ~ palpitar contra o peito. E com que fria lhe beijou a boca! Mas cuidado, animall cuidado, porco! que ests machucando os~ pobres lbios quemads, 
queimados de cido, queimados...
No. Toni no podia ter feito aquilo. Toni noo estava morta. Era tudo um sonho. Quando rompesse a manh ia descobrir aliviado, que tudo tinha sido apenas um pesadelo.
#588        O RETRATO
Revolveu-se na cama e ficou deitado de costas, a olhar para a prpria sombra projetada na parede branca, ouvindo os baques surdos do corao e aquele tant impiedoso 
dentro do crebro. Decerto vou ficar louco, j estou meio louco .. .
Sem saber quando nem como, afundou num mundo confuso de febre, dor e nsia, num escuro torpor que no era bem sono nem chegava a ser viglia - modorra agnica em 
que continuou a sentir a angstia que lhe oprimia o peito, e o latejar dolorido da cabea. Seu esprito andou perdido por uma regio crepuscular e equvoca povoada 
de vagos vultos e vozes, sombras e sons que ele procurava identificar numa aflio, mas que lhe fugiam (era de endoidecer!) no momento mesmo em que iam revelar seu 
mistrio, dissolviam-se na grande cerrao atravs da qual ele se esforava por ver claro, orientar-se, pois sentia que s vendo claro e descobrindo onde estava 
podia. salvar-se, evitar a loucura, abrir uma picada para o dia, para o sol, porque estava extraviado, louco no - querem ver uma coisa? - eu sei quem sou e onde 
estou... Sou Blau Nunes estou na furna do Jarau ningum me engana porque eu sei querm que eu fique louco, mas sei no estou louco  s esta dor achei a Salamanca 
tenho que ir adiante adiante adiante at o tesouro as onas de ouro e "sol no volto noo volto nem por ouro nem por prata nem por sangue de lagarta nem me assusto 
com cobras, almas do outro mundo, aranha morcegos avantesmas abantesmas feras fetos eu sei eu sei meus inimigos querem que eu me. assuste e fuja fique louco noo 
ache o tesouro o sol no me entrego, noo enlouqueo  s esta dor mas sei quem sou um tal Blau Nunes esta cabea  a furna do Jairo esta dor batendo batendo nas 
paredes so morcegos monstros, mas noo me entrego vou achar o tesouro e sol moi le coq moi le coq moi le coq no me entrego vou achar e tesouro, o sol quando romper 
o dia tudo passa  um pesadelo en sei que sou Blau Nunes minha cabea  o cerro do Jairo do Jaraa do Jarau do Jairo s peo que no batam n~o batam no pisem no 
meu peito no batam no batam na minha cabea noo batam .. .
E a furna se fez ainda mais escura e seu esprito ent ficou preso numa ilha trrida de febre, dor e angstia, em parte nenhuma do tempo, em parte nenhuma do espao.


Acordou de repente, sentindo que havia soltado um grito. Psse de p e por alguns segundos ficou desorientado, com a impresso de que estava  beira da loucura. 
Deu uma volta pelo quarto, s tontas, depois sentou-se na cama e ali ficou por algum tempo a olhar para a chama do lampio, que minguava. Era estranho: no ouvira 
o grito: vira-o. Aos poucos lembrou-se do sonho. Ia ser enterrado vivo. Era na sala de visitas do Sobrado, ele estava sen
A SOMBRA DO ANJO        589

fado no seu atade, no meio de flores de alfazema e noo podia reconhecer aquelas gentes que ali estavam no seu velrio, porque todos tinham as faces carcomidas 
de 
cido. Aos poucos foi distinguindo as fisionomias... O velho Pitombo, o desenterrador de cadveres, insistia para que ele se deitasse : estava na hora do enterro, 
tinham de fechar o caixo. Ele gritou: "Por amor de Deus, noo me enterrem. No estou morto! No estou morto!" Apelava para Flora, que chorava de mansinho, sacudindo 
tristemente a cabea, como a dizer que nada podia fazer. Apareceu-lhe ento Opai com um enorme relgio de pndulo na mo, dizendo: "Meu filho, noo h outro remdio, 
tem que ser,  a lei, tem que ser,  a lei, tem que ser,  a lei." Viu ento, apavorado que tinha sido trado. Seus parentes e amigos iam enterr-lo vivo. Tudo aquilo 
era uma conspiraa. Quis gritar, mas o horror lhe tirava a voz. De sbito teve a revelao do mistrio: morrer noo era uma fatalidade biolgica, mas um dever social. 
Morria-se porque era uma lei. Tremendo de medo, deitara-se no caxo, mas no momento em que Pitombo e Srgio erguiam a negra tampa, ele soltara o grito.
Olhou em torno do quart e comeou a sentir uma sufocao, uma estonteada angstia de emparedado. Correu para a janela e escancarou-a. Firmou as mos no peitoril 
e saltou para fora.
12
Ficou um instante parado  frente da casa, os olhos entrecerrados, recebendo em plena cara o vento frio e mido da madrugada. O farfalhar do bambual chegava-lhe 
aos ouvidos como um rudo de mar. Meteu as mos nos bolsos, trmulo de frio. Pensou em voltar para enfiar o sobretudo e o chapu. Mas no. Precisava castigar o corpo. 
Ps-se a andar em passadas rpidas e largas, como se .tivesse destino certo. Ergueu o rosto. Grandes nuvens brancas e mveis escondiam a lua., Nas nesgas de cu 
limpo entre as nuvens, tremeluziam estrelas. A grama estava empapada de sereno e Rodrigo sentia as bocas das calas baterem-lhe nas pernas, molhadas e frias.
Continuou a caminhar e a cada pisada mais forte a cabea lhe doa numa ferroada. Volte j pra casa menino, seno vai apanhar uma pulmonial De onde vinha aquela voz? 
De que boca? De que mundo?
Sob o cu vertiginoso em que nuvens passavam sobre a face luminosa da lua num apaga-acende fantstico, as coxilhas tinham uma amplido desolada e glacial de estepe. 
E era s o sopro frio
#59O        O RETRATO

do vento que dava a Rodrigo a certeza de estar acordado e noo a vaguear ainda dentro dum pesadelo.
Dali a poucas horas sairia o enterro de Toni. L est a meiagua. Muira gente aglomerada  porta. Curiosos aparecem s janelas, na vizinhana. Quem  que vem carregando 
o caixo? Mas que importa saber quem carrega o caixo? O horrvel  que o cortejo noo poder entrar na igreja, o pavoroso  que no haver encomendao. (E pensando 
essas coisas Rodrigo apressava o passo cada vez mais, como se quisesse chegar a Santa F a tempo para acompanhar o enterro.) A alma de Toni tinha ido direito para 
o inferno. No! No 1 No acreditava no inferno. Era uma sobrevivncia medieval, uma inveno estpida. O inferno estava na Terra. Ele prprio se sentia agora no 
pior dos infernos. (E esta idia de certo modo o consolava, pois ele precisava expiar seu crime.) Inferno  uma cabea que noo cessa de doer nem de pensar, de doer 
e de pensar os pensamentos mais confusos, mais doidos. No inferno devia ter penado Toni desde o dia em que descobrira que estava grvida. Inferno fora para a coitadinha 
a hora em que resolvera matar-se. Inferno, medonho inferno, o instante em .que tomara o veneno, em que sentira a dor da queimadura nos lbios, na boca, no esfago, 
no estmago. Inferno, inferno, inferno aquela longa agonia convulsiva em que vomitava pedaos de vsceras. Agora estava morta, tinha encontrado finalmente a paz. 
Pobre Toni 1 Pobre Toni 1 (E nas profundezas de seu ser uma voz respondeu apagada: Pobre de miml)
Fez alto e voltou-se. Como j estava longe a casa da estncial Quedou-se por algum tempo no meio do campo, transido de frio e com a sensao do mais absoluto desamparo. 
Sentiu uma repentina piedade de si mesmo, quis chorar mas no pde. Desejou o sol, o novo dia, o Sobrado, um aconchego humano, um peito amigo onde pousar a cabea 
fatigada e dolorida. Pensou na madrinha, em Flora, nos filhos... Como podia ter ficado tanto tempo sem lembrar-se da famlia? Seu egosmo persistia, mesmo na dor. 
S ele sofria no mundo, ningum mais. Veio-lhe uma sbita esperana. Era impossvel que tudo estivesse perdido .. . Voltaria para casa, o tempo cicatrizaria todas 
as feridas e de novo a vida tornaria a ser o que era antes... Mas nol Ele noo merecia ser amado, admirado, respeitado. Era um canalha. Tinha assassinado Toni, 
dera-lhe 
a pior espcie de morte - no s lhe destrura o corpo como tambm a alma.        -
Pobre Tonil Vou mandar fazer um tmulo para ela. Um tmulo para Toni: Santa Ceclia sentada numa lpide, a cabea inclinada, chorando. Ao lado, uma roseira de rosas 
vermelhas como as que ela tanto admirava no jardim do Sobrado. Rosas vermelhas
A SOMBRA DO ANJO        591

para Toni, para a pobrezinha da Toni que viera de to longe para ficar sepultada no cemitrio de Santa F .. .
Veio-lhe  mente a imagem do Padre Astolfo. Se ao menos pudesse orar ... Balbuciou as primeiras palavras do Padre-Nosso. Faltava-lhe contrio. Devia ser o frio 
da madrugada, o vento, a canseira, a dor e a confuso que o impediam de concentrar-se na prece, sentir a presena de Deus. Mas... e se Deus estivesse morto? Morto 
Deus, o mundo estava perdido, noo haveria mais sol, nem esperana, nem amanh. Mas Deus no podia morrer. Se pudesse, no seria Deusa E se Ele no fosse Deus? E 
se Deus tivesse enlouquecido? No. Quem est ficando louco sou eu. Por castigo, por castigo.
Continuou a caminhar. Precisava redimir-se, regenerar-se, mudar de vida. Juro por Deus que daqui por diante vou viver s pra minha famlia. Ainda amava Flora. Precisava 
.compensar o mal que lhe fizera. Ou seria demasiado tarde? Sim, era tarde. Talvez nem a encontrasse mais em casa. Pensou com horror nos dias em que estavam por vir. 
A cidade inteira a apont-lo como um criminoso. (Era impossvel que j noo soubessem de toda a verdade.) O casaro vazio, as horas vazias, a vida vazia. E a saudade 
de Toni, a saudade de Flora, a saudade dos filhos, a saudade do outro Rodrigo, o remorso, o remorso e lembrana daqueles lbios carcomidos. Santo Deus, aqueles lbios 
queimados...
Tornou a fazer alto, ofegante, com a garganta a arder. Caiu de joelhos, depois sentou-se e por fim estendeu-se no cho de todo o comprimento, sentindo contra a face 
e as mos a fria umidade da grama. Precisava flagelar o corpo, aquele corpo vil que era o culpado de tudo. "Deixe de fita! Levante-se, deixe de fita!" Mas noo, 
papai, 
o senhor noo compreende, estou ,muito doente, ardendo em febre, uma pontada nas costas .. .
Estava perdido. Tinha apanhado uma pneumonia dupla. Ergueu-se de inopino e desandou a correr na direo da casa. No queria morrer, noo podia morrer. Ia acordar 
o pai, os pees, mandar o Bento  cidade em busca dum mdico, de remdios ... No. Ele precisava sofrer, devia morrer, "porque tinha matado Toni. O remdio era curvar 
a cabea e aceitar o castigo. Continuou, porm, a correr .. .
Escalou a janela e saltou para dentro do quarto. Correu  sala de jantar, tirou do guarda-comida uma garrafa de cachaa_, desarrolhou-a, levou o gargalo  boca e 
bebeu nm largo sorvo. Voltou para o quarto com a garrafa debaixo do brao e ps-se a procurar atabalhoadamente uns comprimidos que se lembrava de ter visto na gaveta 
da mesinha-de-cabeceira. Achou duas aspirinas, meteu-aa na boca, tomou nm novo gole de cachaa e engoliu-as. Deitou-se, enrolado num cobertor, e ficou encolhido 
como nm feto, desejando
#592        O RETRATO

como nos tempos de menino as mos frescas da Dinda em sna testa escaldante.
Comeou a bater dentes, o corpo sacudido de calafrios. No queria fechar os olhos porque temia entrar na furna do Jarau, sabia que se entrasse de novo naquela medonha 
noite ficaria irremediavelmente louco. O que ele precisava era lutar contra a conspirao, os inimigos, pois quando viesse um novo da e o sol, estaria salvo, a 
vida ia ser como antes e ele descobriria que todo aquele horror no passara dum pesadelo . , . Mas como podia evitar a furna se no cessavam de bater-lhe nas paredes 
do crnio, se ele j era a furna do Jarau, um tal de Blau Nunes em busca da Salamanca oh! no batam pelo amor de Deus noo batam nas paredes da furna estou com febre 
chamem o Dr. Matias o Dr. Carbone o Dr. Taboca o Dr. Tabocarbone Tabocarbonato estou suando sangue, me mordeu a cobra, suando sangue vermelho rosas sangue sepultura 
de Toni eu sou a sepultura de Toni est dentro de mim enterrada em mim mas no batam no batam que di muito sou um tal de Blau Nunes e s peo que no batam noo 
batam no batam ai! no enterrem Toni esperem esperem esperem eu chegue ela est viva no enterrem Toni viva vai morrer sufocada noo enterrem bandidos no batam 
esperem no enterrem viva no batam no batam no enterrem s eu sei ela est viva um engano est viva enterrar  um crime esperem mas no batam no batam no batam 
.. .
UMA VELA PRO NEGRINHO
loriano Cambar caminhava pela atia central do cemitrio,
quela hora da tarde completamente deserto. Fazia poucos dias que chegara a Santa F, aps uma ausncia de quatro anos, trs dos quais passara nos Estados Unidos. 
E agora, a espiar distraidamente para dentro dos jazigos perptuos - o dos Amarais, o dos Macedos, o dos Fagundes - tratava de descobrir as razes da estranha fascinao 
que aquele lugar exercia sobre seu esprito. Durante sua estada no estrangeiro, as imagens que com mais freqncia lhe vinham  mente eram a daquele cemitrio, a 
da Matriz e a da casa onde nascera. Um dia, observando os movimentos dos patinadores na pista de gelo da Rockefeller Plaza, surpreendera-se a pensar naqueles mausolus 
e sepulturas, mas com tal intensidade, que chegara a ver mincias que julgava ignorar por completo: a racha em forma de forquilha no velho tmulo do Padre Romano: 
a letra quebrada no fronto do jazigo dos Teixeiras: a mancha escura a lembrar uma tartaruga, na fachada da capela ... Doutra feita, na pera de San Francisco da 
Califrnia, ouvindo Jascha Heifetz interpretar Brahms, sentira-se inexplicavelmente levado pela melodia de volta  casa paterna: durante os quatro movimentos da 
sonata ficara a vaguear -como uma assombrao pelas salas do Sobrado, revendo seus moradores vivos e mortos, apalpando os mveis. aspirando os cheiros - e cada canto, 
cada pessoa, cada coisa lhe evocara cenas da infncia e da adolescncia. Mais tarde, quando caminhava por uma rua de Singapura dentro dum estdio de Hollywood, viera-lhe 
de sbito  lembrana a Matriz de Santa F: a fachada, o interior, a pia encardida, a corda do sino, o olor de incenso, as faces dos santos, as velas dos altares... 
Era, porm, o cemitrio de sua terra natal o espectro que com mais assiduidade lhe assombrava a memria. Pensara nele num dia trrido e mido, ao burlequear pelas 
ruas de Panam City, enquanto esperava o barco que o devia levar a Valparaiso; e certa noite em que, da amurada do vapor, olhava para as luzes de Antofagasta: e 
ainda no momento em que o empregado dum drugstore de Los Angeles, rapaz louro de olhos verdes e vazios, lhe servia um caf. Repetidas vezes, em terras e hotis remotos, 
andara a caminhar em sonhos por entre aqueles t-
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UMA VELA PRO NEGRINHO        595
mulos. Era por tudo isso que ali estava agora, tratando de comparar a coisa real com as imagens dela recordadas e sonhadas.


Havia naquele cemitrio duas sepulturas em torno das quais a imaginao popular tecera lendas. Uma delas - a do velho Srgio - ficava na parte pobre e era procurada 
por gente de cor, devota da macumba, e que ao fazer suas promessas, depositava ao redor da carunchada cruz de madeira fumo e fsforos para o cachimbo do negro velho, 
galinhas mortas para o lobisomem e velas acesas em inteno  alma do defunto. A outra ficava ao lado da capela. perto dos grandes jazigos, e consistia numa lpide 
cinzenta, com a inscrio j meio apagada por baixo duma cruz em alto-relevo . Seus devotos, em geral gente branca e moa, acreditavam em qne a alma da criatura 
cujo corpo ali jazia, tinha o dom de obrar milagres como os de Santo Antnio. Solteirona que quisesse casar, mulher casada que desejasse recuperar a afeio do marido, 
enfim, quem quer- que tivesse um problema sentimental a resolver, vinha rezar e fazer suas promessas ao p daquela lpide, sobre a qual acendia velas e depunha flores. 
Floriano leu a inscrio.


ANTNIA WEBER

(TONA

1895-1915

Talvez ali estivesse o ponto de partida de seu prximo romance... O autor visita o cemitrio de sua terra e fica particularmente interessado numa sepultura singela 
a que a superstio popular atribu poderes milagrosos. Vem-lhe ento o desejo de, atravs da magia da fico, trazer de volta  vida aquela morta obscura. Desce 
para a cidade, sai  procura de seus mais antigos moradores, e a cada um deles faz esta pergunta: "Quem foi Antnia Weber?" Alguns nada sbem. Outros contam o pouco 
de que se lembram. Um teutobrasileiro sessento (Floriano comeava a visualizar as personagens, a inventar a intriga) ao ouvir o nome da defunta fica perturbado 
e fecha-se num mutismo ressentido. "Aqui h drama" - reflete o escritor: "Este homem talvez tenha amado Antnia Weber... " Ao cabo de vrias tentativas frustradas 
para faz-lo falar, consegue arrancar dele uma histria fragmentada e cheia de reticncias, cujas_ lacunas, entretanto, o novelista vai preenchendo com trechos de 
depoimentos de terceiros. Por fim, de posse das muitas peas do quebra-cabea, pe-se a arur-lo e o ressltado  o romance duma tal Antnia Weber, natural de Hanover, 
e que emigrou com os paia para o Brasil, vindo a estabelecer-se em Santa F, onde .. .
Mas quall - exclamou Floriano, parando  sombra dum pltano e passando o leno pela testa mida de suor. Ia cair de novo nos alapes que seu temperamento e suas 
limitaes lhe armavam. Os melhores crticos literrios do Pas noo negavam mrito a seus romances, mas eram unonimes em afirmar que em suas histrias faltava 
o 
cheiro de suor humano e de terra. Achavam que, quanto  forma, eram bem escritas e tecnicamente aceitveis; quanto ao contedo, porm, tendiam mais para o artifcio 
que para a arte, fugindo sempre ao drama essencial do homem. ~ Pouco lhe importaria o que pensassem os crticos se ele prprio noo estivesse de aturdo com essas 
restries. No podia nem queria iludir-se a, si mesmo. Os trs romances que publicara noo o satisfaziam. Quando os relia era com a impresso de beber um vinho 
feito 
sem uva, apenas com essncias, anilinas e muita habilidade qumica. Chegara  concluso de que, embora a percia tcnica noo- devesse ser menosprezada, para fazer 
bom vinho era necessrio antes de mais nada ter uvas, e uvas de boa qualidade. No caso do romance a uva era o tema - o .tema legtimo, isto , algo que o autor pelo 
menos tivesse sentido se noo propriamente vivido. Floriano noo achava que a histria da desconhecida da sepultura de pedra fosse pura uva. De resto, qualquer drama 
individual, por mais terrvel que fosse, empalideceria quando comparado com a tragdia coletiva que o mundo acabava de presenciar. A humanidade emergia da mais sangrenta 
e cruel das guerras. Nomes como Conventry, Rotterdam, Lidice, Hiroshma, Buchenwald e Dachau haviam de ficar na Histria como negros marcos a evocar horrores nunca 
antes imaginados pelo mais doentio dos crebros.
Comeou a andar lentamente rumo do porto do cemitrio. Havia pouco, num artigo que noo chegara a publicar nem mesmo a terminar, esboara um paralelo entre o horror 
antigo e o horror moderno. O antigo era o das histrias que a velha Laurinda costumava contar em torno de casas assombradas, cemitrios noturnos, bruxas e almas 
do outro mundo. Era tambm o horror gtico dos contos de Pe, Hoffmann e Villiers de 1"Isle-Adam: o corao humano a pulsar de medo em face da Morte e do Desconhecido. 
O horror moderno era o pavor da Vida e d~o Conhecido, o horror social causado pela violncia e crueldade do homem contra o homem.
Depois da Primeira Guerra Mundial o medo da fome, do desemprego, da misria e o medo do prprio medo haviam preparado o caminho para o Estado Totalitrio. Este por 
sua vez industrializara e racionalizara- o medo a fim de fortalecer-se, sobreviver e ampliar suas conquistas geogrficas e psicolgicas. Com a colaborao da cincia, 
da arte e da literatura convenientemente dirigidas, criara o Honor Moderno, cujos aspectos mais dramticos eram o
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UMA VELA PRO NEGRINHO        597
mito do Estado e do Lder; os ministrios de propaganda: a poli secreta com seus refinados mtodos de tortura: a militarizao infncia e da juventude: os campos 
de concentrao; as tropas assalto: o orgulho racial: a exaltao fantica do nacionalis
- a glorificao da guerra como o esporte dos povos msenl O Estado Totalitrio elevara a delao  categoria de virt cvica. Seu mais monstruoso feito, porm - 
e essa pr ultrapassava o sonho mais alucinante dos alquimistas da guidade - fora o de transformar a pessoa humana nnm nmero, o que tornara possvel encarar o massacre 
de milhes " homens e mulheres como uma simples operao de aritmtica et mentar. O Deus Estado subvertera os Mandamentos: "Denun teu pai e tua me se eles murmurarem 
o que quer que seja contra Estado." - "Matars com alegria sempre que isso for necessn aos interesses do Partido." - "Dars falso testemunho contra t prximo, se 
essa mentira puder ser til  Causa."
O pior de tudo  que o Horror Moderno, sob seus mltiplos sedutores disfarces, exercia poderoso fascnio sobre a juventude: "Deixai vir a ~nim os pequeninos" - dizia 
o Chefe - "que ett os transformarei em robots para servirem o Estado". O Horror Moderno oferecia aos jovens, mquinas e armas vertiginosas e mor tferas. Era um 
belo horror de formas aerodinomicas que lhes proporcionava uniformes, bandeiras, hinos, tambores, clarins, paradas. - um horror organizado, eficiente, metlico, 
mecnico, simtrico rtmico. Preconizava os mtodos e a moral do gangster, glorificav~l a violncia, libertava, enfim, o animal de presa que dorme no fundo de cada 
menino. Oferecia aos moos um Pai na figura do Fhrer, do Duce, do Lder e, se por um lado exigia deles uma disciplina.: de ao e uma obedincia cega, por outro, 
sempre que lhes dava a" oportunidade de usar as mquinas e as armas em competies esportivas, expurgos, pogroms, torturas e expedies punitivas, propiciava-lhes 
como prmio a suprema volpia de se sentirem temidos`
- de se afirmarem por meio da brutalidade e da destruio. Ningum simbolizara melhor os efeitos do Horror Moderno no esprito da juventude do que Vistorio Mussolini 
ao afirmar que .para ele a coisa mais bela do mundo era ver abrirem-se como rosas de fogo as bombas que de seu avio deixava cair em solo africano, reduzindo os 
abissnis a pedaos.
Adulterando a Histria, a Biologia, a Sociologia, a Antrpolo-. gia e a Filosofia, de acordo com os interesses da Causa, o Estado Totalitrio pretendera reduzir 
a sabedoria dos sculos a um punhao de axiomas, frmulas e gritos de guerra que seus jovens robots repetiam com feroz orgulho, contentes por se verem livres da 
dura
-        fastidiosa tarefa de ficarem debruados durante anos e anos sobre
os livros. Abaixo as Universidades! Morte aos cientistas, filsofos
-        artistas cujas obras no sirvam os objetivos do Partido!
Fazia poucos meses que terminara a Segunda Guerra Mundial -
- apogeu do Horror Moderno - e j se podia ver que a desejada paz no passava duma trgua. Falava-se abertamente na Terceira Guerra. No entanto fumegavam ainda os 
fornos de Oswiecim e Birkenau, nos quais haviam sido cremados os cadveres de cinco n;ilhes de seres humanos assassinados e torturados em campos de concentrao 
e prises, onde milhares deles tinham servido como cobaias para as mais cruis experinias pseudocientficas. Em vrios pontos , do globo continuavam , ainda muitos 
desses sinistros campos, onde se amontoavam numa promiscuidade animal homens, mulheres e chanas serra lar, sem ptria e sem esperana.
E agora a todos esses horrores juntara-se o Horror Atmico. No dia 6 de agosto de 1945 nascera para a humanidade um novo deus tremendo: a Bomba. Por entre os escombros 
de Hiroshima vagueava uma populao de fantasmas. Eram os sobreviventes da Exploso: criaturas em cujos corpos a radiao fizera brotar estranhas flores purulentas, 
nas mais horrveis ulceraes: seres humanos irnbecilzados pelo choque, trmulos de febre, os cabelos a carem. as gengivas a sangrarem - chamuscados, deformados, 
esterlzados, medonhos....
O Estado Totalitrio desintegrara a personalidade humana. Os fsicos desintegraram o tomo. Uma terceira guerra desintegraria o mundo. Mas talvez - refletiu Floriano 
- o mundo no passasse dum nmero nos arquivos de Deus.
Parou  porta do jazigo perptuo de sua famlia e espiou para dentro. L estavam, sobre o mrmore do altar. os retratos de alguns de seus antepassados. Aquela gente 
havia conhecido pocas mais tranqilas, mas ele no a invejava: estavam todos mortos. E se tua ressurreio depender de mim, Ton Weber, continuars defunta e esquecida. 
Talvez seja melhor assim ... Descansa em paz.
-        adeus!
Ps-se a assobiar uma frase do andantino do quarteto de Debussy. Pensou no irmo, que detestava Debussy e com ele todos os "msicos reacionrios". Floriano sorria, 
enquanto a voz de Eduardo lhe soava na memria:
"O mal de vocs intelectuais apolticos  no quererem enxergar os dramas da vida real e ficarem a criar personagens e problemas imaginrios. Fazem tudo para fugir 
 realidade, porque no dia em que encarassem de frente e a srio o drama social, seriam obrigados pela prpria conscincia a tomar uma posio de combate,
-        se fizessem isso com honestidade, essa posio s poderia ser a da extrema esquerda, com o comunismo, o que fatalmente os ar-
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UMA VELA PRO NEGRINHO        599
rancaria do comodismo, da criminosa- e covarde indiferena em vivem."
Floriano lembrava-se do apaixonado fervor, to tpico d Cambar, com que Eduardo lhe pregara aquele sermo.
"Para meu gosto, Proust  o mais repelente de todos os fores burgueses. Proust  tpico. Tinha dinheiro e vagares ficar enrolado num xale a reconstituir a infncia 
perdida, os com as titias, os pequenos nadas da vida burguesa, enfim, o universozinho protegido e ridculo em cujo centro estava o euzinho asmtico, egosta e efeminado."
(Antes de descobrir Karl Marx, Eduardo adorava Proust, e fria com que agora procurava arras-lo como escritor e como mem talvez fosse uma prova de que ele ainda 
noo se havia li fado por completo da fascinao que o  la Recherche du T Perdu exercera sobre seu esprito.)
"Na minha opinio, Proust  o padroeiro dos escritores dga como tu, Floriano. E foram esses intelectuais chamados puros, q se compraziam em estreis jogos de idia 
e paradoxos, num cereb lismo doentio que os afastava do povo e da prpria vida, fora esses onanistas da literatura que direta ou indiretamente abriram portas de 
Paris ao ivasor nazista. E est claro que o colaboras nismo era a nica atitude que se podia esperar duma burguesia a drecida como afrancesa, que preferia levar 
pontaps no tr a perder seu rico dinheirinho!"
Floriano continuou a andar. Procurava no levar Ednar muito a srio, mas a verdade  que o rapaz o perturbava, no po que ele temesse acabar convertido  sua ideologia, 
mas porque sem pre ficava impressionado e meio perplexo ante o espetculo da f f no que quer que fosse, em Deus, no espiritismo, em Krishnamu ti, no esperanto, 
em Stalin ou em Antnio Conselheiro.
Entrou no automvel que o esperava do lado de fora.
- Divertiu-se? - sorriu o chofer.
- Muito.
- Pois en noo gosto de entrar em cemitrio. Quem nio visto noo  lembrado.
O carro ps-se em movimento, descendo a encosta da coxilh na direo da cidade. Floriano lanou o olhar para o casario r
e pardacento do Purgatrio, que se estendia ao tpido sol daquel fim de tarde. Ainda l estavam as srdidas malocas com sw popn lao de marginais, bem como nos 
tempos de sw infncia. Na
parecia ter mudado. Santa F tinha agora um aerodube, uma estao de rdio, as ruas centrais pavimentadas de paraleleppedos, mas a misria do Barro Preto, do Purgatrio 
e da Sibria continuava.
- Que ser que vo fazer com o Velho? - perguntou o chofer.
- Que velho?
- O Dr. Getlio.
- Ah! No sei... Talvez deixem o homem em paz em Santos Reis.
- Eles que "noo mexam com o Presidente, porque o povo  capaz de fazer uma revoluo.
Dentro em breve o automvel deixou as poeirentas ruas de terra batida para entrar na zon calada de pedra. O chofer tornou a falar.
- Mas um dia ele volta. Pode demorar um ano, dois, quatro... mas o Velho volta e essa corja toda ainda vai beijar a mo dele.
Ali estava outro caso de f - refletiu Floriano. Inclinou-se para a frente.
- Me deixe na frente do clube.
Poucos minutos depois o carro estacou. Floriano pagou a corrida e apeou. Um homem que estava parado  frente do Comercial, avanou para ele.
- Don Pepe! Ento, como vai essa vida?
- Mal, homem, mui mal. Bamos ,a tomar algo.
Puxou Floriano para dentro do Caf. Minuano.
- Me pagars uma cerveja.
- Com prazer, Don Pepe, com prazer.
- Garon! Eh!, animal! Dws cervejas e dois copos.
Sentaram-se a uma mesa.
- Uma s. Para mim, gua mineral.
O espanhol lanou-lhe um olhar torvo.
- Degenerado!
Floriano sorriu. O castelhano mirava-o agora com tamanha intensidade que ele . comeou a ficar embaraado.
- Por que  que ests me olhando desse jeito?
- ~ sorprendente, menino.
- Que  que  surpreendente?
- Como s parecido com o teu pap 1
- Dizem.
- Dizem nada, coo 1 Don Pepe Garcia, artista plstico, autor do Retrato te assegura que s a imagem viva de teu pap. na tua idade, caramba!
6OO        O RETRATO
UMA VELA PRO NEGRINHO        6O1
Vieram as bebidas. O pintor encheu o copo e tomou um la trago. Depois, lambendo os bigodes, resmungou:
- Mas o parecido  s no fsico, sabes? Te falta al Fogo. O fogo que o Velho tem no olhar. - Bateu no
prio peito. - E fogo ac dentro, ests ouvindo? Pero no t culpado. As generaciones novas no tm fibra. Est tudo podrida. Hoje so feitos de matria plstica 
e tm coca-cola nas veias. )~ maldita influncia yankee. Me cago em Truman!
Floriano sorriu, pensando nos fuzileiros navais americanos q haviam tomado Iwo Jima e plantado sua bandeira no alto do Moa Surabachi.
Ests rindo ... Pensas que me podes comprar elogios co uma cerveja ou duas ou trs? Ests enganado. Don Pepe tem opiT. nio,  dos antigos, sabes? Tem carter. No 
vi ainda teu No quero ver. Mas se me encontrar com ele, vou dizer-lhe r~ cara: Traidor!
Floriano bebeu um gole dgua, sem tirar os olhos do inter
locutor.
- Por qu?
- Porque sim. Fomos trados. Eu e o outro, o Rodrigo d
Retrato.
Tornou a encher o copo e a beber.
- Garon! Outra cerveja. Pagars, Florianito, pagars.
um membro da aristocracia rural decadente. Teus antepassados foram gigols das vacas. Mas os dias de tua classe esto contados Pagars mais uma cerveja p"a este 
velho borracho que tem alma de artista e corpo de bestia.
Ficou a olhar para a porta do caf com uma expresso vazia.
- Me lembro mui bem de quando estava pintando o Retrato Teu pap era um prncipe, um triunfador, o favorito dos deuses, Hoje... puf! Corao escangalhado, Don Getlio 
deposto, o futuro incerto, una mierda! Te pregnnto: que fez ele de sua mocidade? Eh? Est todo perdido, pero no tens culpa, s nm bom muchacho. Salud!
Ergueu o copo. O garon ps sobre a mesa outra garrafa ~ cerve ja.
- He visto Eduardo.
- Sim ?
- Aquele tem fogo nos olhos, no peito, como Don Rodrigo. Aquele  um homem inteiro. Pero  um stalinista, el imbcil! Nosotros los anarquistas no toleramos o comunismo. 
Te acordas do que fizeram os comunistas a los anarquistas em Barcelona durante a guerra civil? Atiraram contra nosotros, los traidores! Pero Eduardo  um muchacho 
de coragem. Tiene caracu. Salud!
Tornou a erguer o copo e a beber. Ficou depois com os coto
velos fincados na mesa, as mos segurando as faces, e uma ternura alcolica nos olhos lacrimejantes e avermelhados.
Floriano chamou o garon, pagou a despesa e ergueu-se.
- Vais me dar licena, Don Pepe...
- No queres ser visto numa mesa de caf com o bomio, o borracho, o anarquista, o renegado, no?
- No  isso. Tenho de voltar para casa.. .
- Est bem. Vai. Mas m"empresta cincoenta.
Floriano deu-lhe o dinheiro.
- Um dia te farei o Retrato, sabes? Segunda edio de Rodrigo Cambar, verso moderna. Te pintarei em aquarela porque no tienes sangre nas veias, mas gua mineral. 
Tu e toda tua ger.eracin, menos Eduardo. Pero esse chico  um idiota, sgue aquele perro de Stalin .. .
- Est bem. At logo!
Apertou a mo do espanhol e se foi. J na calada ainda ouviu a voz do outro: Salud!
Sentou-se num banco da praa debaixo da figueira, e ficou olhando para o Sobrado. A idia de voltar para casa no lhe era nada tranqilizadora. Desde que chegara, 
sentia l dentro uma atmosfera equvoca, feita de temores e ressentimentos mal difarados, de antagonismos que a qualquer minuto podiam explodir em conflitos. Aquela 
inesperada reunio de famlia, precipitada pela queda de Getlio Vargas, s servia para provar o de que havia muito ele, Floriano, desconfiava: o Rio em quinze anos 
havia desintegrado Ocl dos Cambars e tudo indicava que Santa F no conseguiria uni-lo outra vez.
A situao fascinava o contador de histrias que havia em Floriano, mas como homem e personagem daquela comdia de erros, ele no podia deixar de sentir uma certa 
inquietao e um desconcertante mal-estar.
Seu pai l estava no quarto, estendido numa cama, convalescendo da terceira crise de infarto, proibido de fumar e fazer qualquer excesso - ele, o homem dos excessos! 
- imobilizado num repuso de esttua. Floriano sabia o que isso significava para uma criatura apaixonada e turbulenta como Rodrigo Cambar. Anda aquela manh o 
velho lhe dissera com uma falsa resignao: "Sou como um homem irremediavelmente preso dentro duma casa em cujo poro algum deixou uma bomba de relgio para explodir 
numa certa hora ... Ele no sabe quando vai se dar a exploso, se dali a dois minutos, dois dias, dois meses ou dois anos. S sabe que est condenado." E, cm nm 
sorriso tristonho, acrescen-
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UMA VELA PRO NEGRIN~O
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tara: "Acho que vou ser o primeiro Cambar macho a morrer ~~ cama."
Raramente, porm, se entregava a essa veia melanclica. Sen estado de esprito mais comum era o duma exasperada impacinci. Queria fumar, comer mais, beber vinho, 
deixar a cama ... Havia momentos em que sua irritao era tamanha, que, para desabafar, punha-se a murmurar nomes feios numa surdina explosiva. Oa horrores: que 
dizia dos militares que haviam obrigado Vargas a deixar o governo! Sua raiva parecia concentrar-se principalmente no Gen. Rubim Veloso. "Canalha! Traidor! Fascista!" 
- exclamara o velho certa manh, enquanto o Neco Rosa lhe fazia a barba - "Ainda na vspera do golpe jantou comigo e no me disse nada Tu te lembras da bisca do 
Rubim, no, Neco? Vivia aqui no So brado nos seus tempos de tenente.. Pois o Getlio fez por esse sargnto mal-agradecido o que muito pai no faz pelo filho, e 
n entanto o crpula cuspiu na mo que o amparou! Quando os nazistas estavam ganhando a guerra, o Rubim volta e meia ia beber usque e champanha na embaixada alem. 
Recebeu uma comenda do Mussolini e vivia conspirando com o Plnio Salgado. No entanto, quando a sorte do Hitler mudou, o cachorro virou democrata e s faltou lamber 
as botinas do Roosevelt!"
O Dr. Dante Camerino entrara certa vez no quarto por ocasio duma dessas exploses. "Fique quieto pelo amor de Deus. Olhe que assim vamos para um novo ataque." O 
velho soergueu-se: "Que me importa? Que arrebente duma vez ste corao. O que en quero  fumar um cigarro e levantar desta maldita cama!"
As relaes de Rodrigo Cambar com o fi ho mais moo andavam tensas. O terceiro ataque sobreviera aps uma altercao que ele tivera com Eduardo ao discutirem as 
personalidades de Vargas e Prestes. Floriano ficara. abismado ante a frieza com que o irmo encarara o fato. O pai ainda no estava fora de perigo de vida e o rapaz 
j andava na rua a ultimar os preparativos para o comcio comunista do dia seguinte. Floriano chamara-o  parte.
- Por que no esperas mais uns dois ou trs dias pra fazer esse comcio? O velho no est nada bem...
- Uma coisa nada tem a ver com a outra.
- Para mim tem.
- )r que raciocinas ainda sob a influncia dum sentimentalismo pequeno-burgus do qual h muito me libertei.
- Faz ao menos esse comcio na outra praa .. .
- Vai ser na frente do Sobrado, e com alto-falante. Se o velho no quiser escutar, que tape os ouvidos com algodo.
Eduardo entregava-se  luta poltica com a mesma paixo, o mesmo mpeto agressivo com que o pai se metera em todas as suas campanhas eleitorais e revolues. Tinha 
o zelo exagerado e o
ardor incendirio dum cristo novo. Floriano compreendia que o irmo precisava dar aos seus camaradas provs de sinceridade e firmeza partidrias, pois sua situae 
de filho dum burgus latifundirio como que lhe criara um complexo de inferioridade perante os outros comunistas.
Como era possvel que trs irmos tivessem temperamentos to diferentes? Jango era o homem da terra, conservador, tradicionalista, apegado a seus bens. `Pinha um 
sagrado horror a tudo quanto cheirasse a esquerdismo. 1~nquanto Eduardo agitava o problema agrrio, pregando a diviso das terras entre os camponeses e a liquidao 
do latifndio, Jango tratava no s de conservar o que possua como tambm de adqurir mais campos e mais gado. Era um homem simples e bom, mas duma secura destituda 
de qualquer encanto ou pitoresco. No lhe entrava na cabea a idia de que os tempos haviam mudado e de que a sociedade estava em processo de transformao. Queria 
a continuao do stato quo dentro do qual fora educado e que era to conveniente a seus interesses e afeies.
Floriano inclinou o busto para a frente e, com a ponta dum pau de fsforo, riscou no cho uma circunferencia.
Se Eduardo, Jango e ele fossem dar como nufragos s praias duma ilha deserta, em companhia dum punhado de outras criaturas, era .bem possvel que Jango dentro efi 
breve fosse eleito chefe da colnia. Homem slido e prtico, tinha o hbito do mando, sabia lidar com a terra e fazer coisas cbm as mos; conhecia os ventos, as 
rvores, os bichos e as gentes, Dentro em pouco seria o membro mais rico da colnia, o que teria a melhor casa, a mesa mais farta, o maior nmero de bens mveis 
e imveis. Quanto a Eduardo, no tardaria multo em organizar um partido de oposio, e era provvel que acabasse encabeando um movimento revolucionrio para tomar 
o governo pela fora e estabelecer uma ditadura em nome do proletariado.
E eu? (Sempre inclinado, Floriano agora traava no cho Omapa da ilha.) Eu talvez permanecesse na minha famosa eqi
distncia, a escrever a biografia dos dois lderes e a crnica da ilha.
Isso se Eduardo ao tomar o poder no me botasse na cadeia ou
mandasse matar, coisa que o prprio Jango j poderia ter feito
antes por "mios legais", caso meus escritos entrassem em conflito
com os "superiores interesses da comunidade", que ele naturalmen
te identificaria com os seus prprias.
Sim, aquele era o destino dos intelectuais que queriam con
servar a independncia, a lucidez e o senso de humor. Eram eter
nos marginais, olhados com desconfiana e desamor pelos reacio
nrios e com desdenhosa m vontade pelos revolucionrios.
Mas, no final de contas, que sou eu? Aos trinta e quatro
#6O4        O RETRATO

anos ainda no encontrara uma resposta satisfatria para cada pergunta. Como o velho Babalo, seu av materno, Jango tinha ntida tbua de valores morais: acreditava 
na nobreza do trabalho, na hierarquia, no cdigo de honra gacho, e na dignifiao do homem pelo convvio com a terra. Jamais seria capaz de fazer a menor restrio 
 pessoa. do pai. Parecia aceit-lo integralmente, sem discutir, como aceitava a existncia e a perfeio de Deus. Talvez nunca lhe passasse pela mente a idia de 
que o pai
-        Deus fossem entidades suscetveis de exame crtico. Mas Eduardo em quem Maria Valria desde pequenino procurara incutir o amor
- o temor da Santssima Trindade, acabara desiludindo-se dos mitos cristos e substituindo-os por uma outra trindade, para ele no menos santa: Marx, Lenine e Stalin. 
E em nome dessas divindades ele se atirava  luta e estava disposto a matar e a morrer.
Com a sola do sapato Floriano apagou a ilha.
s vezes invejava a capacidade de paixo do pai. Certo ou errado, o Velho vivera com plenitude, tivera a coragem dos prprios defeitos e desejos: fora um homem afirmado, 
ao passo que ele, Floriano, sempre se mantivera numa espcie de morna surdina, cultivando suas pequenas ternuras, escravo daquele desejo de ver claro, de conservar 
a lucidez - uma lucidez que no s lhe criava
- horror ao ridculo, ao excesso e ao absurdo como tambm o fazia compreender que ningum pode viver com plenitude e profundidade sem incorrer no ridculo (coisa, 
alis, to relativa e discutvel) sem cometer excessos ou ver-se a cada passo frente a frente com o absurdo. Fizera tbua rasa dos valores que sempre haviam norteado 
a vida de gente como Babalo, Licurgo e Maria Valria. Seu horror a qualquer espcie de fanatismo no o livrara, entretanto do fanatismo da liberdade. E o desejo 
de permanecer fsica e espiritualmente livre, a fruir com orgulhosa volpia sua solido, acabara por transform-lo quase num fugitivo da vida e por faz-lo prisioneiro 
da prpria idia de liberdade. Compreendia agora qne o preo do equilbrio  a monotonia. A preocupao de no se deixar envolver pelas pessoas, pelos problemas 
e pelas paixes havia-o levado a uma espcie de quietismo que no fundo no passava da contemplao intil e palerma do prprio umbigo.
Claro que estava exagerado? A~ coisas com ele no eram sempre assim. A verdade  que no acreditava nem mesmo na prpria descrena.
Tornou a plhar para o Sobrado, a uma de cujas janelas surgia agora um vulto. Bibi ... Esquecera-se por completo da irm. Era uma omisso que ocorria com freqncia 
quando ele fazia aqueles inventrios mentais da famlia. No tinha nenhuma afinidade espiritual com a irm. No Rio raramente se viam, e quando se encontravam eram 
como pessoas que entretinham apenas relaes de
J
UMA VELA PRO NEGRINHO        6O5

cerimnia : falavam-se sem naturalidade, com a polidez apressada de quem quer logo dizer adens e passar adiante.
Bibi era outro caso - refletia Floriano. Fora para o Rio com dez anos e tivera sua educao sentimental a bem dizer sobre as areias de Copacabana. Fizera-se adolescente 
e finalmente mulher dentro da Era Getuliaria. Casara-se aos dezoito anos om nm mdico de Minas Gerais,. sujeito quieto, decente e estudioso, do qual se aborrecra 
e divorciara dentro de dois ans, para se jantar num casamento uruguaio com nm tal Marcos Sandoval, verdadeira flor do Estado Novo, produto daquela fabulosa poca 
de boom, negcios e negociatas fantsticas, daquela era trepidante que mdara u curso da vida brasileira, dando-lhe um novo padrq moral e1nm novo ritmo. Mas como 
era possvel no gostar do Sandoval? Embor lhe fizesse muitas restries no terreno "moral (aginal de contas o sangue dos Terras e dos Quadros tinha ~ muita foi~a) 
Floriano noo podia permanecer insensvel aos encantos do "ranhado". Marcos Sandoval estava no meio da casa dos trynta, En moreno, de estatura me e .atltica (tnis: 
volibol, jia-jitsn). Simptico, simpaticssimd, tinha uma voz agradvel, de entna~o carinhosa. "Meu bem, voc est com nm aspecto admirvel !" - "Que  feito de 
voc, meu querido? Ento no quer mais saber dos amigos?" E l vinham os abraos, e os favores, e as pequenas atenes, os telefonemas oportunos ("Ento, estamos 
completando rais um aniversrio, hein, meu velho? Pois fica aqui o meu abrao.
- conte sempre com este seu admirador ") e as flores pau madame, os convites para jantar nos cassinos ... Era prestimoso, otimista. bem relacionado. Vivaracho, apanhav 
as-cosas no ar e tinha uma espantosa capacidade de improvisao. Sabia qne relaes caltiva[~
- jamais gastva dinheiro, energia_ ora tempo com" quem n` lhe pudesse ser til no momento ou no futno. Um dia., como ~algum o censurasse= por ter servido d 
intermedirio num negcio duvidoso, respondera com um cinismo encantador: "Ora, velhote, a tcnica  simples. Criam-s legalmente: as dificuldades para depois sr 
venderem clandestinamente as facilidade." "
Sandoval estava agora no~ Sobrado, desnortead tambm pela inesperada deposio de Getlio Vargas, e decerto a preparar sua adeso ao novo governo, ansioso j por 
descobrir quem eram os novos deuses, a fim de apressar-se a queimar incenso em seus altares.
Como seria conveniente ao Sandoval! - pensava Floriano - a morte de Rodrigo Cambar! Perderia algum tempo ali em Santa F a acompanhar o andamento do inventrio, 
exigiria a parte de Bibi em dinheiro e voltaria com ela para o Rio, para a vida qne ambos tanto adoravam: cocktails porfies, noitadas noa cassinos, ro-
6O6        O RETRATO

das de pif-paf, fins de semana na Qnitandinha viagens ocasionais aos Estados Unidos em susto-clippers-
Essa era a situao no Sobrado. E em mei de tantos interesses desencontrados e conflitos em estado potenial, estavam agorar aquelas duas mulheres que Floriano tanto 
ama8 e respeitava: sua me e Maria Valria. A primeira portava-se om uma dignidade comovedora. No tinha iluses quanto ao mrido, conhecia-lhe todas as fraquezas 
e pecados, tanto os passadoscomo os presentes, e no ignorava nem mesmo a existncia daqui amante de vintt anos... Floriano, porm jamais lhe ouvira a menor palavra 
de queixa ou censura. Quanto a Maria Valria, Ucida aos oitenta c cinco anos, apesar de seu ar de alheamento das pessoas e das coisas, parecia compreender muito 
bem o que se estavapassando no velho casaro. Havia pouco, Floriano ouvira a Dind murmurar: "Qu bicho ter mordido essa gente? Est tudo rto squisito ... "
Jango estava para chegar do Angico em companhia da esposa. E ao pensar na cunhada, Floriano ficou numaconfuso de sentimentos: o temor e ao mesmo tempo o desejo 
d rev-la, a curiosiJade sobre o que poderia resultar daquele encoaro, e o horror de imaginar que... Bom, era melhor nerri pensar ~qulo. Fosse como fosse, a presena 
de Slvia naquela casa no ia :ornar a coisa mais fcil para ele.
Com um encolher de ombros, ergueu-se e ps-se a caminhar lentamente na direo do Sobrado.
Eram quase dez horas da noite e o comio estava a findar. Sentado junto duma janela, Floriano escutava c discurso do irmo, cuja voz, que tanto se assemelhava  
do pai n~ timbre e na entonao, era ampliada e deformada pele alto-fal<nte que se achava preso a um dos galhos mais altos da figueira.
Uma pequena multido, que Floriano calcdava em duzentas e poucas pessoas, agrupava-se no redondel da praa, em cujo centro estava a tribuna que tinha sido ocupada 
primei"o por um operrio e a seguir por um bancrio, um comercirio e ~m advogado, cujos discursos haviam seguido todos a mesma linha: xaltao de Prestes, do P. 
C. Brasileir, de Stalin e da Unio Sovitica; ataques a Getlio Vargas e ao mesmo tempo aos generais qie o haviam apeado do governo; acenos amistosos para ~ "burgtisia 
progressista" e gestos ameaadores, de punhos cerrados, para a Wall Street.
A voz vibrante de Eduardo Cambar encha o largo. Comeara seu discurso fazendo um rpido iesboo da formao histria do Rio Grande do Sul  luz do matrismo, ~ocurando 
revelar a
UMA VELA PRO NEGRINHO        6O7
origem dos latifndios e a do proletariado rural e urbano. Agora estava a bater com vigor na sua tecla favorita
- Setenta por cento de nossa populao vive no campo, num nvel de vida miservel! Precisamos resolver com urgncia o problema agrrio. 1; sobre isso que deve legislar 
o Parlamento que vai ser escolhido nas prximas eleies. 1Vjas para que esse Parlamento legisle com justia e conhecimento de causa,  indispensvel que ele seja 
composto no apenas de delegados dos estancieiros e latifundirios, como tem acontecido at aggra, mas tambm e principalmente de representantes do peo, do operrio, 
do comercirio, das verdadeiras expresses do povo! Precisamos destruir o cruel e vergonhoso regime semifeudal que nos desgraa e que permite a um homem, a uma famlia, 
possuir terras imensas do tamanho de reinos, terras que em pouco ou nada aproveitam  coletividade, e nas quais se emprega nm escasso nmero de pees irrisoriamente 
mal pagos. Como muito bem disse Luiz Carlos Prestes . ~. .
Neste ponto Oorador foi interrompido pela multido, que comeou a gritar num unssimo cadenciado: Pres-tes! Pres-tes! Prestes!
Quando o clamor cessou, Eduardo prosseguiu:
- Como bem disse o lder do povo, temos terras e mais terras abandonadas junto das vias de comutcao, perto das estradas, dos meios de escoamento duma produo 
que poderia sair a mos cheias dessas mesmas terras! E no dia em que essa gleba for entregue ao povo, veremos aumentar fabulosamente nosso mercado interno, para 
maior progresso da nossa indstria!
De novo Oorador foi interrompido por aplausos e adamaes.
Floriano olhou a praa. Pelas caladas passeavam bandos de raparigas, como nas noites de retreta. A alguma distncia do redondel, de p ou sentados nos bancos, curiosos 
espiavam o comcio, numa atitude de cautelosa neutralidade. E no cu de Santa F estavam presentes as mesmas estrelas que cintilavam naquela remota noite de 23 em 
que, da sacada do Sobrado, Rodrigo Cambar falara a seus correligionrios, concitando-os  revoluo.
- Mas noo  s o panorama social do campo como tambm o da cidade que nos preocupa a ns Comunistas - continuou Eduardo. - Os tubares da indstria e do comrcio 
engordaram durante a Guerra com lucros extraordinrios, mas nem por isso pro
porcionaram vida melhor aos operrios e empregados que contri
buram com seu trabalho, com o seu suor para esse enriquecimento!
A misria e a desigualdade continuom. No precisamos ir muito
longe para encontrar exemplos desse desnvel social monstruoso.
Comparemos a vida dos que gozafi o luxo e os privilgios dos
sobrados com a daqueles que .vegetam na indigncia das malocas
da Sibria!
#6O8        O RETRATO

Novas aclamaes encheram o largo.
- Mas a burguesia reacionria, meus compatriotas e camaradas est condenada  morte! Se eu tivesse de escolher um smbolo de todos os defeitco e vcios dessa classe 
decadente, eu vos apresentaria a 6gan dum desses pr-homens do falecido Estado NoQo, dum egosta qne, em virtude de soa vida de dissipaes, orgias e indulgncias 
tivesse ficado com o corao irremediavelmente abalado e  bein da morte!
Floriano sertin nm choque desagradvel. Aquilo era uma referncia dar ao velho Rodrigo. Como podia Eduardo ficar to cego de paixo poltica a ponto de gritar aquelas 
coisas em praa pblin? E o pior en que com toda a certeza o pai estava a escut-lo.. .
- Ns os comunistas - gritava o orador - somos o sangue novo qne vai revigorar o toro do Brasl, fazendo que ele se fortalea e pulse normalmente, levando Oorganismo 
da nao a uma perfeita sade social. A vs liberais, democratas e progressistas, ns os comunistas estendemos fraternalmente a mo convidando-vos a colaborar conosco 
na grande obra da recuperao de nossos marginais e da libertao do Brasil das garras dos banqueiros intFrnacionais e do capital estrangeiro colonizador. Vinde 
e marchai conosco, porque ns somos a esperana do mundo!
Por entre palmas frenticas, de novo romper o coro. Pres-tes 1 Pres-tes! Pres-tes! Pres-tes!
Quando, ponto depois das onze. Eduardo voltou para casa, Floriano esperava-o na sala de visitas.
- Ouvi o teu discurso.
- Ah... sim?
Eduardo parecem ponto interessado na informao. Afrouxou o n da gravata, sentou-se e acendeu um cigarro.
- Assisti ao comcio sentado ali perto da janela . .
- lE uma posio que bem simboliza tua atitude diante dos problemas sociais. Sentado  janela do Sobrado, com a cabea para for e o corpo para dentro... Com a cabea, 
com  inteligncia compreendes que o sistema econmico e poltico em que vivemos  emdo, est pore e deve ser destrudo. Mas com o corpo ests escravizado aos confortos 
e molezas da vida burguesa, cujos hbitos e vas tens no sangre, nos ossos. Teu comodismo te impede de r pau a praa pblica como um soldado da Revoluo.
Floriano ergueu-se, enfiou as mos nos bolsos e comeou a andar dum lado pau outro, assobiando baixinho um trecho de Mozart.
UMA VELA PRO NEGRINHO        6O9

- Mas uma coisa te garanto - continuou o outro. Os burgueses te olham com desconfiana por causa de teus namoros com o socialismo. Os comunistas te desprezam por 
acharem absurda e covarde a tua neutralidade.
Floriano soltou uma risada. Eduardo lanou-lhe um olhar carregado de censura.
- Ests rindo, no? r a velha atitude do intelectual blas e cnico. ?r Prspero rindo da vitria de Caliban. Vocs riam quando Hitler ameaava o mundo. Riam e 
ficavam indiferentes. Pois os escritores que cruzaram os braos diante do nazismo so to culpados quanto os que colaboraram abertamente com ele!
Floriano deu de ombros.
- Pelo menos eu tenho a liberdade de rir ou ficar srio - retrucou. - Conservo o direito de exercer o meu senso de humor. Um comunista noo pode achar graa em coisa 
alguma sem antes indagar qual  a linha do Partido. No tem licena de gostar ou no gostar dum partido, dum livro, dum quadro, duma sinfonia sem primeiro consultar 
o Comissrio.
- No digas asneiras. Vocs escritores pequeno-burgueses iludem-se, julgando que tm liberdade, mas a verdade  que so pagos para divertir a plutocracia, como palhaos, 
e para entorpecer o povo com o pio duma literatura cor-de-rosa, sem razes na realidade.
- Palhaos? Talvez. Mas que sero os escritores que seguem sem discutir a linha comunista? Na minha opinio no passam de outros tantos cachorros de Pavlov. O Comissrio 
faz estalar o chicote e provoca neles certos reflexos condicionados que os pem a escrever automaticamente, produzindo a literatura que convm ao Partido.
- Dizes ter horror a qualquer propaganda e no entanto s o primeiro a acreditar nas mentiras da imprensa capitalista e nos depoimentos desses Koestlers e Kravchenkos 
.. .
E Eduardo entrou afalar mal de Arthur Koestler e dos outros "comunistas renegados". Floriano quedou-se a escut-lo sem o menor- rancor. Tinha uma ternura toda particular 
por aquele irmo mais moo, e se essa afeio noo se exprimia em gestos e palavras era s porque o outro por assim dizer recusava deixar-se querer bem. Depois que 
ele  se tornara de paixo pelo comunismo, Floriano fora aos poucos perdendo a esperana de poderem reatar a boa camaradagem antiga que lhes permitia conversarem 
despreocupadamente, 
dum ngulo apoltico, sobre pessoas, animais e coisas.. . Agora sempre que se encontravam, Eduardo parecia sentir que era seu dever provoc-lo e pregar-lhe sermes 
polticos. E o resultado disso eram geralmente dilogos que soavam falso como os duma pea teatral pretensiosa.
#61O        O RETRATO

- Est bem, Eduardo, est bem. Mas achei que tua referncia ao velho no discurso foi dum mau gosto deplorvel.
- Mau gosto, bom-gosto... Isso  terminologia burguesa)
Eduardo voltou-se para o Retrato de Rodrigo Cambar que pendia da parede da sala, dentro de sua moldura cor de ouro velho.
- Ali est o smbolo das coisas que ns comunistas combatemos. O dono da vida, o moo do Sobrado, o morgado, a flor de vrias geraes de senhores feudais, muitos 
dos quais comearam como ladres de gado e foram aumentando seu patrimnio por meio do saque, do roubo, da conquista  mo armada e  custa do suor e do sangue do 
trabalhador rural. Olha s a empfia, a vaidade... Parece que ele est dizendo: "Eu sou o centro do mundo, o sal da terra!"
- Fala baixo, sim? O Velho pode estar ouvindo...
O outro, entretanto, continuou no mesmo tom de voz.
- No tempo em que esse retrato foi pintado, a questo social era um caso de caridade, pretexto para os senhores morgados darem provas de sua magnanimidade, de seu 
excelente corao. Mais tarde passou a ser um caso de polcia.
Floriano agora sorria, vendo apontar  cintura de Eduardo, o cabo do punhal de prata que, segundo rezava uma tradio oral, acompanhava, havia mais de um sculo, 
a famlia Terra, tendo pertencido mais recentemente ao velho Florncio e passando depois para as mos inquietas de tio Torbio. No fundo - refletiu Floriano - Eduardo 
tinha um pouco de caudilho, como o pai.
- Eis um liberal  melhor maneira do sculo xIx - prosseguiu o comunista, olhando ainda para o Retrato. - Dizia acreditar na democracia, adorava os lderes da revoluo 
francesa e sabia de cor discursos de Danton e Robespierre .. .
- Fala baixo, homem!
- Fez demagogia, meteu-se em revolues em nome dos oprimidos contra a tirania, a ditadura e a desonestidade administrativa. Um dia saiu de Santa F com um punhado 
de outros "centauros do pampa" decidido a regenerar a Repblica. Amarrou seu cavalo no obelisco da Avenida Rio Branco e tornou-se um figuro do~ Estado Novo .. .
No fim de contas - filosofava Floriano olhando para o irmo - o povo andava sempre em busca dum Pai. No Brasil imperial, Pedro II, barbudo e bondoso, preenchera 
suas funes paternais  maravilha. O Estado Novo produzira o Pai dos Pobres. Na Rssia czarista o povo chamava Paizinho a Nicolau II, que os bolchevistas acabaram 
depondo e fuzilando. No fundo, o comunismo talvez no passasse duma revolta contra o Pai. Joozinho e Ritinha rebelavam-se contra o pai que, sem meios para prover-lhes 
a subsistncia, os abandonara  fome e s feras em meio da flo
UMA VELA PRO NEGRINHO        611

resta. Mas a busca do pai assim mesmo continuava. Stalin era agora considerado o Pai do Proletariado. E em nome daquele pai georgiano, simblico e remoto, Eduardo 
renegava o pai legtimo.
- No sejas to esquemtico - disse Floriano em voz alta. - Vocs comunistas querem saltar impunemente por cima da biologia. Na minha opinio esse  tambm o erro 
do catolicismo. Segundo a Igreja, o Dr. Rodrigo Cambar est condenado ao inferno porque pecou contra os Mandamentos. De acordo com o marxismo, o Velho est desgraado 
porque pecou contra o proletariado. Mas eu me recuso a aceitar esses veredictos, tanto o de Roma como o de Moscou.
- Essa indulgncia irresponsvel de intelectuais como tu  que tem atrasado a Revoluo.
Naquele instante Maria Valria apareceu  porta da sala empunhando um castial. A Dinda entrou na Era Atmica com uma vela acesa na mo - sorriu Floriano.
- Suba, Eduardo - ordenou a velha. - Seu pa quer falar com voc.
- Por favor, tem cuidado, noo excites o Velho. Olha que ele pode ter outro ataque .. .
Sem dizer palavra Eduardo encaminhou-se para a escada. Maria Valria fez um sinal para Floriano.
- Vamos l no quintal.
- Fazer o que, Dinda?
Ela noo respondeu. Tomou do brao do afilhado e, lado a lado atravessaram a sala de jantar e a cozinha. Quando desciam vagarosamente a escada dos fundos, Floriano 
perguntou:
- .O sereno noo va lhe fazer mal?
Maria Valria continuou silenciosa. A chama da vela alumiava-lhe o rosto severo e descarnado, de olhos cegados pela catarata. O luar prateava as copas do arvoredo. 
Da Estrela-d"Alva vinha um cheiro de po quente.
Fizeram alto perto. do marmeleiro-da-ndia. Maria Valria tirou o toco de vela do castial, inclinou-se e cravou-o no cho.
- Pra que  isso? - perguntou Floriano.
- Uma promessa pro Negrinho do Pastoreio.
A velha endireitou o corpo e fez com a cabea um sinal na direo do Sobrado.
- Ir pr"aquela gente achar o que perdeu.
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